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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.42 no.3 Rio de Janeiro maio/jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912015003012 

Ensino

Modelo porcino no ensino da cricotiroidotomia cirúrgica

Fernando Antonio Campelo Spencer Netto 1  

Patricia Zacharias 1  

Raphael Flavio Fachini Cipriani 1  

Michael De Mello Constantino 1  

Michel Cardoso 1  

Renan Augusto Pereira 1  

1Faculdade de Medicina na Universidade Estadual do Oeste do Paraná

RESUMO

OBJETIVO:

avaliar a aceitabilidade de um projeto de ensino utilizando modelo porcino de vias aéreas no ensino da cricotiroidotomia cirúrgica para estudantes de Medicina e médicos residentes em um hospital universitário no sul do Brasil.

MÉTODOS:

foi desenvolvido um projeto de ensino usando modelo porcino para treinamento em cricotiroidotomia cirúrgica. Estudantes de Medicina e residentes receberam aula teórica sobre esta técnica cirúrgica e, em seguida, realizaram no modelo o treinamento prático. Após o procedimento, todos os participantes preencheram um formulário acerca da importância do treinamento em manuseio de vias aéreas e do modelo utilizado.

RESULTADOS:

houve 63 participantes. A qualidade geral do modelo porcino foi estimada em 8,8, enquanto a correlação anatômica entre o modelo e a anatomia humana recebeu o escore médio de 8,5 entre os treinandos. O modelo foi unanimemente aprovado e considerado útil no ensino do procedimento.

CONCLUSÃO:

o treinamento de cricotiroidotomia cirúrgica em modelo porcino apresentou boa aceitação entre os estudantes de Medicina e os residentes desta Instituição.

Palavras-Chave: Manuseio das Vias Aéreas; Cartilagem Cricoide/cirurgia; Cartilagem Tireoidea/cirurgia; Ensino/educação

INTRODUÇÃO

Treinamento médico, principalmente nas fases iniciais, está cada vez mais baseado em simulações1. A simulação é um método interativo e imersivo de ensino, recriando uma experiência clínica total ou parcial, sem expor pacientes a riscos associados aos procedimentos1 , 2. As modalidades de simulação podem variar de acordo com o tipo de tecnologia utilizada. Entre os simuladores de baixa tecnologia, são encontrados os modelos baseados em animais e cadáveres de humanos ou de animais3.

O manejo das vias aéreas é fundamental nas situações de emergência4. Pacientes que necessitam de uma via aérea cirúrgica podem representar 1% dos procedimentos para obtenção de uma via aérea definitiva em situações de urgência. No entanto, uma vez que esse método é utilizado quando não se obtém sucesso na realização de outras técnicas, a falha na obtenção da via aérea cirúrgica geralmente pode levar à morte por hipoxia5. Entre as técnicas de via aérea cirúrgica, a cricotiroidotomia é preferida à traqueotomia em situações de emergência devido a sua simplicidade e rápida execução4.

O presente estudo apresentou e analisou a aceitabilidade de um projeto de ensino utilizando modelo porcino de vias aéreas no ensino da cricotiroidotomia cirúrgica para estudantes de medicina e médicos residentes em um hospital universitário no sul do Brasil.

MÉTODOS

Em junho de 2013, iniciou-se na Universidade Estadual do Oeste do Paraná um projeto de ensino utilizando modelos porcinos no treinamento de procedimentos de ressuscitação, para estudantes de Medicina do último ano e residentes. Como parte deste projeto de ensino, os alunos preencheram um questionário para "feedback" sobre o modelo utilizado. Foram analisados os questionários utilizados para a avaliação do modelo de vias aéreas de suínos pelos participantes do início do projeto até agosto de 2014. Projeto aprovado (Prograd CR 40119/2013).

Cada sessão deste projeto de ensino compreendeu grupos de aproximadamente dez alunos ou residentes e consistia em três etapas: a) os treinandos participaram de uma aula sobre anatomia cervical e cricotiroidotomia cirúrgica, de acordo com os princípios do ATLS(r) (Advanced Trauma Life Support(r)); b) na sequência, praticaram a cricotiroidotomia cirúrgica no modelo porcino, supervisionados por um instrutor do ATLS; c) aos treinandos foi solicitado que preenchessem um questionário de avaliação do modelo (opcional).

Segmentos de via aérea de porcos foram obtidos através de doação, oriundos de animais utilizados para consumo humano, de acordo com as regras de regulação sanitária.

Foram utilizados um segmento de via aérea porcina iniciando acima da cartilagem tireoide até 10cm abaixo da cartilagem cricoide e um segmento de pele de suíno (Figura 1). Uma bolsa de plástico foi adaptada ao final da traqueia e o espécime foi colocado sobre uma superfície rígida de madeira (Figura 2). O espécime foi coberto com um segmento de pele suína. Uma luva de borracha foi unida e tensionada no segmento interno da pele suína (Figura 3), para simular uma "nova" membrana cricotiroidea, após o primeiro procedimento. A pele porcina foi então fixada à superfície rígida, permitindo que o segmento de via aérea pudesse ser deslocado por baixo da pele, a fim de utilizar o mesmo modelo para vários treinandos (média de dez treinandos / modelo - Figura 4). Um campo foi colocado sobre a bolsa plástica, para simular o movimento do tórax visto durante a ventilação. O passo a passo da construção do modelo e seu funcionamento podem ser observados no site http://youtu.be/I8fDbost0O8.

Figura 1 - Via aérea suína e segmento de pele. 

Figura 2 - Via aérea suína sobre placa rígida com uma bolsa plástica (pulmão) adaptada. 

Figura 3 - Pele suína com luva de borracha fixada em sua porção interna. A luva simula a membrana cricotiroidea após o primeiro procedimento. 

Figura 4 - Modelo de via aérea pronto para prática. O campo cirúrgico cobre o "tórax" e movimenta-se a cada ven-tilação. 

O questionário de avaliação versou sobre os aspectos epidemiológicos, treinamentos prévios no manejo de vias aéreas e a adequação do modelo para treinamento de estudantes de medicina e residentes. Algumas das respostas do questionário não foram objeto desse estudo, mas utilizadas no intuito de melhorar as oportunidades de ensino na graduação.

Especificamente, foram solicitadas avaliações da qualidade geral do modelo (critérios de robustez, facilidade de manuseio e similaridade de tecidos) e correlação anatômica (semelhança com a anatomia esperada na espécie humana), ambas com escores variando de "0" a "10".

O questionário foi elaborado pelo autor principal e não foi previamente validado. Os dados do questionário foram agrupados e apresentados em números absolutos e porcentagens.

Durante a fase de desenvolvimento, três cirurgiões com experiência em cricotiroidotomia cirúrgica testaram o modelo. Eles, unanimemente, o aprovaram como ferramenta educacional e deram nota média de 8,7 à sua qualidade geral e 7,6 à sua correlação anatômica.

O grupo de ensino foi composto por: a) estudantes de Medicina do internato de Pronto Socorro (último ano da nossa graduação médica); b) médicos residentes de Cirurgia Geral e Clínica Médica (primeiro e segundo ano de residência) que solicitaram o treinamento. O critério de exclusão foi ausência do participante no treinamento.

RESULTADOS

Este projeto teve 63 participantes, sendo 54 estudantes de Medicina e nove médicos residentes. Não houve recusa em participar do treinamento ou em preencher o formulário de avaliação do modelo. A média de idade foi 26 ± 3,1 anos (variando de 22 a 39 anos de idade). Trinta e dois eram homens, 29 mulheres e dois não informaram o sexo. Entre os participantes, 60 (95.2%) informaram que não tiveram nenhum treinamento prévio neste procedimento.

Todos os participantes consideraram o modelo proposto com uma importante ferramenta no ensino da cricotiroidotomia cirúrgica para estudantes de Medicina. A média no quesito qualidade global do modelo foi 8,8 (escores variaram de "6" a "10"). A correlação anatômica do modelo teve média de 8,5 (escores também variaram de "6" a "10"). Todos os participantes avaliados aprovaram o uso desse modelo como adjunto de ensino na graduação médica.

DISCUSSÃO

Uma vez que a cricotiroidotomia cirúrgica é exigida com pouca frequência e os pacientes que dela necessitam estão, geralmente, em extremos fisiológicos, o desenvolvimento de modelos ou uso de animais são necessários para treinamento profissional, a fim de proporcionar formação médica6 , 7. O uso de modelos animais para treinamento de procedimentos em vias aéreas é frequente, uma vez que o tecido biológico possui maior similaridade com tecidos humanos, quando comparados aos materiais sintéticos8 , 9. Além disso, os modelos animais usando vias aéreas porcinas possuem baixo custo e são, frequentemente, de fácil obtenção10.

Os modelos de suínos podem apresentar vantagem econômica quando comparado com manequins10. No estudo atual, as peças das vias aéreas porcinas foram obtidas de doação de participantes após esses animais serem abatidos para consumo humano. O ensino da Medicina baseada em técnicas passivas e verificação de aquisição de conhecimento com base em provas escritas não são suficientes para garantir a competência, qualidade e segurança ao lidar com situações de emergência11. A maioria dos incidentes e eventos adversos graves que ocorrem em hospitais estão relacionados aos fatores humanos12 , 13, provavelmente estes números são maiores em casos de emergência12 - 14. A simulação tenta reduzir esses resultados indesejáveis , proporcionando uma educação baseada na aprendizagem ativa no ambiente de baixo risco, melhorando o conhecimento, a técnica e as habilidades não técnicas11. O acesso cirúrgico à via aérea na urgência é necessário quando outra técnica falha ou não é indicada4, sendo normalmente realizada por médicos emergencistas15. Realizar esse procedimento pode ser difícil se não houver treinamento adequado10; sugere-se ao menos cinco procedimentos de treinamento ou a realização desse procedimento em até 40 segundos nos manequins, a fim de se considerar os médicos proficientes9.

Existem vários modelos de ensino em manuseio de vias aéreas8 , 15. Tradicionalmente, o ensino da cricotiroidotomia é realizado em manequins ou animais, devido a razões éticas e econômicas8 , 16. Entre os modelos animais, o uso de vias aéreas porcinas está bem estabelecido17 - 19. As vias aéreas e a pele suínas são relativamente semelhantes aos tecidos humanos8 , 18, a similaridade da textura de modelo porcino e da sua anatomia com tecidos humanos foram consideradas superiores aos manequins10.

Este projeto de ensino apresenta um modelo de vias aéreas porcino, baseado em baixa tecnologia e custo, para o ensino da cricotiroidotomia cirúrgica na graduação médica. O modelo utilizado foi aprovado para o treinamento médico e uniformemente considerado importante por todos os participantes do estudo. O modelo utilizado nesse estudo foi testado previamente por três médicos experientes e independentes, que corroboraram com a boa correlação com a anatomia humana. Os estudantes também classificaram o modelo como de boa similaridade com a anatomia humana. Outro estudo mostrou resultados similares20. Cada modelo de via aérea porcina permitia, em média, a prática de dez participantes, devido à prática de deslizar o modelo sob a pele e a luva de borracha; os modelos vivos ou cadáveres não permitem essa repetição6 , 8. Essa possibilidade acrescenta praticidade e vantagem econômica ao modelo.

O modelo utilizado foi desenvolvido na instituição usando as condições locais. No entanto, existem outros modelos de vias aéreas porcinas descritos17 - 19. Além disso, o modelo não recria todas as características anatômicas presentes nas situações reais, tais como a protuberância mandibular, imobilização cervical, hematomas, urgência, obesidade, entre outros. Entretanto, realizar esse procedimento em situações reais sem treinamento ou simulações prévios pode incorrer em inadequação ética, podendo aumentar as chances de falha.

Existem poucos médicos experientes em cricotiroidotomia cirúrgica na região. Consequentemente, apenas três cirurgiões testaram o modelo. Porém, outros estudos utilizaram modelos animais similares para treinamento10 , 17 - 19. A opinião dos participantes sobre a correlação anatômica pode não ser tão precisa, uma vez que os participantes possuem relativamente baixo conhecimento da anatomia e pequena experiência no manejo de vias aéreas. Além disso, os alunos poderiam tender a dar notas altas aos modelos para agradar aos seus professores, mesmo que os questionários fossem preenchidos anonimamente. Desta forma, devido às limitações apresentadas, o modelo apresentado neste projeto de ensino necessita de validação adicional com metodologia especifica e/ou por outras instituições.

O modelo proposto de via aérea porcina teve boa aceitabilidade no treinamento de cricotiroidotomia cirúrgica. Considerando o baixo custo e a facilidade para preparação, o modelo apresenta um bom potencial para o treinamento de profissionais médicos em países em desenvolvimento. Estudos adicionais são necessários para a sua validação.

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Fonte de financiamento: nenhuma

Recebido: 05 de Abril de 2014; Aceito: 12 de Junho de 2014

Endereço para correspondência: Fernando Antonio Campelo Spencer Netto E-mail: fspencernetto@gmail.com

Conflito de interesse: nenhum

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