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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991On-line version ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.33 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912006000500013 

RELATO DE CASO

 

Pancreatite aguda biliar na infância

 

Acute gallstone pancreatitis in childhood

 

 

Flavio Augusto MeninI; Alexandre PetrecaII; Roni Leonardo Teixeira, ACBC- SPII

IProfessor Colaborador da Disciplina de Cirurgia Pediátrica do Departamento de Pediatria e Cirurgia Pediátrica, da Faculdade de Medicina de São Jose do Rio Preto– SP
IIEx - Residente em Cirurgia Pediátrica do Hospital de Base da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – SP

Endereço para correspondência

 

 


ABSTRACT

Acute pancreatitis is an uncommon condition in childhood. Gallstones rarely cause pancreatitis in children. Instead, the leading causes of pancreatitis tend to be trauma, infecctions, drugs, congenital disorders. One rare case of acute gallstone pancreatitis in children is described, showing the diagnosis clinical/radiologic and surgery treatment (videocolecistectomy).

Key words: Pancreatitis; Acute, diseases; Gallstones; Child.


 

 

INTRODUÇÃO

A pancreatite é uma entidade clínica pouco freqüente na infância. Diferente dos adultos, as causas mais comuns em crianças incluem as infecções virais, por ascaris, medicamentosas, traumas e anomalias estruturais. Assim, a litíase biliar é incomum como causa de pancreatite entre as crianças1.

 

RELATO DE CASO

Menina, parda, 10 anos de idade, longilinea, pesando 47Kg, com inicio de quadro de dor abdominal de forte intensidade e vômitos há 10 horas, admitida na emergência pediátrica, quando então, ao exame físico, apresentava-se corada, afebril e anictérica, com dor à palpação abdominal profunda, principalmente em andar superior, sem sinais de irritação peritoneal. Não apresenta historia pregressa de exposição a drogas, icterícia, eliminação de ascaris, vermifugação recente, parotidite recente, trauma abdominal, episódios álgicos anteriores ou hemopatia familiar.

O hemograma apresentava-se com 17500 leucócitos (normal – 10 mil), com predomínio de segmentados (85%) sem desvio à esquerda, amilase - 923g/dl, cálcio- 8.4mg/100ml, lípase – 526 mUI/ml, TGO – 26 mUI/ml, TGP – 32 mUI/ml e bilirrubinas total (0,6) e frações (direta – 0,4 e indireta – 0,2) normais. A ultrasonografia mostrou colelitíase, colédoco com calibre nos limites superiores da normalidade (0,4 cm) (Figura 1) e pâncreas aumentado de volume (Figura 2). A tomografia abdominal com contraste oral apresentou pâncreas de contornos normais e dimensões aumentadas com parênquima discretamente heterogêneo, mas sem sinais de isquemia e/ou necrose (Figura 3). Eletroforese de hemoglobinas sem alterações.

 

 

 

 

 

 

Foi instituído jejum, hidratação venosa, antibioticoterapia e analgesia, sendo encaminhada para a unidade semi - intensiva. No 3º dia de internação apresentou melhora clínica, com queda da amilase (79g/dl), sendo introduzida dieta leve hipogordurosa. No 7ºdia de internação teve alta hospitalar, com a operação programada (vídeocolecistectomia) para 18 dias depois. No 11º dia após a alta, a criança apresentou nova crise de dor abdominal, de menor intensidade em relação à primeira, apresentando alteração somente dos níveis de amilase (459g/dl), sendo os demais exames laboratoriais normais. Ficou então, internada até o dia da operação.

Foi submetida à vídeocolecistectomia com colangiografia intra-operatoria, sem intercorrências. Teve alta no 1º dia do pós-operatório, fazendo acompanhamento ambulatorial por um período de 12 meses, com alta em seguida.

 

DISCUSSÃO

A pancreatite aguda biliar é rara entre crianças (6 -12%), sendo as causas mais comuns, parte de doenças multisistêmicas (35%) tais como infecções virais, síndrome hemolítico urêmicas, choque hipovolêmico e/ou séptico; idiopática (30%); e trauma (25%). Alguns fatores predispõem à litíase na infância, tais como doença hemolítica crônica, obesidade, fibrose cística, ressecção ileal e doença hepática crônica. Em crianças, mais de 70 % dos casos são cálculos pigmentados e 15 à 20% são de colesterol puro 2 .

A apresentação clínica da pancreatite biliar aguda na infância mostra uma menor incidência da forma grave do que nos adultos, especialmente em grupos bem jovens. A dor abdominal, que pode ser difusa, é mais freqüente de forma branda (80%), seguido por vômitos em 50% dos casos 2.

Como a apresentação clínica pode ser diversa e sutil, é necessário considerar o diagnóstico diferencial de pancreatite aguda na infância nestes casos. A amilase sérica está elevada em 83-90% dos casos, além da lípase que persiste aumentada por um período maior, em relação à amilase 1.

Os estudos radiológicos são acurados no diagnóstico de pancreatite. A ultrassonografia tem uma acurácia de aproximadamente 80% para pancreatite biliar. Já a tomografia computadorizada faz confirmação diagnóstica em 90% dos casos, além de analisar, em detalhes, o aumento focal ou difuso da glândula, bem como presença de processo inflamatório e/ou de abscessos, e estruturas adjacentes3. A colangiopancreatografia endoscópica retrógrada (CPRE) tem sido usada em larga escala entre os adultos, no entanto, este procedimento vem sendo adotado como modalidade terapêutica entre as crianças, onde, com mãos experientes, traz grandes benefícios à pacientes com pancreatite biliar e/ou colangite 4.

A ressonância magnética colangiopancreatográfica é considerada equivalente à CPRE, para o diagnóstico da pancreatite e das doenças da árvore biliar, com sensibilidade em torno de 71-100%, além de ser inócuo em relação à CPRE, porém, desvantajoso pelo alto custo 5.

O tratamento de escolha do nosso serviço para litíase biliar é a colecistectomia vídeolaparoscópica, com colangiografia intra-operatoria, prevenindo episódios recorrentes de dor, icterícia e pancreatite. A presença de cálculos nos ductos biliares, nestes pacientes, está em torno de 2-6%, em vigência de icterícia e/ou pancreatite.

O tempo de seguimento pós – operatório destes pacientes, é determinado pelo aparecimento de complicações, que, por ventura, este doente possa apresentar 1,3,5.

 

REFERÊNCIAS

1. Calatayud GA, Bermejo F, Morales JL. Pancreatitis aguda en la infancia. Rev Esp Enferm Dig. 2003; 95(1):40-4.        [ Links ]

2. Sutton R, Cheslyn-Curtis S. Acute gallstone pancreatitis in childhood. Ann R Coll Surg Engl. 2001; 83(6):406-8.        [ Links ]

3. Goh SK, Chui CH, Jacobsen AS. Childhood acute pancreatitis in a children¢s hospital. Singapore Med J; 2003; 44(9):453-6.        [ Links ]

4. Yachha SK, Chetri K, Saraswat VA. Management of childhood pancreatic disorders: a multidisciplinary approach.J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2003; 36(2):206-12.        [ Links ]

5. Jackson WD. Pancreatitis: etiology, diagnosis, and management. Curr Opin Pediatr. 2001; 13(5):447-51.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Roni Leonardo Teixeira
Av. Tarumas, 2639- apto. 06
Res. Dona Sula
Jd. Maringá 2
78550-000 – SINOP – MT
E-mail: ronileonardo@zipmail.com.br

Recebido em 28-05-2005
Aceito para publicação em 30-06-2005
Conflito de interesses: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

 

 

Trabalho realizado no Hospital de Base da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - SP.

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