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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versión impresa ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. v.34 n.6 Rio de Janeiro nov./dic. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912007000600005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Volume de fluído intravenoso e alta hospitalar precoce em colecistectomia aberta

 

Volume of intravenous fluids and early hospital discharge after open cholecystectomy

 

 

José Eduardo de Aguilar-Nascimento, TCBC -MTI; Alberto Bicudo-SalomãoII; Cervantes Caporossi, TCBC - MTIII; Raquel de Melo SilvaIV; Eduardo Antonio CardosoIV; Tiago Pádua SantosIV

IProfessor Titular do Departamento de Cirurgia da FCM/UFMT
IICirurgião do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Universitário Julio Muller da UFMT
IIIProfessor Adjunto do Departamento de Cirurgia da FCM/UFMT
IVAlunos de Medicina da FCM/UFMT. Bolsistas PIBIC/CNPq

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar se a adoção de um protocolo de restrição hídrica intravenosa em colecistectomia aberta diminui a permanência hospitalar.
MÉTODO: Estudo prospectivo envolvendo pacientes submetidas a colecistectomia aberta após a adoção de um protocolo multimodal (projeto ACERTO). Pacientes com intercorrencias intra- ou pós-operatórias foram excluídas. Todas as pacientes receberam uma solução de carboidratos 2h antes da operação. Foram coletadas as seguintes variáveis: peso, altura, estado nutricional, volume total de fluidos intravenosos (VTFI) e volume prescrito em ml/kg de peso por dia.
RESULTADOS:
64 pacientes (11 M e 53 F; idade mediana = 43 [18-65] anos) completaram o estudo. A re-alimentação pós-operatória ocorreu no mesmo dia da operação (62,5%) ou no dia seguinte (37,5%). Não foram registradas complicações infecciosas ou óbitos. O tempo mediano de internação pós-operatória foi de 1 (1-4) dia. Observou-se correlação entre o VTFI (r=0,44; p<0.001) e volume de fluídos / kg peso /dia (r=-0,29; p=0,03) e o tempo de internação pós-operatória. Alta no 1º PO foi possível em 73,3% dos casos quando a prescrição foi de até 20mL/Kg/dia e em 41,2% quando o volume prescrito foi maior (p<0.001; Odds Ratio=3,92; IC95% 1,36-11,32).
CONCLUSÃO:
A restrição de fluidos intravenosos em colecistectomia aberta determina alta mais precoce

Descritores: Colecistectomia; Tempo de internação; Hidratação.


ABSTRACT

BACKGROUND: The aim of this stud y was to investigate the adoption of a protocol of intravenous fluid restriction in the length of hospital stay after open cholecystectomy.
METHOD:
Prospective study including female patients undergoing open cholecystectomy after the adoption of a new protocol (ACERTO protocol). Patients with intra- or postoperative interferences with original operation or normal course were excluded. All patients receive a carbohydrate beverage 2h before operation. Variables collected were: weight, height, nutritional status, total volume of intravenous fluids (VTFI) and volume received in ml/kg of weight/day.
RESULTS:
64 patients (11 M and 53 F; median age = 43 [18-65] years) entered the study. Postoperative re-feeding occurred in the same day of the operation (62.5%) or in the next day (37.5%). There were no deaths or postoperative infectious complications. Median length of postoperative stay was 1 (1-4) days. Discharge on the 1st PO day was possible in 73.3% when prescription was at least 20 mL/kg/day and in 41.2% when this volume was greater ((p<0.001; Odds Ratio=3,92; IC95% 1,36-11,32).
CONCLUSION:
Restriction of postoperative intravenous fluids leads to early hospital discharge after open cholecystectomy.

Key words: Cholecystectomy; Length of stay; Fluid therapy.


 

 

INTRODUÇÃO

Os pacientes submetidos à anestesia geral ou bloqueio têm uma veia puncionada e recebem fluidos intravenosos durante a operação. Após o término da operação, o cirurgião executa a prescrição do pós-operatório imediato e, nessa prescrição, é comum a continuidade do uso de fluidos intravenosos. O racional para essa rotina é a segurança de uma via intravenosa rápida e a hidratação do paciente. Diferentes regimes utilizados pelos anestesistas e cirurgiões asseguram uma infusão de cristalóides que tem relação com a duração da operação, o peso do paciente, sua condição clínica prévia e o seu tempo de jejum no pré-operatório1.

A colecistectomia é uma das operações mais comumente realizadas no mundo inteiro. Embora a videolaparoscopia seja a via de acesso mais apropriada, ainda é comum no Brasil a realização da colecistectomia por via aberta. Rego et al.² por exemplo, em um hospital universitário de São Paulo, apresentam resultados de 243 colecistectomias realizadas em idosos. Nessa casuística, coletada entre 1992 e 1999, aproximadamente 50% dos pacientes foram operados pela via aberta. Na prescrição do pós-operatório imediato é comum a prática da hidratação com fluidos na faixa de 30-50 ml/kg de peso por dia3. Isso determina a introdução de 2000 a 3500 ml de soro por dia nos pacientes e por conseguinte, uma grande sobrecarga de sódio. As vezes, mesmo em casos não complicados, essa prescrição continua pelo 1º dia de pós-operatório.

Entretanto, o volume peri-operatório de fluidos intravenosos infundidos tem sido questionado nos últimos anos. Estudos clínicos têm mostrado que regimes de restrição de fluidos intravenosos associam-se a menor taxa de complicações pós-operatórias e encurtam a permanência hospitalar4-5. A adoção de protocolos multimodais que envolvem a abreviação do jejum pré-operatório com solução de carboidratos duas horas antes da operação e re-alimentação precoce no pós-operatório também contribuem para a redução de fluidos intravenosos6-7. O projeto ACERTO implantado no nosso hospital universitário mostrou que a restrição de fluidos peri-operatórios é possível, segura e em conjunto com outras medidas multimodais diminui complicações e tempo de internação7. No entanto, não encontramos nenhum trabalho que enfocasse a adoção de regime de restrição de fluidos em colecistectomia. Com base na literatura corrente é possível especular que a diminuição de fluidos proporcione alta mais precoce em pacientes colecistectomizados. Dessa maneira, o objetivo deste trabalho foi o de investigar se a adoção de um protocolo de restrição hídrica intravenosa em colecistectomia aberta diminui a permanência hospitalar.

 

MÉTODOS

O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HU Julio Muller da UFMT. Em um desenho prospectivo, planejou-se acompanhar todos os pacientes com diagnóstico de colecistopatia crônica calculosa, classificados como ASA (American Society of Anesthesiologists) I ou II e submetidos à colecistectomia eletiva, por via aberta, no Hospital Universitário Julio Muller entre julho de 2005 e setembro de 2006. Pacientes submetidos à exploração cirúrgica de vias biliares, com diagnóstico intra-operatório de colecistite aguda, ou submetidos, concomitantemente, a outro procedimento operatório foram excluídos. Com o intuito de observar apenas pacientes sem intercorrências, planejou-se também excluir pacientes nos quais fez-se necessário o uso de dreno intra-abdominal.

Todos os pacientes foram submetidos à incisão subcostal (Kocher) e receberam antibioticoprofilaxia com cefalexina 1g IV em dose única ou durante o pós-operatório imediato. O protocolo peri-operatório em todos os pacientes incluía jejum de 2 horas antes da operação com ingestão de 200 ml de bebida contendo maltinodextrose a 12,5% (Nidex®; Nestlé, São Paulo, Brasil), antieméticos, analgésicos e realimentação precoce, se possível no mesmo dia da operação.

Foram coletadas as seguintes variáveis: peso, altura, estado nutricional pela avaliação subjetiva global, volume total de fluidos intravenosos (VTFI) e volume prescrito em ml/kg de peso. VTFI foi conceituado como o total de volume cristalóide recebido pelo paciente no pós-operatório. A variável de resultado principal foi o tempo de internação pós-operatório expresso em dias. Alta hospitalar foi autorizada quando o paciente estava recebendo alimentação oral sem vômitos e sentindo-se em condição de ir para seu domicílio. Os dados foram analisados estatisticamente pela correlação de Pearson e por curva de sobrevida de Kaplan-Maier. Estabeleceu-se em 5% (P<0.05) o nível de significância estatística.

 

RESULTADOS

No período de estudo foram operados 84 pacientes. Não houve mortalidade. Destes, sete pacientes foram excluídos devido à exploração cirúrgica do colédoco e dez por uso de dreno de Penrose. Dos 64 pacientes restantes (11 M; 17,2% e 53 F; 82,8%; idade mediana = 43 [18-65] anos), oito (12,5 %) estavam desnutridos e 22 (34.4%) eram obesos. A anestesia por bloqueio peri-dural (31, 48,4%) isolada ou combinada com geral (22; 34,4%) foi o tipo de procedimento anestésico mais freqüentemente usado.

O tempo mediano de operação foi de 108 (45-220) minutos. A re-alimentação pós-operatória ocorreu no mesmo dia da operação (n=40;62,5%) ou no dia seguinte (n=24; 37,5%). Não foram registradas complicações infecciosas. Não se utilizou sonda naso-gástrica no pós-operatório.

O tempo mediano de internação pós-operatória foi de 1 (1-4) dia. Não houve correlação entre o tempo de operação e o período de internação pós-operatória (r=0,21; p=0,10). O volume prescrito para os pacientes variou de 2 a 65 ml/kg por dia com mediana de 19 mL/kg/dia. O VTFI mediano foi de 2000 (500-8000 ml). Observou-se forte correlação entre o VTFI (r=0,44; p<0.001) e volume de fluídos prescritos / kg de peso /dia (r=-0,29; p=0,03) e o tempo de internação pós-operatória. A Figura 1 mostra a probabilidade de alta até o 2º dia de pós-operatório em relação ao volume total de fluidos intravenosos recebidos. Na Figura 2, apresenta-se a probabilidade de alta em relação ao volume diário prescrito no pós-operatório. Observa-se nos dois gráficos que há nítida correlação entre o VTFI e o volume prescrito/kg de peso do paciente por dia com a probabilidade de alta precoce.

 

 

 

 

Alta no 1º dia de pós-operatório foi possível em 73,3% (22/30) dos casos quando a prescrição foi de até 20ml/Kg/dia e em 41,2% (14/34) quando o volume prescrito foi maior (p<0.001; Odds Ratio=3,92; IC95% 1,36-11,32). Da mesma maneira, a probabilidade de alta mais precoce foi aproximadamente 3,5 vezes maior no Grupo que recebeu até 2000 mL no pós-operatório imediato (VTFI <= 2000 ml = 28/35; 80% vs. VTFI = >2000 ml = 6/19; 31,6%; p=0.04; Odds ratio = 3,56; IC95% 1,14-11,15).

 

DISCUSSÃO

Os resultados deste trabalho mostram que a prescrição de fluidos intravenosos tem nítida relação com o tempo de internação em colecistectomia aberta. Num contingente de pacientes que evoluíram sem complicações infecciosas, o volume de soro infundido foi determinante para alta mais precoce. Pacientes que receberam em torno de 20 ml/Kg/dia apresentaram chance de alta de aproximadamente quatro vezes maior que os que receberam mais fluidos intravenosos. Isso é relevante e aponta para a importância da restrição de fluidos nesses casos.

Na literatura atual, trabalhos randomizados e diretrizes (guidelines) de importantes sociedades apontam para a necessidade de restrição hídrica no peri-operatório5,8. A sobrecarga de fluidos atrasa a recuperação dos pacientes pois tira a sede e a vontade de se alimentar9. Além disso, fluidos intravenosos podem diminuir a tensão de 02 nos músculos10 e determinar ganho de peso, edema em alças intestinais aumentando o período de íleo adinâmico11. Uma prescrição convencional de um dia de pós-operatório em um paciente com laparotomia geralmente contem 2000 a 3000 ml de fluido cristalino o que introduz no organismo três litros de água e de 154 a 308 mmol de sódio por dia. Isso pode produzir uma sobrecarga de fluidos, aumento de peso e internação prolongada12.

Os dados apresentados no presente trabalho são importantes pois permitem uma análise com outro olhar sobre os resultados da implantação do projeto ACERTO7, antes desta implantação o Serviço já desenvolvia um protocolo de alta precoce após colecistectomia13. O projeto ACERTO, publicado em 20067, introduziu mudanças no manuseio peri-operatório dos nossos pacientes tais como abreviação do jejum pré-operatório, restrição de fluidos intravenosos e realimentação precoce. No entanto, quando o protocolo de restrição de fluidos intravenosos não foi seguido, pacientes sem complicações evoluíram com necessidade de internação mais prolongada em virtude de mais náuseas, vômitos e sem vontade de ir para casa. Esses achados são particularmente importantes pois analisam um contingente de pacientes sem complicações pós-operatórias, sem ampliação da operação com abertura do colédoco e sem colocação de drenos, que são reconhecidamente razões para uma maior hospitalização. Tanto a curva de sobrevida em relação ao volume total de fluidos quanto ao volume prescrito baseado no peso do paciente mostraram uma relação significativa com a probabilidade de alta mais precoce. Pacientes com restrição de fluidos apresentaram-se mais adequados para receberem alta mais precoce. Com base nesses resultados, pode-se concluir que a restrição de fluidos em colecistectomia aberta determina alta mais precoce.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
José Eduardo de Aguilar Nascimento
Rua Estevão de Mendonça, 81 / 801 Goiabeiras
CEP: 78043-330 - Cuiabá - MT
E-mail: aguilar@terra.com.br

Recebido em 01/08/2007
Aceito para publicação em 02/10/2007
Conflito de interesses: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).