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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.38 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912011000600013 

NOTA TÉCNICA

 

Conduta no tratamento do divertículo de uretra feminina

 

Treatment approach to female urethral diverticulum

 

 

Nelson Alfredo Smith

Professor Associado do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFRJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os divertículos de uretra feminina são incomuns e são mais freqüentes entre a terceira e a quinta décadas de vida. Geralmente é diagnosticado tardiamente. A maioria dos divertículos de uretra está relacionada à infecções recorrentes das glândulas periuretrais ou ao traumatismo uretral. . A uretrocistografia e a ressonância magnética são os métodos de imagem de maior valor no diagnóstico desta doença. O tratamento de eleição e a ressecção do divertículo.

Descritores: Diagnóstico. Doença. Divertículo. Uretra. Saúde da mulher.


ABSTRACT

Female urethral diverticula are uncommon and are more frequent between the third and fifth decades of life. They are usually diagnosed late. Most urethral diverticula are related to recurrent infections of the periurethral glands or urethral trauma. Cystourethrography and magnetic resonance imaging are the most valuable diagnostic methods. The treatment of choice is thte resection of the diverticulum.

Key words: Diagnosis. Disease. Diverticulum, Urethra. Women's health.


 

 

INTRODUÇÃO

O divertículo da uretra feminina, congênito ou adquirido é uma doença pouco frequente, e sua incidência varia de 0,6 a 6% da população feminina1-4. Apresenta-se, geralmente, entre a terceira e quinta décadas da vida, embora tenha sido encontrado em recém-nascidas e mulheres jovens3-6. Ocorre predominantemente nos dois terços distais da uretra2,3, algumas séries indicam um acometimento maior das mulheres negras2,4. Em geral o diagnóstico é feito tardiamente, após vários atendimentos médicos 4,5,7-11

Embora haja um aumento de incidência de divertículos de uretra feminina acredita-se que realmente este aumento seja devido a uma maior consciência da existência desta doença associada ao progresso dos atuais métodos de imagem 3,5,8,12.

A teoria mais aceita para explicar a formação destes diverticulos preconiza que eles sejam provenientes de lesões adquiridas, originadas das glândulas periuretrais de Skene, que sofrem uma dilatação cística e, após terem seu conteúdo infectado, abscedam. Este abscesso abre-se para a luz uretral com a conseqüente formação do divertículo2,7,9,12.

Foram descritas distensões localizadas de uretra como alterações anatômicas que podem simular um divertículo de uretra7. Alguns autores ao demonstrar que os aspectos histopatológicos do divertículo de uretra são semelhantes aos observados nos cistos parauretrais sugerem que estas doenças não devam ser consideradas distintas5,12.

A escassez de relatos, na literatura nacional, sobre o divertículo de uretra feminina nos estimulou a elaborar estes comentários técnicos sobre o tratamento cirúrgico desta doença.

 

QUADRO CLÍNICO

Em muitas pacientes os divertículos são assintomáticos,.e podem estar associados à infecções urinárias de repetição ou à manifestações locais de inflamação.

Na maioria das vezes podem ser encontrados vários sinais e sintomas: dor na uretra, disúria, polaciúria, urgência urinária, hematúria, uretrorragia; tornando a tríade sintomática clássica composta por disuria, dispareunia e gotejamento terminal de urina, infreqüente2,6,8,9. Ao exame físico os divertículos se apresentam como tumorações localizadas na porção súpero-distal da vagina , na linha média (Figura 1), e a consistência destas tumorações depende do conteúdo do divertículo que pode ser formado por líquido, cálculo ou tumor8. Quando o divertículo contiver material infectado, a expressão da tumoração dará saída à material purulento pelo meato uretral 2,10.

 

 

A presença de cálculos no interior do divertículo é infreqüente e ocorre em 5,7 a 10 % dos casos13. A presença de neoplasias em diverticulos uretrais é rara . Embora o carcinoma que mais acometa a uretra feminina seja o escamoso, nos divertículos predominam os adenocarcinomas, com cerca de 70% de prevalência sobre todos os carcinomas2,3,4,10,13,14. A lítíase e a neoplasia podem coexistir no mesmo divertículo13. Tem sido sugerido que os mesmos fatores que levam à formação de cálculos seriam responsáveis pela gênese das lesões neoplásicas nos diverticulos15. Excepcionalmente os divertículos se apresentam com obstrução do colo vesical ou até mesmo com retenção aguda de urina2,4,6,16,17.

Como disse Moore1 o diagnóstico do divertículo de uretra feminina está diretamente relacionado à vontade do cirurgião em descobri-lo.

Emprego dos métodos de imagem

Historicamente os métodos de imagem mais utilizados para o diagnostico dos divertículos de uretra têm sido a uretrocistografia miccional e a uretrocistografia de pressão positiva com cateter de duplo balão (Figura 2), A uretrocistografia miccional identifica os divertículos em 90% dos casos como uma coleção de contraste redonda ou oval logo abaixo da sínfise pubiana15. São exames invasivos, pois necessitam de cateterismo vesical e podem provocar infecção urinária18. Os cálculos ou tumores que ocupam o interior dos divertículos podem ser vistos como imagem de falha de enchimento nos exames radiológicos contrastados e os divertículos do 1/3 proximal da uretra, que são menos freqüentes, quando se extendem cranialmente podem elevar a base da bexiga, provocando uma imagem semelhante a uma próstata aumentada de volume15.

 

 

Na última década a ultrassonografia tornou-se um exame de grande valor para auxiliar no diagnóstico do divertículo de uretra com a vantagem de não utilizar radiação ionizante, ser pouco dispendioso e proporcionar imagens em diferentes orientações19.

A Ressonância Magnética (RM) tem contribuído muito para o diagnóstico do divertículo de uretra, identificando sua configuração anatômica precisa, sua posição, extensão e relação com a uretra e evidenciando as neoplasias existentes no interior do divertículo. 10,20, com a vantagem de não ser método invasivo5,8,10,18,20-23. De acordo com a imagem da RM os divertículos de uretra podem ser classificados em 3 tipos: divertículos simples, divertículos em forma de U (Figura 3) e divertículos circunferenciais ou em ferradura5. Atualmente a uretrocistografia miccional e a RM são considerados os métodos diagnósticos de maior valor3,5,8, havendo uma crescente evidência de que a RM é o exame radiológico com maior sensibilidade para o diagnóstico do divertículo de uretra, identificando a lesão mesmo quando a uretrocistografia miccional é normal 24. A RM é de grande valia para o planejamento da cirurgia, particularmente nos divertículos circunferenciais 5,8,22.

 

 

Os pacientes com divertículo de uretra que apresentam incontinência urinaria de esforço também deverão ser submetidos aos exames de videourodinâmica8. A uretrocistoscopia deve ser indicada na tentativa de identificação do óstio uretral do divertículo e para afastar outras doenças vesicais8,16.

Tratamento: aspectos técnicos

O divertículo deve ser completamente excisado após cuidadosa dissecção. O fechamento deve ser feito em três planos interessando orifício uretral, fáscia periuretral e parede vaginal5,6,8,20,24. O tratamento definitivo do divertículo de uretra é cirúrgico e o acesso é feito por via transvaginal8,16.

Os divertículos pequenos e próximos ao meato uretral podem ser tratados com uma simples marsupialização6,17. Os divertículos grandes, múltiplos ou circunferenciais tornam a operação complexa, explicando, desta forma, o alto índice de reoperações necessárias para a resolução total dos sintomas5,17,24. Estes divertículos necessitam de dissecção extensa da uretra em toda sua circunferência resultando em perda de segmento uretral e um grande espaço morto22. Nestes casos aplicam-se retalhos como o músculo gracilis, retalho de Martius, grande omento ou enxerto com derme de porco11. Alguns autores utilizam o enxerto labial de Martius como uma tentativa de diminuir a possibilidade de formação de fistula uretro-vaginal8,16.

Quando coexistem divertículo uretral e incontinência urinaria de esforço, o tratamento simultâneo é controverso5,6,8,16,17, pois ocorrerá a modificação anatômica da uretra causada pela operação para corrigir a incontinência urinária e esta alteração anatômica dificultará a exposição da uretra numa possível reintervenção 17. É importante assinalar que se a opção for pelo tratamento simultâneo, os materiais sintéticos utilizados para a correção da incontinência urinária devem ser evitados12,16,17,22.

Nos casos de divertículos contendo tumor o tratamento deverá ser extensa, podendo ser necessário o emprego da uretrocistectomia radical com derivação urinaria e também de radioterapia. 2,3,14.

A técnica utilizada em nossa paciente, portadora de um diverticulo grande e do tipo simples, foi a diverticulectomia por via vaginal preconizada por Moore1, onde o balão do cateter de Foley, sem o bulbo, é introduzido e insuflado no interior do divertículo para facilitar sua dissecção (Figura 4). A paciente evoluiu bem, sem intercorrências, estando assintomática após um ano de seguimento pós-operatorio e sem recidiva do divertículo.

 

 

As principais complicações pós operatórias são: a recidiva do divertículo e a fistula uretro-vaginal. Os fatores de risco para recidiva são divertículos circunferenciais e reoperações8 e os sintomas residuais acometem mais as pacientes submetidas a repetidas operações do que aquelas submetidas às ressecções primárias extensas17. A incontinência urinaria de esforço e, também, as lesões vesicais podem ocorrer, porém são menos frequentes5,17.

 

Agradecimentos

Sra. Maria de Fátima Pinto, Secretária Sênior do Departamento de Ortopedia da Fac Med UFRJ, pela excelência no preparo das referências bibliográficas.

Dr Leonardo Kayat Bittencourt, Radiologista Especialista em Ressonância Magnética do Abdômen e Pelve, pela cortesia em ceder a foto da Ressonância Magnética.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Nelson Alfredo Smith
E-mail: n-smith@uol.com.br

Recebido em 08/11/2010
Aceito para publicação em 08/01/2011
Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhum