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Revista Árvore

Print version ISSN 0100-6762On-line version ISSN 1806-9088

Rev. Árvore vol.27 no.1 Viçosa Jan./Feb. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-67622003000100015 

Inclusão de material herborizado em metacrilato para estudos de anatomia vegetal1

 

The inclusion of herbalized material using methacrylate for plant anatomy studies

 

 

Renata Maria Strozi Alves MeiraI; Fabiano Machado MartinsII

IProfa. do Dep. Biologia Vegetal da Universidade Federal de Viçosa - UFV, 36571-000 Viçosa-MG; <rmeira@mail.ufv.br>
IIBiólogo, mestrando em Botânica, Dep. de Biologia Vegetal da UFV, bolsista CAPES

 

 


RESUMO

As técnicas usuais empregadas no processamento de materiais herborizados são limitantes porque não permitem reproduzir um laminário permanente e porque o registro dos resultados é temporário. Em estudos de anatomia aplicada à taxonomia, muitas vezes, é necessário utilizar exsicatas. Este trabalho teve como objetivo testar a utilização de metacrilato (Historesin, Leica) na preparação e inclusão de material herborizado, visando a obtenção de laminário permanente. Foram utilizadas folhas de plantas herborizadas do gênero Senecio Tourn. ex L. (Asteraceae), previamente reidratadas em H2O e armazenadas em etanol 70%. As amostras foram desidratadas em série etanólica e submetidas à (1v:1v) mistura de AE 95% e resina pura. Durante a infiltração, com resina pura, o material foi submetido a vácuo durante 72 horas. Os blocos foram cortados em micrótomo de avanço automático, com navalhas de aço descartáveis, e os cortes foram corados com azul-de-toluidina (pH 4,0). As lâminas foram montadas em Permount. O laminário permanente obtido apresentou qualidade superior à dos produzidos pelas técnicas usuais, pois foi possível obter cortes seriados, com espessura determinada. Essa técnica possibilitou otimizar a obtenção de cortes, a partir de pequenos fragmentos de exsicatas.

Palavras-chave: Anatomia vegetal, taxonomia, plantas herborizadas, lâminas permanentes e Senecio.


ABSTRACT

The usual herbalized material processing techniques are limited due to the difficulties to produce permanent slide collections, and to register permanent results. In studies of taxonomy-applied anatomy, it is often necessary to use herbarium specimens. The objective of this study was to test methacrylate (Historesin, Leica) in the preparation and inclusion of herbalized materials to obtain a permanent slide collection. Herbalized leaves from the genus Senecio Tourn. ex L. (Asteraceae) were used, after being submitted to re-dehydration in ethanol 70%. The samples were dehydrated in an ethanol series and submitted to a mixture of AE 95% plus pure resin (1v:1v). The embbeding process in pure resin was submitted to a vaccum during 72 hours. The blocks were cut in an automatic progress microtome, using disposable steel razors and the cuts stained with Toluidine Blue pH 4.0. The slides were mounted in Permount. The permanent slide collection obtained showed high quality, compared with those obtained by the usual techniques, because the cuts were seriate; cut thickness could be determined allowing the use of few samples for the analysis of the material.

Key words: Plant anatomy, taxonomy, herbalized specimens, permanent slides and Senecio.


 

 

A anatomia vegetal tem sido uma importante ferramenta para a taxonomia (Solereder 1908; Metcalfe & Chalk, 1950, 1979, 1983; Metcalfe, 1987; Cutler & Gregory, 1998; Judd, 1999). As plantas são coletadas e o registro da espécie é garantido pela produção de exsicatas e pela sua posterior manutenção em herbários. Logo, a organização taxonômica das plantas depende destes registros (Radford & Dickson, 1974; Bridson & Forman, 1998). Em alguns taxa, a sua raridade ou a dificuldade em recoletá-lo implica, necessariamente, trabalhar com exsicatas.

A análise anatômica de plantas herborizadas pode ser a única fonte de material para estudos de anatomia aplicados à taxonomia (Castro et al., 1997; Scatena et al., 1999; Teixeira et al., 2000). Entretanto, o material torna-se frágil por ter sido submetido a temperaturas elevadas para sua secagem. As técnicas usuais para se trabalhar com materiais herborizados implicam reversão do processo de herborização. Inicia-se pela reidratação por meio de fervura em água destilada e posterior distensão com solução de hidróxido de potássio (Smith & Smith, 1942). O material pode, então, ser conservado em etanol 70%. Estas amostras são cortadas à mão livre, para montagem de lâminas provisórias. Não é recomendada a inclusão em parafina para obtenção de cortes em micrótomo e montagem de lâminas permanentes, pois estas técnicas implicam desidratação do material, o que provoca retração das células e dos tecidos.

Assim, as técnicas usuais de preparação de materiais herborizados impõem limitações, pois o tempo de duração do laminário é reduzido, não se pode garantir a espessura do corte, além do fato de elas não permitirem a obtenção de cortes seriados. Um outro aspecto a ser enfatizado é a necessidade de cortar vários fragmentos para obter um número reduzido de cortes de qualidade para análise ao microscópio.

Este trabalho teve como objetivo testar a utilização de metacrilato (Historesin, Leica) na inclusão de material herborizado e obtenção de laminário permanente.

Foram utilizadas plantas herborizadas do gênero Senecio Tourn. ex L. (Asteraceae), depositadas nos herbários OUPR (UFOP) e CESJ (UFJF) sob os números: OUPR 25094 - Senecio emilioides Sch. Bip.; CESJ 1629 - Senecio leptoschizus Bong.; OUPR 25277 - Senecio stigophlebius Baker.

As folhas foram submetidas ao processo de reversão da herborização (Smith & Smith, 1942) e estocadas em etanol 70%.

A porção média (nervura central e margem) foi isolada e desidratada na seqüência de etanol 85 e 95%, sendo mantida por 2 horas em cada. Posteriormente, as amostras foram submetidas à mistura de etanol 95% e resina pura (Historesin Leica, preparada conforme instrução do fabricante), na proporção de 1v:1v, por 8 horas. A infiltração foi feita com resina pura, em um dessecador submetido a vácuo, e em intervalos de 24 horas foram realizadas três trocas de resina pura, totalizando 72 horas. A resina pura foi misturada ao polimerizador, conforme as instruções do fabricante, e as amostras emblocadas em moldes plásticos. Os blocos foram cortados em um micrótomo rotativo de avanço automático (RM 2155 - Leica), com navalhas de aço descartáveis. Cortes de 10 µm de espessura foram distendidos em banheira contendo água destilada, aderidos em lâminas histológicas, mantidas em seqüência conhecida, e corados com azul-de-toluidina pH 4 (Vidal, 1977). As lâminas foram secas em estufa a 34 °C e montadas em resina sintética Permount. Não é recomendada a utilização de xilol nem a de álcool nesta etapa, pois estes compostos podem interferir na coloração e na aderência dos cortes à lâmina.

Algumas amostras das mesmas porções foliares foram preparadas conforme a metodologia usual. Os cortes foram feitos à mão livre e corados com safranina solução aquosa e azul-de-astra (Gerlach, 1969). As lâminas foram montadas em gelatina glicerinada e lutadas com esmalte.

Para análise e documentação fotográfica, utilizou-se um fotomicroscópio Olympus AX 70 equipado com sistema U-Photo.

A folha de Senecio emilioides (Figura 1a, b) é hipoestomática e recoberta por epiderme uniestratificada, o mesofilo é dorsiventral e os feixes são vasculares colaterais. Ductos secretores estão presentes, associados ou próximos ao floema, tanto na nervura central quanto nas laterais.

Em Senecio leptoschizus (Figura 1c, d) as folhas são pinactisectas e na porção mediana verifica-se que os estômatos estão presentes em ambas as faces (folhas anfiestomáticas) e que a epiderme, que é uniestratificada, forma uma depressão na face adaxial, onde se localizam tricomas. O mesofilo é dorsiventral e os feixes são colaterais. Ductos secretores estão presentes, associados ou próximos ao floema, nas nervuras.

Hidatódios foram evidenciados na margem da folha de Senecio stigophlebius, sendo constituídos por vascularização exclusivamente xilemática, por epitema aclorofilado e por poros (Figura 1e, f).

Os cortes obtidos dos materiais incluídos em historesina (Figura 1a, c, e) são mais nítidos e possibilitam descrições anatômicas mais seguras que as daqueles submetidos à técnica convencional (Figura 1b, d, f).

Entre as vantagens resultantes deste método, destacam-se: a produção de laminário permanente, que poderá servir como testemunho do estudo; os cortes podem ser seriados; a espessura do corte é determinada; e poucas amostras são suficientes para se proceder à análise e interpretação anatômica. A qualidade do laminário obtido por essa técnica é superior, comparada à daqueles obtidos pelas técnicas usuais.

 

AGRADECIMENTO

À professora Rosane Aguiar-DBV/UFV, pela correção do abstract; às técnicas do Laboratório de Anatomia Vegetal DBV/UFV, Rosane Cruz Portugual e Zilda Alzira Soares, pelo apoio técnico; e à curadoria dos herbários CESJ e OUPR, pela concessão do material. À Capes, pela concessão da bolsa de mestrado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Recebido para publicação em 23.4.2002. Aceito para publicação em 19.2.2003

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