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Revista Árvore

Print version ISSN 0100-6762

Rev. Árvore vol.30 no.3 Viçosa May/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-67622006000300002 

Avaliação biomecânica de atividades de produção de mudas de Eucalyptus ssp.

 

Biomechanical evaluation of activities of Eucalyptus ssp. seedling production

 

 

José Urbano AlvesI; Amaury Paulo de SouzaII; Luciano José MinetteIII; José Mauro GomesII; Kátia Regina da SilvaIV; Marcio Alves MarçalV; Emília Pio da SilvaVI

IGerente da Rima Florestal – Buritizeiro-MG
IIDepartamento de Engenharia Florestal da UFV. E-mail:<amaurysouza@ufv.br>
IIIDepartamento de Engenharia Elétrica e de Produção da UFV
IVPesquisadora do Grupo Orsa Florestal – Dourado-PA
VProfessor da PUC-MG
VIPrograma de Pós-Graduação em Ciência Florestal da UFV. E.mail:<emiliapiosilva@yahoo.com.br>

 

 


RESUMO

A pesquisa foi desenvolvida a partir de dados coletados em viveiro florestal, no Vale do Rio Doce, MG, com o objetivo de avaliar a biomecânica de atividades de produção de mudas de Eucalyptus spp. Essa avaliação foi realizada através da análise bidimensional utilizando-se a técnica de gravação em videoteipe, sendo os movimentos "congelados" para medição dos ângulos dos diversos segmentos corpóreos. As forças envolvidas foram medidas para aplicação do modelo biomecânico bidimensional de predição de posturas e forças estáticas, por meio de programa computacional desenvolvido pela Universidade de Michigan, dos Estados Unidos. O transporte manual de mudas utilizando carrinho foi a única atividade que apresentou força de compressão do disco da coluna acima da carga-limite superior; e todas as atividades avaliadas ultrapassaram essa carga, recomendada em pelo menos uma fase do ciclo e em pelo menos uma articulação.

Palavras-chave: Lombalgias, posturas e ergonomia.


ABSTRACT

This study was based on data collected in a nursery located in the municipality of Rio Doce, MG, to evaluate the biomechanics of activities of Eucalyptus spp seedling production. The evaluation was carried out by the bidimensional analysis with the use of the videotape recording technique, with the images of movements frozen to measure the angles of the several body segments. The involved forces were measured in order to apply the biomechanical bidimensional model for the prediction of postures and static forces, using a software developed by the University of Michigan, US. The seedling transport with a pushcart was the only activity presenting compression force on the spinal disc above the superior load limit; and all the studied activities surpassed the load limit recommended in at least one phase of the cycle and in at least one articulation.

Keywords: Low back pain, posture and ergonomics.


 

 

1. INTRODUÇÃO

A biomecânica estuda as interações entre o trabalho e o homem, do ponto de vista dos movimentos musculoesqueletais envolvidos e as suas conseqüências. Analisa basicamente a questão das posturas corporais no trabalho e a aplicação de forças envolvidas (IIDA, 1990). Nas atividades de propagação de plantas, o trabalho realizado envolve várias posturas e pesos diferenciados, podendo ser potencialmente lesivos à saúde dos trabalhadores envolvidos nessas atividades.

No estudo da biomecânica, as leis físicas da mecânica são aplicadas ao corpo humano. Assim, podem-se estimar as tensões que ocorrem nos músculos e articulações durante uma postura ou um movimento. Para manter uma postura ou realizar um movimento, as articulações devem ser conservadas, tanto quanto possível, na sua posição neutra. Nessa posição, os músculos e ligamentos que se estendem entre as articulações são tencionados o mínimo. Além disso, os músculos são capazes de liberar a força máxima, quando as articulações estão na posição neutra (DUL e WEERDMEESTER, 1995).

Sendo a postura considerada como elemento primordial da atividade do homem, ela não se trata somente de se manter em pé ou sentado, mas também de agir. A postura é então, por um lado, suporte para a tomada de informações e para a ação motriz, no meio exterior e, por outro lado, é, simultaneamente, meio de localizar as informações exteriores em relação ao corpo e ao modo de preparar os seguimentos corporais e os músculos, com o objetivo de agir sobre o ambiente. Ela é um meio para realizar a atividade (MORAES, 1996).

Na área florestal, 30,5% dos trabalhadores apresentam problemas de lombalgias. Estes são causados e agravados, principalmente, por posturas incorretas no levantamento e movimentação de cargas e durante a própria execução contínua de determinados trabalhos (FIEDLER, 1995).

As lombalgias não só afetam a saúde do próprio trabalhador, como também existem conseqüências sociais, como a falta de assiduidade no trabalho, mudança de profissão por incapacidade laboral e gastos prevídenciários, dentre outros, que não devem ser negligenciados. Ao se carregar qualquer peso, é importante que este seja distribuído de forma equilibrada em cada uma das vértebras e discos (MERINO, 1996).

Os exercícios físicos e a postura corporal, juntos com a participação da ergonomia, podem funcionar como um excelente meio de prevenir e impedir muitos problemas lombares. Assim, é observado que indivíduos mais fracos necessitam de maior esforço físico para realizarem determinadas tarefas, ficando mais expostos a lesões. Os indivíduos que tenham bom condicionamento físico têm menos incidência de dor na coluna e, mesmo quando esta aparece, a sua duração é menor, comparados com indivíduos que apresentam um estilo de vida sedentário, que se traduz naturalmente por um pior condicionamento físico (ACHOUR, 1995).

A análise de posturas do trabalhador deve ser considerada como parte integrante da carga de trabalho. Na identificação da atividade postural, as manutenções prolongadas de posturas e as suas mudanças freqüentes devem ser consideradas como elementos da carga física de trabalho (MORAES, 1996).

O objetivo desta pesquisa foi realizar uma avaliação biomêcanica de atividades de produção de mudas, visando à melhoria da saúde, do bem-estar, da segurança, do conforto e da produtividade dos trabalhadores dessa área.

 

2. METODOLOGIA

2.1. Local da pesquisa

Esta pesquisa foi desenvolvida com dados coletados em uma área de viveiro florestal no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. O viveiro produzia mudas de Eucalyptus ssp para a formação de florestas da própria empresa, pesquisas e venda.

2.2. População

A população pesquisada foi composta por trabalhadores florestais que atuavam nas operações de viveiros florestais, executadas por métodos manuais e semimecanizados, nas atividades de lavagem, embandejamento, desinfecção e enchimento de tubetes, preparo de substrato, preparo de miniestacas, estaqueamento, primeira seleção, segunda seleção, transporte de mudas para a casa de vegetação e desta para os estaleiros e expedição.

2.3. Avaliação biomêcanica

A avaliação biomecânica foi realizada através da análise bidimensional, utilizando a técnica de gravação em videoteipe, com o trabalhador em diversos ângulos. Os movimentos foram "congelados", para medição dos ângulos dos diversos segmentos corpóreos. As forças envolvidas foram medidas para aplicação do programa computacional de modelo biomecânico bidimensional de predição de posturas e forças estáticas, desenvolvido pela Universidade de Michigan, dos Estados Unidos.

Para a análise com o modelo biométrico, foram fornecidos os ângulos das articulações obtidos durante a realização das tarefas (braços, tronco, coxofemorais, joelhos e tornozelos); o valor, a magnitude e a direção das forças utilizadas; o número de mãos utilizadas; e os dados antropométricos de altura e peso da população envolvida.

A análise através do programa computacional de Michigan forneceu a carga-limite recomendada, que corresponde ao peso que mais de 99% dos homens e 75% das mulheres conseguem levantar. Essa carga-limite induz a uma força medida em Newton de compressão da ordem de 3426,3 N sobre o disco L5-S1 da coluna vertebral, que pode ser tolerada pela maioria dos trabalhadores jovens e em boas condições de saúde. A Figura 1 ilustra um exemplo de avaliação biomecânica bidimensional utilizando o referido programa computacional.

 

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise das atividades de empurrar bandejas, do setor de enchimento de tubetes para o estaqueamento, indicou que a carga-limite superior foi ultrapassada, de forma que apenas 19% de pessoas são capazes de exercer essa atividade sem risco de danos para a articulação do cotovelo. Na atividade de enchimento de tubetes, no setor de empurrar bandejas para estaqueamento a carga-limite superior foi ultrapassada para articulações dos cotovelos, indicando que menos de 25% dos trabalhadores conseguem suportar a carga sem risco para as articulações.

Do total de posturas avaliadas, a articulação coxofemural teve a carga-limite ultrapassada na grande maioria.

No Quadro 1, encontra-se o porcentual de pessoas que são capazes de exercer as atividades sem risco de danos para as articulações dos cotovelos, ombros, disco L5-S1, coxofemorais, joelhos e tornozelos.

 

 

A carga-limite recomendada também foi ultrapassada em várias outras atividades, indicando que não é possível exercê-las sem risco de lesão para as articulações indicadas, de acordo com o Quadro 1.

Os resultados da análise apontaram que a atividade de transporte de mudas na etapa de levantar a bandeja de inox quando o encaixe entre a ponte e o carrinho estava desnivelado oferece risco de compressão do disco L5-S1 da coluna vertebral, com força de compressão de 3613 [N]. A etapa de destravar o carrinho puxando a trava para cima (no caso de encaixe com a ponte desnivelado) também apresentou valores de força de compressão elevados, na ordem de 3083 [N].

De acordo com Apud (1999), se a força de compreensão for maior que 3500 [N], existe um risco eminente para a saúde de grande parte dos trabalhadores, provocando danos às estruturas anatômicas, sendo necessária a redução do tempo de exposição e peso da carga. Os valores de forças situados entre 3426,3 N e 6363 [N] devem ser evitados. As forças de compressão calculadas são comparadas com esses limites para o estabelecimento da carga segura para o trabalhador.

O disco vertebral, quando submetido a uma força de comprensão elevada, pode ser acometido por distúrbios graves que ocasionam quadro álgico intenso e afastamentos prolongados, pois o indivíduo tem incapacidade permamente para as atividades mais pesadas (COUTO, 2002).

Dentre as outras atividades estudadas, as que apresentaram valores mais elevados de força de compressão no disco L5-S1 da coluna foram as atividades de enchimento e lavagem de tubetes, nas fases de levantamento das caixas de substrato e tubetes sujos, sendo a força de compressão de 2139 e 2113 [N], respectivamente, sendo esses valores associados a posturas inadequadas durante a atividade.

As atividades que exigem do trabalhador posturas inadequadas, manuseio incorreto e o levantamento de cargas excessivas provocam a degeneração dos discos articulares. A coluna lombar é a que sofre maior carga em função da sustentação do tronco, apresentando maior incidência de dor (RIO e PIRES, 20001).

No Quadro 2, mostra-se a força de compressão no disco L5-S1, para os trabalhadores nas atividades avaliadas.

 

 

4. CONCLUSÕES

• Todas as atividades avaliadas ultrapassaram a carga-limite recomendada em pelo menos uma fase do ciclo e em pelo menos uma articulação do corpo, devido à adoção de posturas inadequadas associadas à aplicação de forças excessivas.

• Na atividade de enchimento de tubetes, na fase de empurrar bandejas para estaqueamento apenas 25% dos trabalhadores conseguem suportar a carga sem risco de lesão para as articulações dos cotovelos.

• O transporte manual de mudas, utilizando carrinho sobre trilhos, foi a única atividade que apresentou força de compressão do disco da coluna vertebral L5-S1 igual a 3613 [N], valor acima da carga-limite superior de 3426,3[N].

• Das fases do ciclo de trabalho avaliadas, a articulação coxofemural foi a menos capaz de suportar carga sem risco de lesão.

 

5. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACHOUR, A.J. Estilo de vida e desordem na coluna lombar: uma resposta das componentes da aptidão física relacionada a saúde. R. Bras. Ativ. Física Saúde, v. 1, n. 1, p. 36-56, 1995.         [ Links ]

APUD, E. et al. Manual de ergonomia forestal. Concepción: Laboratório de ergonomia de la Universidad de Concepción, 1999. 315p.         [ Links ]

COUTO, H. A. Ergonomia aplicada ao trabalho em 18 lições. Belo Horizonte: Ergo, 2002. 202p.         [ Links ]

DUL, J.; WEERDMEESTER, B. Ergonomia prática. São Paulo: Edgard Blucher, 1995. 147p.         [ Links ]

FIEDLER, N.C. Avaliação ergonômica de máquinas utilizadas na colheita de madeira. 1995. 126f. Tese (Mestrado em Ciência Florestal) -Universidade Federal de Viçosa,Viçosa, 1995.         [ Links ]

IIDA, I. Ergonomia; projeto e produção. São Paulo: Edgard Blucher, 1990. 465p.         [ Links ]

MERINO, E.A.D. Efeitos agudos e crónicos causados pelo manuseio e movimentação de cargas no trabalhador. 1996. 128f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção e Sistemas) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1996.         [ Links ]

MORAES, A. Ergonomia: conceitos e aplicações, análise ergonómica de postos de trabalho. Manaus: WHG Engenharia e Consultoria, 1996. 163 p.         [ Links ]

RIO, R.P. & PIRES, L. Ergonomia: fundamentos da prática ergonômica. São Paulo: LTR, 2001. 225p.         [ Links ]

 

 

Recebido em 05.03.2004 e aceito para publicação em 05.04.2006.