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Revista Brasileira de Educação Médica

Print version ISSN 0100-5502On-line version ISSN 1981-5271

Rev. bras. educ. med. vol.29 no.3 Brasília Sept./Dec. 2005  Epub June 15, 2020

https://doi.org/10.1590/1981-5271v29.3-024 

PESQUISA

As Motivações dos Médicos para a Especialização em Homeopatia

Physicia ns' Motivations for Specialization in Homeopathy

Sandra Abrahão Chaim Salles2 

2Médica, especialista em Homeopatia pela AMHB, mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), docente da Escola Paulista de Homeopatia, membro da Comissão de Educação da Associação Médica Homeopática Brasileira, doutoranda da Faculdade de Medicina da USP, no Departamento de Medicina Preventiva, São Paulo, Brasil.


Resumo:

A Homeopatia é uma prática médica que tem se expandido nos setores público e privado de assistência médica de nosso pais. Pouco se sabe sobre o perfil deste profissional e sobre as características de sua prático. Em 1998 iniciou-se o projeto Perfil do Médico Homeopata. Este trabalho apresenta parte dos resultados obtidos neste projeto, que procurou investigar: as razões que levam o médico a buscar a especialização em Homeopatia; aspectos do ato médico incorporados ou modificados após a realização do curso de especialização em Homeopatia e a relação profissional entre o homeopata e outros médicos não homeopatas. Foram utilizados questionários semiestruturados que foram aplicados, na primeira fase a uma amostra casual simples, estratificada por estados, de 110 médicos homeopatas formados entre 1988 e 1998 presentes ao Congresso Brasileiro de Homeopatia de 1998. Na segunda fase questionário semelhante foi enviado por cinco diferentes instituições de ensino de Homeopatia a todos os seus formados no mesmo período, resultando em amostra de 285 médicos que responderam ao questionário enviado. A terceira fase buscou esclarecer e aprofundar, através de entrevistas a onze homeopatas selecionados, aspectos sugeridos pelas fases anteriores. Os resultados aqui apresentados mostram que os médicos buscam a Homeopatia por diversas razões, onde se destacam a insatisfação com os resultados que obtém na sua prática médica, com o tipo de abordagem do doente e da doença que ela lhe propõe e com a falta de recursos para lidar com determinadas queixas; outras razões são a busca de uma medicina que considere o indivíduo em sua totalidade e o fato de terem observado em familiares, pacientes ou em si mesmo, resultados positivos com a Homeopatia.

Palavras-chave: Educação Médica; Homeopatia; Especialização

Abstract:

Homeopathy is a medical practice that has groen steadily in our country, both in the public and private sectors of health assistance. Neverthless, the knowledge about the profile of the homeopathic professional and the characteristics of its practice is very scarce. In 1998 the Homeopathic Doctors Profile Project was started with the purpose of providing information about this issue. Yhis paper presentes part of the results obtained form this Project, whose main goals were:

  • to understand the reasons that lead a physician to look for homeopathic specialization

  • to identify the aspects of the physician’s professional practice that changed after he concluded his homeopathic specialization

  • to describe the professional relationship between homeopathic and non homeopathic physicians.

The investigation was conducted in two differebt phases. In the first phase, 110 homeopathic physicians graduated between 1988 and 1998, selected at random from diferente states of the Union and who had participated in the Brazilian Congresso n Homeopathy in 1998, were submitted to a semi-structured questionnaire. In the second phase, a similar questionnaire was distributed by five diferente homeopathic educational institutions among all of their graduates, resulting in a sample of 285 physicians who answered the questionnaire. In the third phase, eleven homepaths were selected for being interviewed, in order to elucidate some subjects suggested by the previous phases. The results herewith presented show that the physicians looked for homeopathic practice for diferentes reasons, mainly dissatisfaction with the results obtained in their medical practice, the kind of approach to the patient and his disease offered by this practice, and the lack of resources for dealing with certain complaints. Other reasons foud were the search for medical practice that considers the induvidual as a whole and the fact of once having observed good results obtained with homeopathic medicine in relatives, other patients or even in self medication.

Key-words: Education, Medical; Homeopathy; Specialism

INTRODUÇÃO

A Homeopatia tem mantido uma penetração crescente no campo da saúde em todo o mundo e no Brasil em particular, estando atualmente disponível na rede ambulatorial de 92 municípios, com uma produção, Segundo o Datasus, de 292069 consultas em 20031, assim como no setor supletivo, incluindo consultórios particulares, cooperativas médicas e empresas de medicina de grupo.

Desde1980, quando foi reconhecida especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, a procura pela prova de título de especialista em Homeopatia vem crescendo ano a ano. Em 2004 ocorreu, em Brasília, o I Fórum Nacional de Homeopatia, promovido pelo Ministério da Saúde, que convidou, por meio de um subgrupo de Homeopatia, representantes dos diferentes setores envolvidos com o ensino, pesquisa e assistência, para trabalhar na construção de diretrizes, estratégias e normas técnicas para implantação, organização e funcionamento de Serviços/Programas de Homeopatia no SUS.

Ao estudar a escolha da Homeopatia como área de atuação profissional é preciso considerar dois aspectos que a diferenciam das demais especialidades médicas. Um deles diz respeito ao fato de ela constituir uma outra racionalidade médica, que se baseia em uma concepção vitalista acerca do processo saúde-doença2 e que utiliza recursos semiológicos e diagnósticos de forma diferenciada. Esta diferenciação se apresenta principalmente no que se refere à anamnese, que acolhe e valoriza queixas sem função para o diagnóstico clinico, mas fundamentais para o diagnóstico medicamentoso homeopático; o exame físico detalhado que busca sinais externos que corroborem os dados relatados, sejam estes de ordem clínica ou não, pois o (seu) pressuposto de observação é o de que há na totalidade das manifestações um caráter unitário, onde nada deixa de ter sentido, pois tudo o que está presente depende da mesma ordem modificada, e assim nenhuma alteração deixa de ter valor"3. Além do diagnóstico anatomoclínico acrescenta os sintomas individualizadores e constrói um prognóstico do desequilíbrio vital do seu paciente4.

Outro aspecto é a sua rara e recente presença nos currículos das faculdades de medicina, sendo oferecida como disciplina curricular apenas na UNIRIO e como disciplina eletiva em 10 outras escolas médicas do país, em geral com carga horária em torno de 60 horas-aulas5,6. Portanto, a influência das vivências ocorridas nas escolas médicas na escolha da especialidade, com relação à Homeopatia constitui-se fator de menor relevância e requereria um estudo de caso envolvendo essa população restrita que teve acesso a esse conhecimento durante a graduação.

Barros, em sua dissertação de mestrado7, sugere, a partir de entrevistas com médicos da cidade de Campinas, que até os anos oitenta a opção pelas "práticas não biomédicas" referia-se muito mais marcadamente a uma perspectiva contra ­ cultural e certa desobediência civil, mas após este período o fator econômico estaria mais presente. Outra investigação, realizada entre formados de um curso de especialização em Homeopatia da cidade de São Paulo aponta como principais razões para terem procurado especializar-se em Homeopatia a necessidade de complementar sua atuação clínica e o fato de lerem conhecimento anterior positivo nesta área8.

Considerando a necessidade de ampliar a investigação sobre o assunto esta questão tomou-se um dos eixos centrais da pesquisa sobre o Perfil do Médico Homeopata9.

METODOLOGIA

Uma investigação sobre o perfil dos médicos homeopatas fo iconduzida no período de 1998a 2002, tendo três objetivos definidos:

  1. conhecer as motivações que levaram os médicos a buscar a especialização em Homeopatia nos últimos dez anos;

  2. investigar a prática clínica no exercício desta especialidade, buscando explicitar, em cada etapa do ato médico, aspectos que foram incorporados ou modificados como decorrência da aquisição dos conceitos homeopáticos e treinamento na especialidade nos cursos de especialização;

  3. trazer à tona as percepções sobre as relações que se estabelecem, no campo profissional, entre os homeopatas e os médicos não homeopatas de outras especialidades.

Esta pesquisa foi desenvolvida em três fases distintas, com triangulação dos resultados de cada etapa, visando investigar o mesmo tema sob diferentes abordagens. É importante ressaltar que, sendo os conteúdos de mesma natureza, nas etapas que se sucederam, alguns pequenos ajustes foram feitos nos instrumentos de investigação.

Fase I - questionário semi-estruturado aplicado a uma amostra casual simples, estratificada por estados, de população de médicos homeopatas presentes ao Congresso Brasileiro de Homeopatia de 1998, excluindo aqueles que concluíram a especialização antes de 1988. Este congresso registrou, ao final, a presença de 736 médicos homeopatas. Supondo que a proporcionalidade de formados entre 1988 e 1998 tenha sido igual à observada nas pré-inscrições, haveria um universe de 234 médicos a serem investigados. A amostra, de 110 indivíduos, foiobtida a partirda listagem de médicos pré-inscritos, 473 no total, dos quais apenns 151 atendiam ao critério de inclusão. A proporcionalidade por estados resultou em amostra muito semelhante aos resultados obtidos pela pesquisa sobre o perfil do médico brasileiro no que se refere à distribuição por grandes regiões10.

Fase II - questionário semi-estruturado enviado a todos os médicos formados na especialidade a partir de 1988, por entidades formadoras de São Paulo, Minas Gerais, Riode Janeiro, Mato Grosso do Sul e Paraná. Foram 285 questionários respondidos e analisados, de um total de 1.745 enviados, o que corresponde a16% do conjunto de homeopatas formados por estas instituições neste período.

Fase III - entrevistas realizadas em amostra intencional de médicos homeopatas formados após 1988, com atividade clínica em Minas Gerais, Riode Janeiro e São Paulo (11 indivíduos entrevistados). A amostra intencional, na pesquisa qualitativa, visa trazer à tona toda a diversidadeque poderia estar presente no campo investigado. Para tanto buscou-se entrevistar médicos com tempos de formado diversos, que frequentaram variadas e representativas instituições de ensino homeopático e que atuam em diferentes realidades (indivíduos que atuam apenas em consultório particular, atendendo ou não pacientes conveniados, em consultório e serviço público, em ambulatório de medicina de grupo ou em organização não-governamental; no interior e na capital de São Paulo, Minas Ge rais, Paraná e Rio de Janeiro; indivíduos com e sem atividade docente).

A população investigada, em todas as fases, foi constituída por médicos que concluíram curso de especialização em Homeopatia no período compreendido entre 1988 e 1998. A razão para esta delimitação foi a necessidade de obter informações acerca de um grupo que freqüentou cursos que atendiam as definições da Associação Médica Homeopática Brasileira para a carga horária e curriculo mínimo.

Os campos investigados também se repetiram nas três fases, o que permitiu confrontar resultados para minimizar as possíveis distorções provocadas pelos vieses amostrais, e, por ocasião das entrevistas, esclarecer conteúdos sugeridos pelos questionários.

Para a obtenção do Discurso do Sujeito Coletivo11, metodologia de apresentação dos dados escolhida para esse estudo, as entrevistas foram realizadas segundo um roteiro semiestruturado, que dava aos entrevistados a possibilidade de uma narrativa livre e espontânea, garantindo, ao mesmo tempo a abordagem de todos os temas propostos. O material discursivo obtido foi transcrito e do texto completodas entrevistas selecionadas:

  • idéias que sugerem relações imediatas com os temas propostos;

  • idéias que se repetem em diferentes momentos de uma mesma entrevista ou em entrevistas diferentes;

  • idéias expressas com ênfase pelo entrevistado;

  • idéias que promovem conexões com outros temas relevantes dentro do assunto em estudo;

  • idéias que esclarecem ou sintetizam outras, apresentadas por outros indivíduos.

Este material foi então organizado nos instrumentos de análise de discurso - etapa intermediária até a confecção do Discurso do Sujeito Coletivo, que apresentará as principais idéias expostas pelocoletivodos entrevistados. Ao proporeste tipo de apresentação, objetiva-se garantir o acesso às diferentes formas de pensar os temas estudados que se revelaram nestegrupo.

RESULTADOS

O Perfil do Médico Homeopata

Os questionários aplicados nas fases I e II sugerem que o médico homeopata formado no período compreendido entre os anos de 1988 e 1998 pode ser descrito, nessas amostras obtidas, como um profissional na sua maioria do sexo feminino (62,7% e 56% nas fases I e ll, respectivamente), com mediana de 42 anos na fase I e de 39,5 na fase II.

Na Fase I os resultados apontaram que antes de se especializar em Homeopatia 59,1% havia realizado alguma residência, 23,6% algum estágio e 13,6% mestrado. O tempo médio de especiali:zação, antes da Homeopatia, por indivíduo, foi de 2,2 anos. As áreas mais citadas foram Pediatria e Clínica Médica. Estes dados são semelhan tes aos obtidos na Fase II que mostra que 54% fez residência, 16% estágio e 8% mestrado, com a Pediatria sendo a área mais citada.

Alguns aspectos devem ser considerados quanto a esses resultados. É preciso observar que os entrevistados da Fase I eram participan tes de um congresso da especialidade, o que poderia levar a um viésde amostra, razão para uma segunda investigação no universo dos formados neste período, buscando detectar proximidades ou diferenças. Esta confrontação revelou semelhanças em aspectos substantivosda investigação: formação profissional, local de trabalho, motivações para a realização da especialização em Homeopatia, características da prática homeopática, dificuldades enfrentadas ao concluir a especialização, sugestões para melhorar a qualidade dos cursos de especialização e outros. Assim, quanto aos conteúdos referidos ao tema deste artigo, observa-se que expressam os mesmos resultados nas duas fases.

A dificuldade na obtenção de dados referentes a este período quanto à idade, ao sexo e até ao número exato de alunos da totalidade das entidades formadoras do país foi fator limitante para a realização de análises estatísticas que permitiriam a generalização dos resultados obtidos.

Fonte: Salles SAC. Perfil do Médico Homeopata, 2002

Gráfico 1 Distribuição do númeto de homeopatas Segundo a opção apontada como primeira motivação para procurer a espercialização em Homeopatia, Gramado, 1998. 

Gráfico 2 Distruibuição do número do homeopatas segundo a opção apontada como primeira motivação para procurer a especializaçao em Homeopatia, SP, RJ, MS, MG, PR, 2000-2001. 

As Motivações para a Busca da Especialização em Homeopatia

Fase I: quando questionados sobre as motivações que os levaram a procurar o curso de especialização em Homeopatia, somando-se os itens apontados por todos os respondentes (110 indivíduos) como PRIMEIRA MOTIVAÇÃO, os resultados foram1:

Além destas opções, sugeridas pelo questionário, alguns formados descrevem, como outros motivos para terem procurado a Homeopatia: "a busca de uma medicina diferente, do todo, mais profunda, espiritualizada”; "a busca de uma abordagem diferente do paciente, mais próxima, como um todo”; "por sentir-se um técnico"; "por achar a medicina bestial"; "para conhecer algo que ignorava".

Fase II: resultados indicados como PRIMEIRA MOTIVAÇÃO pelos respondentes (285 indivíduos)

Os resultados, semelhantes nas duas fases, apontam uma predominância das razões relacionadas à insatisfsção com a sua prática médica ao ladoda observação de resultados positivos obtidos pela Homeopatia.

Fase III: Resultados das entrevistas (11 indivíduos)

Este tema foi reapresentado nas entrevistas com a seguinte pergunta aberta: "Por que você decidiu procurar a especialização em Homeopata?" Apresentaremos aqui as respostas na forma de discurso do sujeito coletivo, cuja metodologia foi indicada anteriormente:

Observação de Resultados com Tratamento Homeopático

Foi vendo a Homeopatia em ação. Eu vi o colega tirar crises de bronquite dando medicamentos para as crianças no corredor do Posto de Saúde, eu via a paixão que meus sobrinhos tinham pelo homeopata deles e eu vi a evolução dos meus filhos. Foi uma experiência de mãe primeiro, para depois se tornar uma experiência profissional. Meu filho tinha passado por alergistas e pneumologistas: ele fazia crises de bronquite. Foi uma surpresa para mim, porque eu comecei a usar o medicamento e em poucas horas meu filho estava eupnéico, sem secreção, sem ruídos adventícios, sem nada. Foi uma evolução que eu nunca tinha visto nem em outras crianças e no meu filho muito menos. Foi uma emoção muito forte, e aí eu decidi que queria estudar Homeopatia.

Eu fui tratada na infância para bronquite, e já adulta fui encaminhada para tratar uma infecção urinária crônica. Tinha feito todos os tratamentos e fui fazer Homeopatia. E tive uma reação muito boa, parei de ter infecções urinárias. Mas não só isto melhorou, foi um empurrão na minha vida. Portanto, o que me motivou foi a crença em algo que vi na prática dar resultado.

Buscando uma Abordagem da Totalidade

Eu tinha uma certa insatisfação: sabe quando você vê que os pacientes melhoravam entre aspas, não ficavam bem. Eu queria que eles se sentissem melhores não sô da patologia, mas como um todo mesmo. Era uma coisa que me atraía esta história que a Homeopatia trata o indivíduo como um todo, trata ele no geral. Eu sempre gostei da clínica geral e a clínica é muito restrita, frustrante mesmo. Foi um certo desgosto com a prática clínica geral. Eu queria alguma coisa a mais.

Você tem um paciente e fica encaminhando. Eu comecei a me achar meio traidora, isto me incomodava, meu paciente não voltava mais. Minha atuação como clinica esbarrava na minha dificuldade em dominar todas as especialidades. A pessoa vinha ao consultório e falava: dói o estômago, a cabeça, a perna. Eu falava: será que vou ter que dar um remédio para cada coisa?

Na alopatia a busca da especialização acaba afastando o médico do seu objeto de estudo que é o ser, o indivíduo . Falta na formação médica um conhecimento de filosofia e por isso um conhecimento do ser humano. A Homeopatia tem conceitos filosóficos, tem conceito de enfermidade e por isto ela olha de cima, ela olha a totalidade, e com isso é possível se situar melhor no caso. A Homeopatia te faz entender a pessoa como objeto do seu estudo.

Insatisfação com Resultados Terapêuticos

Angústia muito grande com a resolubilidade dos casos. Paciente ficar internado dois meses, resolver muito parcialmente a situação dele e ficar reinternando uma entidade crônica, que vai só piorando. Quando eu comecei a conhecer a Homeopatia e vi que resolvia os casos, tinha uma melhor resolubilidade, isto me fez optar por atuar como clínica geral dentro da Homeopatia.

Eu trabalhava como pediatra frustrada, insatisfeita por que achava que não curava ninguém. Diante de uma criança com amidalite, eu era absolutamente frustrada, porque eu só tinha à mão antibiótico para dar, e via aquela criança depois de quinze dias com outro quadro, e você absolutamente inerte diante daquilo. Insatisfação mesmo com o trabalho. Frustração na parte terapêutica, principalmente.

Dificuldade para Tratar alguns Sintomas: Buscando mais um Recurso Terapêutico

Eu queria um recurso terapêutico a mais, eu precisava ampliar a forma de atuar. Eu sentia dificuldade para tratar algumas patologias como distúrbio de sono em crianças. Eu examinava as crianças, e a mãe falava "Dr., ele é muito nervoso!". E eu não sabia o que fazer. Será que não tem nada que eu possa fazer? Será que tenho que mandar para o psicólogo ou para o psiquiatra? Como médico, eu achava uma coisa muito fria dar Benzetacil e mandar embora, com a mãe queixando do comportamento da criança, do relacionamento dela com as pessoas. Com os medicamentos que eu podia dar eu sabia que não ia resolver o problema da criança que não dorme de noite, da criança irritada, da criança que tem distúrbios de comportamento.

Ou uma pessoa que me procurava com depressão. Eu tratava com as drogas antidepressivas, mas eu achava que ficava devendo, que faltava alguma coisa.

Eu fui ensinada, durante toda a faculdade, a desprezar todas as queixas que o pacíente me trouxesse e que não me servissem para chegarao diagnóstico clínico.O medico é treinado para ignorar tudo o que o paciente fala e que não sirva para um diagnóstico clínico.

Estes outros sintomas, como os que a mãe traz a respeito da criança que não dorme à noite, da criança que é irritada, que tem distúrbios de comportamento, ou o paciente que conta que dói aqui, o cabelo, e depois na pontinha, é como se não existissem. Na verdade eu não sabia o que fazer com eles e sabia que com os medicamentos que eu podia receitar eu não iria resolvê-los. Então, eu não tinha como ajudar, e a consulta era uma coisa fria.

Na alopatia a busca da especialização acaba afastando o médico do seu objeto de estudo que é o ser, o indivíduo. Aí Você ouve coisas dos colegas que reclamam do paciente que está com dor no estômago e vem falar da filha, do marido. Ele não consegue juntar estas coisas, então o problema da filha é com o psicólogo e não com o médico que está ouvindo sobre a dor do estômago ou da cabeça.

Hoje em dia, a minha relação médico-paciente é muito baseada na confiança: a pessoa senta e se sente escutada. Ela, com a intenção de que alguém que detém o conhecimento possa ajudá-la, e eu, com o objetivode compreender melhor o adoecer do ser humano e, utilizando os sintomas homeopáticos, encontrar um medicamento. Pergun taram-me se eu não poderia fazer tudo o que eu faço sem ser homeopata, eu poderia, mas faltaria o recurso terapêutico.

Em busca de um sonho

O que me levou? A clareza de que era fantástica. Era uma forma de tratar pessoas totalmente diferente daquela que tinha aprendido na escola, que eu questionava o tempo inteiro antes. Fui fazer medicina do trabalho também, mas aí foi uma coisa utilitarista. Homeopatia não, foi um sonho. Eu já tinha interesse quando estava na faculdade, mas nada acontecia lá em relação à Homeopatia. Agente não tem acesso à história da Homeopatia, à sua filosofia, na escola médica. Eu não tinha conhecimento nenhum da Homeopatia, não sabia como era, o que ela se determinava a fazer. Uma amiga vinha fazer o curso de Homeopatia e ficava em casa. Começaram a entrar livros de Homeopatia em casa. Estimulou minha curiosidade, fui ver o que era e achei uma coisa extremamente peculiar e diferente da alopatia.

CONCLUSÕES

Os resultados indicados pelos questionários foram esclarecidos e ampliados através das entrevistas, mostrando que o médico homeopata formado entre 1988 e 1998 no Brasil buscou a Homeopatia como uma segunda especialidade médica, após residência em Pediatria, Clínica Médica ou Ginecologia Obstetrícia, por não se satisfazer com a abordagem do doente e da doença que conhecia, nem com os resultados que obtinha com a terapêutica que utilizava; por se angustiar ao ouvir queixas para as quais não dispunha de recursos terapêuticos ou ao se deparar com a recorrência de sintomas e doenças; por desejar, enfim, cuidar do indivíduo em sua totalidade e não apenas de seus órgãos doentes.

O contato com colegas homeopatas, parentes em tratamento, ou a experiência pessoal com um tratamento homeopático foram fatores que deflagraram a procura da especialização que visava buscar um conhecimento que não lhe foi oferecido na escola médica.

REFERÊNCIAS

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1Trabalho baseado em dissertação de mestrado apresentado na Faculdade de Saúde Pública da USP, sob a orientação de Fernando Lefevre, no Departamento de Práticas em Serviços de Saúde em dezembro de 2001.

1Pergunta semi-aberta, com hierarquização das motivações em primeira, segunda, terceira, etc. Aqui é apresentada a resposta indicada como primeira motivação.

Recebido: 21 de Outubro de 2004; Revisado: 04 de Abril de 2005; Aceito: 26 de Julho de 2005

Endereço para correspondência Rua Tomé de Souza, 130 - Alto da Lapa 05085 000 - São Paulo - SP e-mail: sandrachaim@terra.com.br

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