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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.39 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912012000400014 

COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA

 

Perfil das dissertações e teses brasileiras acerca do trauma: uma pesquisa documental

 

 

Pétala Tuani Candido de Oliveira SalvadorI; Kisna Yasmin Andrade AlvesI; Claudia Cristiane Filgueira MartinsI; Viviane Euzébia Pereira SantosII; Francis Solange Vieira TourinhoIII

IMestranda do PPGENF-UFRN. Bolsista CAPES
IIProfessora do Departamento de Enfermagem e vice líder do grupo de pesquisa laboratório de investigação do cuidado, segurança e tecnologias em saúde e enfermagem da UFRN
IIIProfessora do Departamento de Enfermagem e líder do grupo de pesquisa laboratório de investigação do cuidado, segurança e tecnologias em saúde e enfermagem da UFRN

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Caracterizar as dissertações e teses disponíveis no Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que versam sobre a traumatologia.
MÉTODOS: Trata-se de uma pesquisa documental sobre a caracterização das dissertações e teses brasileiras que versam sobre a traumatologia, disponíveis no Banco de Teses da CAPES. A coleta de dados foi realizada no mês de março do ano de 2012, por mestrandos e doutores segundo protocolo de pesquisa.
RESULTADOS: Foram analisadas 411 dissertações e teses acerca do trauma. Elucidaram-se considerações acerca dos seguintes aspectos dos estudos selecionados: nível acadêmico, local de desenvolvimento, formação do autor, desenho metodológico, temática e tipo de trauma.
CONCLUSÃO: O quantitativo significante de estudos analisados revela a importância do trauma no cenário atual, a expansão dos programas de pós-graduação e a sintonia dos pesquisadores com a temática que aflige de maneira preocupante a epidemiologia nacional e internacional.

Descritores: Pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico. Dissertações acadêmicas como assunto. Ferimentos e lesões. Medicina de emergência. Serviços médicos de emergência.


 

 

INTRODUÇÃO

A palavra trauma tem origem da Grécia e apresenta  como significado ferida. Atualmente, é uma terminologia utilizada pela medicina e demais áreas afins da saúde, apresentando conceitos que se relacionam com os acontecimentos indesejados e produtores de lesão ou dano e a um conjunto de perturbações decorrentes de agentes físicos, com etiologia e natureza diversas1,2.

Assim, o trauma é visto como um dos principais problemas de saúde pública em todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento, ocupando mundialmente a terceira causa de mortalidade, antecedido apenas pelas doenças cardiovasculares e pelas neoplasias1,2.

O trauma diferencia-se dos demais problemas de saúde pública por levar às alterações fisiológicas e estruturais no organismo mediante trocas de energias mecânica, química, térmica, por irradiação e elétrica entre o organismo, especificamente, os tecidos, e o meio externo2-4.

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) define o grupo de traumas – acidentes, lesões intencionais, outras causas externas de traumatismos acidentais, lesões intencionais e agressões – numa classificação denominada Causas externas5.

Assim, no Brasil, o cenário epidemiológico do trauma possui significativa representatividade nas estatísticas de mortalidade, evidenciando-se o incremento do número de óbitos desde a década de 70. No ano de 2004, os traumas foram responsáveis por 127.470 óbitos, com especial concentração em áreas urbanizadas. No ano de 2009, passou a ocupar o terceiro lugar das causas de mortalidade na população, ocasionando 138.697 óbitos nas faixas etárias de 15 a 59 anos1.

Outras estatísticas apontam que, anualmente, 60 milhões de pessoas sofrem algum tipo de trauma. Em 2010, 23.960 brasileiros morreram, em decorrência de lesões traumáticas, durante o período de internação nas instituições de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), apresentando como principais tipos de trauma os homicídios, seguidos pelos acidentes de trânsito2,3,6.

Diante do apresentado, pode-se considerar o trauma como um complexo problema de saúde pública no Brasil pelas seguintes justificativas: 1) constitui-se a terceira causa de mortalidade geral; 2) é responsável, anualmente, por mais de 125 mil mortes; 3) 400 mil vítimas sofrerão com as sequelas definitivas; 4) o trauma consome mais anos de vida do que o primeiro e o segundo problema de saúde que mais incrementa os índices de mortalidade no país – as doenças cardiovasculares e as neoplasias; 5) gera altos custos diretos e indiretos com a assistência, perfazendo um valor superior à dívida externa do país; e 6) constitui problema de saúde em consequência das mudanças sociais, econômicas e políticas, como o desemprego, a marginalização, o desenvolvimento automobilístico4,7,8.

Partindo da importância epidemiológica que o trauma representa no cenário brasileiro e internacional, bem como do papel ímpar da pesquisa como ferramenta norteadora de uma prática em saúde qualificada e coerente com os preceitos normatizados pela Constituição Federal da República9 e pela Política Nacional de Atenção às Urgências10, delimita-se como objeto do presente estudo o trauma e questiona-se: 1) Quais as características das dissertações e teses disponíveis no Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que versam sobre a traumatologia? 2) Quais temáticas referentes à traumatologia vêm sendo abordadas?

Para responder a estes problemas, o estudo objetiva caracterizar as dissertações e teses disponíveis no Banco de Teses da CAPES que versam sobre a traumatologia.

 

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa documental sobre a caracterização das dissertações e teses brasileiras que versam sobre a traumatologia. A pesquisa documental corresponde a uma modalidade de estudo que utiliza fonte ampla de documentos considerados primários ou matérias-primas, ou seja, documentos que não passaram por um tratamento analítico11.

Nesta perspectiva, a pesquisa documental do presente estudo foi desenvolvida no Portal de Periódicos da CAPES, especificamente, no Banco de Teses da CAPES. A escolha por esses tipos de monografias científicas se deu por serem as teses caracterizadas por originalidade, alto nível de pesquisa e possibilidade de progresso na área científica; e por serem as dissertações marcadas pelo rigor metodológico semelhante às primeiras11,12.

A pesquisa documental foi realizada, por mestrandos e doutores. Para norteá-la, foi construído um protocolo de pesquisa, validado por duas das autoras com doutoramento. A coleta de dados foi realizada em pares.

O protocolo, intitulado "Protocolo da Pesquisa Documental", era composto pelos seguintes elementos: tema; objetivo do estudo; questões norteadoras; estratégias de busca (banco de dados, descritor não controlado e descritores controlados); seleção dos estudos (critérios de inclusão e critérios de exclusão); estratégia para coleta de dados dos estudos; e o quadro com o resultado da pesquisa documental.

Foram utilizados os descritores "serviços médicos de emergência" e "medicina de emergência", controlados pelos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), e o descritor não controlado "trauma".

Como critérios de inclusão, foram selecionadas as dissertações e teses, disponíveis eletronicamente no Banco de Teses da CAPES, que versavam sobre a traumatologia, apreciando os aspectos epidemiológicos, a assistência pré-hospitalar, a assistência hospitalar, a reabilitação, a prevenção, o ensino, a ética e pesquisas clínicas.

Para melhor apresentação e compreensão dos achados, foram atribuídos conceitos aos elementos temáticos supracitados: a) Na temática "aspectos epidemiológicos" foram incluídos os estudos relacionados à epidemiologia com caracterização de sujeitos, eventos ou instituições; b) No item "assistência pré-hospitalar", os estudos acerca do processo de trabalho pré-hospitalar; c) Em "assistência hospitalar", aqueles que abarcavam o processo de trabalho na área hospitalar; d) Na temática "reabilitação", os estudos que dissertavam sobre as atividades de reabilitação de vítimas de trauma; e) Os estudos voltados para as práticas de prevenção das injúrias traumáticas foram incluídos no item "prevenção"; f ) Em "ensino", agruparam-se os estudos acerca do desenvolvidos de ferramentas de ensino relacionadas às injúrias traumáticas; g)"Ética" compreendeu os estudos dos aspectos éticos da assistência à vítima de trauma; h) Na temática "pesquisa clínica", incluíram-se os estudos experimentais envolvendo seres humanos acerca das injúrias traumáticas.

Foram excluídos do estudo as dissertações e teses que não abordavam consistentemente a temática apreciada, que dissertavam sobre pesquisas com animais e sobre traumas psicológicos. Ressalta-se que a dimensão temporal não foi estabelecida como critério de exclusão, selecionando-se todas as dissertações e teses que respondessem afirmativamente aos critérios de inclusão supracitados.

A análise do desenho metodológico dos estudos seguiu a classificação que divide as pesquisas em: bibliográfica, descritiva, experimental e exploratória13.

Foi avaliada a qualidade das evidências, classificada em sete níveis: no nível 1 estão as recomendações decorrentes de revisão sistemática ou metanálise de ensaios clínicos randomizados controlados ou oriundas de diretrizes clínicas baseadas em revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados controlados; no nível 2, evidências derivadas de pelo menos um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado; no nível 3, aquelas obtidas de ensaios clínicos bem delineados sem randomização; no nível 4, as provenientes de estudos de coorte e de caso-controle bem delineados; no nível 5, evidências originárias de revisão sistemática de estudos descritivos e qualitativos; no nível 6, aquelas derivadas de um único estudo descritivo ou qualitativo; e, no nível 7, as recomendações oriundas de opinião de autoridades e/ou relatório de comitês de especialistas14.

 

RESULTADOS

A pesquisa, tendo por base o protocolo estabelecido, obteve um universo de 1537 dissertações e teses a partir dos descritores utilizados que tal quantitativo foi, então, submetido à análise por pares, o que originou uma amostra final de 411 produções científicas, 27,1% do universo inicial (Tabela 1).

No que concerne ao nível acadêmico dos estudos selecionados, 306 (74,5%) eram provenientes de mestrado acadêmico, 83 (20,2%) de doutoramento e 22 (5,3%) de mestrado profissionalizante.

As três Instituições de Ensino Superior com maior produção de estudos sobre a temática foram a Universidade de São Paulo, com 86 pesquisas (20,9%), a Universidade Federal de São Paulo, com 38 (9,2%), e a Universidade Federal de Minas Gerais, com 25 estudos (6,0%) (Figura 1).

Os estudos selecionados foram produzidos pela Medicina, Psicologia, Odontologia, Nutrição, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Farmácia, Engenharia Elétrica, Enfermagem, Biologia e Arqueologia. Destas, destacaram-se, quanto ao maior número de produções sobre o trauma, a Medicina, com 200 produções (48,6%), a Enfermagem, com 107 (20,0%), e a Odontologia, com 66 (16,0%) (Figura 2).

 

 

Ao avaliar as produções das três principais profissões na área de trauma, , tem-se o seguinte quadro: a Medicina produziu 165 (82,5%) pesquisas descritivas, 31 (15,5%) estudos experimentais e quatro (2,0%) pesquisas bibliográficas; a Enfermagem desenvolveu 106 (99,1%) pesquisas descritivas e apenas um (0,9%) pesquisa experimental; e a Odontologia realizou 63 (95,5%) pesquisas descritivas e três (4,5%) estudos bibliográficos

Os estudos versaram, principalmente, sobre os aspectos epidemiológicos, tema de 176 estudos (42,8%); assistência hospitalar, 102 (24,8%); e resultados de pesquisa clínica, 46 (11,1%) (Figura 3).

 

 

Os tipos de traumas mais referidos nos estudos foram: trauma cranioencefálico (TCE), temática de 65 produções (15,8%); trauma ortopédico, discutido em 55 pesquisas (13,4%); trauma raquimedular (TRM), tema de 39 estudos (9,5%); acidente de trânsito e trauma dentário, ambos referidos em 37 pesquisas (9,0% cada). Os dados que relacionam o ano de produção das dissertações ou teses acerca dos cinco tipos de trauma mais frequentemente referidos podem ser vistos na figura 4.

 

DISCUSSÃO

O significativo número de produções, que compreenderam as teses e dissertações defendidas a partir de 1987 (arquivadas no banco de teses de 1986 a 2010) – ou seja, desde o ano em que a CAPES começou a arquivar os trabalhos científicos da pós-graduação brasileira – não é apenas reflexo da importância epidemiológica que o trauma assume na realidade atual, mas também resultado da inquestionável expansão do sistema de pesquisa e pós-graduação no Brasil, tanto em quantidade quanto em qualidade15.

O desenvolvimento de pesquisas, que incide na sustentação do crescimento econômico e na melhoria da qualidade de vida, tem relação direta com o cotidiano, orientado para as demandas mais imediatas e para a busca de respostas a questões universais, como é o caso do trauma, que assume, na contemporaneidade, o caráter de um sério problema social e comunitário8,15,16.

Desse modo, a pesquisa, que, desde os anos 70, procura a (e se desenvolve na) pós-graduação, reflete a preocupação dos profissionais em responder aos problemas reais e potenciais, com o fim último de incidir em melhorias, sejam elas de ordem intelectual ou prática17. Analisar o processo de produção intelectual dos pesquisadores também assume tal objetivo, permitindo o conhecimento do perfil das investigações fomentadas ao longo dos anos.

Quanto ao nível acadêmico das investigações analisadas, o quadro é condizente com a realidade da pós-graduação brasileira, em que o mestrado acadêmico, seguindo uma tendência histórica, é o tipo de curso de pós-graduação que mais titula e mais cresce no país, sendo os mestrados profissionais ainda incipientes, formando não mais que três mil pessoas por ano18.

O local de desenvolvimento das pesquisas também reflete um cenário nacional em que predominam as produções no Sudeste e no Sul. Ao analisar os dados dispostos na Figura 1, denotam-se as seguintes cifras: 270 (65,7%) estudos provem da região Sudeste brasileira, com destaque para o estado de São Paulo, espaço de maior concentração de cursos de pós-graduação no cenário brasileiro; 66 (16,1%) investigações foram produzidas na região Sul; 51 (12,4%) no Nordeste; 22 (5,4%) no Centro-Oeste do Brasil; e apenas dois (0,4%) foram realizados na região Norte.

Vê-se, desse modo, uma predominância de pesquisas que segue a mesma ordem de regiões federativas brasileiras no que se refere à distribuição de programas de pós-graduação no país, segundo informações da CAPES relativas ao ano de 201019. Estudo que avaliou trabalhos científicos apresentados em Congresso de Trauma no Brasil também observou a elevada proporção de trabalhos provenientes das regiões Sul e Sudeste, em que São Paulo sozinho correspondeu por 28,5% dos estudos20.

Ao analisar a formação dos autores, merecem destaque os cursos de Medicina, com 200 (48,7%) produções científicas, Enfermagem que produziu 107 (26,0%) estudos e Odontologia com 66 (16,1%).

Ressalta-se o destaque que possuem os cursos de pós-graduação na grande área Ciências da Saúde no cenário nacional, os quais englobam 16,0% de todos os cursos do país19. Quando se elucida que a pós-graduação das instituições de ensino públicas é, atualmente, responsável por 90% da produção da Ciência no Brasil16, põe-se em relevo a importância dos cursos supracitados na produção de inovações e, consequentemente, na promoção da melhoria da atenção/assistência à saúde dos brasileiros.

É enfático que os trabalhos científicos estimulam o desenvolvimento e o progresso do conhecimento, incidindo em melhorias nas formas de abordagem e intervenção às vítimas de traumas20.

Todavia, quando se analisa o desenho metodológico dos estudos, revela-se uma problemática: a predominância de pesquisas descritivas e a incipiência de estudos experimentais.

Ao se avaliar as produções das três principais profissões na área de trauma, (Tabela 2), observou-se uma predominância de pesquisas descritivas, totalizando 334 (89,5%), com uma mínima parcela de estudos experimentais, 32 (8,6%). No que se refere ao universo das produções analisadas, 364 pesquisas eram descritivas (88,6%), 38 eram experimentais (9,3%) e as nove restantes eram bibliográficas (2,1%).

Avaliar o desenho metodológico dos estudos significa trazer à tona uma discussão cada vez mais presente em todos os cenários, intelectuais e assistenciais: a classificação das pesquisas segundo níveis de evidência, a qual se faz importante há mais de 20 anos, quando Suzanne Fletcher e Dave Sackett, trabalhando em exames periódicos para a Canadian Task Force desenvolveram-na para ranquear a validade de condutas preventivas em saúde21. Essa classificação tem por base uma hierarquização dos estudos que busca facilitar o entendimento do grau de recomendação clínica dos resultados provenientes das pesquisas21,22.

Assim, quanto à qualidade de evidência, o que se constatou foi a numerosa produção de estudos que se enquadram no nível de evidência 6. Não se propende afirmar, todavia, que as pesquisas desenvolvidas não possuem significância para o cenário intelectivo nacional e internacional, tendo em vista que também os estudos descritivos são importantes para a análise de contextos e para subsidiar a produção de evidências de maior nível. O que se aborda, de fato, é a necessidade de equilibrar tais algarismos, incentivando o fomento de pesquisas experimentais de qualidade.

O mesmo aspecto é confirmado quando se investiga os dados dispostos na Figura 3, em que se analisam as temáticas das dissertações e teses selecionadas. Confirma-se a predominância de estudos acerca de aspectos epidemiológicos, de importância inquestionável, e, cabe destacar, a incipiência de pesquisas clínicas.

Estudo que buscou avaliar o cenário da pós-graduação no Brasil revelou que o número de patentes brasileiras registradas por ano, menos de 4 mil, é extremamente baixo quando comparado com países como China (122 mil), Coréia do Sul (128 mil), França (14 mil), Alemanha (48 mil), Itália (9 mil), Japão (333 mil), Rússia (27 mil), Inglaterra (17 mil) e Estados Unidos (240 mil), o que reflete a existência de pouca inovação no setor empresarial nacional e ainda incipiente vinculação da pesquisa dos programas de pós-graduação com os setores produtivos18.

Mais uma vez se destaca, portanto, a necessidade de se estimular o desenvolvimento de pesquisas clínicas, as quais, de acordo com a literatura, possibilitam a ampliação de tratamentos ou procedimentos mais modernos, cuidados de saúde considerados de ponta, investimentos internacionais, desenvolvimento tecnológico do setor e melhoria do atendimento médico das instituições como um todo23.

Destaca-se, além disso, o baixo incremento de pesquisas acerca da prevenção do trauma, temática que, segundo estudiosos, é o mais importante parâmetro no controle do trauma: "a) é a única forma de evitar as mortes que ocorrem no local do acidente; b) é o meio mais eficiente e barato de reduzir os custos (mortes, sofrimento, despesas, perdas de produtividade, etc.), da doença trauma; c) e, na maioria dos casos, é possível8".

Os tipos de traumas abordados nos estudos foram: facial, ortopédico, vascular, raquimedular, dentário, abdominal, cranioencefálico, queimadura, violência, acidente de trânsito, torácico, retal e pélvico, além de pesquisas que não especificaram um tipo de trauma, elucidando de forma genérica aspectos relativos ao processo educativo, ao processo de trabalho dos profissionais de saúde nos ambientes pré-hospitalar e hospitalar, ou mesmo tratavam de acidente de forma generalizada (tais como acidentes domiciliares e causas externas) ou o politraumatismo.

Observou-se a predominância de estudos acerca do TCE, trauma ortopédico, TRM, acidente de trânsito e trauma dentário, conforme se viu na Figura 4. No total, essas cinco temáticas foram abordadas em 233 dissertações ou teses (56,7%).

Foi possível perceber, em geral, o quantitativo ascendente de estudos ao longo dos anos, o que reflete uma realidade em que, cada vez mais, o trauma se destaca como importante causa de morbimortalidade: a era industrial, o desenvolvimento tecnológico, o aumento da velocidade de veículos, além das condições socioeconômicas e a própria natureza humana são fatores que contribuíram para o crescimento progressivo dos mais diferentes tipos de trauma8.

Destaca-se ainda a essencialidade de se avaliar a taxa de publicação em periódicos dos estudos analisados, sugestão para análises futuras, isso porque, uma vez não publicados, os trabalhos ficam restritos ao âmbito nacional, limitando, por vezes, os avanços que poderiam proporcionar, tanto para conscientização profissional, quanto para o planejamento de investimentos e programas na área de trauma20.

Em síntese, apreende-se que a pós-graduação brasileira está em sintonia com tal assertiva, buscando desenvolver, cada vez mais, estudos que respondam aos problemas cotidianos, como é o caso do trauma, importante problema sanitário atual.

Conclui-se que existe um quantitativo significante de dissertações e teses brasileiras acerca do trauma, aspecto revelador da importância da temática no panorama atual, da expansão quantitativa e qualitativa dos programas de pós-graduação ao longo dos anos e da sintonia dos pesquisadores com uma relevante temática que aflige de maneira preocupante a epidemiologia nacional e internacional: o trauma.

Elucidou-se a relevância da Medicina, da Enfermagem e da Odontologia na produção de conhecimentos sobre a traumatologia. Ressaltou-se que ainda é incipiente no contexto brasileiro o fomento de estudos experimentais, o que necessita ser estimulado para a consecução de conhecimentos reveladores de níveis de evidência profícuos que se traduzam em melhorias sanitárias.

Importante destacar ainda um elemento que dificultou a análise das dissertações e teses: a despadronização dos resumos disponibilizados no Portal CAPES, o que, por vezes, dificulta a compreensão dos elementos fundamentais de um estudo científico e, consequentemente, compromete a divulgação do conhecimento.

Por fim, refletiu-se acerca da importância de se analisar a taxa de publicação das dissertações e teses em periódicos, veículo de disseminação do conhecimento que permite a disseminação global dos resultados dos estudos.

 

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Endereço para correspondência:
Dra. Viviane Euzébia Pereira Santos
E-mail: vivianeepsantos@gmail.com

Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhum

Recebido em 30/04/2012
Aceito para publicação em 30/05/2012