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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042On-line version ISSN 1678-7064

Quím. Nova vol.31 no.2 São Paulo  2008

https://doi.org/10.1590/S0100-40422008000200014 

ARTIGO

 

Avaliação da concentração de retinol em leite UHT ("Ultra High Temperature") comercializado em Natal, Rio Grande do Norte

 

Evaluation of the retinol concentration in UHT milk commercialized in Natal, RN

 

 

Fernanda Barros Soares; Juliana Morais de Sousa; Roberto Dimenstein*

Departamento de Bioquímica, Centro de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Av. Senador Salgado Filho, 3000, 59072-970 Natal – RN, Brasil

 

 


ABSTRACT

Deficiency of micronutrients is a public health problem. Cow milk is a source of retinol. The objective of this study is to evaluate the retinol concentration in milk commercialized in Natal/RN. Ten samples were taken of each brand of UHT milk. Vitamin content was determined by HPLC using the Shimadzu LC-10 AD Chromatograph, coupled to the Shimadzu SPD 10 A UV-VIS Detector and the Shimadzu C-R6A Chromatopac Integrator with Shim-pack CLC-ODS (M) column, measuring 4.6 mm x 25 cm. The mobile phase was 100% methanol, with a flow of 1 mL/min. The mean retinol concentration varied between 22.7 ± 4.9 µg/100 mL and 44.1 ± 4.1 µg/100 mL, with the differences statistically significant (p<0.001). Only one of the 7 brands had retinol concentration below the normal requirements for human consumption.

Keywords: milk; cow; retinol.


 

 

INTRODUÇÃO

A deficiência de micronutrientes é considerada hoje um dos problemas de saúde pública de maior relevância, podendo ser resolvida através da educação alimentar, diversificação alimentar, enriquecimento de alimentos ou suplementação alimentar1. A hipovitaminose A é a principal causa de cegueira permanente acompanhada de morte entre crianças de países em desenvolvimento, contribuindo também para o aumento significativo dos índices de morbidade e mortalidade infantil associada a processos infecciosos2.

A vitamina A é um micronutriente essencial nos processos como crescimento, diferenciação e manutenção da integridade epitelial3. Dimenstein4, com base em diversos autores, ressaltou que esta vitamina está envolvida em vários processos de importância biológica, como a reprodução, o ciclo visual e a diferenciação celular, que por sua vez afetam processos fisiológicos como o crescimento, o desenvolvimento fetal e a integridade do sistema imunológico. Esta vitamina lipossolúvel é encontrada na natureza na forma livre ou esterificada e encontra-se nos alimentos de origem animal em áreas de armazenamento como o fígado ou associada à gordura do leite1,5.

O leite constitui um alimento básico na alimentação humana especialmente para crianças, contribuindo com os nutrientes que estas requerem de maneira essencial para seu crescimento e desenvolvimento6,7. O leite de vaca é um dos alimentos considerados fonte de vitamina A, sendo muito apreciado e acessível à população, além de ser rico em proteínas e outros nutrientes8. Este tipo de leite sofre processamentos como pasteurização ou esterilização e, posteriormente, são embalados em recipientes para serem comercializados.

O leite UHT ("Ultra High Temperature") ou UAT (Ultra Alta Temperatura) é o leite homogeneizado submetido à temperatura de 130 a 150 ºC por 2 a 4 s, mediante processo térmico de fluxo contínuo, imediatamente resfriado a temperatura inferior a 32 ºC e envasado sob condições assépticas em embalagens estéreis e hermeticamente fechadas9.

De acordo com a "Dietary Reference Intakes (DRIs)" de 200110, a ingestão recomendada de vitamina A para crianças de zero a 6 meses de idade é de 400 µg diariamente, no entanto concentrações < 30 µg/dL são consideradas como indicativas de baixa concentração de retinol no leite11.

Existem poucos trabalhos que avaliem o retinol no leite e sua relação com a nutrição humana. No Brasil pode-se citar o trabalho de Bianchini e Penteado12, Flores e Abreu13 na Venezuela e Hulshof et al.14 na Holanda. Outros trabalhos focam mais a importância do retinol para o próprio animal15 ou a distribuição do retinol nos glóbulos de gordura16. Com isso, o objetivo deste trabalho foi avaliar a concentração de retinol em leite de vaca integral UHT comercializado em Natal/RN.

 

PARTE EXPERIMENTAL

As marcas utilizadas neste trabalho foram adquiridas através de seleção aleatória, em supermercados da cidade de Natal/RN. Foram analisadas 7 marcas de leite integral esterilizado (longa vida) em recipiente de 1 L, sendo um lote de cada marca e todas dentro do prazo de validade, tomando-se o cuidado de evitar amostras com prazo superior a 30 dias da data inicial de validade. De cada recipiente foram retiradas dez alíquotas, cada qual contendo 1 mL de leite. A extração foi realizada segundo Giuliano et al.17, modificada, como descrito a seguir. Após quantificar o volume de leite coletado foram acrescentados nas amostras hidróxido de potássio 50% v/v (Vetec) e álcool etílico 95% (Vetec), para a etapa de hidrólise alcalina. A proporção destes reagentes foi para cada 1 mL de leite foram adicionados 2 mL de KOH 50% e 1 mL de álcool etílico 95%. Em seguida, as amostras foram homogeneizadas durante 1 min e submetidas ao banho-maria sob agitação a 45 ºC por 2 h. Utilizou-se como reagente extrativo 2 mL de hexano (Merck), repetindo-se o processo três vezes. Após cada adição de hexano, as amostras foram agitadas durante 1 min, centrifugadas a 4000 rpm por 10 min e a camada hexânica removida para outro tubo. O extrato hexânico foi evaporado sob atmosfera de nitrogênio, em banho-maria a 37 ºC.

Para a análise bioquímica do retinol, o extrato seco foi suspenso em 1000 µL de metanol (Vetec) em grau de pureza para cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE). A concentração de retinol das amostras foi determinada por CLAE em cromatógrafo LC-10 AD Shimadzu, acoplado a um detector SPD-10 A Shimadzu UV-VIS e integrador chromatopac C-R6A Shimadzu com uma coluna LC Shim-pack CLC-ODS (M) 4,6 mm x 25 cm. O cromatograma evoluiu nas seguintes condições: fase móvel metanol 100% e fluxo 1,0 mL/min. A identificação e quantificação do retinol nas amostras foram estabelecidas por comparação com o tempo de retenção e a área do respectivo padrão. A concentração do padrão foi confirmada pelo coeficiente de extinção específico (e1%, 1 cm = 1780) em etanol absoluto e comprimento de onda de 325nm 18.

Os valores de retinol foram expressos como média ± desvio padrão. Para análise estatística utilizou-se o teste de ANOVA e para a diferença entre as médias individuais o teste de Tukey. Foi adotado nível de significância menor que 5% (p<0,05).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As concentrações médias de retinol nas amostras de leite UHT das marcas A, B, C, D, E, F e G foram, respectivamente, em µg/dL, 32,5 ± 4,4; 22,7 ± 4,9; 30,3 ± 1,9; 44,1 ± 4,1; 31,7 ± 4,6; 34,7 ± 3,7 e 30,3 ± 2,2 (Figura 1). As médias B (p<0,001) e D (p<0,0001) foram estatisticamente diferentes das demais, enquanto as outras cinco não foram estatisticamente diferentes entre si (p>0,05).

 

 

Estudos que demonstrem a concentração de retinol em leites integrais esterilizados são escassos, no entanto, tabelas de composição nutricional afirmam que a concentração desta vitamina no leite de vaca integral é de 21 µg/dL19, já outra fonte afirma que a concentração é de 31 Retinol Equivalente/dL (31 µg/dL) 20, enquanto a tabela americana assegura uma concentração de 28 µg/dL21.

De acordo com Pereda22 a concentração normal de retinol no leite bovino é de aproximadamente 40 µg/dL. Bianchini12 encontrou uma média de 29,16 µg/dL de leite integral, enquanto Guzmán6 encontrou 31,3 µg/dL. Esses dados demonstram que os valores de retinol em leites integrais esterilizados são bem próximos, porém existe uma falta de padronização e consenso em relação à concentração normal de vitamina A no leite bovino.

Os resultados encontrados no presente estudo mostram que houve uma grande variação entre a maior e menor média (44,1 e 22,7 µg/dL) e este fato pode ter ocorrido devido a características específicas do processamento de cada fabricante, como o manuseio do operador do maquinário, as oscilações de temperatura ou outros fatores que podem ter ocorrido durante o processamento objetivando aumentar o tempo de prateleira.

Das 7 marcas estudadas, uma estava acima da média, 5 não apresentaram diferenças entre as suas médias, mas uma apresentou média de retinol abaixo das outras. Considerando que para o consumo humano a concentração normal seja de 30µg/dL11, pode-se afirmar que apenas uma marca (14,3% do total) não atende o mínimo desejável.

Ressaltamos, porém, que apesar de quatro marcas de leite estarem dentro da normalidade, os níveis de retinol foram limítrofes e que providências, tais como obrigatoriedade de enriquecimento dos leites com esta vitamina, deveriam ser tomadas para garantir um aporte regular e satisfatório de vitamina A para a população e, assim, diminuir o risco do desenvolvimento de sua deficiência.

 

REFERÊNCIAS

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2. Mclaren, D. S.; Frigg M.; Manual de ver y vivir sobre los transtornos por deficiência de vitamina A (VADD), Organizacion Panamericana de La Salud: Washington, 1999.         [ Links ]

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4. Dimenstein, R.; Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, 1999.         [ Links ]

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Recebido em 4/1/07; aceito em 24/8/07; publicado na web em 19/12/07

 

 

* e-mail: rdimen@uol.com.br

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