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Revista Brasileira de Educação Médica

Print version ISSN 0100-5502

Rev. bras. educ. med. vol.36 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-55022012000100005 

PESQUISA

 

Inserção, renda e satisfação profissional de médicos formados pela Unesp*

 

Professional insertion, income and satisfaction of physicians graduated from Unesp

 

 

Albina Rodrigues Torres; Tânia Ruiz ; Sérgio Swain Müller; Maria Cristina Pereira Lima

Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Botucatu, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a inserção profissional, o nível de renda e de satisfação de médicos formados na Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) assim como possíveis fatores associados a tais desfechos.
MÉTODOS: Estudo transversal, tendo como população-alvo todos os médicos formados entre 1968 e 2005, utilizando-se um questionário autoaplicável.
RESULTADOS: A taxa de resposta foi de 45%, 1.224 dos 2.864 questionários enviados por correio. A média de idade dos participantes foi de 46,5 anos (± 10,9) e 64,4% eram homens. A maioria (98,6%) referiu exercer a profissão, residir no Estado de São Paulo (96,4%), ter feito residência (92,0%) e frequentar eventos científicos regularmente (80,2%). Referiram morar em cidades do interior 70,4% e ter clínica privada 67,4% dos egressos. Renda mensal entre R$ 10 e 15 mil foi relatada por 28,4% e satisfação profissional grande ou muito grande por 66,1% deles. Nos modelos de regressão logística, mantiveram-se significativamente associados a maior renda: sexo masculino, ter clínica privada, ter filhos e estar profissionalmente satisfeito. Maior satisfação associou-se com menor idade e maior renda, fazer doutorado, considerar que foi bem preparado para a profissão, afirmar que faria Medicina novamente e avaliar positivamente sua qualidade de vida e saúde mental.
CONCLUSÕES: A inserção profissional de ex-alunos é importante na avaliação institucional, devendo ser realizada regularmente para subsidiar as discussões sobre reforma curricular.

Palavras-chave: Médico. Medicina. Prática Profissional. Trabalho. Local de Trabalho. Satisfação no Emprego. Renda.


ABSTRACT

OBJECTIVE: Evaluatethe professional insertion, income and satisfaction of physicians who graduated from Botucatu Medical School (UNESP), as well as possible risk factors associated with these outcomes.
METHOD: A cross-sectional study with a target population of all physicians graduated between 1968 and 2005, using a self-reporting questionnaire.
RESULTS: The response rate was 45%, 1,224 of the 2,864 questionnaires sent by mail. The participants' mean age was 46.5 years old (± 10.9) and 64.4% of them were men. The majority of them were practicing as medical doctors (98.6%), in São Paulo state (96.4%); 92.0% reported having received residence training and 80.2% reported attending scientific events on a regular basis. Most of them did not live in the capital cities (70.4%) and reported having some private practice (67.4%). A monthly income of 10 to 15 thousand reais was reported by 28.4% and a high or very high degree of professional satisfaction by 66.1% of them. Logistic regression analysis showed the following variables as significantly associated with higher income: male gender, private practice, having children and being satisfied with the profession. Higher satisfaction was associated with younger age, higher income, taking a post graduate (PhD) course, considering oneself well prepared for the profession, stating that he/she would attend Medical School again and evaluating positively one's quality of life and mental health.
CONCLUSION: The professional insertion of ex-students is an important aspect of institutional evaluation and should be conducted regularlyin order to support discussions regarding curricular reform.

Keywords: Physicians. Medicine. Professional Practice. Work. Workplace. Job Satisfaction. Income.


 

 

INTRODUÇÃO

A avaliação precisa ser espelho e lâmpada,
não apenas espelho.
Precisa não apenas refletir a realidade,
mas iluminá-la, criando enfoques, perspectivas, mostrando relações, atribuindo significados.

(Ristoff, 1996) 1

A avaliação contínua da qualidade dos cursos universitários é de fundamental importância, tendo se tornado obrigatória no Brasil tanto em nível federal2 quanto no Estado de São Paulo. Na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), tem sido estimulada a adoção de uma cultura avaliativa por professores, funcionários e alunos, refletida na criação dos Grupos de Avaliação Local (Gral). Estes grupos têm realizado avaliações em cada uma das unidades, para compor, num segundo momento, a avaliação geral da Unesp. Segundo Zainko3, a avaliação institucional deve ser "um processo sistemático, participativo, democrático e principalmente de caráter construtivo, possibilitando a indispensável autocrítica, identificando pontos positivos e problemáticos da instituição universitária, indicando as questões prioritárias para o melhoramento da qualidade dos processos institucionais".

A opinião dos alunos e ex-alunos de graduação é um aspecto fundamental da avaliação dos cursos em geral, havendo algumas escolas que já investigaram opiniões e inserção no mercado de trabalho de seus egressos, com finalidade avaliativa4-6. No âmbito da Unesp, estratégias têm sido desenvolvidas para que os ex-alunos forneçam informações sobre quão adequadamente a universidade os tem capacitado para o mercado de trabalho.

A Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) - Unesp iniciou suas atividades em 1963, tendo formado sua primeira turma de 90 médicos em 1968. Embora a avaliação do curso pelos graduandos seja uma prática já bem estabelecida na FMB7,8 a instituição não possuía, ainda, uma cultura de avaliação do curso por seus ex-alunos, havendo apenas um inquérito conduzido por Ruiz e Morita, em 19919, que investigou a opinião dessa população. Na ocasião, as autoras realizaram uma enquete postal junto a egressos da FMB, a partir de uma amostra aleatória, tendo obtido uma taxa de resposta de 40,5%.

O presente estudo faz parte de um amplo levantamento conduzido na FMB - Unesp a partir de 2007, que teve como objetivos avaliar a opinião dos médicos ex-alunos desta instituição de ensino sobre o curso de graduação, sua inserção e satisfação profissionais, assim como a autoavaliação destes em relação à sua qualidade de vida, saúde física e saúde mental. Este estudo aborda os aspectos de inserção/atuação, renda e satisfação profissionais dos participantes.

 

MÉTODO

Foi realizado um estudo de corte transversal, no qual todos os médicos formados pela FMB - Unesp entre os anos de 1968 (primeira turma) e 2005 (38ª turma) foram considerados possíveis participantes. Um questionário (disponível sob solicitação) foi especialmente elaborado e enviado por correio em fevereiro de 2007 a toda a população-alvo do estudo, ou seja, 2.864 ex-alunos. Foram enviados envelopes com o questionário, uma carta explicativa e outro envelope já selado, que deveria ser reenviado à FMB com o questionário preenchido anonimamente. Termos de consentimento também foram incluídos, para serem devolvidos em envelope separado, o que permitiu o controle de recusas e um segundo envio do questionário, em outubro de 2007, para tentar minimizá-las. Os questionários devolvidos foram entregues para digitação. Havia ainda a opção de responder ao questionário online pela internet, através de senha no site da FMB, para os ex-alunos que assim preferissem. O preenchimento online seguiu o mesmo procedimento do questionário escrito, sendo apenas adaptado ao ambiente virtual e tendo a assinatura do termo de consentimento como pré-requisito para seu preenchimento. As faixas de renda foram agrupadas em salários mensais até R$ 15 mil ou acima deste valor. Os níveis de satisfação profissional estabelecidos foram: muito grande, grande, médio, pequeno e muito pequeno. Posteriormente, os níveis muito grande e grande foram agrupados para comparação com os três demais.

Análise Estatística

A análise foi realizada através de métodos quantitativos no programa Stata 10.0 software10. Foi feita inicialmente uma análise descritiva de todas as variáveis, seguida de análises univariadas para identificar possíveis associações, elegendo-se como variáveis dependentes nível de renda e de satisfação profissional. Utilizou-se o teste de qui-quadrado de Pearson (ou o teste exato de Fisher, quando indicado) para variáveis categoriais e o teste t de Student para variáveis contínuas. A seguir, foi feita análise multivariada, utilizando-se Regressão Logística (tipo stepwise), obtendo-se, assim, razões de chance ou odds ratios (OR) ajustadas11. No modelo logístico, para ajustar as associações entre as variáveis dependentes (renda e satisfação profissional) para possíveis fatores de confusão, incluíram-se todas as variáveis explanatórias que apresentaram valor de p < 0,10 na análise univariada. Independentemente da significância estatística, optou-se por incluir também idade e sexo, para obter OR ajustadas e não confundidas com estas variáveis demográficas. O nível de significância estatística adotado foi p < 0,01, em função do grande tamanho da amostra e dos vários cruzamentos realizados, o que poderia aumentar as chances de erro tipo 1.

Aspectos Éticos

Os questionários não eram identificados, e seus dados foram analisados em conjunto, garantindo o anonimato dos participantes. Todos assinaram um termo de consentimento de participação. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FMB em 4 de dezembro de 2006 (of. n° 612/2006).

 

RESULTADOS

Dos 2.864 questionários enviados, 1.224 (44,9%) foram respondidos e reencaminhados à FMB. Setenta e dois (2,5%) ex-alunos estavam com os endereços desatualizados, não tendo sido localizados, e 64 óbitos foram notificados (2,2%). Os demais não foram respondidos no intervalo de um ano, mesmo com um segundo envio do questionário por correio. Dos questionários respondidos, o menor número por turma de formandos foi de 11 questionários e o maior de 46. Como cada turma tem 90 alunos, a taxa de resposta variou de 12,2% a 51,1% dos formandos entre 1968 e 2005, sendo que nenhuma turma ficou sem representação no estudo. Da primeira à décima turma foram 27,9% dos questionários; da 11ª à 20ª turma foram 29,5%; da 21ª à 30ª turma foram 24,5%; e das oito últimas turmas avaliadas (31ª à 38ª) 17,2%, faltando tal informação em 29 questionários.

No universo de questionários enviados (2.864), a proporção de homens era de 63,8% e a de mulheres de 36,2%. Dos 1.224 ex-alunos que responderam o questionário, 791 (64,6%) eram homens e 411 (33,6%) mulheres, havendo 22 questionários (1,8%) sem informação sobre sexo (Tabela 1). Comparando-se a amostra com o universo dos ex-alunos da FMB, não se observou diferença estatística na proporção de homens e de mulheres (p = 0.24).

 

 

A média da idade dos ex-alunos foi de 46,5 anos ± 10,9, variando entre 24 e 72 anos. Tinham até 29 anos de idade 5,8% dos participantes; entre 30 e 39 anos, 22,6%; entre 40 e 49 anos, 28,9%; entre 50 e 59 anos, 26,6%; e 60 anos ou mais, 16,1% (Tabela 1), tendo mais de 70 anos apenas um indivíduo. A maior parte dos ex-alunos estava casada ou em união estável (77,5%) e referiu ter pelo menos um filho (76,0%). A grande maioria dos ex-alunos reside no Estado de São Paulo (96,4%), sendo que, destes, 70,4% moram no interior do Estado (Tabela 1). Comparando-se os gêneros, observa-se que os homens tiveram média de idade mais alta, eram mais frequentemente casados e com filhos, e moravam com mais frequência do que as mulheres em cidades do interior e em municípios com menos de 500 mil habitantes (Tabela 1).

Em relação ao prosseguimento da formação profissional após a graduação (Tabela 2), 1.100 ex-alunos (92,0%) já haviam cursado ou estavam cursando algum programa de residência médica (RM) na ocasião do inquérito e 75,6% fizeram ou estavam fazendo especialização. Quanto a título de especialista, 80,8% afirmaram possuí-lo. Além disso, 80,2% afirmaram frequentar congressos e outros eventos científicos, 75,5% receber revistas científicas e 62% acessar sites científicos regularmente. Quanto à pós-graduação, senso estrito, 14,3% fizeram ou estavam fazendo mestrado, 10,4% doutorado e 2,7% pós-doutorado. Na comparação entre homens e mulheres, apenas o recebimento regular de revistas científicas foi mais relatado pelos primeiros (Tabela 2), não havendo outras diferenças significativas de gênero nesses aspectos. As médicas, porém, tenderam a assinar periódicos eletrônicos e a participar de congressos e outros eventos científicos com maior frequência do que os colegas.

 

 

A Tabela 3 mostra aspectos da atuação profissional dos ex-alunos. Observa-se que quase 99% afirmaram exercer a medicina, sendo que em torno de 40% atuavam em mais de uma especialidade, o que ocorreu mais comumente entre os homens. Em relação a vínculos empregatícios, 29,4% referiram ter na ocasião algum vínculo público municipal, 23,5% estadual e 8,0% federal, sendo o último tipo mais comum entre os homens. Referiram atuar em universidades públicas ou privadas 14,3% e 3,1% da amostra, respectivamente, sendo que as mulheres atuavam como médicas em instituições públicas de ensino mais frequentemente do que os homens. Já em cooperativas médicas relataram trabalhar 41,3% dos egressos (mais os do sexo masculino), enquanto 16,9% referiram atuar em empresas médicas ou de medicina de grupo. Relataram ter clínica privada 67,4% dos participantes, mais frequentemente homens. No que se refere aos serviços nos quais trabalhavam, 23,3% atuavam em ambulatórios públicos de especialidades, 15,9% em Unidades Básicas de Saúde (UBS), 14,5% como diaristas e 10,7% como plantonistas em hospitais, 12,3% em serviços de Pronto Atendimento e apenas 2,6% no Programa de Saúde da Família (PSF). Enquanto este último cenário de prática foi mais relatado por mulheres, os ambulatórios de especialidades foram mais referidos pelos homens (Tabela 3). Quanto ao número de vínculos empregatícios, 26,2% afirmaram ter apenas um, 34,3% dois, 27% três, 9,3% quatro e 1,5% cinco ou mais (dados não apresentados em tabela).

 

 

A Tabela 4 apresenta os dados de renda e satisfação profissional por faixas, comparando-se os sexos, e demonstra renda média mensal significativamente mais alta entre os homens. Observa-se também a predominância de sujeitos com ganhos mensais entre R$ 5 e 10 mil na ocasião (34,4%), seguidos daqueles com renda entre R$ 10 e 15 mil (28,4%). Ainda nesta tabela, nota-se que a maior parte dos ex-alunos referiu grau de satisfação grande (46,0%) ou muito grande (20,1%) com a profissão, o que totaliza 66,1%. Quarenta e um indivíduos não responderam a esta questão.

 

 

Já na Tabela 5, que descreve o resultado final da análise de regressão logística sobre renda, observa-se que renda mais alta (igual ou superior a R$ 15 mil ao mês) associou-se de modo independente às seguintes variáveis explicativas: sexo masculino, ter filhos, ter clínica privada e estar satisfeito ou muito satisfeito com a profissão.

 

 

Quanto à satisfação, a maior parte dos ex-alunos (66,1%) referiu grau de satisfação grande ou muito grande com a profissão, enquanto 27,9% deles relataram nível médio e apenas 6,0% níveis baixos. Trinta e cinco indivíduos não responderam a esta questão. Agrupando-se satisfação grande e muito grande e comparando-se com os demais níveis de satisfação, observa-se na análise multivariada (Tabela 6) que insatisfação profissional se manteve independentemente associada com maior idade e menor faixa de renda. Aqueles que não escolheriam fazer Medicina novamente apresentaram maior risco de estarem insatisfeitos, assim como aqueles que afirmaram que a FMB não os preparou bem e aqueles com qualidade de vida e saúde mental regular/ruim ou muito ruim. Fazer doutorado foi um fator protetor contra a insatisfação profissional.

 

 

DISCUSSÃO

A avaliação da inserção profissional de ex-alunos é fundamental em todo processo de avaliação institucional sobre a qualidade do ensino. Este é o segundo inquérito postal que procurou avaliar a situação profissional dos ex-alunos do curso de Medicina da FMB - Unesp, o primeiro tendo sido realizado em 1991, por amostragem. O presente estudo é, portanto, pioneiro em abrangência, na medida em que teve como população-alvo todo o universo de ex-alunos graduados entre 1968 e 2005, diferentemente também do levantamento do Cremesp de 200712, que entrevistou por telefone apenas uma amostra de 400 médicos do Estado. Além disso, após as análises univariadas, realizaram-se regressões logísticas para controlar possíveis variáveis de confusão em relação aos dois principais desfechos estudados (nível de renda e de satisfação profissional).

Apesar destes aspectos positivos, este estudo apresenta algumas limitações, que devem ser consideradas. A primeira delas é a taxa de resposta, uma questão central nos estudos transversais. O percentual obtido (45%) pode ser considerado satisfatório, uma vez que o esperado em enquetes postais é de 30% a 40%13 e que nenhuma turma ficou sem representação na amostra. Além disso, a taxa de resposta obtida foi superior às de estudos similares conduzidos no Brasil, que foram de 25% na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto5 e 32% na Universidade Luterana do Brasil14. É importante destacar que durante a coleta de dados o Cremesp estava em processo de recadastramento dos médicos do Estado de São Paulo, tendo havido dificuldades no envio de lista de endereços atualizada. Ao lado disto, acredita-se que o número de óbitos esteja subestimado, pois foi de apenas 2,2%. Outro aspecto diz respeito ao viés de resposta. Não se pode descartar a possibilidade de que os ex-alunos que avaliam de maneira mais satisfatória sua formação e prática profissional tenham tendido a responder à enquete, enquanto alunos com uma avaliação menos favorável tenham tendido a não participar. Por fim, o desenho transversal do estudo impossibilita conclusões sobre causalidade, indicando apenas associações entre os desfechos e possíveis variáveis explicativas.

Sendo a FMB localizada em uma cidade pequena, com aproximadamente 130 mil habitantes, na região central do Estado, recebe muitos alunos procedentes de outras cidades do interior, que aparentemente optam por continuar vivendo e trabalhando fora dos grandes centros urbanos após a conclusão do curso. Assim, pode-se constatar que 61% dos ex-alunos residem em municípios com menos de 500 mil habitantes. Esses dados ficam mais expressivos quando se sabe que apenas 37% dos médicos do Estado de São Paulo residem em cidades do interior, fora da grande São Paulo12. Tal pesquisa do Cremesp, publicada em 200712, foi conduzida por telefone, por amostragem, com 400 médicos, sendo que seus resultados foram ponderados por sexo, idade e região. Como mais de 95% dos ex-alunos da FMB trabalham no Estado de São Paulo, a comparação dos dados com o estudo citado é possível. Ressalte-se, no entanto, que o levantamento do Cremesp incluiu apenas médicos mais jovens, formados entre 1996 e 2005.

Sabe-se que o ingresso de formandos nos programas de residência médica (RM) tem se tornado cada vez mais difícil, pelo grande número de escolas médicas criadas no País nos últimos anos12. Soma-se a isto o fato de que não tem havido aumento no número de bolsas disponíveis para a RM, apesar de vários programas terem tido sua duração obrigatória aumentada nos últimos anos. Assim, a proporção de vagas é cada vez menor em relação ao número de candidatos, fazendo com que apenas os melhores alunos consigam cursar um programa de RM credenciado pelo Ministério da Educação e Cultura. Pode-se inferir, deste modo, que a proporção de ex-alunos que tem acesso a programas de RM credenciados acaba se tornando um indicador indireto da qualidade do curso de graduação. Talvez este indicador venha se tornando menos fidedigno nos últimos anos, com a expansão dos cursos particulares preparatórios para os exames de RM, mas a última turma de formandos avaliada neste estudo foi de 2005. Dados do Conselho Federal de Medicina de 2007 apontam que apenas 36,4% dos médicos formados no País entre 1996 e 2005 e 47% dos graduados no Estado de São Paulo no mesmo período fizeram RM12, mostrando que o percentual de alunos da FMB que cursaram RM é bastante elevado. Ressalte-se ainda que, dentre os que fizeram ou fazem RM, apenas uma minoria (6%) afirmou que esta não foi na área de sua primeira escolha. É importante destacar, no entanto, que a escassez de vagas para RM é um fenômeno mais recente e que vem se agravando progressivamente, de modo a atingir cada vez mais os formandos. Além disso, tal impacto não é o mesmo para graduados em universidades públicas e privadas, afetando principalmente os últimos. Assim, os resultados obtidos devem ser interpretados com cautela, uma vez que o presente estudo incluiu profissionais formados desde 1968 e em universidade pública.

Um dado alentador é o de que a maioria dos egressos vem dando atenção à sua educação continuada, fundamental na área médica, em que é reconhecidamente alta e crescente a velocidade de surgimento de novos conhecimentos, práticas e tecnologias. O dado de que 80% deles frequentam congressos ou outros eventos científicos com regularidade é ainda mais marcante se considerarmos que a maioria mora em cidades do interior, o que pode gerar algum grau de isolamento e maior dificuldade de deslocamento12. Muitos também afirmaram receber revistas e acessar sites científicos com regularidade, sendo que o grande desafio atual certamente envolve a capacidade de selecionar adequadamente as informações científicas disponíveis. O fato de a minoria ter cursado ou estar cursando pós-graduação senso estrito ressalta a importância de que os cursos médicos ofereçam disciplinas regulares sobre princípios de metodologia de pesquisa e de leitura crítica de artigos científicos. Deste modo, os profissionais formados teriam capacidade de selecionar melhor as informações dentre a enorme quantidade de material científico a que têm acesso em publicações impressas ou via internet.

Os dados sobre atuação em universidades são parecidos com os dos médicos do Estado em geral, 12% dos quais atuam em faculdades públicas e 6% em faculdades privadas12. Já atuar em clínica privada é um tipo de prática que, embora tenha sido referida pela maioria (67%), reflete o fato de a amostra incluir profissionais formados há muitos anos, pois tem se tornado cada vez mais rara. No estudo do Cremesp, apenas 40% dos médicos relataram ter consultório particular, sendo apenas 13% dos mais jovens, contra 53% dos profissionais com 50 anos de idade ou mais12.

Quanto aos tipos de serviço em que trabalham, os dados do presente estudo são um pouco contrastantes com aqueles com médicos de todo o Estado, 24% dos quais atuam em UBSs e apenas 1% em ambulatórios públicos12. Por outro lado, apenas 2,6% relataram atuar no Programa de Saúde da Família (PSF), um programa relativamente recente do governo federal, que nem constou do estudo do Cremesp, mas que se ampliou bastante nos últimos anos. Ressalte-se novamente que o período de abrangência do atual estudo é consideravelmente maior (médicos formados desde 1968) em comparação com o levantamento do Cremesp, que entrevistou profissionais graduados a partir de 1996.

Enquanto 41% dos egressos da FMB relataram trabalhar em cooperativas médicas e apenas 17% em empresas médicas ou de medicina de grupo, no estudo do Cremesp12 55% dos médicos paulistas (e 78% dos médicos do interior) afirmaram atender pacientes por convênio. Fato preocupante, 43% destes afirmaram já ter sofrido restrições (ex.: não autorização de consultas, exames e procedimentos) por parte das operadoras de planos de saúde privados12, o que pode afetar o nível de satisfação com a prática profissional e seus resultados.

Em relação à renda média, pode-se constatar que esta é um pouco mais alta do que a dos médicos paulistas em geral, pois 45% deles ganhavam até R$ 9 mil reais e apenas 12% acima de R$ 12 mil em maio de 200712. Por outro lado, os dados são concordantes com aquele estudo ao apontarem menor renda entre os médicos mais jovens e do sexo feminino12.

No que se refere ao número de vínculos empregatícios, os dados são melhores do que os do estudo do Cremesp, que incluiu apenas médicos formados a partir de 1996, no qual 32% destes relataram atuar em quatro ou mais empregos, 10% em seis ou mais, enquanto 18% relataram ter um único vínculo e 25% dois12. Conforme destacado no estudo do Cremesp, o acúmulo de vínculos e a longa jornada de trabalho podem afetar a qualidade de vida, a convivência com a família, a possibilidade de se atualizar e a relação médico-paciente.

Diferenças de Gênero

Aproximadamente dois terços dos ex-alunos que responderam ao inquérito são do sexo masculino e um terço do sexo feminino, dado bastante similar à distribuição por sexo da população total de referência. Este dado também é semelhante aos do Cremesp de 2007, em que 61,5% dos médicos atuantes no Estado eram homens. Este resultado aponta ainda a questão da procura e acesso ao curso médico, que até alguns anos atrás concentrava maior proporção de homens. Esta característica, no entanto, vem mudando progressivamente, com um número crescente de mulheres cursando Medicina, sendo que no ano de 2006 as mulheres se tornaram a maioria (51,7%) dos médicos formados12. Esta tendência de "feminilização" da profissão se reflete na idade média dos homens da amostra (49,1 anos), significativamente mais alta do que entre as mulheres (41,5 anos). Note-se ainda que 18,2% dos homens e 28,4% das mulheres egressos da FMB têm idade máxima de 39 anos.

Outro dado interessante é que, em comparação com os homens, as mulheres estavam menos frequentemente casadas ou em união estável e com filhos. Apesar de serem em média mais jovens, isto talvez indique também que o exercício da profissão médica pode, no caso das mulheres, ter maior interferência na vida afetiva e familiar, dificultando ou pelo menos retardando a vida conjugal e a maternidade. Note-se ainda que as mulheres, mais frequentemente que os homens, moram na cidade de São Paulo ou em outras capitais (37% versus 26%) e em cidade com mais de 500 mil habitantes, indicando talvez um estilo de vida mais difícil nos grandes centros urbanos, fator que também pode contribuir para este resultado.

Quanto à educação continuada, os homens referiram receber revistas científicas mais frequentemente, enquanto as mulheres tenderam a assinar periódicos eletrônicos e a frequentar congressos e outros eventos científicos com mais regularidade. Foi mais comum entre os homens do que entre as mulheres a afirmação de atuar em mais de uma especialidade. Este achado pode estar relacionado ao fato de eles morarem em cidades menores e de interior com mais frequência, o que pode levar a uma prática menos direcionada a uma única área de atuação.

Em relação aos vínculos empregatícios, os homens relataram ter mais vínculos públicos federais do que as mulheres, mas estes só foram relatados por uma minoria de 8% da amostra total. De fato, há muitos anos não tem mais havido concursos do governo federal para médicos, em função da política de regionalização da assistência à saúde. Eles trabalham mais frequentemente também em cooperativas médicas, ambulatórios públicos de especialidades e em clínicas privadas, se comparados às mulheres. Quanto a este último dado, como os homens têm idade média mais alta e moram mais comumente em cidades menores e do interior do que as mulheres, tais aspectos podem contribuir para explicar a maior frequência de atuação destes em clínica particular, o que pode também explicar os maiores níveis de renda relatados por estes. Já o predomínio de mulheres nas UBSs e no PSF talvez possa ser atribuído em parte à média de idade mais baixa destas, pois são programas de políticas públicas mais recentes. Além disso, mais mulheres referiram atuar como médicas em universidades públicas. Conforme descrito anteriormente, as mulheres relataram renda mensal menor do que os homens, da mesma forma que as médicas paulistas em geral12.

Satisfação Profissional

Os níveis de satisfação profissional relatados pelos participantes deste estudo são bastante semelhantes aos do estudo do Cremesp de 200712, em que 61% dos médicos paulistas afirmaram estar satisfeitos, 29% nem satisfeitos nem insatisfeitos e 10% insatisfeitos com a profissão.

Com relação aos fatores que se mantiveram associados à insatisfação profissional na análise final, nota-se alguma semelhança com aqueles relatados no estudo do Cremesp12. Naquela pesquisa, menor renda também foi um fator que se associou à insatisfação profissional, uma vez que 60% dos médicos insatisfeitos se queixaram da remuneração que recebiam. Além disso, os médicos mais jovens também se mostraram mais motivados e satisfeitos com a profissão naquele estudo. Quanto ao fato de maior satisfação ter se mantido associada a ter feito ou estar fazendo curso de doutorado, é possível que a vinculação a um programa de pós-graduação senso estrito seja um fator motivador da prática profissional, possibilitando ao médico novamente se envolver com atividades de estudo, atualização e produção de conhecimento.

É importante ressaltar que o estudo paulista questionou diretamente as razões da satisfação ou não com a profissão, enquanto no presente estudo as associações foram analisadas posteriormente. Além disso, o desenho transversal deste estudo não permite atribuição de causalidade, ou seja, se os fatores associados à insatisfação são causa ou efeito desta.

 

CONCLUSÕES

Pode-se constatar que praticamente a totalidade dos ex-graduandos de Medicina da Unesp continua praticando a medicina, a maioria atuando em cidades menores do Estado de São Paulo, com níveis bons de renda e de satisfação profissional. Além disso, a grande maioria fez ou faz residência médica e/ou especialização e relata preocupação com a atualização profissional ou educação continuada, frequentando eventos e lendo publicações científicas regularmente. Renda mais elevada associou-se a sexo masculino, ter filhos, prática profissional privada e maior satisfação profissional. Esta última, por sua vez, associou-se com menor idade e renda mais alta, acreditar que a FMB o preparou bem para a atuação profissional e mencionar que não se arrependeu de fazer Medicina, ou seja, que optaria por fazer o curso novamente, além de relato de melhor qualidade de vida e saúde mental.

Como direção futura, sugere-se a continuidade das avaliações por egressos a intervalos regulares. Este esforço estimulará uma cultura avaliativa institucional, apelo de vários setores da área da saúde e da sociedade como um todo, visando à contínua melhoria do processo ensino-aprendizagem dos cursos médicos. Considerando-se as rápidas e importantes mudanças que o mercado de trabalho médico vem sofrendo nos últimos anos, estudos sistemáticos sobre a inserção profissional dos ex-alunos são fundamentais, devendo subsidiar as discussões sobre reforma curricular nas escolas médicas.

Espera-se que o presente estudo fomente a reflexão e o debate sobre o perfil do médico que queremos e que estamos contribuindo para formar em nossa instituição, assim como incentive outras escolas médicas a conduzirem avaliações periódicas de seus egressos, para que se possa conhecer melhor e aprimorar a prática profissional dos médicos que atuam em nosso país.

 

AAGRADECIMENTOS

Aos funcionários da Diretoria da FMB André Franco Pagnin e Cristina de Almeida, responsáveis pela organização do material impresso enviado aos egressos e pela distribuição e recebimento dos questionários.

À equipe da Diretoria Técnica Acadêmica da FMB, coordenada pela Sra. Eliane Sako, que colaborou para a obtenção dos endereços dos egressos junto ao Cremesp e ao CFM.

A Denise M. Zornoff, chefe do Núcleo de Ensino à Distância (Nead) da FMB, que criou a interface virtual para resposta aos questionários, auxiliando em todas as etapas do processo.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Albina Rodrigues Torres
Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria
Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp
Distrito de Rubião Jr. - Botucatu
CEP 18618-970 - SP
E-mail: torresar@fmb.unesp.br

Recebido em: 10/11/2010
Reencaminhado em: 22/07/2011
Aprovado em: 25/10/2011

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
Todos os autores participaram da elaboração do estudo. Albina Rodrigues Torres e Maria Cristina Pereira Lima organizaram a coleta dos dados, fizeram a supervisão de campo, realizaram a análise estatística e a redação inicial do manuscrito. Todos os autores participaram da interpretação dos dados e da revisão da versão final.

CONFLITO DE INTERESSES
Declarou não haver.

 

 

* Estudo realizado na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB)-Unesp.

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