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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.40 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912013000600010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeitos do óleo de andiroba (Carapa guianensis) na função hepática de ratos submetidos à isquemia e reperfusão normotérmica do fígado

 

 

Nathalya Botelho BritoI; Jorge Mangabeira de Souza JuniorI; Layra Ribeiro Sousa LeãoI; Marcus Vinicius Henriques Brito,TCBC-PAII; Amália Cínthia Meneses RêgoIII; Aldo Cunha Medeiros, ECBC-RNIV

IAlunos participantes de Programa de Iniciação Científica Universidade do Estado do Pará (UEPA) e Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
IIProfessor Titular de Cirurgia da UEPA, Pará, Brasil
IIIProfessora da Universidade Potiguar, UnP. Natal-RN, Brasil
IVProfessor Titular Chefe do Núcleo de Cirurgia Experimental – Departamento de Cirurgia da UFRN. Natal- RN, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar os efeitos do óleo da andiroba (Carapa guianensis) na função do fígado de ratos submetidos à isquemia/reperfusão hepática normotérmica.
MÉTODOS: foram utilizados 12 ratos Wistar, distribuídos em dois grupos: solução salina (n=6) e andiroba (n=6). O grupo andiroba foi tratado com óleo de andiroba (0,63ml/kg, VO) durante sete dias antes do procedimento cirúrgico. A isquemia foi induzida por oclusão da vascularização dos lobos mediano e lateral do fígado, usando clip vascular, nos dois grupos, por 45min, com posterior reperfusão por 60min. Analisaram-se as dosagens de AST, ALT, Gama-GT e biodistribuição hepática do fitato-Tc99m.
RESULTADOS:não houve diferença significante no percentual de radioatividade/grama de tecido (%ATI/g) no lobo direito do grupo salina (17,53±2,78) quando comparado com o grupo andiroba (18,04±3,52), com p=0,461, o mesmo ocorrendo no %ATI/g do lobo esquerdo do fígado quando os dois grupos foram comparados (p=0,083). No grupo salina o %ATI/g foi significativamente mais elevado no lobo hepático direito não isquemiado (17,53±2,78), em comparação com o lobo esquerdo (5,04±0,82), que sofreu isquemia/reperfusão (p=0,002). Diferença significante também ocorreu na comparação entre os lobos direito (18,04±3,52) e esquerdo (7,11±1,86) dos animais do grupo andiroba (p=0,004). Não houve diferença significante nas dosagens de AST, ALT e Gama-GT comparando-se os dois grupos (p>0,05).
CONCLUSÃO:o óleo de andiroba não contribuiu para a proteção da função hepática em modelo de lesão induzida por isquemia e reperfusão normotérmica do fígado de ratos.

Descritores: Fígado. Óleos vegetais. Isquemia. Reperfusão. Ratos.


 

 

INTRODUÇÃO

A lesão por isquemia-reperfusão (I/R) do fígado envolve  uma série complexa de processos que culminam na lesão hepatocelular. É consequência comum da cirurgia hepática, particularmente após hepatectomias e transplante de fígado, complicada por insuficiência microcirculatória, seguida de necrose e morte celular1. Neste contexto, especula-se que o dano oxidativo desempenha papel importante, incluindo o resultado de transplantes de órgãos. As estratégias atuais para o tratamento da lesão por I/R hepática são o tratamento preventivo2 ou farmacológico3. A modulação farmacológica pode ter aplicação mais universal, mas, apesar de várias formulações terapêuticas terem sido estudadas para reduzir a mortalidade induzida pela I/R, nenhuma delas tem sido totalmente bem sucedida4,5. Desse modo, o desenvolvimento de novas estratégias para a prevenção e tratamento de lesão hepática por I/R é crítico para a melhoria dos resultados em pacientes sob tais condições.

Carapa guianensis é árvore amplamente conhecida e utilizada como planta medicinal na região da Mata Amazônica. No Brasil, ela é conhecida popularmente como andiroba, carapa e carapinha6. É valorizada pela madeira e suas propriedades medicinais, sendo recomendada por programa das Nações Unidas como de grande potencial farmacêutico. Todas as partes da árvore - especialmente o óleo de suas sementes -, têm sido usadas empiricamente para fins medicinais. Comunidades tradicionais da Amazônia utilizam sabão de óleo de semente de Carapa guianensis para o tratamento de doenças de pele, artrite, reumatismo, infecções, feridas, contusões e como repelente de insetos7. Vários estudos demonstraram atividade anti-inflamatória, analgésica e antialérgica desse óleo8,9. Ele tem sido muito utilizado por extrativistas, índios e ribeirinhos da Amazônia também em casos de picadas de animais peçonhentos, para combater helmintos, protozoários, hepatite e outras afecções do fígado3. Sua caracterização química revelou a presença dos ácidos mirístico, palmítico, linoleico, oleico, ácido esteárico e ácidos graxos araquídicos, alguns tetranortriterpenoides como 6-alfa-acetoxi-epoxyazadiradiona, oxogedunina, gedunina, andirobina, metil angolensato10, aminas, ácidos hexacosanoico e ursólico, naringenina, escopoletina, alguns deles com propriedades antioxidantes, entre outros componentes11.

Assim sendo, o objetivo deste trabalho foi avaliar os efeitos do óleo de andiroba (Carapa guianensis) na função hepática de ratos submetidos à lesão induzida por I/R normotérmica do fígado.

 

MÉTODOS

O presente estudo caracteriza-se como experimental e comparativo, realizado através de cooperação entre a UEPA e a UFRN, na qual o Laboratório de Cirurgia Experimental da UEPA cedeu o óleo de andiroba (certificado pela Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e os experimentos foram realizados no Núcleo de Cirurgia Experimental da UFRN. Todos os animais da presente pesquisa foram cuidados segundo a legislação nacional para vivissecção animal em vigor, Lei federal 11.794.

Foram utilizados 12 ratos machos da linhagem Wistar provenientes do biotério do Centro de Ciências da Saúde da UFRN, que foram distribuídos em dois grupos de seis cada: grupo solução salina e grupo andiroba. Os animais do grupo andiroba foram tratados com óleo de andiroba (0,63ml/kg, VO) durante sete dias antes do procedimento cirúrgico, e o outro grupo com solução salina 0,63ml/Kg, VO, durante sete dias.

A anestesia foi realizada utilizando-se cetamina intramuscular 50mg/kg de peso, associada ao tiopental sódico intraperitoneal, na dose de 20mg/kg de peso. As operações ocorreram com técnica asséptica e os animais observados em gaiolas individuais com água e alimento ad libitum.

Em todos os ratos foi realizada laparotomia mediana de 5cm a partir do apêndice xifoide. Após exteriorizados os lobos do fígado, a isquemia hepática foi induzida por oclusão dos vasos que suprem os lobos mediano e esquerdo, usando clip vascular (bulldog), nos dois grupos, por 45min. Após a retirada do clip vascular, houve reperfusão hepática por 60min.

Biodistribuição do fitato-Tc99m

Foi realizada para avaliar a resposta de captação radioativa hepática. Decorrido o período de I/R, 0,1ml (0,66MBq) do radiofármaco fitato-pertecnetato (fitato-Tc99m) foi injetado através da veia jugular. Após 30 minutos os animais foram mortos com superdose de anestésico (tiopental 100mg/Kg). Amostras dos lobos esquerdo e direito do fígado foram retiradas, lavadas em solução salina 0,9% e pesadas em balança de precisão. As amostras foram colocadas separadamente em tubos de ensaio descartáveis com 8cm de altura por 1cm de diâmetro e introduzidas no contador gama automático. Os resultados foram descritos em contagem por minuto, devidamente corrigida para desintegrações por minuto. A atividade específica de cada amostra foi calculada dividindo a contagem absoluta de radioatividade em desintegrações por minuto pelo peso da amostra em gramas. O percentual de radioatividade de cada amostra de fígado por grama de tecido (%ATI/g) foi calculado dividindo-se a atividade específica pela radioatividade total injetada em cada animal.

Dosagens laboratoriais

Amostras de sangue foram obtidas por punção cardíaca. O sangue foi centrifugado a 3000rpm por 10min e amostras de plasma foram estocadas à -40°C até análise de aspartato aminotransferase (AST), alanina aminotransferase (ALT) e gama-GT. As dosagens foram realizadas com a utilização de espectrofotômetro, com Kits CEPA.

 

RESULTADOS

A tabela 1 mostra, descritivamente, os resultados da biodistribuição de fitato-Tc99m encontrados nos lobos direito e esquerdo do fígado, como também os resultados dos testes para investigar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre os grupos salina (controle) e andiroba.

Observa-se que os valores da captação radioativa no lobo direito dos animais tratados com solução salina (17,53±2,78) não foram estatisticamente diferentes dos verificados nos animais do grupo andiroba (18,04±3,52), correspondendo ao p=0,461. Do mesmo modo, não houve diferença significante nos valores do %ATI/g do lobo esquerdo do fígado quando os dois grupos foram comparados (p=0,083). Entretanto, no grupo tratado com solução salina, a captação radioativa de fitato-T99m foi significativamente mais elevada no lobo hepático não isquemiado (direito), em comparação com o lobo esquerdo, que sofreu I/R (p=0,002). Diferença significante também ocorreu na comparação entre os lobos direito e esquerdo dos animais do grupo tratado com andiroba (p=0,004). Estes dados estão resumidos na tabela 1.

Na tabela 2 pode-se verificar que não houve diferença significante na concentração plasmática das enzimas AST, ALT e gama-GT comparando-se os grupos solução salina e andiroba (p>0,05), indicando que o tratamento dos animais com andiroba não contribuiu para alterar as provas de função hepática.

 

DISCUSSÃO

A Carapa guianensis foi recomendada por programa de desenvolvimento das Nações Unidas como espécie vegetal com grande potencial farmacêutico7. O potencial das sementes está no seu óleo, extraído de forma artesanal, que é administrado por via oral ou tópica, também utilizado pela indústria farmacêutica na formulação de cosméticos7. Pesquisas relatam o potencial antimicrobiano e anti-inflamatório do óleo da andiroba, podendo atuar como um fator adjuvante no tratamento de inflamações de vários órgãos12.

O radiofármaco fitato-Tc99m é usado como prova de função hepática e no diagnóstico de doenças do fígado através de exames de imagem, na dependência de sua biodistribuição7. Estudo recente mostrou que em ratos a esplenectomia provocou alteração na captação de fitato-Tc99m pelo fígado, coincidindo com deterioração da função hepática13.

No presente estudo foram avaliados os efeitos do óleo da andiroba na função hepática de ratos submetidos à lesão induzida por isquemia e reperfusão hepática normotérmica. O pré-tratamento dos animais com o óleo não foi suficiente para alterar a deterioração da função hepática, examinada através da captação do fitato-Tc99m. O efeito do óleo de andiroba apresentou-se neutro na proteção da função hepática, indicando provavelmente que, na concentração utilizada, não atuou minimizando os danos decorrentes do procedimento de I/R. Comparando-se a captação radioativa do lobo hepático esquerdo (que sofreu isquemia) dos animais do grupo controle com os que usaram andiroba, verificou-se que houve maior captação do radiofármaco no grupo experimental do que nos tratados com solução salina, porém a diferença entre os grupos foi estatisticamente não significante. Tal achado indicou que o óleo de andiroba não contribuiu para evitar ou reduzir a deterioração da função hepática pela I/R.

Comparando-se os lobos direito e esquerdo, foi encontrada diferença de captação estatisticamente significante, sugerindo que o lobo isquemiado foi altamente afetado na sua capacidade de captar fitato-Tc99m. Alguns trabalhos têm demonstrado que o óleo de andiroba não provoca ou aumenta morbimortalidade quando aplicado na cavidade abdominal de ratos14,15, em período de até sete dias. No presente trabalho foi utilizada a via oral. Em um dos raros estudos a respeito da toxicidade aguda e subaguda do óleo de andiroba, Costa-Silva et al. encontraram em ratos Wistar aumento dos níveis séricos de ALT e aumento absoluto e relativo no peso de fígados dos animais tratados, podendo indicar a possibilidade de toxicidade hepática16. Em outro estudo em camundongos, foi demonstrado que a toxicidade hepática aguda do óleo de andiroba é praticamente nula, quando administrado por via oral17. No presente estudo ocorreu discreto aumento na dosagem da gama-GT após o tratamento com óleo de andiroba, mas a comparação das médias demonstrou diferença insignificante do ponto de vista estatístico. Observou-se tendência de redução da ALT e AST nos animais tratados com óleo de andiroba, porém sem significado estatístico.

Os dados obtidos permitem concluir que o tratamento com óleo de andiroba não contribuiu para a proteção da função hepática em modelo de lesão induzida por isquemia e reperfusão normotérmica em fígados de ratos.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Aldo Cunha Medeiros
E-mail: aldo@ufrnet.br

Recebido em 13/10/2012
Aceito para publicação em 10/12/2012
Conflito de interesse: nenhum.
Fonte de financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

 

 

Trabalho realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em cooperação com a Universidade do Estado do Pará.

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