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Revista Árvore

Print version ISSN 0100-6762

Rev. Árvore vol.33 no.4 Viçosa July/Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-67622009000400008 

Ciclagem de nutrientes em dois trechos de floresta estacional semidecidual na reserva florestal mata do paraíso em Viçosa, MG, Brasil

 

Nutrient cycling in two sites of semideciduous forest in mata do paraíso forest reserve in Viçosa, MG, Brazil

 

 

Sheila Isabel do Carmo PintoI; Sebastião Venâncio MartinsII; Nairam Félix de BarrosIII; Herly Carlos Teixeira DiasII

IPrograma de Pós-Graduação em Ciência Florestal da Universidade Federal de Viçosa. E-mail: <sheilaicp@yahoo.com.br>
IIDepartamento de Engenharia Florestal da UFV. E-mail: <venancio@ufv.br>
IIIDepartamento de Solos da UFV. E-mail: <nfbarros@ufv.br>

 

 


RESUMO

Dois trechos de Floresta Estacional Semidecodual, em distintos estádios sucessionais (inicial e maduro), da região de Viçosa, MG, foram estudados com o objetivo de quantificar a produção anual e o conteúdo de N, P, K, Ca e Mg da serapilheira, bem como caracterizar a dinâmica de decomposição e liberação dos nutrientes desse compartimento e a eficiência anual de utilização dos nutrientes. A queda anual de serapilheira foi de 6.310 kg.ha-1 no trecho de floresta em seu estádio inicial e de 8.819 kg.ha-1 no de floresta madura. O conteúdo de nutrientes foi de 137 e 180 kg.ha-1 de N, 5 e 8 kg.ha-1 de P; 17 e 45 kg.ha-1 de K; 89 e 179 kg.ha-1 de Ca; e 21 e 26 kg.ha-1 de Mg, nos trechos de floresta nos estádios inicial e maduro, respectivamente. A quantidade média de serapilheira acumulada sobre o solo totalizou 4.647 kg.ha-1 no trecho de floresta inicial e 7.006 kg.ha-1 na floresta madura. A estimativa média da taxa instantânea de decomposição (K) foi de 1,36 no trecho de floresta inicial e de 1,26 na floresta madura, sendo o tempo médio de renovação da serapilheira de 270 e 288 dias, respectivamente. A menor produção de serapilheira na floresta inicial reflete, em parte, a estrutura menos desenvolvida desse trecho de floresta em estádio inicial de sucessão, com produção de serapilheira de qualidade inferior à da floresta madura, no entanto com renovação mais rápida e utilização mais eficiente dos nutrientes.

Palavras-chave: Serapilheira, estádios sucessionais e decomposição.


ABSTRACT

A Semideciduous Seasonal Forest in different successional stages (initial forest and mature forest), in Viçosa, Minas Gerais State, in the southeast region of Brazil, was studied aiming at quantifying litter annual production, decomposition, N, P, K, Ca, and Mg contents and use efficiency. The annual litter production was 6,310 kg.ha-1 for the initial forest and 8,819 kg.ha-1 for the mature forest. Nutrient annual deposition in the litter was estimated at 137 and 180 kg.ha-1 N, 5 and 8 kg.ha-1 P, 17 and 45 kg.ha-1 K, 89 and 179 kg.ha-1 Ca, 21 and 26 kg.ha-1 Mg for the initial forest and mature forest, respectively. The average forest floor biomass was 4,647 kg.ha-1 for the initial forest and 7,006 kg.ha-1 for the mature forest. The instantaneous decomposition rate (k) was estimated at 1,36 for the initial forest and 1,26 for the mature forest, with a turn over time of 270 and 288 days, respectively. The smallest litter production in the initial forest reflects the less developed structure in the site of forest in initial successional stage, with litter production of lower quality compared to the mature forest, but with faster renovation and efficient use of the nutrients.

Keywords: Litterfall, successional stages and decomposition.


 

 

1. INTRODUÇÃO

A ciclagem de nutrientes é um processo de suma importância para o equilíbrio ecológico e a sustentabilidade das florestas naturais (MORAES et al., 1999). O estudo da ciclagem de nutrientes é fundamental para o conhecimento da estrutura e funcionamento de ecossistemas florestais (VITAL et al., 2004). Entretanto, cada ecossistema tem sua forma característica de armazenar e reciclar os nutrientes entre seus compartimentos, entre os quais a serapilheira é um dos mais importantes.

A deposição da serapilheira constitui o principal meio de transferência de matéria orgânica e elementos minerais da vegetação para a superfície do solo (VITOUSEK e SANFORD, 1986). A análise da quantidade e qualidade da serapilheira e de sua taxa de decomposição permite entender o fluxo de energia, a produtividade primária e a ciclagem de nutrientes nos ecossistemas florestais (MORAES et al., 1999), por sua estreita relação com a dinâmica da copa e com o crescimento das árvores.

As florestas tropicais, em sua grande maioria, estão situadas sobre solos naturalmente pobres em nutrientes, e a existência e formação de florestas exuberantes e com grande diversidade dependem do equilíbrio do ciclo dos nutrientes (POGGIANI, 1982; DURIGAN et al., 1996). A dinâmica sucessional das florestas secundárias tropicais está estreitamente relacionada com a ciclagem de nutrientes no ecossistema.

Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar eventuais diferenças na ciclagem de nutrientes em dois trechos de Floresta Estacional Semidecidual na Reserva Florestal Mata do Paraíso, no Município de Viçosa, MG, por meio da quantificação da produção anual de serapilheira e conteúdo de N, P, K, Ca e Mg, caracterização da dinâmica de decomposição e liberação dos nutrientes desse compartimento e da eficiência anual de utilização dos nutrientes.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

2.1. Caracterização das áreas de estudo

O estudo foi conduzido na Reserva Florestal Mata do Paraíso (20º48'07''S e 42º51'31''W), pertencente à Universidade Federal de Viçosa, que possui 195 ha e altitude variando de 690 a 800 m e está localizada no Município de Viçosa, Zona da Mata de Minas Gerais (BRAZ et al., 2002). O clima na região é do tipo Cwb (mesotérmico, úmido com verões chuvosos e invernos secos), segundo a classificação de Köppen, apresentando déficit hídrico no período de maio a setembro e excedente de precipitação entre dezembro e março (GOLFARI,1975). A temperatura média anual é de 21,8 ºC e a precipitação pluviométrica média anual de 1.314 mm (CASTRO et al., 1973). A vegetação da reserva é composta por trechos de Floresta Estacional Semidecidual (VELOSO et al., 1991), formando um mosaico florestal, em função de diferentes épocas e graus de intervenção (LEAL-FILHO, 1992). Nos topos e encostas dos morros ocorre o Latossolo Vermelho-Amarelo álico, enquanto nos terraços o solo é um Podzólico Vermelho-Amarelo câmbico (MEIRA-NETO, 1997).

Os trechos escolhidos para este estudo situamse em solos e posições topográficas diferentes, apresentando diferentes históricos de perturbação e regeneração, sendo caracterizados por Silva-Júnior et al. (2004). Um desses trechos, denominado nesta pesquisa floresta inicial, situa-se no terço superior de uma encosta, composto por Latossolo Vermelho-Amarelo, e encontra-se em processo de regeneração florestal em pastagem de Melinis minutiflora P. Beauv. desde 1963. O outro trecho de floresta, denominado floresta madura, constitui um núcleo de floresta bem preservado, situado em área de baixada, sendo composto por solo Podzólico Vermelho-Amarelo, estando livre de distúrbios antrópicos nas últimas quatro décadas.

A caracterização da vegetação foi realizada por meio do levantamento fitossociológico de todos os indivíduos arbustivo-arbóreos com diâmetro a 1,30 m do solo (DAP) > 4,8 cm presentes na área de 0,6 ha (10 parcelas de 10 x 30 m em cada trecho de floresta) (Tabela 1). A caracterização dos solos das florestas inicial e madura foi realizada por meio de oito amostras simples, obtidas em cada parcela, que constituíram uma amostra composta de solo coletada na profundidade de 0-20 cm por parcela.

2.2. Produção de serapilheira e aporte de nutrientes

Para avaliar a produção de serapilheira nas florestas inicial e madura, foram utilizados 10 coletores de 1 m2, com fundo em tela de náilon com malha de 1 x 1 mm, em cada trecho estudado, totalizando, assim, 20 coletores. Esses coletores foram distribuídos no centro das parcelas (10 x 30 m) e colocados a 20 cm acima da superfície do solo, permanecendo distantes entre si em 20 m. O material interceptado pelos coletores foi recolhido regularmente em intervalos de 30 dias entre novembro/2003 e outubro/2004. A serapilheira coletada, após ser submetida à secagem, foi separada nas frações: folhas, flores, frutos/sementes e ramos. As frações foram secas em estufa a 65 ºC, e, posteriormente, cada fração foi pesada em balança analítica.

As frações da serapilheira foram trituradas em moinho tipo Willey para análise de nutrientes, sendo determinados os teores de N, P, K, Ca e Mg. As análises dos nutrientes foram realizadas no Laboratório de Solos Florestais do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa. O N foi determinado pelo método Kjeldahl, descrito por Bataglia et al. (1983); o P por colorimetria (método do complexo fosfomolíbdico, reduzido com vitamina C, modificado por Braga e Defelipo (1974)); o K foi dosado em fotômetro de chama; e Ca e Mg, em espectrofotômetro de absorção atômica, após digestão nítrico-perclórica (BATAGLIA et al., 1983).

A eficiência de utilização dos nutrientes foi calculada para os elementos N, P, K, Ca e Mg da serapilheira, estimada por meio da relação entre a biomasssa de serapilheira produzida e a quantidade de nutrientes transferidos por essa biomassa (VITOUSEK, 1982).

2.3. Decomposição da serapilheira

A serapilheira acumulada sobre o solo foi estimada em coletas trimestrais, totalizando quatro coletas no decorrer do período experimental, quando foi coletada uma amostra por parcela, utilizando-se um quadrado de madeira de 0,25 m2. Para obtenção dessas amostras, foi coletada toda a manta sobre o solo, secando-se o material coletado em estufa a 65 ºC.

A taxa de decomposição da serapilheira foi estimada a partir da sequinte equação (OLSEN, 1963):

Na equação (1), L representa a quantidade de serapilheira produzida anualmente, Xss a média anual de serapilheira acumulada sobre o solo e K a constante de decomposição na condição de equilíbrio dinâmico. A partir do K, calcularamse o tempo médio de renovação, estimado por K-1, e os tempos para o desaparecimento de 50 e 95% da serapilheira, segundo Shanks e Olson (1961):

2.4. Decomposição e percentual de mineralização da fração foliar dos litterbags

A taxa de decomposição da fração foliar foi avaliada, colocando-se amostras de folhas recém-depositadas na superfície do solo da floresta em bolsas de decomposição de 1 mm de malha, com dimensões de 20 x 20 cm (ANDERSON e INGRAM, 1996). Em cada trecho de floresta estudado, foram preparadas 20 bolsas de decomposição, depositadas sobre a serapilheira, próximo aos coletores. As coletas das bolsas foram realizadas trimestralmente. Um intercâmbio de bolsas também foi realizado para comparar a interferência do ambiente e da qualidade do material vegetal de cada trecho de floresta na decomposição, sendo recolhidas da mata após 360 dias. O percentual de massa remanescente foi obtido pela diferença entre a massa original (40 g) e a massa seca determinada no final de cada período de decomposição. O material foliar remanescente nas bolsas foi submetido à moagem, sendo os teores dos nutrientes N, P, K, Ca e Mg determinados pelos métodos já descritos.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1. Produção de serapilheira e aporte de nutrientes

A produção anual de serapilheira nas florestas inicial e madura foi variável durante o ano, indicando a sazonalidade de queda do material, em que as menores produções se concentraram durante o período seco e as maiores no final dessa estação, entre os meses de setembro e dezembro. A maior deposição de folhas foi registrada no mês de setembro, tanto na floresta inicial quanto na madura (Figura 1).

 

 

Vários estudos realizados em formações florestais no Sudeste brasileiro, visando ao conhecimento da dinâmica de produção da serapilheira durante o ano, têm registrado padrão semelhante ao deste estudo com a maior deposição de serapilheira no final da estação seca (CESAR, 1993; MARTINS e RODRIGUES, 1999; WERNECK et al., 2001), em especial na fração foliar, principal componente do material em queda durante o mês de setembro.

A produção total de serapilheira e de suas frações (frutos/sementes e flores) na floresta madura (8.819,17 kg.ha-1) foi significativamente superior à produção na floresta inicial (6.310,12 kg.ha-1) (t = -2,140; gl = 22; P = 0,043). Nas frações folhas e nos ramos não houve diferença significativa entre as produções das florestas inicial e madura.

A fração com maior percentual de contribuição na produção da serapilheira foi a foliar (64,6 e 55,9%), seguida pelos ramos (31,2 e 36,4%), frutos/sementes (3,2 e 6,2%) e flores (1,0 e 1,5%), nas florestas inicial e madura, respectivamente.

A maior produção da fração foliar, além do padrão de deposição ao longo do ano similar à produção da serapilheira, permite o emprego dessa fração como indicador da produção de serapilheira em diferentes ecossistemas florestais. Do ponto de vista da ciclagem de nutrientes, as folhas representam a via mais rápida de retorno e mais rica em nutrientes, o que configura uma estratégia das árvores na utilização de nutrientes para seu crescimento.

Resultados apresentados por vários pesquisadores vêm corroborar a maior produção de serapilheira na floresta madura em relação à floresta inicial. Dantas e Phillipson (1989), ao estudarem dois estádios sucessionais da floresta tropical na Amazônia, encontraram maior produção na floresta primária (8.040 kg.ha-1) em relação à floresta secundária (5.040 kg.ha-1), e resultados semelhantes foram relatados por Werneck et al. (2001), Martius et al. (2004) e Mcdonald e Healy (2000). Portanto, embora alguns autores (LEITÃO-FILHO et al., 1993) destaquem o papel das espécies pioneiras, predominantes nos estádios iniciais de sucessão, na produção de serapilheira por apresentarem rápido crescimento e ciclo de vida curto, investindo, assim, pesadamente na produção de biomassa em curto espaço de tempo, com grande renovação foliar, os valores de produção obtidos nas florestas madura e inicial não comprovaram esse papel das espécies pioneiras, predominantes na floresta inicial (PINTO et al., 2007). Deve-se ressaltar a influência da área basal e densidade apresentada pela floresta madura muito superior à da floresta inicial, contribuindo pra maior produção de biomassa, que é retornada à superfície do solo na forma de serapilheira (Tabela 1).

Outros fatores importantes podem justificar a menor produção de serapilheira nos estádios iniciais de sucessão, como as características químicas dos solos das florestas durante a sucessão ecológica. Em muitas situações de regeneração da floresta, o solo pode apresentar nível de fertilidade mais baixo do que na floresta original, em razão de perdas por diversos processos, como erosão, volatilização, lixiviação e exportação de nutrientes, dependendo do uso e manejo aplicados à área após a retirada da floresta original. Esses processos podem ter ocorrido na floresta inicial, que antes do processo de regeneração foi utilizada para pastagem e plantios de culturas anuais com baixo input tecnológico. Os resultados da análise dos solos (Tabela 2) mostraram a grande diferença de fertilidade dos dois trechos de floresta, onde a fertilidade mais baixa da floresta inicial pode ter restringido a produção de serapilheira. As características edáficas distintas apresentadas pelos solos das florestas inicial e madura são importantes, pois indicaram a influência da qualidade do solo no processo de sucessão, podendo acelerar esse processo nos ambientes mais férteis, atingindo mais rapidamente os estádios de maior equilíbrio e sustentabilidade.

Na Tabela 3 são apresentadas as concentrações médias de N, P, K, Ca e Mg da serapilheira coletada ao longo do ano nas florestas inicial e madura. Não foram encontradas diferenças significativas nos teores de N e Mg das serapilheiras provenientes das florestas inicial e madura. O potássio foi o nutriente que apresentou maior variação temporal em suas concentrações na serapilheira dos dois trechos de floresta estudados. Vital et al. (2004) também encontraram resultados semelhantes quanto às variações na concentração de potássio ao longo do ano ao estudar a ciclagem de nutrientes em uma Floresta Estacional Semidecídua do sudeste brasileiro.

Na Tabela 4 são apresentadas as concentrações médias de N, P, K, Ca e Mg nas frações folhas, ramos e flores, frutos e sementes. Houve diferença significativa nos teores de P, K e Ca dos tecidos foliares e ramos provenientes das florestas inicial e madura. Quanto às concentrações de N e Mg presentes na fração foliar e nos ramos, elas não mostraram diferenças significativas entre a floresta inicial e a floresta madura. Tal comportamento foi semelhante ao da serapilheira, uma vez que essas frações compõem mais de 90% da serapilheira total produzida.

As estruturas reprodutivas (flores, frutos e sementes) provenientes das florestas inicial e madura somente diferiram quanto aos teores de potássio, que foi superior na floresta madura.

Os maiores teores de P, K e Ca apresentados pela serapilheira proveniente da floresta madura são compatíveis com a sua maior disponibilidade no solo desse trecho de floresta. As variações nos teores dos nutrientes em diferentes fitofisionomias podem ser devidas à diversidade de substratos e de microclimas, além do fato de haver diferenças na absorção e armazenamento pelas espécies que compõem cada ambiente (PAGANO, 1989).

Na Tabela 5, mostra-se a transferência anual de nutrientes pela queda de serapilheira nas florestas inicial e madura. O retorno total de nutrientes foi de 268,14 e 438,62 kg.ha-1 nas florestas inicial e madura, respectivamente. O nitrogênio é o elemento que apresenta a maior transferência, seguido pelo Ca. Na floresta inicial, a ordem de transferência dos nutrientes via serapilheira foi N>Ca>Mg>K>P, enquanto a floresta madura apresentou a seguinte ordem de transferência dos nutrientes: N>Ca>K>Mg>P, com o fósforo se mostrando como elemento mais limitante nos dois trechos de floresta estudados.

O maior aporte anual de nutrientes oriundos da serapilheira na floresta madura evidencia menor necessidade de mecanismos de conservação desses elementos por parte dessa vegetação. Ecossistemas florestais apresentam grande variação quanto ao teor de nutrientes, sendo essa variação dependente do grau de fertilidade do solo que sustenta a fitofisionomia. Cada ecossistema apresenta ciclagem distinta dos nutrientes, em que os oligotróficos, ao contrário dos eutróficos, restringem a perda de nutrientes através de várias estratégias (JORDAN e HERRERA, 1981).

Na Tabela 6 são apresentados os valores da eficiência anual de utilização dos nutrientes pelas florestas inicial e madura. A floresta inicial mostrou-se mais eficiente na utilização de P, K e Ca, enquanto a floresta madura foi mais eficiente em utilizar N e Mg. Esse coeficiente foi muito baixo para N nos dois trechos de floresta. Vitousek (1984) afirmou que a relativa abundância de leguminosas arbóreas nas florestas tropicais pode ser responsável pelos altos níveis de nitrogênio disponível, gerando, portanto, baixa eficiência na utilização desse elemento nesses ecossistemas.

 

 

Vitousek (1982) ressaltou que a economia no uso dos nutrientes, expressa pela eficiência de utilização destes, indica a possibilidade de limitação na produção primária no ambiente, enquanto a baixa eficiência aponta que o suprimento de nutrientes é mais adequado. A análise da eficiência de utilização dos nutrientes pelas florestas inicial e madura evidencia maior conservação dos nutrientes no ambiente da floresta inicial. Alguns autores ressaltaram que altos valores no índice de utilização dos nutrientes indicam uma ciclagem de nutrientes mais eficiente (GAMA-RODRIGUES e BARROS, 2002). Portanto, os teores mais elevados de nutrientes apresentados pela serapilheira proveniente da floresta madura, além das altas taxas de transferência anual desses nutrientes, refletem as melhores condições edáficas nesse ambiente. Isso mostra que a produção primária na floresta madura não é limitada pela disponibilidade dos elementos estudados (VITOUSEK, 1982).

3.2. Decomposição da serapilheira

A média anual de serapilheira acumulada foi significativamente maior na floresta madura 7.006,90 kg.ha-1 em relação ao acúmulo da floresta inicial 4647,60 kg.ha-1 (t = -4,131; gl = 78; e P = 0,001), com as maiores taxas de acúmulo de serapilheira coincidindo com o período de maior deposição de serapilheira ao final da estação seca nos dois trechos de floresta estudados.

A maior quantidade de serapilheira acumulada no solo da floresta madura não decorre de sua qualidade nutricional, uma vez que esta se mostrou mais elevada que a da floresta inicial (Tabela 3), mas da estrutura dessa floresta que apresenta maior número de indivíduos por hectare (floresta madura, 2.077; e floresta inicial, 1.330), além do dobro da área basal em relação à floresta inicial (floresta madura, 38,2 m2.ha-1; e floresta inicial, 18,4 m2.ha-1) (Tabela 1).

A taxa instantânea de decomposição (K) foi de 1,36 e 1,26 nas florestas inicial e madura, respectivamente, sendo o tempo médio de renovação (k-1) da serapilheira igual a 0,74 ano (270 dias) na floresta inicial e 0,79 ano (288 dias) na floresta madura. O tempo necessário para o desaparecimento de 50 e 95% da serapilheira acumulada sobre o solo foi de 0,51 e 2,21 anos, respectivamente, na floresta inicial e 0,55 e 2,38 anos, respectivamente, na floresta madura. Esses valores indicam uma velocidade de reaproveitamento dos nutrientes bastante similares entre as florestas estudadas. Assim, a melhor qualidade da serapilheira produzida pela floresta madura foi sobreposta pela grande quantidade de material depositado sobre o solo, o que influenciou seu tempo de renovação.

3.3. Decomposição e percentual de mineralização da fração foliar dos litterbags

A decomposição do material foliar ocorreu de forma distinta entre as florestas inicial e madura. A floresta madura proporcionou decomposição do material foliar mais rápida que a floresta inicial, apresentando ao final de um ano uma percentagem de massa remanescente menor que a floresta inicial (Tabela 7). Esse comportamento é devido à maior qualidade do material foliar originado pela floresta madura com maiores teores de P, K e Ca.

 

 

O intercâmbio do material vegetal entre as florestas favoreceu a decomposição da fração foliar proveniente da floresta inicial (de 41,4% no ambiente da floresta inicial para 47,7% na floresta madura), reduzindo a percentagem de massa remanescente após o período de um ano (52,3%). O inverso aconteceu com o material foliar da floresta madura depositado na floresta inicial, caindo de 57,5% para 49,0%, com o consequente aumento na percentagem de massa remanescente (51,0%).

O intercâmbio do material vegetal entre as florestas revelou que, mesmo em nível local, o processo de decomposição não é influenciado apenas pela qualidade do substrato, mas também pela qualidade do ambiente, como sugerido por Gama-Rodrigues e Barros (2002).

A mineralização dos nutrientes durante o período de um ano foi maior e mais rápida para o material foliar da floresta madura (Figura 2). O K foi o nutriente mais rapidamente mineralizado. Aos 120 dias, cerca de 61% do K presente no material foliar da floresta inicial e 91% no da floresta madura já haviam sido liberados. A velocidade de liberação do K para o solo é um indício de que a lixiviação é o principal mecanismo de transferência desse elemento para o ecossistema, devido à sua não atuação como componente estrutural dos tecidos vegetais, e, portanto, a mineralização não constitui pré-requisito para sua liberação (O'CONNELL, 1988).

A sequência de liberação dos nutrientes pela fração foliar foi distinta entre as florestas estudadas, sendo K>Mg>N>P>Ca na floresta inicial e K>Mg>P>Ca>N na floresta madura. Quanto à velocidade de liberação dos nutrientes, os nutrientes mais facilmente liberados foram K, Mg e P no material foliar da floresta inicial e K, Mg e Ca na floresta madura.

 

4. CONCLUSÕES

A produção de serapilheira na floresta inicial foi inferior à da floresta madura, refletindo, em parte, a estrutura menos desenvolvida desse trecho de floresta em estádio inicial de sucessão.

A serapilheira produzida pela floresta inicial é de qualidade inferior à da floresta madura, no entanto esta é renovada mais rapidamente e os nutrientes são utilizados de forma mais eficiente.

O processo de decomposição é influenciado não apenas pela qualidade do material vegetal, mas também pela qualidade do ambiente.

 

5.AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, pelas bolsas de Mestrado de S.I.C. Pinto e de Produtividade em Pesquisa de S.V. Martins e N.F. Barros e aos estagiários do Curso de Engenharia Florestal da UFV Carlos José Andrade Silveira e Leonardo Martins Pitanga dos Santos, pelo auxílio nos trabalhos de campo.

 

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Recebido em 26.12.2007 e aceito para publicação em 29.05.2009.