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Kriterion: Revista de Filosofia

Print version ISSN 0100-512X

Kriterion vol.54 no.128 Belo Horizonte Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-512X2013000200001 

Apresentação

 

 

A revista Kriterion, após quase vinte anos, volta a publicar um número temático dedicado ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche. No ano de 1994, quando se comemorava o sesquicentenário desse filósofo, o volume 89 da Kriterion reuniu artigos de diversos estudiosos que se debruçavam sobre o tema do trágico na filosofia de Nietzsche. Além dos artigos que foram submetidos à revista em resposta a um Call for Papers especificamente destinado a este número temático e aprovados por pareceristas, o presente volume reúne artigos que têm sua origem nas conferências proferidas no I Congresso Internacional Nietzsche e a Tradição Filosófica: Nietzsche e a Tradição Kantiana, realizado conjuntamente com a quarta edição da série de workshops internacionais dedicados a discutir os diversos aspectos da multifacetada e controversa relação entre Nietzsche e Kant (IV International Workshop on Nietzsche and Kant: Kant and Nietzsche on Religion). Os dois eventos foram fruto de uma parceria envolvendo tanto o Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFMG e o Mestrado em Estética e Filosofia da Arte da UFOP, quanto os idealizadores da série de workshops internacionais sobre Kant e Nietzsche, os professores Herman Siemens (Leiden University/Holanda) e Tom Bailey (John Cabot University/Itália).

Se fizermos um retrospecto do que ocorreu institucionalmente tanto na pesquisa-Nietzsche internacional quanto naquela realizada no Brasil nos últimos vinte anos (tomando como referência o número temático da revista Kriterion dedicado ao tema do trágico), poderemos constatar duas grandes tendências que convergem casualmente: a intensificação do diálogo entre a pesquisa realizada no continente europeu e nos países de língua inglesa, por um lado, e o esforço de internacionalização da pesquisa-Nietzsche realizada no Brasil, por outro. A tendência mundial converge, portanto, com a tendência local no sentido do encurtamento das distâncias e da superação do insulamento, mas elas se desenvolveram paralelamente, atendendo a exigências próprias a cada contexto de pesquisa. A convergência de propósitos que constatamos nos dois cenários é, portanto, uma feliz coincidência. Entre nós, ela é parte de um projeto, compartilhado com a filosofia acadêmica brasileira como um todo, de busca por uma maior inserção no cenário internacional. Este é um desafio que se impõe naturalmente após a consolidação dos programas de pós-graduação levada a cabo nas décadas anteriores. Avaliada sob uma perspectiva institucional, a grande novidade no contexto da pesquisa-Nietzsche parece-me, portanto, consistir no esforço sempre maior de reduzir o insulamento da pesquisa e de estabelecer pontes entre gerações, métodos e estilos de recepção do filósofo alemão.

Os artigos reunidos neste volume da Kriterion são o reflexo deste esforço de aproximar gerações, métodos e estilos distintos de recepção do filósofo alemão. A convicção de que este esforço é válido orientou a concepção dos dois eventos que se encontram na origem dos artigos aqui publicados pela primeira vez: o I Congresso Internacional Nietzsche e a Tradição Filosófica foi concebido com o intuito de reunir pesquisadores provenientes de tradições distintas, que se encontram em momentos distintos de seus percursos de pesquisa e que representam estilos de interpretação do filósofo alemão que, embora próprios, não se furtam à interlocução com seus pares. Este propósito me parece mover igualmente a série de workshops sobre Nietzsche e Kant que tem acontecido em diversas capitais europeias, sob a coordenação de pesquisadores ligados aos diversos centros de pesquisa-Nietzsche na Europa (Holanda, Inglaterra, Portugal e Itália já sediaram edições do Workshop).

A escolha de Kant, assim como da longa e complexa tradição que reivindica algum tipo de filiação a Kant, tampouco foi uma escolha gratuita. Esta escolha reafirma a convicção (aparentemente não nietzschiana) de que a história da filosofia não é a história de uma sucessão de monólogos de indivíduos absolutamente excepcionais, cujas obras teriam permanecido insensíveis ao seu contexto intelectual e inventado seus próprios predecessores, numa espécie de inversão da ordem cronológica, conforme sugeriu certa vez Borges a propósito de Kafka. Esta convicção é reafirmada pela eleição de um conjunto específico de interlocutores que não são certamente os únicos, tampouco aqueles com os quais Nietzsche manteve um vínculo de ordem superior, espiritual por assim dizer (como foi o caso de Platão, Montaigne e Pascal, para citarmos alguns poucos filósofos com os quais Nietzsche tinha efetivamente uma afinidade de alma e cujo diálogo espiritual ele tanto prezava que se dispunha a descer novamente ao Hades para poder usufruir dele). Os interlocutores que pertencem à tradição kantiana, a começar pelo próprio Kant, oferecem aos estudiosos de Nietzsche uma perspectiva privilegiada a partir da qual é possível dar prosseguimento ao imenso trabalho de mapear e compreender sua sutil e complexa interlocução com a tradição filosófica. Em contraste com os pensadores que figuram naquele primeiro e seleto grupo ao qual Nietzsche se sente vinculado espiritualmente, estes filósofos (aqui devemos excluir Schopenhauer, pois este pertence também ao primeiro e seleto grupo de almas afins), em sua maior parte professores universitários malsucedidos (Kant é aqui a única e honrosa exceção), não foram capazes de estabelecer nenhum vínculo entre suas obras e uma determinada forma de vida filosófica (para Nietzsche, Kant permanece o paradigma do filósofo acadêmico cuja obra é tudo, menos a biografia involuntária de uma alma apaixonada). Embora Nietzsche tenha cultivado certo desprezo por estes autores por revelarem personalidades filosóficas pouco atraentes, ele os frequentou de forma obsessiva e quase todo o seu treinamento técnico em filosofia é tributário desta frequentação assídua. Autores como Schopenhauer, F. A. Lange, Kuno Fischer, Afrikan Spir e Otto Liebmann (para nos atermos aos mais importantes) produziram obras que foram lidas e relidas por Nietzsche ao longo de toda a sua vida intelectualmente ativa.

Curiosamente, não há nenhum consenso e tampouco qualquer evidência material conclusiva em relação à familiaridade de Nietzsche com as obras do próprio Kant. Isso gera uma situação inusitada na pesquisa-Nietzsche, pois ela se vê obrigada a conviver com esse escândalo de constatar a presença massiva de Kant nas reflexões do filósofo alemão, assim como a importância crucial de sua confrontação com os herdeiros de Kant do século XIX, sem poder decidir o quanto ele conhecia de primeira mão do filósofo de Königsberg. Nos artigos que se seguem, não há nenhuma sugestão de como enfrentar esse escândalo; mas esse fato explica por que a maior parte dos textos que tratam diretamente de Kant e Nietzsche privilegia uma análise comparativa, em vez de adotar uma metodologia centrada no exame crítico das fontes.

Os artigos que ora publicamos tratam de diversos temas caros à tradição kantiana em seus diversos momentos de constituição (filosofia teórica, filosofia prática e estética); alguns buscam uma abordagem historicamente orientada; outros sugerem comparações que podem iluminar o tratamento que Nietzsche e Kant oferecem de um mesmo problema, sempre atentos aos seus desdobramentos contemporâneos. Em um primeiro agrupamento, temos os artigos que se ocupam de filosofia teórica, que envolve questões tanto de epistemologia quanto de metafísica. Abrindo esta seção, temos o artigo de John Richardson, que explora de forma inédita a presença de argumentos transcendentais em Nietzsche, a partir de uma compreensão contemporânea da estrutura e dos objetivos deste tipo peculiar de argumentação filosófica que teria sido proposta inicialmente por Kant. Na sequência, temos o artigo de André Itaparica, que retoma e organiza a vasta discussão sobre as críticas de Nietzsche à noção kantiana de coisa em si (incorporando boa parte da literatura contemporânea produzida tanto por estudiosos de Kant quanto de Nietzsche). A contribuição de William Mattioli está centrada na análise do papel crucial desempenhado por Afrikan Spir na recepção da tradição transcendental por Nietzsche, em especial para a discussão da noção de tempo e para as limitações do projeto de naturalização do kantismo, tão em voga na segunda metade do século XIX; estratégia semelhante à de Richardson é adotada por André Luiz Muniz Garcia, que parte de uma atualização contemporânea de temas kantianos proposta por Josef Simon e estabelece uma aproximação com o tratamento destes mesmos temas, relacionados aos aspectos pragmáticos da significação, na obra de Nietzsche; ainda na seara da filosofia teórica, temos a contribuição de Márcio José Silveira Lima, cujo artigo se concentra na análise das implicações da tese segundo a qual em Nietzsche as categorias kantianas, que em sua formulação original desempenham uma função constitutiva para o conjunto de nossa experiência, teriam se convertido em meras ficções regulativas. Para fazer a transição para o conjunto seguinte de artigos, que exploram as conexões entre Nietzsche e a tradição kantiana no campo da filosofia prática, temos a contribuição de Anthony K. Jensen, que nos oferece um estimulante contraste entre as diversas posições defendidas por autores neokantianos e por Nietzsche em relação às possibilidades e aos limites de nossos juízos sobre o passado e a uma teoria da história em sentido mais amplo.

Uma segunda seção deste número temático explora a relação de Nietzsche com a filosofia prática de Kant. Abre essa seção a belíssima contribuição de Paul van Tongeren dedicada ao exame da amizade nas filosofias de Kant e Nietzsche, tomando como fio condutor a tensão entre a idealização da amizade na tradição filosófica e as consequências niilistas acarretadas por ela. A solução sugerida pelo autor busca inspiração na figuração literária da possibilidade da amizade sob as condições impostas pelo niilismo. Na sequência temos o artigo de Herman Siemens, que nos apresenta um novo desdobramento de seus estudos sobre o papel normativo desempenhado pelo agonismo na filosofia de Nietzsche, agora a partir de uma confrontação com o tratamento do tema na obra de Kant. Uma questão recorrente na literatura secundária recente que trata das relações entre Nietzsche e Kant tem sido a de determinar o lugar da autonomia e do indivíduo soberano no que poderia ser compreendido como a contribuição positiva de Nietzsche para a filosofia prática. O artigo de Peter Bornedal se detém sobre essa questão, tomando como referência a instauração da lei na perspectiva apresentada por Nietzsche na "Genealogia da Moral", e tendo como pano de fundo a tese mais geral segundo a qual Nietzsche está comprometido com um projeto naturalista, herdado de F. A. Lange. Fechando essa seção, temos a contribuição de Michael S. Green, que nos apresenta um desdobramento de sua sugestiva leitura acerca do que produz o compromisso de Nietzsche com a tese da falsificação, outro debate que mobilizou a literatura secundária nos últimos anos. Michael Green argumenta que sua leitura, que acentua os débitos de Nietzsche com a compreensão transcendental da conceitualização defendida por Spir, permite conferir um novo sentido ao tema do eterno retorno como uma forma de evitar os paradoxos da falsificação.

Uma pequena seção dedicada à estética encerra este volume temático. Nela temos dois artigos que se debruçam sobre o diálogo de Nietzsche com as posições da estética kantiana. O artigo de João Constâncio revisita a famosa passagem da "Genealogia da Moral" em que Nietzsche repensa "o problema estético" a partir da oposição entre a concepção kantiana do belo como predicado de um juízo "desinteressado" e a concepção stendhaliana do belo como efeito de uma "cristalização" e uma "promessa de felicidade", com o objetivo de expor as condições fisiológicas da arte e em que sentido ela guarda em si a possibilidade de uma oposição ao movimento ascético e niilista que domina o Ocidente. Finalmente, temos o artigo de Maria João Mayer Branco, que parte de uma suposta musicofobia de Kant e a contrasta com a bem conhecida musicofilia de Nietzsche. A partir da análise das considerações à primeira vista tão díspares de ambos os filósofos sobre a música, a autora mostra que esta disparidade é apenas aparente, pois para ambos os filósofos a experiência musical relaciona-se de modo profundo com a experiência do pensar.

Termino esta apresentação expressando meu agradecimento às inúmeras instituições e a todos aqueles que tornaram possíveis os eventos científicos que estão na origem deste volume, assim como aqueles envolvidos nas diversas etapas de preparação deste número especial da Kriterion. O suporte financeiro para a realização dos eventos foi concedido pela CAPES, FAPEMIG, FUNDEP, PROEX-UFMG, FAFICH, Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG, Programa de Mestrado em Estética e Filosofia da Arte da UFOP. Devo um agradecimento especial aos professores Herman Siemens, Tom Bailey, João Constâncio e Marco Brusotti, por terem abraçado com entusiasmo a ideia de realizar uma edição do Workshop Nietzsche & Kant fora do eixo europeu e contribuído de forma decisiva para a sua efetiva realização. Devo um agradecimento especial aos colegas que participaram da comissão organizadora e aos membros do Grupo Nietzsche da UFMG, que cuidaram com muita competência dos inúmeros aspectos logísticos. Para a edição deste volume, agradeço a todos os autores, aos inúmeros pareceristas, aos responsáveis pela revisão e diagramação da revista e, em especial, à editora da revista Kriterion, minha colega Ester Vaisman. Desejo a todos uma leitura agradável e proveitosa.

Rogério Lopes

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