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Summa Phytopathologica

versão impressa ISSN 0100-5405versão On-line ISSN 1980-5454

Summa phytopathol. vol.45 no.2 Botucatu abr./jun. 2019  Epub 10-Jul-2019

https://doi.org/10.1590/0100-5405/185793 

NOTAS CIENTÍFICAS

Métodos de inoculação de Xanthomonas campestris pv. passiflorae em maracujazeiro e biofertilizantes na inibição do crescimento bacteriano in vitro

Inoculation methods of Xanthomonas campestris pv. passiflorae in passion fruits and biofertilizers on bacterial growth inhibition in vitro.

Polliana Silva Franco Ferreira1

Nilvanira Donizete Tebaldi2 
http://orcid.org/0000-0001-6983-9718

2Professora Associada, do Instituto de Ciências Agrárias, da Universidade Federal de Uberlândia, Av. Amazonas s/n, Bloco 2E-121, Campus Umuarama, CEP 38.400-902, Uberlândia, MG, Brasil


RESUMO

A mancha bacteriana do maracujazeiro (Passiflora spp.) causada por Xanthomonas campestris pv. passiflorae é uma das principais doenças que afeta a cultura. Para a obtenção de variedades resistentes à bactéria, vários métodos de inoculação devem ser testados. O objetivo do trabalho foi avaliar diferentes métodos de inoculação de Xanthomonas campestris pv. passiflorae em plantas de maracujá, para a obtenção de genótipos resistentes à bactéria e avaliar o efeito inibitório de biofertilizantes no crescimento bacteriano in vitro. Sete genótipos de maracujá foram inoculados com uma suspensão bacteriana (1x108 UFC.mL-1), via aspersão, tesoura e pinça. Os bioferlizantes Agro-Mos, Cop-R-Quik, FitoForce Plus, e Soil-Set foram avaliados quanto a inibição do crescimento bacteriano in vitro. O método de inoculação por aspersão foi o mais prático e rápido, em relação aos demais, na obtenção dos sintomas da doença e todos os genótipos avaliados foram suscetíveis à Xanthomonas campestris pv. passiflorae. Os biofertilizantes FitoForce Plus e Soil-Set inibiram o crescimento de Xanthomonas campestris pv. passiflorae in vitro e deverão ser avaliados para o controle da bactéria em condições de campo.

Palavras-chave Mancha bacteriana; Passiflora edulis; Passiflora edulis f. flavicarpa,; resistência genética

ABSTRACT

The passion fruit (Passiflora spp.) bacterial spot caused by Xanthomonas campestris pv. passiflorae is one of the major diseases that affects the culture. To obtain varieties resistant to this bacterium, several inoculation methods should be tested. The objective of this study was to evaluate different methods of Xanthomonas campestris pv. passiflorae inoculation in passion fruits and to evaluate the inhibitory effect of biofertilizers on bacterial growth in vitro. Seven passion fruit genotypes were inoculated with a bacterial suspension (1x108 CFU.mL-1) by spraying, scissors and tweezers. The biofertilizers Agro-Mos, Cop-R-Quik, FitoForce Plus and Soil-Set were evaluated for bacterial growth inhibition in vitro. Spraying was the most practical and rapid inoculation method, in relation to the others, in obtaining the disease symptoms, and all evaluated genotypes were susceptible to Xanthomonas campestris pv. passiflorae. The biofertilizers FitoForce Plus and Soil-Set inhibited Xanthomonas campestris pv. passiflorae growth in vitro and should be evaluated for the bacterium control under field conditions.

Keywords Bacteria spot; Passiflora edulis; Passiflora edulis f. flavicarpa,; genetic resistance

O Brasil é um dos maiores produtores de maracujá do mundo, cultivando uma área de 57.277 hectares, com uma produção de 838.244 toneladas, nos últimos anos (1).

A mancha bacteriana causada por Xanthomonas campestris pv. passiflorae é uma das principais doenças da cultura. Devido à dificuldade de controle da doença, as perdas na produção são expressivas, principalmente em maracujazeiro-doce e azedo, durante os períodos mais quentes e úmidos do ano (5).

O uso de variedades resistentes é a melhor estratégia no manejo da doença, e os métodos de inoculação devem ser eficazes, práticos e rápidos, dentro dos programas de melhoramento genético (4).

O controle químico da bacteriose não é eficiente e produtos alternativos devem ser avaliados, como o uso de biofertilizantes, que foi eficaz na redução da severidade da mancha bacteriana (Xanthomonas spp.) do tomateiro (8), sendo um produto viável, seguro e de menor impacto ambiental.

Assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar métodos de inoculação de Xanthomonas campestris pv. passiflorae em plantas de maracujá, para a obtenção de genótipos resistentes e avaliar o efeito inibitório de biofertilizantes, no crescimento da bactéria in vitro.

O experimento foi conduzido no Instituto de Ciências Agrárias, da Universidade Federal de Uberlândia - MG, no ano de 2011. O isolado UFU A45 de Xanthomonas campestris pv. passiflorae, pertencente à coleção de trabalho foi cultivado em meio 523. Após 48 h foi preparada uma suspensão bacteriana em solução de NaCl 0,85% e ajustada em espectrofotômetro para OD600=0,3 (1x108 UFC.mL-1) (7).

Os genótipos codificados de maracujá 3º.Bl.9Cx.9, 4º.Bl.9Cx.7, 5º.Bl.7Cx.5, 8º.Bl.5Cx.4, 9º.Bl.6Cx.6 originários de Brasília, Túnel 3 amarelo e Túnel 1 roxo oriundos de Uberlândia – MG foram avaliados.

As sementes de maracujá foram semeadas em vasos de capacidade de 500 mL, com substrato solo, areia, húmus e vermiculita (4:1:1:1). Após 45 dias da semeadura, as plantas (2 a 3 folhas) foram inoculadas com a suspensão bacteriana pelos métodos de aspersão, tesoura e pinça (dente de rato). As plantas foram mantidas em câmara úmida 24 horas antes e após a inoculação.

Para o método de inoculação por aspersão foi utilizada uma bombinha manual (100 mL) e o inóculo foi aplicado visando à página inferior e superior da folha, até o ponto de escorrimento. Para o método de inoculação da tesoura, a mesma foi imersa na suspensão bacteriana e posteriormente utilizada para cortar a extremidade da folha do maracujazeiro, eliminando seu ápice. No método de inoculação por pinça, esta foi mergulhada na suspensão bacteriana e pressionada em 2 pontos do limbo foliar.

O delineamento experimental foi em blocos casualizados com sete genótipos, três métodos de inoculação e quatro repetições, sendo considerado como unidade experimental um vaso contendo duas plantas. Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade.

A severidade da doença foi avaliada aos 6, 9, 12, 15, 18 e 21 dias após a inoculação, utilizando uma escala de notas, variando de 0 a 5, sendo nota 0 (plantas sem sintomas), nota 1 (2% da folha com sintomas), nota 2 (até 25% das folhas com sintomas), nota 3 (25 a 50% da folha com sintomas), nota 4 (50 a 80% das folhas com sintomas) e nota 5 (mais de 80% das folhas com sintomas e desfolha).

A área abaixo da curva de progresso de severidade (AACPS) foi calculada pela fórmula: AACPS = ?((Yi + Yi+1)/2)(ti+1 – ti), onde Y representa a intensidade da doença, t o tempo e i o número de avaliações no tempo (2).

Os biofertilizantes Agro-Mos (Cu 3%, S 2,75%, Zn 2%), Cop-R-Quik (Cu 10%, N 4%), FitoForce Plus (extrato de folhas e casca de frutos de café) e Soil-Set (Cu 2%, S 3,75%, Fe 1,6%, Mn 0,8%, Zn 3,2%) foram avaliados quanto a inibição do crescimento de Xanthomonas campestris pv. passiflorae em meio de cultura 523. Em placa de Petri foi adicionada uma camada básica de meio agar-água 2% e outra camada contendo meio nutriente semi sólido (0,8%) acrescida de 10% da suspensão bacteriana (108 UFC.mL-1), cultivada em meio líquido por 24 horas.

Em seguida discos de papel de filtro estéril de 6 mm de diâmetro foram colocados sobre o meio e adicionados 10 µL das diluições seriada (10-1 a 10-4) dos biofertilizantes. Para a testemunha foi utilizada água estéril e para o controle positivo foram utilizados discos contendo antibiótico estreptomicina (10 mg.mL-1). Foram utilizados dois discos para cada concentração e para cada biofertilizante. Os halos de inibição foram avaliados três dias após a incubação em estufa a 28 ºC.

Para área abaixo da curva do progresso da severidade (AACPS) (Tabela 1) da mancha bacteriana do maracujazeiro houve diferença significativa entre os três métodos de inoculação, por pinça (43,86), tesoura (41,50) e aspersão (37,96), onde o método por pinça apresentou maior severidade da doença.

Tabela 1 Área abaixo da curva de progresso da severidade da mancha bacteriana do maracujazeiro, de diferentes genótipos, através de três métodos de inoculação, em condições de casa de vegetação. Uberlândia, MG. 

Genótipos Método de inoculação Média dos genótipos
Pinça Tesoura Aspersão
3º.Bl.9Cx.9 45,50 A 41,00 A 40,00 A 42,17 a
4º.Bl.9Cx.7 42,75 B 40,75 B 34,50 A 39,33 a
5º.Bl.7Cx.5 43,25 A 41,50 A 40,00 A 41,58 a
8º.Bl.5Cx.4 42,00 B 44,75 B 35,25 A 40,67 a
9º.Bl.6Cx.6 44,75 B 40,00 A 37,25 A 40,67 a
Túnel 3 amarelo 44,50 B 43,00 B 36,00 A 41,17 a
Túnel 1 roxo 44,25 A 39,50 A 42,75 A 42,17 a
Média dos métodos 43,86 C 41,50 B 37,96 A
CV (%) 8,89
F (Genótipos) 0,9
F (Métodos de inoculação) 18,44

Médias seguidas de mesma letra minúscula na coluna e maiúscula na linha, não diferem entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste Scott-Knott.

O método de inoculação por pinça provocou uma desfolha mais acentuada das plantas, debilitando-as rapidamente, quando comparado com o método de inoculação por tesoura. O método de inoculação por aspersão apresentou menor quantidade de doença e foi o menos drástico para as plantas de maracujá, o qual representa melhor as condições naturais de infecção. Resultados semelhantes também foram obtidos por Viana (10).

Todos os genótipos de maracujá apresentaram sintomas de mancha bacteriana (Tabela 1) e não houve diferença estatística entre eles, independente do método de inoculação. A AACPS média dos genótipos variou de 42,17 a 39,33, para os genótipos 3º.Bl.9Cx.9 / Túnel 1 roxo e, 4º.Bl.9Cx.7, respectivamente.

Em programas de seleção de cultivares resistentes torna-se importante estabelecer e padronizar o método de inoculação a ser utilizado, optando por aquele que melhor retrate as condições naturais de ocorrência da doença no campo, neste caso representado pelo método de inoculação por aspersão. Os métodos de inoculação por tesoura e pinça tornam-se inviáveis devido aos danos causados nas plantas.

Viana (10) observou diferenças estatísticas entre genótipos de maracujá em relação aos métodos de inoculação por aspersão, tesoura e pinça agrupando-os em resistentes e medianamente resistentes à Xanthomonas campestris pv. passiflorae.

Genótipos de maracujá foram considerados resistentes à Xanthomonas campestris pv. passiflorae, quando inoculados pelos métodos de agulha (9) e aspersão (6), mostrando o potencial das variedades de maracujá, quanto á característica de resistência dentro do programa de melhoramento genético.

Os biofertilizantes FitoForce Plus e Soil-Set nas diluições 10-1 e 10-2 inibiram o crescimento de Xanthomonas campestris pv. passiflorae in vitro, assim como a estreptomicina. O mesmo não ocorre para os produtos Agro-Mos e Cop-R-Quik nas diferentes diluições testadas e também para a água.

O biofertilizante Agrobio controlou Xanthomonas euvesicatoria in vitro (3) e os biofertilizantes Agro-Mos, Cop-R-Quik e Soil-Set reduziram a severidade da mancha bacteriana (Xanthomonas spp.) do tomateiro em casa de vegetação (8). Desta forma, os biofertilizantes apresentam potencial de uso na agricultura, podendo ser recomendados no manejo de doenças, reduzindo o uso de agroquímicos e consequentemente o impacto ambiental.

O método de inoculação por aspersão pode ser recomendado em programas de melhoramento genético do maracujazeiro. Todos os genótipos avaliados foram suscetíveis à Xanthomonas campestris pv. passiflorae.

Os biofertilizantes FitoForce Plus e Soil-Set inibiram o crescimento de Xanthomonas campestris pv. passiflorae in vitro e ensaios deverão ser conduzidos, para avaliar o controle da bacteriose em condições de campo.

REFERÊNCIAS

1 Agrianual. Anuário da Agricultura Brasileira, São Paulo: Informa Economics FNP, 2016. 456 p. [ Links ]

2 Campbell, C.L.; Madden, L.V. Introduction to plant disease epidemiology. New York: Wiley-Interscience, 1990. 532p. [ Links ]

3 Deleito, C.S.R.; Carmo, M.G.F.; Fernandes, M.C.A.; Abboud, A.C.S. Ação bacteriostática do biofertilizante Agrobio in vitro. Horticultura Brasileira, Brasília, DF, v.23, n.2, p.281-284, 2005. [ Links ]

4 Ghini, R.; Bettiol, W. Proteção de plantas na agricultura sustentável. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, DF, v.17, n.1, p.61-70, 2000. [ Links ]

5 Junqueira, N.T.V.; Junqueira, K.P. Manejo das principais doenças do maracujazeiro. In: Sussel, A.A.B.; Medeiros, F.H.V.; Ribeiro Júnior, P.M.; Uchoa, C.N.; Amaral, D.R.; Medeiros, F.C.L.; Pereira, R.B.; Santos, J.; Lima, L.M.; Roswalka, L.C. Manejo integrado de doenças de fruteiras. Lavras: UFLA, 2007. 1 CD-ROM. [ Links ]

6 Kososki, R.M.; Peixoto, J.R.; Junqueira, N.T.V.; Uesugi, C.H.; Melo, B. Reação de genótipos de maracujazeiro-azedo a Xanthomonas campestris pv. passiflorae, em casa de vegetação. Bioscience Journal, Uberlândia, v.24, p.60-66, 2008. [ Links ]

7 Miranda, J.F. Reação de variedades de maracujazaeiro amarelo (Passiflora edulis Sims f. flaviocarpa Deg.) a bacteriose causada por Xanthomonas campestris pv. passiflorae. 2004. 48p. Dissertação (Mestrado em Fitopatologia) - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba. [ Links ]

8 Rodrigues, V.W.B.; Bueno, T.V.; Tebaldi, N.D. Biofertilizantes no controle da mancha bacteriana (Xanthomonas spp.) do tomateiro. Summa Phytopathologica, Botucatu, v.42, n.1, p.94-96, 2016. [ Links ]

9 Viana, C.A.S.; Pires, C.; Peixoto, J.R.; Junqueira, N.T.V.; Berlim, L.E.B. Genótipos de maracujazeiro-azedo com resistência à bacteriose. Bioscience Journal, Uberlândia, v.30, p.591-598, 2014. Suplemento 2. [ Links ]

10 Viana, C.A.S. Resistência de genótipos de maracujá-azedo à bacteriose (Xanthomonas axonopodis pv. passiflorae) e à virose do endurecimento do fruto (Cowpea aphid-borne mosaic virus). 2007. 210p. Dissertação (Mestrado em Fitopatologia) - Universidade de Brasília, Brasília, DF. [ Links ]

Recebido: 26 de Setembro de 2017; Aceito: 04 de Fevereiro de 2019

Autor para correspondência: Nilvanira Donizete Tebaldi (nilvanira.tebaldi@ufu.br)

1

Engenheira Agrônoma, Bolsista de Iniciação Científica, CNPQ

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