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Kriterion: Revista de Filosofia

Print version ISSN 0100-512X

Kriterion vol.53 no.125 Belo Horizonte June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-512X2012000100002 

ARTIGOS

 

Nova interpretação da passagem 359d da República de Platão

 

 

Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes

Doutorando do Programa de Lógica e Metafísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGLMUFRJ). lmbrmenezes@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Gyges foi o primeiro tirano a reinar na Lídia pela casa dos Mermenadae por volta do séc. VII a. C. Ele foi também o primeiro grande bárbaro com o qual os gregos estabeleceram contato. Seu caráter complexo fez com que se desenvolvessem diversas histórias a seu respeito, sendo a mais famosa aquela que conta a maneira como ele chegou ao poder. Sua fama percorreu o mundo grego e influenciou a poesia lírica de sua época e, posteriormente, a história, a filosofia e a retórica, principalmente no que diz respeito ao seu poder e riqueza. Em Platão, Gyges aparece ligado à narrativa de Glaúcon no Livro II da República (359b-360b), onde este conta os feitos daquele para se tornar o soberano da Lídia. No entanto, uma dificuldade na passagem 359d faz com a identificação direta de Gyges com a narrativa seja prejudicada. Pretendemos através deste trabalho apresentar algumas propostas para a passagem, utilizando-se para isso não só do texto de Platão como das fontes líricas e históricas anteriores a ele.

Palavras-chave: Arquíloco, Heródoto, Platão, Gyges, Lídia.


ABSTRACT

Gyges was the first tyrant reigning in Lydia by the Mermenadae's around the seventh century BC. He was also the first great barbarian whom the Greeks made contact to. His complex character has made the development of several stories about him, and the most famous was the one which tells how he came to power. His glory traveled the Greek world and influenced the lyric poetry of his age. Thereafter, history, philosophy and rhetoric were likely influenced, mostly about his power and wealth. In Plato Gyges appear in Glaucon's narrative in Book II of Republic (359b-360b) which tells the deeds of the one to become the sovereign of Lydia. However, one difficulty on the passage 359d which makes the direct identification of Gyges with the narrative has been mistaken. We aim through this work to present some proposals to the passage mentioned using not only Plato's text, but the lyric and historical sources before him.

Keywords: Archilochus, Herodotus, Plato, Gyges, Lydia.


 

 

Exposição do Problema

O que queremos atentar com este trabalho é o caráter complexo de Gyges que fez com que se desenvolvessem diversas histórias a seu respeito, sendo a mais famosa aquela que conta a maneira como ele chegou ao poder. Sua fama percorreu o mundo grego influenciando tanto seus contemporâneos como aqueles que posteriormente vieram. A lírica grega desenvolvida entre os séculos VII e VI deixou, nos fragmentos que nos restaram, um precioso tesouro a respeito de Gyges da Lídia, que posteriormente veio a servir de base tanto para os historiadores como para os filósofos que dele falaram.

A primeira fonte que temos a seu respeito é de Arquíloco de Paros, que assim nos fala sobre ele:

ο µοι τ Γύγεω το πολυχρύσου µέλει,
ο
δ' ελέ πώ µε ζλος, οδ' γαίοµαι
θε
ν ργα, µεγάλης δ' οκ ρέω τυραννίδος·
απόπροθεν γάρ
στιν φθαλµν µν.
Não me preocupam as coisas de Gyges, rico em ouro,
Nem ainda me persegue a cobiça, nem invejo
As obras dos deuses, ou amor pela grande tirania;
Isto longe está dos meus olhos.
1

Arquíloco que viveu entre 680-640 a.C.2 foi contemporâneo de Gyges, que teria reinado entre 682-644 a.C.3 Tal fragmento além de ser o primeiro a tratar de Gyges, parece também ter sido o primeiro a utilizar no grego o termo "tirania". Segundo Ure, a palavra tirania não é grega, mas pode ser de origem lídia4. Para Adrados, a palavra designa o poder absoluto dos monarcas orientais5. De acordo com Euphorion (séc. III a.C.), Gyges foi o primeiro a ser chamado de tirano6. Tal declaração pode ser apenas uma inferência de Hippias de Élis, que disse não ter Homero usado a palavra τύραννος, mas seu uso somente aparece com Arquíloco (FHG, II, fr.7, p.62).

O fr. 19W indica o poder de Gyges, entre riqueza e posses, que faz dele o senhor da Lídia e tirano da Ásia. Apesar de o poema estar na primeira pessoa, sabemos que Arquíloco não se coloca como falante, mas atribui o dito ao personagem Kháron, conforme nos informa Aristóteles:

κα τν Χάρωνα τν τέκτονα ν τ άµβ ο ρχή
ο
µοι τ Γύγεω
e Kháron, o carpinteiro, em iambo, assim começa:
Não a mim as coisas de Gyges
7

O uso de uma personagem para dizer algo sobre outro é um método original da crítica de Arquíloco. Segundo West argumenta, há um particular tipo de poesia que os antigos chamam de iambo para usar personagens imaginários e situações8.

Outros poetas líricos anteriores a Heródoto comprovam a historicidade de Gyges sendo estes Alcman (fl. 652 a.C.), Mimnermo (fl. 632 a.C.) e Hipponax (fl. 540 a.C.). É interessante notarmos que Mimnermo compôs versos elegíacos da batalha entre Smyrna contra Gyges e os Lídios, e parece ter escrito uma Smyrneida, infelizmente perdida9. Também podemos encontrar um poema referente a Anacreonte que muito se parece como o que Arquíloco escreveu a respeito de Gyges:

ο µοι µέλει τ Γύγεω,
το
Σαρδίων νακτος·
ο
δ' ελέ πώ µε ζλος
ο
δ φθον τυράννοις.
Não me preocupam as coisas de Gyges,
Senhor de Sardis,
Nem me persegue a cobiça,
Nem invejo aos tiranos.
10

No Greek Anthology, encontramos um poema semelhante atribuído Anacreonte, mudando em sua estrutura as linhas 3 e 4, apesar de manter dentro do fragmento a coerência quanto a riqueza e à tirania:

ο µοι µέλει τ Γύγεω,
το
Σαρδίων νακτος,
ο
θ' αρέει µε χρυσός,
ο
κ ανέω τυράννους.
Não me preocupam as coisas de Gyges,
Senhor de Sardis,
Nem me captura o ouro,
Nem louvo os tiranos.
11

Ressaltamos que o que aqui se diz de Anacreonte foi produzido posteriormente à morte do poeta no período helenístico e atribuído ao poeta de forma pseudepigráfica. Esse material se encontra reunido na obra conhecida como Anacreontea. De qualquer maneira, estes, assim como os demais fragmentos dos outros poetas, demonstram a repercussão do lídio Gyges entre os gregos.

Heródoto nos conta a história de Gyges da seguinte maneira12: Candaules, o soberano da Lídia, oferece a Gyges, seu guarda pessoal, a permissão para que este veja sua mulher nua e, assim, possa comprovar que ela é a mais bela. Pois, segundo diz Candaules, "os homens confiam menos em seus ouvidos do que em seus olhos"13. Mesmo dizendo-se persuadido [peíthomai] pelas palavras de Candaules, de que sua mulher é a mais bela, Gyges é obrigado a ver para comprovar tal fato. Escondido atrás da porta do quarto, Gyges vê a rainha nua e quando se preparava para se retirar, acabou sendo visto por ela sem que ele assim percebesse. Entendendo o ocorrido e percebendo que se tratava de obra de Candaules, a rainha nada fala e aguarda. No dia seguinte, a rainha chama Gyges em sua presença e apresenta a este dois caminhos [dyôn hodôn]: ou mata o soberano ou morre14. Este para evitar a morte escolhe matar o soberano e assim toma para si a mulher e a soberania [gynaíka kaì tèn basileíen]15.

No Livro II da República, Platão, através de seu personagem Gláucon, irá nos contar a seguinte narrativa16:

Sentiremos melhor como os que observam a justiça o fazem contra a vontade, por impossibilidade de cometerem injustiças, se imaginarmos o caso seguinte. Demos o poder de fazer o que quiser a ambos, ao homem justo e ao injusto; depois vamos atrás deles, para vermos onde é que a paixão leva cada um. Pois bem! Apanhá-lo-emos, ao justo, a caminhar para a mesma meta que o injusto, devido à ambição, coisa que toda a criatura está por natureza disposta a procurar alcançar como um bem; mas, por convenção, é forçada a respeitar a igualdade. E o poder a que me refiro seria mais ou menos como o seguinte: terem a faculdade que se diz ter sido concedida ao antepassado do Lídio [Gyges]. Era ele um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, de maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, foi lá também, com seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observardo estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder.

A narrativa que aqui reproduzimos se refere a uma capacidade concedida ao antepassado do Lídio, que é posto nas diversas edições da República, utilizando-se colchetes ou não, como sendo Gyges. Mas quem é Gyges? De quem seria ele antepassado? Qual é sua relevância histórica e qual é sua relação para o desenvolvimento da narrativa contada por Gláucon? Esta e algumas outras questões é que propomo-nos a responder neste trabalho.

Para que melhor possamos esclarecer estas questões, precisamos atentar para a dificuldade da passagem 359d1, onde podemos ler τ Γύγου το Λυδο προγόν17. Os estudiosos se dividem basicamente em dois grupos quando nos referimos a tal passagem estudada. O primeiro grupo se refere ao comentário de Adam à República18, onde este defende que o antepassado vem a ser do Lídio Gyges. Já o segundo grupo defende como sendo Gyges o antepassado do Lídio. Tomando esta diferença por princípio, pretendemos expor cada um dos grupos e analisar seus argumentos, utilizando também para nosso auxílio outros textos antigos que falem de Gyges e que assim possam nos ajudar com a interpretação da passagem supracitada.

 

A Interpretação de Adam

Em sua edição da República, Adam assim coloca a passagem 359d: τ Γύγου το Λυδο προγόν, indicando explicitamente como sendo o antepassado do Lídio Gyges. Defende, dessa maneira, que o Gyges a que Platão se refere não é o mesmo Gyges de Heródoto19 ou Arquíloco20. Segundo ele, a maioria das emendas feitas no texto grego sugere uma harmonia com a passagem 612b no Livro X da República, onde aparece no texto Γύγου δακτύλιον(anel de Gyges)21. No entanto, de acordo com Adam, o antepassado a que Platão se refere é o bisavô do Lídio Gyges, também chamado Gyges, e fundador da casa dos Mermnadae, a qual faria parte o Gyges de Heródoto. Adam, assim, sugere que o texto entraria em harmonia com o comentário de Proclo22 à República, onde este coloca: τ κατ τν Γύγου πρόγονον διηγήµατι. Adam também discorda que το Λυδο se refira ao Lídio Kroisos, que era a quinta geração de Gyges (Hdt. I.13) e cujo renome se fez muito conhecido a partir do séc. V a.C. Dessa forma, sugestões como a de Wiegand23: τ [Γύγου] το Λυδο προγόν; Jowett e Campbell: τ Κροίσου το Λυδο προγόν, Γύγ τ Κροίσου το Λυδο προγόν e Stallbaum: τ Γύγ [το Λυδο προγόν] não são aceitas por Adam por não terem uma justificativa demonstrável para a interpretação do Lídio como sendo Kroisos. Assim como também não aceita a posição de Schneider em supor que o Gyges mais antigo seja uma invenção de Platão24.

Para Adam, não há uma razão sólida para conectar o Gyges de Platão ao Gyges de Heródoto. Primeiro por que o anel mágico não é mencionado por Heródoto e nem mesmo por Nicolau Damaskenos25, que conta a história de Gyges seguindo uma tradição diferente da de Heródoto. Adam segue a sugestão de Stein26, de que a narrativa de Platão não segue o Gyges de Heródoto, mas seu ancestral homônimo, o fundador mítico da família, cujo nome sobreviveu no Lago Gyges (λίµνη Γυγαίη)27. Dessa forma, o Gyges histórico não teria sido o primeiro membro da família a utilizar esse nome, mas seu bisavô que também se chamava Gyges28. A história do Gyges posterior poderia ter sido confundida com a do seu antepassado ou ele poderia tê-lo copiado no ato de assassinato com a ajuda da rainha.

Há ainda o caso do poema de Nizámí29, que conta a história do pastor e do anel. Frazer30 nos diz que a história aparece na segunda parte do Sikandarnámah de Nizámí, e Cowell31 nos diz que Nizámí tomou conhecimento da história provavelmente através de uma tradução árabe da República que chegou até ele. Adam nos faz perceber que Nizámí não fala o nome de Gyges em seu poema, como podemos ver na sua versão:

Um vapor quente quando tremeu a terra, fez surgir de uma fenda um cavalo oco de estanho e cobre, que possuía uma larga fissura. Um pastor viu isto e descobriu um corpo de um homem velho, com apenas um anel de ouro em sua mão. Ele pegou-o, e foi na manhã seguinte até seu mestre para descobrir o valor de seu achado; mas durante sua visita ele descobriu, ficando admirado, que quando ele virava o selo para a palma da mão ele tornava-se invisível. Determinado a fazer uso deste poder, penetrou no palácio, e secretamente entrou na câmara do conselho, onde ele manteve-se invisível. Quando os nobres deixaram o lugar, ele revelou-se ao rei, por este milagre, como sendo um profeta. O rei tornou-o seu ministro, e finalmente o pastor o sucedeu no trono.32

Na versão de Cícero33 da história de Platão, ele não fala em um 'ancestral', mas em Gyges diretamente34, apesar de, como aponta Adam, não haver nada que indique uma possível relação do Gyges de Platão ao Gyges de Heródoto. Pensando desta forma, há probabilidade do proverbial "Anel de Gyges"35 não pertencer ao Gyges de Heródoto, mas sim a seu ancestral homônimo, o que faz com que Adam dê a seguinte emenda para a passagem: <τ Γύγ>, τ Γύγου το Λυδο προγόν. Segundo ele, essa solução concordaria com a passagem 612b da República, com Cícero e outros que seguem Platão falando de um "Anel de Gyges"36 e não um "Anel do ancestral de Gyges".

 

A Interpretação Histórica

Baseada no Gyges de Heródoto, a interpretação histórica procura associar este ao antepassado citado por Platão na passagem 359d. Para isto os estudiosos da passagem tentam aproximar o Lídio, citado na passagem, como sendo algum dos descendentes de Gyges da casa dos Mermnadae, mas propriamente Kroisos, que foi o último descendente da família. Isto, de certa forma, se deve à fama adquirida por Kroisos entre os gregos como tendo sido o primeiro bárbaro a submeter alguns gregos a pagamento de tributo e a fazer outros seus amigos37. Respaldando-se na passagem 612b, Jowett e Campbell38 sugerem a alteração de Γύγου por Κροίσου, que poderia ainda ter um acréscimo anterior de um Γύγ, formando por fim Γύγ τ Κροίσου το Λυδο προγόν. Se contarmos ainda que de onze referências ao termo Λυδός encontradas em Heródoto, seis se referem a Kroisos e duas se referem a Alyattes, seu pai, temos uma recorrência alta (oito de onze) do termo "o Lídio" em Heródoto para indicar algum dos descendentes de Gyges. Isto fortalece a interpretação que diz que a omissão de Platão do nome do antepassado foi proposital, pois seria subentendido supondo que o Lídio citado na passagem seria conhecido pelos gregos apenas pelo mero uso do termo supracitado. Burnet39, em resposta a Adam, irá dizer que devemos lembrar o interesse especial dos gregos do séc. V a.C. por Kroisos, que, segundo Burnet, daria sentido ao uso de Λυδός, e, com isso, Platão estaria tentando reproduzir o tom dos antigos mitos.

Fontes anteriores a Heródoto comprovam a historicidade de seu Gyges, mas apenas uma fonte tardia (Damaskenos) nos conta sobre a possível existência de um bisavô deste Gyges, que também se chamaria Gyges. A linhagem de Heródoto começaria com Daskylos depois Gyges, Ardys, Sadyattes, Alyattes e Kroisos. Já a linhagem de Damaskenos seria maior e começaria com Gyges I que teria dois filhos: Ardys e Daskylos I. De Daskylos I viria Daskylos II, Gyges II, Alyattes, Sadyattes, Alyattes e Kroisos. Apesar de ser uma fonte tardia, Damaskenos parece se apoiar em Xanthos, o lídio, que foi contemporâneo de Heródoto. Mesmo assim, Damaskenos nada nos conta dos feitos deste primeiro Gyges que teria dado o nome da casa Mermnadae, assim como não há fontes anteriores a Heródoto que falem deste Gyges I. Quanto a Gyges II há diversas fontes antigas que comprovam sua historicidade.

É interessante notarmos que as fontes anteriores a Heródoto são todas líricas, o que demonstra uma tradição entre os poetas líricos de narrar acontecimentos dos quais ouviram falar. A interpretação histórica da passagem 359d, segundo entendemos, deve levar em conta não só Heródoto como também toda essa poesia lírica anterior a este e que afirma a fama de Gyges entre os gregos.

 

Uma Nova Interpretação da Passagem

O estudo da passagem escolhida em Platão apresenta uma série de dificuldades, como foi demonstrado através da apresentação das duas interpretações acima. No entanto, para o tratamento da mesma, ambas se demonstraram insuficientes em seus argumentos. Para resolver tal problema propomos uma nova interpretação da passagem, mas antes devemos analisar em que ponto as interpretações anteriores são defectíveis.

Quanto à primeira destas, notamos que Adam, no tratamento de sua interpretação, não responde duas questões que consideramos importantes:

A) Se Gyges é o Lídio citado e o antepassado seu bisavô, cujo nome também é Gyges, então Gyges II deveria ser bisneto de rei. No entanto, Heródoto o apresenta como sendo homem da guarda pessoal de Candaules, soberano da Lídia (Hdt. I.8.1). E mesmo se tomarmos a versão de Damaskenos, não há nada que cite um reinado de Gyges I ou uma possível derrubada deste ou de um de seus descendentes. Sendo assim, se considerarmos Gyges I como aquele que derrubou o soberano da Lídia, por que seu bisneto Gyges II teria a mesma necessidade de derrubar o soberano da Lídia?

B) Glaúcon antes de expor a narrativa do pastor na República afirma não ser ele a falar, mas que ele está expondo o parecer da maioria (δοκε ... πολλος)40. No entanto, se não há registros dos feitos de Gyges I, que polloí seriam estes com quem Platão estaria a dialogar?

Para demonstrar os problemas da interpretação histórica utilizaremos as explicações de Slings41 sobre a passagem 359d1 e a crítica que faz ao ponto de vista histórico:

i) O anel é sempre chamado 'Anel de Gyges', como na passagem 612b. Comentários posteriores a Platão mantêm o termo42. Um comentário ao mss A [τν κατ Γύγην τν Λυδν στορίαν κα τν δακτύλιον] deixa de fora o antepassado e também o comentário ao mss F [περ τς το Γύγου σφενδόνης]. A exceção é apenas em Proclo e serve apenas para provar que os textos ADF já existiam na Antiguidade.

ii) Não nos parece que Platão estava preocupado com a genealogia lídia, mas podemos tentar manter que 'Anel de Gyges' é um termo curto para 'Anel do ancestral de Gyges'. No entanto, outros elementos da história, como o assassinato do soberano e a cooperação da rainha, são ditos sobre Gyges ele mesmo, e não sobre seu bisavô, que tem o mesmo nome.

iii) το Λυδο não pode aqui se referir a Kroisos, mesmo que Heródoto tenha se referido a ele diversas vezes como Λυδός. Neste contexto, το Λυδο deveria significar 'o presente soberano da Lídia', o que não faria sentido43. No contexto da passagem, Λυδός não poderia se referir a Kroisos por excelência.

iv) Não é coincidência que a palavra lídia transcrita como γύγης, realmente significou 'avô; antepassado'44. Isto era conhecido pelos gregos e aparece no Lexicon de Hesychius: γ972 (Latte) γύγαι· πάπποι45.

Hesychius viveu no séc. V d.C. e é conhecido por ter compilado um léxico de palavras gregas incomuns e pouco conhecidas. Por ter vivido na mesma época que Proclo (que também era do séc. V d.C.), acreditamos que a inserção do προγόν a passagem 359d1 é tardia e provavelmente desta época, influenciada pelo léxico de Hesychius. Parece que na época de Platão a palavra γύγης seria facilmente associada com a palavra πάππος, no entanto, com a perda progressiva de seu significado, a inserção de προγόν foi utilizada para rememorar tal raiz etimológica. Concordamos com Slings que a inserção de τ προγόν seria um erro em relação ao texto primitivo. Ast46 em sua edição da República corrige a passagem retirando o τ e προγόν da passagem, mas mantendo o genitivo intacto [Γύγου το Λυδο], o que não dá conta da inserção. Parece-nos que a melhor maneira de corrigir o texto seria a explicação de Slings que assim coloca como sendo a passagem original: Γύγ τ Λυδ. Dessa forma, entraria em harmonia com a passagem 612b, mantendo Gyges como único possuidor do anel no texto platônico, assim como também estaria de acordo com a posterior inclusão dos termos τ e προγόν sem prejuízo para a interpretação da passagem 359d47.

 

 

Artigo recebido em 23/2/2011 e aprovado em 4/7/2011.

 

 

1  Fr. 19W. A tradução é nossa.
2  Para a data aproximada de Arquíloco nos baseamos em JACOBY, F. "The Date of Archilochos", The Classical Quarterly, v. 35, n.3, p. 97-109, jul.-oct. 1941.         [ Links ]
3  A data comumente aceita pelos estudiosos é de 687-652 a.C., principalmente depois dos estudos de GELZER, H. "Das Zeitalter des Gyges", RhM, v. 30, p. 230-268, 1875.         [ Links ] No entanto, concordamos com os estudos de SPALINGER, Anthony J., "The Date of the Death of Gyges and its Historical Implications", JAOS, v. 98, n. 4, p. 400-409, oct.-dec., 1978.         [ Links ] Spalinger em seu texto aponta para o fato de que a morte de Gyges só é apontada no Prisma A dos anais de Assurbanipal. Tal Prisma data de 643/2 a.C., o que faz Spalinger calcular a morte de Gyges por volta de 644 a.C. Para calcular a data inicial do reinado de Gyges, nos baseamos na duração dita por Heródoto do reinado de Gyges, trinta e oito anos.
4  URE, P. N. The Origen of Tyranny. Cambridge: Cambridge University Press, 1922, p. 134.         [ Links ]
5  ADRADOS, F. R. Líricos Griegos: Elegiacos y Yambógrafos Arcaicos, v.1. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1999, nota 2, p. 54.         [ Links ]
6  MÜLLER, C. Fragmenta Historicum Graecorum, vol. III. Paris: Editore Ambrosio Firmin Didot, 1849, fr. 1, p. 72.         [ Links ] Demais citações de Müller serão abreviadas por FHG, indicando-se em seguida volume, fragmento ou/e página.
7  ARISTÓTELES. Arte Retórica, 1418b30-31. Utilizamos para o grego a edição de W. D. Ross, Aristotelis Ars Rhetorica (Oxford: Clarendon Press, 1959).         [ Links ] A tradução é nossa.
8  WEST, Martin. Studies in Greek Elegy and Iambus. (Untersuchungen zur antiken Literatur und Geschichte, Band 14) Berlin and New York: Walter de Gruyter, 1974, p. 22-39.         [ Links ]
9  Frs. 13W e 13aW.
10 Anacreontea 8W. A tradução é nossa.
11 Greek Anthology, XI.47.1-4. A tradução é nossa.
12 HERODOTO. Histórias, I.8-15. Demais citações a Heródoto serão abreviadas por Hdt., indicando em seguida livro e parte. Utilizamos para o grego o texto estabelecido por Carolus Hude, Herodoti Historiae, Tomes I e II, (Oxford: Oford University Press, 1927).
13 Hdt. I.8.2.
14 Hdt. I,11.2-3.
15 Hdt. I,12.2.
16 PLATÃO. República, 359b-360b. Utilizamos aqui a tradução de Maria Helena da Rocha Pereira A República (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001).         [ Links ] Tomaremos esta tradução como base para nosso trabalho, indicando outras traduções, inclusive nossas, quando for o caso. Demais referências à 'República' serão abreviadas por Rep. indicando-se em seguida a numeração.
17 Utilizamos aqui o texto grego da República estabelecido por S. R. Slings, Platonis Rempvblicam (Oxford: Oxford University Press, 2003).         [ Links ] Como nosso trabalho pretende fazer uma comparação da passagem indicada entre demais edições da República, não nos limitaremos ao texto aqui indicado. Slings utiliza o sinal † entre o começo e o fim da passagem para indicar uma possível corrupção do original grego, o que nos leva a uma dificuldade para relacionar a quem estaria Platão, de fato, falando.
18 Cf. ADAM, James. The Republic of Plato. Cambridge: Cambridge University Press, 1979, p. 126-7,         [ Links ] apêndice I do livro II.
19 Hdt. I.8-15.
20 Cf. fr. 19W.
21 Tais emendas, segundo Adam, seriam do tipo Γύγ
τ το Λυδο προγόν, que tentariam ligar Gyges diretamente ao anel.
22 PROCLUS. Platonis Rem Publicam Comentarii. II.111.4. Utilizamos como base a edição de Kroll, 1901.
23 Sobre a proposta de Wiegand de utilizar parênteses em Γύγου ver WIEGAND. Zeit. f. d. Alterth., 1834, p. 863 apud SMITH, K. F. AJPh., v. 23, n.3, 1902, nota1, p.267-8. Os parênteses também são utilizados por Hermann, Baiter, Hartman e Burnet.
24 Cf. SCHNEIDER, C. E. C. Platonis Opera Graece., v. I. Lipsiae, 1830, p. 107.
25 Nicolau Damaskenos viveu por volta do séc. I a.C., e seus livros foram em grande parte organizados pelo Imperador Constatino Porphyrogenitos (912-956 d.C.). Damaskenos relatou a história de Gyges em seu Livro VI de sua História Universal, da qual só nos sobraram alguns fragmentos. Apesar de ser uma fonte tardia de Gyges, Damaskenos parece ter seguido a Lydiaka de Xanthos, o lídio, que viveu na mesma época de Heródoto. Para mais, ver FHG, III, p. 380-386.
26 STEIN, H. Herodotos. vol. I. Berlim: Weidmannsche Buchhandlung, 1883.         [ Links ] Conferir nota a Hdt. I.12, na p. 17 da obra de Stein.
27 Cf. Hdt. I.93.
28 Cf. Damaskenos in FHG, III, fr. 49, p. 382.
29 Nizámí Ganjavi, poeta persa nascido nas redondezas de Ganja no Arzebaijão por volta de 1141 d.C.
30 FRAZER, Sir James George. Pausanias's Description of Greece: Commentary on Books II-V: Corinth, Laconia, Messenia, Elis. London: Macmillan and co., limited, 1913, p. 417.         [ Links ]
31 COWELL, E. B. Gyges' Ring in Plato and Nizámí. Journal of Asiatic Society of Bengal, v. 30, n. 2, p. 151-157, 1861 apud FRAZER, op. cit., p. 417.         [ Links ]
32 Retiramos esta versão de JONES, William. Finger-Ring Lore. London: Chatto and Windus, Piccadilly, 1877, p. 508-509.         [ Links ] (A tradução do inglês é nossa).
33 CICERO. De Officiis, III, IX,38.
34 Assim Cícero começa seu texto sobre Gyges e seu anel: "Hinc ille Gyges inducitur a Platone".
35 Segundo SMITH, K.F., "The Tale of Gyges and the King of Lydia", AJPh. v. 23, n. 4,1902, p. 374-377,         [ Links ] o provérbio Γύγου δακτύλιος, que pode ser encontrado no Suidae Lexicon Graece e Latine como tendo por significado
π τν πολυµηχάνων κα πανούργων, teria sido usado apenas pelos autores mais tardios, não havendo nenhum provérbio antes de Platão.
36 Para a posterior tradição que seguiu a história de Platão do anel de Gyges, sem pretensão de exaurir a questão, colocamos aqui todas as fontes que encontramos a partir de nossas pesquisas: Luciano. Bis accusatus sive tribunalia, 21; Id. Navigium, 42; Socraticorum Epistulae. Ep., 14.2; Joannes Stobaeus. Anthologium, III.9.63; Libanius. Epistulae, 432.5; Id. Orationes, 56.10; Ibid., 64.35; Gregorius Nazianzenus. Contra Julianum imperatorem (orat. 4), 35.628; Id. Funebris oratio in laudem Basilii Magni Caesareae in Cappadocia episcope (orat. 43), 21.3; Id. Carmina moralia, 683; Id. Carmina de se ipso, 1435; Philostratus. Vita Apollonii, 3.8; Id. Heroicus, 669; Anônimo. In Aristotelis artem rhetoricam commentarium, (CAG, 21.2) 256.6; Theon. Rhet. Graeci, I.159; Tzetzes. Chiliades, I.137-66; Ibid., VII.195-202; Nonnus. Invect., 1.55; Anônimo. Violarium da Eudocia, 247; Suidae Lexicon, letra gamma Γύγου δακτύλιος, letra sigma Σφενδόνη Γύγου; Anthologiae Graecae, Appendix, Epigrammata demonstrativa 253; Os próximos serão citados a partir do Paroemiographi Graeci editado por Leutsch & Schneidewin, volume I: Diogenianus, 3.99; Gregorius Cyprius, 2.5; volume II: Diogenianus, 2.20; Greg. Cyp., 2.58; Apostolius, 5.71; Macarius, 3.9.
37 Cf. Hdt. I.6.2.
38 JOWETT, B.; CAMPBELL, L. Plato's Republic. The Greek Text, v. III: Notes. Oxford: The Clarendon Press, 1894, p. 61-62.         [ Links ]
39 BURNET, John. Platônica II, The Classical Review, v. 19, n. 2, p.100, 1905.         [ Links ]
40 Rep., 358a.
41 SLINGS, S. R., "Critical Notes on Plato's Politeia II", Mnemosyne, v. 17, fasc. 3-4, p. 381-383, 1989.         [ Links ]
42 Vide nota 36 supra.
43 Contra ver Burnet, op. cit., p. 100.
44 Cf. FAUTH, W., "Zum Motivbestand der Platonischen Gygeslegende", RhM, v.113, 1970, p. 28f.         [ Links ]
45 Correção de Perger de πάµποι dado pelo cod.
46 AST, F. Platonis quae exstant Opera. Tomus IV, Politiae Lib. I-VIII. Lipsiae: Libraria Weidmannia, 1822, p.70.         [ Links ]
47 Feitas as modificações, o texto poderia ser assim traduzido: "terem a faculdade que se diz ter sido concedida a Gyges, o Lídio" ou com a posterior inclusão dos termos "ao antepassado lídio, Gyges".