SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.38 número2The "ethical" repair of the abdominal wall índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versión impresa ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.38 no.2 Rio de Janeiro marzo/abr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912011000200001 

EDITORIAL

 

Elogio à cirurgia

 

Compliment to surgery

 

 

TCBC-MG Andy Petroianu

 

 

A principal característica do cirurgião é ser humano, em toda a sua concepção. É provável que o ato cirúrgico tenha sido a primeira manifestação a diferenciar-nos dos outros animais. A agregação para acasalamento, alimentação do grupo, defesa e construção de abrigos é observada na maioria das espécies, inclusive nos insetos, há milhões de anos. Entretanto, a vontade e a capacidade de cuidar das feridas do semelhante, estancar um sangramento e retirar objetos que penetraram em seu corpo não fazem parte do comportamento de outros animais e constituem o primeiro ato característico de nossa espécie. Não é fora de propósito presumir que os humanos se diferenciaram de todos os outros animais quando começaram a operar.

Esse comportamento já era evidenciado na sociedade primitiva milhares de anos antes de ela conscientizarse das doenças. Portanto, a Cirurgia constitui o início da Medicina e estabeleceu-se como um instinto superior de preservação da espécie humana. Com a evolução do raciocínio, percebeu-se que as feridas bem cuidadas saravam e esse conhecimento passou a ser transmitido aos membros mais evoluídos das comunidades primitivas, com interesse em ajudar os demais. Dessa maneira, surgiu não apenas a arte de cuidar, mas também a educação para cuidar. Até essa época, a transmissão cultural restringia-se aos ensinamentos instintivos de sobrevivência, da forma como são vistos nos animais. Assim sendo, os cirurgiões foram também os responsáveis pela formação da civilidade, constituindo os primórdios escolares.

Milhares de anos mais tarde, os sábios gregos reconheceram, em suas lendas, essa evolução da Cirurgia para a Medicina. Conta-se que havia no monte Pelion um mestre muito habilidoso, denominado Quirão, cujo maior talento era a capacidade de sarar os ferimentos de quem o procurava. Seu zelo não era apenas com os feridos, pois também se dedicava ao ensinamento de sua arte. Entre seus discípulos, destacou-se Asclépio, por seu interesse pelo doente como um todo e não somente por suas lesões. Tanto Quirão quanto Asclépio foram imortalizados na Mitologia, um como o sábio centauro, patrono dos cirurgiões, e o seu discípulo como o deus da Medicina.

A Medicina Cirúrgica evoluiu extraordinariamente em várias civilizações, abrangendo chineses, indianos, maias, sumérios, babilônios, egípcios e romanos. No entanto, a escola médica da ilha de Cós, alicerce da Medicina Ocidental, restringiu o conhecimento médico aos cuidados, ao diagnóstico e à prevenção das doenças. Os vários Hipócrates que dirigiram esse núcleo médico tinham grande percepção da natureza humana e discerniam muitas drogas, mas, certamente, não tinham habilidade manual, por isso menosprezaram a Cirurgia. Essa conduta provocou a dicotomia entre Medicina e Cirurgia, que perdurou até o início do século XX.

Os médicos e os sacerdotes adquiriram destaque social, como sábios e cultos, mas sua atuação profissional durante dois milênios restringiu-se aos conceitos e às orientações da Escola de Cós, mesmo após o surgimento das universidades, no terceiro período da Idade Média. Em contrapartida, os cirurgiões, considerados cidadãos de segunda e terceira categoria, eram os que cuidavam dos guerreiros nas batalhas, dos gladiadores nas arenas e das chagas de toda a população. A eles menos importava se-rem escravos, como Claudius Galenus, ou barbeiros, como Ambroise Paré, do que a regalia de exercerem a sua arte e serem úteis a quem sofria.

Afinal, os cirurgiões eram artesãos e sua vida era motivada pela arte de operar, mesmo sem receberem o valor social que eles sabiam lhes ser devido. Enquanto os médicos das camadas sociais superiores os tratavam com arrogância e desprezo, não os admitindo em seu meio, aos cirurgiões bastava a consciência do dever cumprido com os doentes, cuja gratidão era, por vezes, externada aos médicos, que nada haviam feito por eles. Esse comportamento deselegante foi revelado por escritores e encenado nas peças de teatro dos grandes William Shakespeare e Jean-Baptiste Poquelin (Molière).

Mesmo com o avanço médico a eles devido, os cirurgiões não tiveram realce. Até os insuperáveis John Hunter, cirurgião escocês pioneiro da Fisiologia e dos transplantes de órgãos, Dominique Jean Larrey, grande cirurgião e cientista da França napoleônica, e Ignaz Philipp Semmelweis, cirurgião húngaro que iniciou os cuidados de antissepsia, não foram bem aceitos pela classe médica. Somente no final do século XIX, com o progresso médico extraordinário proporcionado por cirurgiões, como Lister e Moynihan, na Inglaterra, Billroth e Wölfler, na Áustria, Péan e o Nobel Carrel, na França, Roux e o Nobel Kocher, na Suíça, Halsted e Mayo, nos Estados Unidos, entre muitos outros, os cirurgiões conseguiram o respeito das sociedades médicas.

O desenvolvimento científico contemporâneo é responsável pela compreensão das doenças, desde a sua predisposição genética até os seus mecanismos fisiopatológicos. Com os avanços tecnológicos e farmacológicos, o tratamento tornou-se mais racional e menos adverso. Mesmo assim, a Cirurgia permanecerá insubstituível no trauma, em distúrbios mecânicos do corpo e em doenças desconhecidas. A terapêutica cirúrgica passou a ser pouco agressiva, conduzida por meio de sondas, cateteres, tubos e cápsulas controlados por computadores e robôs. Dessa maneira, até em nossa era, que abriga o maior avanço da História em todas as artes e ciências, a Cirurgia continua exercendo o papel mais nobre e fascinante da sociedade.