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Revista Árvore

Print version ISSN 0100-6762

Rev. Árvore vol.29 no.6 Viçosa Nov./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-67622005000600017 

Uso de indicadores de diversidade na adefinição de plano de manejo de aborização viária de águas de São Pedro - SP

 

Use of diversity indicators in a street arborization management plan for aguas de Sao Pedro - SP, Brazil

 

 

Demóstenes Ferreira da Silva FilhoI; Silvana BortoletoII

IDepartamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz". E-mail: <dfsilva@esalq.usp.br>
IIPrograma de Pós-Graduação em Produção Vegetal da ESALQ

 

 


RESUMO

Poucas cidades brasileiras possuem planejamento efetivo para a arborização de suas vias públicas, com a definição de objetivos e de possíveis metas qualitativas e quantitativas. Outro aspecto das cidades brasileiras é a questão da baixa diversidade de espécies encontrada, prevalecendo a homogeneidade e, portanto, a possível dizimação da população arbórea pela ocorrência de uma praga ou uma doença. Os chamados índices de riqueza ou variedade são úteis como indicadores de diversidade, podendo ser utilizados nas decisões de manejo. Neste trabalho foram avaliados os índices de Shannon-Wiener e Odum; para tanto, utilizou-se o censo da arborização viária da Estância de Águas de São Pedro. Foram definidos índices máximos e mínimos de diversidade, que possibilitaram a quantificação de espécies e o número de árvores em cada via pública, subsidiando o planejamento do manejo, como introdução de novas espécies e de novos indivíduos, remoções de árvores e prioridades de intervenção.

Palavras-chaves: Diversidade, silvicultura urbana e critérios para arborização.


ABSTRACT

Few Brazilian cities have an effective planning for street arborization, comprising the objectives to be achieved and possible qualitative and quantitative goals. Another problem of Brazilian cities is the low species diversity, prevailing species homogeneity, which may lead to great losses of trees due to the incidence of specific pests or diseases. The richness or diversity indexes are useful as diversity indicators and can be useful in management decision making. The Shannon-Wiener and the Odum indexes were evaluated by means of carrying out a street census in Aguas de Sao Pedro Resort. Maximum and minimum diversity indexes were calculated, allowing the quantification of species and number of trees in each street, providing the foundation of a management plan, which included the introduction of new species and new individuals, removal of trees and intervention priorities.

Keywords: Diversity, urban forestry and criteria for street arborization.


 

 

1. INTRODUÇÃO

Em muitas situações, o planejamento urbano deixa de incluir a arborização como equipamento a ser devidamente planejado, o que permite, muitas vezes, que iniciativas particulares pontuais e desprovidas de conhecimento ocupem o espaço com plantios irregulares de espécies sem compatibilidade com o local. Como conseqüência, perde-se a eficácia da arborização em transmitir conforto físico e psíquico, acarretando infortúnios e transtornos. Esse tipo de procedimento é muito comum nas cidades brasileiras, o que tem causado, muitas vezes, sérios prejuízos (SILVA FILHO et al., 2002).

A fragilidade e a complexidade desse sistema a ser administrado requerem planejamento cuidadoso, com os objetivos de otimizar as funções da arborização e reduzir custos (MENEGUETTI, 2003). Dessa forma, é fundamental que haja planejamento adequado, com definição dos objetivos e das possíveis metas qualitativas e quantitativas, pois se deve ter a clareza de que a inexistência de um plano a seguir e cumprir torna os processos de implantação e manejo da arborização puramente empíricos (MILANO e DALCIN, 2000).

Para tanto, torna-se necessário o conhecimento do patrimônio arbóreo, que pode ser obtido por meio de inventário, recurso que se constitui em ferramenta fundamental para a obtenção de informações precisas acerca da população arbórea e de sua diversidade (SILVA et al., 2003).

A diversidade de espécies encontrada na arborização viária em condições brasileiras tem sido relativamente baixa, prevalecendo a sua homogeneidade. Entretanto, segundo Santamour Júnior (1990), a maior diversidade de espécies de árvores na paisagem urbana se faz necessária justamente para garantir o máximo de proteção contra pragas e doenças; dessa forma, segundo esse mesmo autor, recomenda-se não exceder mais que 10% da mesma espécie, 20% de algum gênero e 30% de uma família botânica.

Os chamados índices de riqueza ou variedade são indicadores de diversidade úteis na análise, podendo ser usados nas decisões de manejo e planos-diretor de arborização. São utilizados os índices de Shannon-Weaver (leva em consideração que as espécies têm abundâncias diferentes) (RACHID, 1999; MENEGUETTI, 2003; BORTOLETO, 2004) e Odum (usa o número total de espécies e o somatório das abundâncias de indivíduos em uma comunidade) (SILVA FILHO, 2002; BORTOLETO, 2004; COELHO, 2000).

Pedlowski et al. (2002) utilizaram o índice de Shannon, considerado máximo, para atribuir qualidade ambiental a 10 bairros da cidade de Campos dos Goytacases, RJ, e fazer comparações com os níveis socioeconômicos e de educação desses bairros.

A importância do manejo da arborização, levando em consideração o táxon, deve-se a problemas já ocorridos em algumas cidades brasileiras e na maioria das norte-americanas; como exemplo disso, há na cidade de Jaboticabal, SP a alta incidência de Ocotea pulchela Martius atacada por coleobroca (GRAZIANO et al., 1987), já nos Estados Unidos houve grande perda da arborização ocorrida pela alta quantidade de Ulmus americana L. com a doença "Dutch elm", causada pelo fungo Ophiostoma ulmi (Buisman) Nannf. (MILLER, 1997).

Com base nisso, o presente trabalho teve por objetivo avaliar o uso de índices de diversidade na definição da quantidade de espécies e indivíduos para adequação da arborização viária de Águas de São Pedro.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

2.1. Local de estudo

Este estudo foi realizado na Estância de Águas de São Pedro, município do Estado de São Paulo. Sua área total perfaz 3,9 km2, e sua localização apresenta as seguintes referências: entre 22º35'58' latitude sul e 47º52'34" longitude oeste, fazendo divisa com o município de São Pedro, em todo o seu perímetro. A estância possui altitude de 470 m, com temperatura média anual de 27,2º C e índice pluviométrico de 500 mm/ano (ÁGUAS DE SÃO PEDRO, 2004).

Águas de São Pedro, como é também chamada, possui uma população urbana de 1.845 pessoas (IBGE-2000). A taxa de crescimento demográfico é de 4,06% ao ano e a densidade demográfica, de 473,08 habitantes/km2. A taxa de urbanização é de 100%, não possuindo área rural. A economia local é alicerçada no turismo, atividade preponderante no município, muito procurado principalmente por suas águas medicinais (ÁGUAS DE SÃO PEDRO, 2004).

2.2. Material de campo

Seguem os instrumentos e os demais materiais utilizados, com as respectivas finalidades:

- Caderno de planilhas: anotações da localização dos indivíduos e espécies.

- Jornal, papelão e barbante: confecção de exsicatas das espécies não identificadas a campo.

2.3. Levantamento de informações

Para avaliar o uso dos índices de diversidade, foi realizado um censo dos indivíduos das vias públicas.

Para melhor estruturar as análises, a Estância foi divida em seis setores (Figura 1) e também analisadas as vias públicas individualmente.

2.4. Análise dos dados

Os dados provenientes do censo da população arbórea viária foram tabulados em um banco de dados do Microsoft Access, elaborado por Silva Filho (2002), em que foram realizadas consultas de referência cruzada entre as variáveis coletadas, os setores e vias públicas, proporcionando a obtenção dos índices de diversidade.

Para o cálculo do índice de diversidade, utilizou-se a função de Shannon-Weaver1, citado por Coelho (2000):

em que:

H = índice de Shannon;

s = número de espécies; e

pi = proporção da amostra contendo indivíduos da espécie i.

Para o cálculo do índice de diversidade de Odum2, citado por Coelho (2000), utilizou-se a função:

em que:

d1 = índice de diversidade;

S = número total de espécies; e

N = somatória de abundâncias.

Foram elaborados diagramas de dispersão para comparação entre os índices de diversidade usados, assim como um modelo teórico para obtenção de um índice de diversidade mínimo, para ser usado como parâmetro de manejo.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1. Parâmetros de comparação

No inventário da arborização viária da Estância de Águas de São Pedro, foram percorridos 30.176 m em 82 ruas, avenidas e vielas e analisados 3.654 indivíduos vivos, com variações de diversidade entre as ruas e os setores.

Foram calculados os índices de diversidade de Shannon e Odum para cada setor e para cada via pública (Tabela 1) e (Tabela 2). Nota-se que os bairros com maior quantidade de árvores também possuem maior diversidade.

 

 

 

 

Os índices apresentam semelhanças comprovadas pelo teste t (Figura 2). Tais semelhanças podem ser explicadas pela distribuição caótica das espécies nas vias públicas, plantadas pelos moradores, não seguindo um plano. Pode-se afirmar que a riqueza é o principal parâmetro que conduz a diversidade na arborização da Estância, já que o índice de Odum reflete mais a riqueza que a eqüitabilidade de indivíduos, presente no índice de Shannon. Enquanto se fosse uma arborização planejada, em que ocorreria o mesmo número de indivíduos em cada espécie, a abundância passaria a representar um parâmetro importante, tornaria os resultados de índices diferentes e, provavelmente, não haveria a correlação que ocorre na Figura 2.

 

 

3.2. Quantificação, definição de espécies e prioridades

3.2.1. Quantificação

O Quadro 2 foi realizado supondo a distância de espaçamento de 15 m entre árvores, em que se tem em um quilômetro a proporção de 133 árvores nos dois lados da via; a partir desse dado, subtraiu-se, então, o número de indivíduos encontrados em cada via pública, obtendo o potencial para plantio (Npot), em que os itens positivos indicam essa possibilidade e os itens negativos, a possibilidade de substituição de indivíduos arbustivos por arbóreos com maior expressão ambiental.

3.2.2. Definição de espécies

Por meio da densidade mencionada anteriormente, de 133 árvores por quilômetro e seguindo a indicação de Santamour Junior (1990), em que é recomendado não exceder mais que 10% de uma espécie numa paisagem urbana, obteve-se, portanto, utilizando esses dados, um índice de Odum satisfatório mínimo de 2,45; obteve-se também, utilizando-se uma espécie diferente em cada indivíduo, um índice de diversidade de Odum máximo de 26,99 (não desejável pela baixa plasticidade estética proporcionada pela heterogeneidade, assim como dificuldades de manejo); foi, então, permitido calcular-se a necessidade de ajuste de diversidade por via, subtraindo-se os índices encontrados em cada via pública com o índice satisfatório mínimo e, assim, encontrar o número de espécies a adicionar, por meio da derivação da diversidade de Odum (d), seguindo a fórmula:

Sad=(dmim -datual*LN(Nexist.+Npot ))+fc

em que:

Sad = quantidade de espécies a serem adicionadas;

dmim= índice de Odum teórico mínimo = 2,45;

datual= índice de Odum atual, calculado com dados do censo;

Nexist.= somatória de abundâncias existentes;

Npot = somatória de abundâncias potenciais; e

fc= fator de correção, utilizado para evitar que o índice resultante do novo plantio seja inferior ao dmim = 5,5.

Nota-se que o índice de Odum foi escolhido por ser de mais fácil visualização e possibilitar a criação de cenários. A nova diversidade (dfut) é o cenário após a inclusão das espécies (Sad) e indivíduos indicados (Npot) (Quadro 2).

Já no Quadro 3 visualizam-se as diversas espécies encontradas ao longo dos seis setores da Estância de Águas de São Pedro.

 

 

3.2.3. Prioridades

Observa-se que os setores 4 e 5 devem ser prioritários nas intervenções, visto que apresentam os maiores potenciais de plantio e os menores índices médios de árvore por quilômetro (Quadro 4). Verifica-se, nesse quadro, que o déficit de árvores para plantio na Estância de Águas de São Pedro é de 1.029 indivíduos (Quadro 4).

 

 

Na Estância de Águas de São Pedro foi encontrado um índice de Odum de 19,50; nos setores, uma variação de 7,11 a 13,98 (Quadro 5), e nas vias públicas, uma variação de 0 a 11,55 (Quadro 4). Nota-se que, conforme se restringe o espaço, diminui-se o índice de diversidade, o que não ocorre quando se nota o valor de espécies a adicionar Sad nos setores (Quadro 5) , produzindo indicações negativas, pois a diversidade ficou alta devido à somatória das espécies das vias públicas desses setores, mascarando a necessidade de inclusão de espécies, evidenciada em nível de vias públicas (Quadro 2).

 

 

4. CONCLUSÕES

Indica-se a utilização do índice de Odum, para obtenção de quantidades de espécies a serem utilizadas na Estância de Águas de São Pedro.

Existem diferenças na arborização entre setores e ruas, quanto a riqueza e abundâncias de espécies.

A variação de diversidade analisada por rua é bem mais acentuada do que a por setor, indicando a rua como unidade de manejo na Estância de Águas de São Pedro.

Como síntese, nota-se que, das 81 ruas existentes nos diversos setores, 46 destas suportam plantios, contra 36 ruas que estão ótimas, no que se refere à quantidade. Já, em relação à diversidade, 47 ruas têm indicação de adição de espécies, sendo o local de maior diversidade a Av. Antonio J. de Moura Andrade.

 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Intervenções na arborização existente e planejamento de plantio devem ser efetivados de acordo com as características de cada setor e cada rua, respectivamente. Como critérios auxiliadores de planejamento de implantação da arborização da Estância de Águas de São Pedro, indicam-se a diversidade mínima e a densidade máxima definidas neste trabalho.

 

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 01.04.2005 e aceito para publicação em 10.08.2005.

 

 

1 SHANNON, C.E.; WEAVER, W. The mathematical theory of communication. Urbana: University of Illinois Press, 1949.
2 ODUM, E.P. Ecologia. 3.ed. México: Interamericana, 1972. 639 p.