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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.41 no.6 Rio de Janeiro nov./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912014006013 

Nota Técnica

Uso de retalho muscular de parede abdominal para reconstrução ureteral. Estudo experimental em coelhos

Nelson Alfred Smith 1  

Paulo Cesar Silva 2  

Manoel Luiz Ferreira 2  

Alberto Schanaider 2  

1Departamento de Cirurgia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil

2Centro de Cirurgia Experimental, Departamento de Cirurgia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil

RESUMO

Os autores detalham o desenvolvimento experimental de uma técnica para a reconstrução do ureter, utilizando um retalho muscular da parede abdominal, na forma tubular. O resultado preliminar indica a viabilidade desta técnica operatória.

Palavras-Chave: Ureter; Retalhos Cirúrgicos; Parede Abdominal

INTRODUÇÃO

As lesões traumáticas do ureter são eventos relativamente frequentes e podem ser causadas por lesões iatrogênicas, na maioria das vezes, após operações ginecológicas, urológicas ou após traumatismo abdominal, contuso ou penetrante. Algumas técnicas podem ser empregadas para o tratamento destas lesões, variando desde a ureteroenterostomia à interposição ileal1 - 4. Os retalhos musculares são, há muito tempo, pesquisados experimentalmente como substitutos de segmentos do aparelho urinário5.

Neste estudo descrevemos uma técnica de reconstrução ureteral utilizando um retalho mioperitoneal confeccionado com elementos da parede abdominal.

TÉCNICA

Foram utilizados seis coelhos, da raça branco da Nova Zelândia, machos, com peso de 3kg. A medicação anestésica constou da associação de ketamina (35mg/Kg) e xylazina (5mg/kg) via intramuscular na pré-anestesia, seguida da anestesia geral com indução e manutenção com isoflurano e oxigênio 100%, por via inalatória, em sistema aberto.

Após a realização da laparotomia mediana suprapúbica e, após dissecção da parede ventral do abdome, confeccionava-se um retalho muscular, pediculado, irrigado pelos vasos epigástricos, com aproximadamente 3cm de largura e 5cm de comprimento (Figura 1).

Figura 1 -  Retalho muscular pediculado, com vaso epigástrico (seta). 

O retalho é moldado de forma tubular sobre um cateter, de modo que a superfície aponeurótica seja a interna e a superfície peritoneal, a externa. Em seguida, após ressecção de aproximadamente 0,5cm da parede vesical dorsal, a bexiga é anastomosada com a extremidade distal do tubo muscular.

Após secção do ureter na junção do terço médio com o terço distal, procede-se o cateterismo ureteral no sentido cranial, com cateter de polipropileno com 1mm de diâmetro, de tal forma que este fique posicionado no interior do tubo muscular, alcançando a bexiga. Na sequência, para refazer o trânsito urinário, o segmento cranial do ureter é anastomosado ao orifício proximal do tubo muscular (Figura 2).

Figura 2 -  Retalho muscular tubularizado (rmt), suturado à bexiga (b) e ao segmento remanescente do ureter (u). 

Foi administrado analgésico no pós-operatório por cinco dias e observada a postura corporal do animal. Diariamente realizava-se a inspeção da ferida operatória e a palpação do abdome na área de topografia renal para avaliar o tamanho do rim. O aspecto e a quantidade da urina foram também observados. Realizava-se a necropsia no 60º dia do período pós-operatório, com verificação in situ, das estruturas urinárias.

Este projeto foi aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais - CEUA - Laboratório de Cirurgia Experimental do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro - FM/UFRJ.

DISCUSSÃO

A lesão ureteral é uma complicação que pode ocorrer após qualquer operação abdominal, pélvica ou manobra endoscópica1 , 2.

O tratamento varia em função do segmento ureteral comprometido e do status funcional da unidade renal2 , 3. Na dependência do segmento de ureter lesionado, várias técnicas de reconstrução ureteral podem ser utilizadas3 , 4 ,. Nos casos de grande desvitalização tecidual ou comprometimento de um grande segmento de ureter, são necessárias medidas extremas como o autotransplante renal ou a interposição de alça ileal4 , 6, que pode substituir um segmento ou, todo o ureter 7 - 12.

No presente estudo, a aplicação do retalho muscular pediculado, da parede abdominal, configurado na forma tubular, para a reconstrução parcial do ureter, mostrou-se adequada. No exame da ferida operatória não foi constatado infeção ou deiscência. Não houve o surgimento de hérnia incisional na área doadora do retalho muscular pediculado, a urina apresentava aspecto e cor normais e os animais urinavam normalmente. Na necropsia, constatou-se a preservação das estruturas anatômicas e a manutenção da permeabilidade da luz do tubo muscular.

Desta forma, conforme os resultados obtidos neste estudo, a utilização de retalho muscular da parede abdominal, tubularizado, para a substituição parcial de um segmento ureteral é uma técnica viável e pode ser uma alternativa na reconstrução de segmentos ureterais.

REFERÊNCIAS

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 02 de Fevereiro de 2014; Aceito: 05 de Maio de 2014

Endereço para correspondência: Nelson Alfred Smith E-mail: nalfredsmith@gmail.com

Conflito de interesse: nenhum.

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