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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.39 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912012000400005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Análise epidemiológica de 210 casos de hematoma extradural traumático tratados cirurgicamente

 

 

João Luiz Vitorino AraujoI; Ulisses do Prado AguiarII; Alexandre Bossi TodeschiniII; Nelson SaadeIII; José Carlos Esteves Veiga, TCBC-SPIV

INeurocirurgião formado pela Disciplina de Neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo-SP-BR
IIMédico Residente da Disciplina de Neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
IIIProfessor Instrutor da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
IVProfessor Adjunto da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo- SP-BR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar aspectos da epidemiologia, apresentação clínica e radiológica de pacientes com hematoma extradural traumático (HED) submetidos a procedimento neurocirúrgico.
MÉTODOS: Foi realizada a revisão de prontuários de 210 pacientes admitidos no Serviço de Emergência com HED diagnosticados através de tomografia computadorizada, tratados cirurgicamente no período de agosto de 1998 a janeiro de 2008. Foram analisados: idade,  sexo, apresentação clínica e radiológica, mecanismo de trauma e status neurológico no momento da alta hospitalar.
RESULTADOS: Em 49,2% o mecanismo de trauma foi queda; 89,2% dos pacientes eram do gênero masculino; 49,7% dos casos tinham Escala de Coma de Glasgow (ECG) entre 13-15; 61% dos pacientes tinham idade entre 20-49 anos; A localização do HED em 26,5% e 19,6% dos casos foi têmporo-parietal e temporal, respectivamente; 32,8% tinham lesões intracranianas associadas, sendo a fratura craniana evidenciada em cerca de 45% dos casos; 76,2% dos pacientes tratados cirurgicamente tiveram alta com déficit mínimo ou ausência de déficit neurológico.
CONCLUSÃO: Observamos que o HED, na população de estudo, apresenta-se mais frequentemente no gênero masculino, na quarta década de vida, mais relacionado às quedas. Na admissão, observamos uma ECG entre 13 e 15, sendo pertinente mencionar o envolvimento da região têmporo-parietal na maioria dos casos. Acreditamos que o conhecimento da epidemiologia do hematoma extradural traumático pode auxiliar na elaboração de medidas de saúde pública, visando à prevenção e identificação precoce desta doença em determinada população.

Descritores: Hematoma. Hematoma epidural espinal. Escala de coma de Glasgow. Traumatismos craniocerebrais. Procedimentos cirúrgicos operatórios.


 

 

INTRODUÇÃO

Dentre as principais lesões decorrentes de traumatismo crânio-encefálico (TCE), o hematoma extradural (HED) é uma das mais letais1-5. O HED classicamente ocorre pela ruptura da artéria meníngea média, causando sangramento arterial que disseca a dura-máter da tábua óssea interna do crânio. A presença do hematoma promove o aumento da pressão intracraniana causando lesão celular e dano cerebral.

O contínuo desenvolvimento dos meios de transporte associado ao desrespeito às leis de trânsito e uma sociedade cada vez mais agressiva, são os principais responsáveis pelo aumento do número de casos de hematomas extradurais traumáticos2,3 que apresentam uma elevada taxa de mortalidade, quando o diagnóstico é realizado tardiamente. A mortalidade dos pacientes no início do Século XX era cerca de 80%, constituindo assim uma verdadeira emergência neurocirúrgica6. Na década de 70, com o advento da angiografia e a melhoria dos métodos diagnósticos, a taxa de mortalidade era superior a 30%1. A introdução da tomografia computadorizada (TC) permitiu o diagnóstico precoce, levando à diminuição da mortalidade e da morbidade causada por esta doença3,4.

Atualmente, o HED representa cerca de 1% a 5,5% das lesões intracranianas nos pacientes vítimas de TCE, podendo sua mortalidade chegar a 20%1. Apesar da pequena porcentagem de pacientes com traumatismo craniano desenvolverem HED, a rápida deterioração neurológica observada é frequentemente dramática1,4,5. O diagnóstico precoce e a intervenção neurocirúrgica em tempo hábil, promovem a redução da morbidade e da mortalidade, desta forma é fundamental que as pessoas que realizam o atendimento aos pacientes politraumatizados estejam familiarizados e capacitados a conduzir o tratamento deste tipo de lesão5.

O objetivo deste trabalho é analisar alguns aspectos da epidemiologia, da apresentação clínica e radiológica de pacientes com o diagnóstico de hematoma extradural traumático que foram submetidos a procedimento neurocirúrgico.

 

MÉTODOS

Foram incluídos os pacientes admitidos no Pronto Socorro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, durante o período de agosto de 1998 a janeiro de 2008, com diagnóstico de hematoma extradural traumático pela tomografia computadorizada de crânio (TC) e que foram tratados cirurgicamente. Os pacientes selecionados tiveram seus prontuários revisados.

Foram avaliados: idade, sexo, mecanismo de trauma, estado neurológico na admissão, lesões cranianas e encefálicas diagnosticadas na TC, localização do HED, tempo de hospitalização e estado neurológico no momento da alta hospitalar. Todos os pacientes foram inicialmente tratados segundo o protocolo do Advanced Trauma Life Support (ATLS). Na admissão, o estado neurológico foi avaliado usando a Escala de Coma de Glasgow (ECG), e na alta hospitalar foi utilizado o Glasgow Outcome Scale (GOS) ou Escala de Resultados de Glasgow (ERG).

Foram excluídos deste estudo: pacientes não submetidos a tratamento neurocirúrgico, pacientes com hematoma extradural espontâneo e os pacientes com prontuários extraviados ou que apresentavam informações conflitantes.

 

RESULTADOS

Durante o referido período, 210 pacientes foram admitidos no Setor de Emergência com diagnóstico de hematoma extradural. Nossa série incluiu pacientes de seis meses de vida até os 79 anos de idade, sendo mais frequente nos pacientes na quarta década de vida (Tabela 1).

 

 

O sexo masculino foi mais acometido que o feminino, respectivamente 89,2% e 10,8%. Os principais mecanismos de trauma observados em nosso estudo foram: queda, atropelamentos, acidentes motociclísticos, agressões físicas, acidentes automobilísticos e mecanismo desconhecido (Tabela 2).

 

 

Na admissão, 102 pacientes (49%) apresentavam-se com ECG entre 13-15, 41 pacientes (19%) tinham o ECG entre 9-12 e 32% apresentavam TCE grave com ECG entre 3-8.

As fraturas cranianas foram observadas em 45% dos casos, sendo o osso temporal o mais acometido (Tabela 3).

 

 

A localização mais frequente do HED foi a região têmporo-parietal com 26,5%, seguida pela região temporal que representou 19,6% dos casos (Figura 1). Em 33% dos pacientes havia lesão intracraniana associada, sendo que a contusão cerebral foi responsável por 46,9% destas lesões, o hematoma subdural agudo por 42,0%, a hemorragia subaracnóidea por  9,9%  e a lesão axonal difusa por 1,2%.

 

 

Oitenta e seis pacientes (40,7%) obtiveram alta hospitalar após sete dias de internação, 32% dos pacientes, entre 7-14 dias e 28% tiveram alta após 14 dias de internação sendo que 65,6% dos pacientes não apresentaram déficits após o tratamento cirúrgico. A taxa de mortalidade encontrada neste estudo foi de 15,5% (Tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

O hematoma extradural traumático é uma das lesões neurocirúrgicas de maior gravidade, pois os pacientes com este diagnóstico apresentam-se em risco potencial de morte4,7. O diagnóstico e o tratamento tardio do HED relacionam-se com aumento da mortalidade e piora do resultado funcional dos pacientes3-5.

Em nosso Serviço observamos que o HED é mais prevalente nos pacientes do gênero masculino, o que sugere uma maior exposição dos homens a lesões traumáticas como quedas e agressão física no nosso meio.

A principal faixa etária acometida no nosso estudo foi a quarta década de vida. Estes resultados estão de acordo com os dados encontrados na literatura1-5,7. Estes pacientes apresentam maior exposição a situações de risco como dirigir em alta velocidade sem o uso do cinto de segurança ou trafegar de motocicleta sem o capacete, tornando-os mais vulneráveis ao traumatismo craniano e hematoma extradural. Nos pacientes idosos o HED é menos frequente devido a forte adesão da dura-máter ao crânio, dificultando o descolamento da mesma e o acúmulo sanguíneo3. Nas crianças, como o sulco ósseo que aloja a artéria meníngea média ainda não está formado, a lesão desta artéria é menos frequente3.

O principal mecanismo de trauma encontrado em nosso estudo foi a queda da própria altura, o que é justificado pela patogênese do hematoma extradural, mais frequentemente associado a traumas leves ou moderados, como quedas de alturas pequenas, agressões físicas e outros4,5.

Na admissão, a maioria dos pacientes encontrava-se com ECG entre 13 e 15, demonstrando que o hematoma extradural é, muitas vezes, consequência de um trauma de baixa energia com pouca repercussão sobre o parênquima encefálico. Nos pacientes com HED, cerca de 22 a 56% encontram-se em coma na admissão ou imediatamente antes da operação3. O clássico "intervalo lúcido", descrito como a perda da consciência que se segue a um período lúcido e que rapidamente se deteriora para o coma, foi observada em 47% dos pacientes2,4,7. A maioria dos pacientes apresenta-se aparentemente sem déficits neurológicos à admissão, tornando de extrema importância a avaliação adequada dos pacientes vítimas de trauma, pois o mesmo pode ser portador desta emergência neurocirúrgica.

As fraturas cranianas estavam presentes em 45% dos casos, sendo oportuno mencionar o envolvimento da região temporal na maioria dos casos, o que confirma a importância da relação anatômica entre a artéria meníngea média e o osso temporal na fisiopatologia do HED2,3,6.

A origem do HED pode resultar de lesão da artéria meníngea média, veia meníngea média, veias diploicas ou dos seios venosos durais6. Historicamente, o sangramento da artéria meníngea média tem sido considerada a principal fonte do HED3. Entretanto só foi possivel identificar uma fonte arterial para o sangramento em menos da metade dos casos de HED, mostrando um papel importante da origem venosa3.

Consistentemente com outras séries, a localização mais frequente do HED foi têmporo-parietal e temporal3-8. Este fato ocorre principalmente devido à susceptibilidade dessas regiões a traumas externos e devido a sua íntima relação anatômica com a artéria meníngea média.

O tempo de permanência hospitalar foi menos de sete dias em 40,7% dos casos e, no momento da alta hospitalar, cerca de 76% dos pacientes estavam em condições clínicas satisfatórias, sem déficits neurológicos ou com déficits mínimos. Os fatores mais importantes para um bom resultado funcional do tratamento do HED são: ECG, idade, anormalidades pupilares na admissão, presença de lesões intracranianas associadas, o tempo decorrente entre deterioração neurológica e a intervenção cirúrgica3. No nosso estudo, a maioria dos pacientes foram adultos jovens com TCE leve operados precocemente, justificando os bons resultados.

Concluímos que o HED, na população de estudo, apresenta-se mais frequentemente no gênero masculino, na quarta década de vida, mais relacionado às quedas. Na admissão, observamos uma ECG entre 13 e 15, sendo pertinente mencionar o envolvimento da região têmporo-parietal na maioria dos casos. Acreditamos que o conhecimento da epidemiologia do hematoma extradural traumático pode auxiliar na elaboração de medidas de saúde pública, visando à prevenção e identificação precoce desta doença em determinada população

 

REFERÊNCIAS

1. Cheung PS, Lam JM, Yeung JH, Graham CA, Rainer TH. Outcome of traumatic extradural haematoma in Hong Kong. Injury. 2007;38(1):76-80.         [ Links ]

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3. Pereira CU, Santos EAS, Cavalcante S, Serra MV, Pascotto D, Fontora EAF. Hematoma extradural intracraniano. J bras neurocir. 2005;16(1):25-34.         [ Links ]

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Endereço para correspondência:
João Luiz Vitorino Araujo
E-mail: vitorinomed@yahoo.com.br

Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhum

Recebido em 01/11/2011
Aceito para publicação em 05/02/2012

 

 

Trabalho realizado no Serviço de Emergência da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

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