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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.42 no.5 Rio de Janeiro set./out. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912015005011 

Artigos Originais

Emprego de telas cirúrgicas de diferentes composições na correção de defeito da parede abdominal de ratos

Ana Cristina Isa1 

Jorge Eduardo Fouto Matias1 

Celia Toshie Yamamoto1 

Rosana Hapsi Isa2 

Antônio Carlos Ligocki Campos1 

Júlio Cezar Uili Coelho1 

1. Programa de Pós Graduação em Clínica Cirúrgica da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

2. Residente em Cirurgia Geral, Hospital Angelina Caron, Paraná, PR, Brasil

RESUMO

Objetivo:

analisar o desempenho de duas telas cirúrgicas de composições diferentes durante o processo de cicatrização de defeito de parede abdominal de ratos.

Métodos:

trinta e três ratos Wistar, machos adultos foram anestesiados e submetidos à retirada de parede abdominal anterior, exceto pele, com área de 1,5cmx2cm; 17 animais tiveram o defeito corrigido pela sutura borda a borda de tela cirúrgica, composta de polipropileno + poliglecaprone (Grupo U - Ultrapro(r)); 16 animais tiveram defeito corrigido utilizando tela cirúrgica composta de polipropileno + polidioxanone + celulose (Grupo P - Proceed(r)). Cada grupo foi dividido em dois subgrupos, de acordo com o momento da eutanásia (sete dias ou 28 dias após a operação). Foram analisados parâmetros macroscópicos (aderência), microscópicos (quantificação do colágeno maduro e imaturo) e tensiométricos (tensão máxima e força máxima de ruptura).

Resultado:

houve um aumento do colágeno tipo I no grupo Proceed(r) do período de sete dias para o de 28 dias, com p=0,047. E houve um aumento na tensão de ruptura quando comparados os dois períodos, nas duas telas analisadas. Houve menor tensão de ruptura e deformidade dos tecidos com a tela Proceed(r) em sete dias, levando a uma igualdade com 28 dias.

Conclusão:

as telas conservam semelhanças no resultado final e mais estudos com número maior de animais devem ser realizados para melhor avaliação.

Palavras-Chave: Parede abdominal/cirurgia; Hérnia Abdominal; Telas Cirúrgicas; Aderências Teciduais

INTRODUÇÃO

Desde há muito tempo, a cirurgia busca soluções adequadas para a correção duradoura de hérnias e defeitos de parede abdominal com perda de substância. Na presença de grandes defeitos da parede abdominal, aproximar as bordas do defeito é impraticável e desaconselhável. Ao longo do tempo, têm surgido diferentes propostas para a correção de tais defeitos, desde a utilização de tecidos originários de várias topografias do próprio paciente até o uso de próteses desenvolvidas de material sintético capaz de resistir à tensão.

As telas cirúrgicas estão sendo aperfeiçoadas para melhor aceitação do organismo, com relação à cicatrização e sua resposta inflamatória1-3 .

A tela Ultrapro(r) é composta por fios monofilamentares de baixa densidade, parcialmente absorvível, com macroporos no tamanho de 3-4 mm, desenvolvida com uma combinação de partes iguais de polipropileno, material não absorvível, e poliglecaprone, material absorvível (Ultrapro(r), Johnson & Johnson, USA). A tela Proceed(r) é composta por multicamadas separadora de tecidos, formada por fios monofilamentares, com macroporos, e por tela de polipropileno de baixa densidade situada entre duas lâminas de polidioxanona, uma camada de celulose oxidada regenerada (COR) matéria-prima de origem vegetal, e polidioxanona absorvível (Proceed(r), Johnson & Johnson, USA). Esta tela tem uma superfície especificamente desenvolvida para o contato com vísceras, objetivando o desenvolvimento de taxas de aderências significativamente menores em comparação com telas desprovidas desta tecnologia. Entretanto, nenhum incremento tecnológico responsável por menor contração de aderências deve resultar em comprometimento dos outros parâmetros de desempenho de uma tela cirúrgica, tais como resistência oferecida, biocompatibilidade, taxa de complicações4.

O propósito deste estudo é analisar comparativamente o desempenho das telas cirúrgicas Ultrapro(r) e Proceed(r) quando utilizadas na sutura borda a borda para a correção de defeito de parede abdominal experimentalmente produzido em ratos adultos.

MÉTODOS

Este estudo foi realizado no Biotério e no Departamento de Cirurgia do Centro Universitário Positivo. Foram adotadas as Normas para Apresentação de Documentos Científicos da Universidade Federal do Paraná (2007) e utilizada aNomina Anatômica Veterinária (1983). A pesquisa obedeceu aos princípios da experimentação animal, determinados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA) e pelo Canadian Council on Animal Care, e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Positivo sob o protocolo nº 2-2010.

A amostra foi constituída de 33 ratos Wistar (Rattus norvergicus albinus) machos, com peso corpóreo entre 200g e 300g, de 20 a 30 dias de vida, obtidos no Biotério do Centro Universitário Positivo.

Os animais foram mantidos no ambiente de experimentação quinze dias antes do início do experimento, em salas climatizadas com controle digital, com temperatura variando de 18°C a 20°C, umidade relativa do ar de 65% e em foto período de 12 horas no escuro. Receberam ração comercial peletizada Nuvilab-CR1(r) (Nuvital-Curitiba/PR) ad libitum.

Os animais foram distribuídos em dois grupos: Grupo U - composto por 17 animais nos quais foi utilizada a tela cirúrgica de polipropileno e poliglecaprone (Ultrapro(r)). Este grupo foi subdivido em: subgrupo U7 - composto por nove ratos que foram submetidos à eutanásia sete dias após a operação, e subgrupo U28 - composto por oito ratos que foram submetidos à eutanásia 28 dias após a operação; Grupo P - composto por 16 animais nos quais foi utilizada a tela cirúrgica mista de polipropileno, polidioxanona absorvível (PDS) e COR - camada de celulose oxidada regenerada (Proceed(r)). Este grupo foi subdivido em: subgrupo P7 - composto por oito ratos que foram submetidos à eutanásia sete dias após a operação, e subgrupo P28 - composto por oito ratos que foram submetidos à eutanásia 28 dias após a operação. Todos os animais receberam tela de 1,5x2cm sobre o defeito criado na parede abdominal que media 1,5x2cm. Os animais foram mortos em câmara de gás.

Os ratos foram sedados através de vaporização de isoflurano em campânula de vidro. Após a sedação, o animal recebeu uma associação de 100mg/Kg de cloridrato de quetamina a 10% e 10mg/Kg de cloridrato de xilazina a 2% por via intramuscular. Uma vez alcançado o plano anestésico, o rato foi posicionado em decúbito dorsal na mesa cirúrgica. O controle da dor durante a operação foi obtido pela administração intramuscular de 2,5mg/Kg de sulfato de morfina. No período de pós-operatório este mesmo esquema analgésico foi empregado durante os três primeiros dias seguido de manutenção com paracetamol via oral na dose de 20 gotas para 500ml de água consumida 5-12.

Após a instalação do plano anestésico, os animais foram posicionados em decúbito dorsal. Foi realizada tricotomia da região abdominal seguida pela limpeza/assepsia da pele com solução de iodo polivinil-pirrolidona (PVPI).

A técnica operatória utilizada: a) Incisão longitudinal xifopúbica da parede abdominal, com bisturi de lâmina nº 15 e cauterização dos vasos sangrantes da parede; b) Dissecção romba e com tesoura entre a pele e a aponeurose e músculo reto abdominal; c) Exérese de tecido da parede abdominal envolvendo aponeurose, músculo e peritônio parietal no tamanho de 1,5x2cm; d) Sutura da tela cirúrgica de dimensões idênticas à do defeito criado, borda a borda, com fio de polipropileno nº 4-0 em sutura contínua, ilustrados nas figuras 1 e 2; e) Fechamento da pele com sutura contínua entrelaçada com fio de prolipropileno nº 3-0. Ambos os grupos foram submetidos à mesma técnica operatória executada pelo mesmo operador.

Figura 1 - Tela Ultrapro(r) colocada na parede abdominal de ratos. 

Figura 2 - Tela Proceed(r) colocada na parede abdominal de ratos. 

Para analgesia pós-operatória foi administrada 2,5mg/kg de morfina intramuscular a cada 24 horas durante três dias, seguido de manutenção com paracetamol via oral na dose de 20 gotas para 500ml de água digerida, segundo o protocolo do Biotério do Centro Universitário Positivo.

Uma vez cumprido o tempo de cada grupo (7 dias e 28 dias), os animais foram avaliados e fotografados. Depois de constatada a morte, foi avaliado o aspecto externo da cicatriz operatória e realizada uma incisão em forma de U, sendo retirada a tela com o tecido da parede medindo 7x1cm, com as extremidades em forma de trapézio, no sentido transversal (Figura 3). As amostras foram colocadas em frasco com solução salina, com a identificação do animal e encaminhadas imediatamente ao Departamento de Mecânica do Centro Universitário Positivo, onde foram submetidas à prova de tensão de ruptura e realizadas as medidas de valor em Newton/cm2, para estudo de tensiometria. O outro fragmento foi estendido sobre uma tira de papel de cartolina branca e colocado em frasco com solução de Bouim devidamente identificado com data, nome do pesquisador e identificação do animal, sendo encaminhado ao Laboratório de Biologia Celular do Centro Universitário Positivo.

Figura 3 - Esquema do corte das peças cirurgicas. 

Processamento Histológico

O processamento para microscopia óptica do material coletado foi realizado no Laboratório de Biologia Celular do Centro Universitário Positivo. Os cortes foram de 4µm de espessura. Depois de 12h de secagem foram coradas com picrosirius-red F3BA(PSR).

Foram analisados cortes histológicos corados com HE através de microscópio biológico óptico marca Nikkon(r) - CI - LED e Luz polarizada, com oculares de 22mm de diâmetro e campo de 400 vezes13-15.

Análise Macroscópica

A presença de aderências no interior da cavidade abdominal foi classificada segundo os parâmetros descritos por Nair et al.16: grau 0 = ausência completa de aderência; grau 1 = aderência única entre dois órgãos ou entre um órgão e a parede abdominal; grau 2 = duas aderências entre órgãos entre si ou entre órgão e a parede abdominal; grau 3 = mais de duas aderências entre órgãos entre si ou com a parede abdominal; ou uma massa de aderências generalizada do intestino sem aderir à parede abdominal; e grau 4 = aderências generalizadas entre órgãos e a parede abdominal.

Análise Quantitativa do Colágeno

O método do PSR consiste na identificação e quantificação das fibras colágenas maduras (tipo I) e imaturas (tipo III), através de microscópio óptico Olympus(r), Japan, com fonte de luz polarizada. As imagens foram captadas por uma câmera fotográficaSony(r) CCD Íris Japan, transmitidas a um monitor, congeladas e digitalizadas por meio de placas. Portanto, através desse sistema, foi possível a quantificação da área ocupada em cada tipo de colágeno por campo pré-determinado de corte histológico17.

As imagens são transmitidas em um computador previamente calibrado em 18pixels, congeladas e digitalizadas por meio de placas, Oculus TCX(r) (coreco). A análise morfométrica computadorizada foi feita pelo programa image Pro-plus versão 4.5 (Mídia Cibernética, São Paulo, Brasil,). Em aumento de 400x, a calibração do sistema foi realizada pela leitura de área cicatricial normal, baseada na densidade ótica dos pontos de resolução (pixels) que formam a imagem. Foram realizadas três medidas de colágeno em cada campo longitudinal e três medidas em cada campo transversal.

Com o mesmo aplicativo Image-Pro Plus 4.5, analisou-se a área total (em pixels) e as porcentagens de colágeno do tipo I e do tipo III. No sistema RGB (Red, Blue, Green), considerou-se as fibras colágenas mais espessas e fortemente birrefringentes, coradas em tons de vermelho e laranja, como colágeno maduro (tipo I) e as fibras mais finas, mais dispersas, francamente birrefringentes, coradas em tons de verde como colágeno imaturo (tipo III). Obteve-se uma média dessas porcentagens em cada corte histológico. Toda a substância não colágeno foi corada em preto, o colágeno maduro ou tipo I foi corado em amarelo, vermelho-alaranjado e vermelho, enquanto o tipo III ou imaturo foi corado em verde.

Tensiometria

Foi realizada a avaliação tensiométrica da resistência do tecido suturado com a malha cirúrgica no sétimo e 28o dia de pós-operatório. A peça cirúrgica contendo a malha suturada e o tecido adjacente foi cortada no sentido transversal, formando duas unidades iguais, sendo que uma unidade foi encaminhada para análise microscópica e a outra submetida à avaliação da medida de deformidade máxima do tecido e da tensão de ruptura em Newton/cm2usando o extensômetro da marca EMIC DL30000N. A peça cirúrgica foi inserida no aparelho de tensiometria e submetida à força tênsil com uma célula de carga de 50Kg. A apreensão das duas extremidades da peça é feita próximo à sutura com a malha cirúrgica no tensiômetro, e submetida a uma força de tensão constante com velocidade de aceleração de 5mm/minuto, até a deformidade e a ruptura do material. Todo o procedimento foi registrado no microcomputador em gráfico através do programa de softwareTesc versão 1.10, onde se demonstrou o valor em N/cm2 da força máxima alcançada no momento da deformação e ruptura18.

Foi denominada de tensão máxima a quantidade máxima de força suportada pelo tecido (Figura 4), por unidade de secção (Kgf\cm2), variável dependente das dimensões de tecido ressecado, as quais foram padronizadas. Tensão máxima consiste na maior força suportada pelo tecido durante todo tempo do teste18.

Figura 4 - Fragmento tecidual submetido à tensão de ruptura. 

Os resultados obtidos no estudo foram expressos por frequências e percentuais (variáveis qualitativas) ou por médias, valores mínimos, valores máximos e desvios padrões (variáveis quantitativas). Para a comparação dos grupos e dos momentos de avaliação em relação às variáveis nominais dicotômicas será usado o teste exato de Fisher. As comparações em relação às variáveis quantitativas foram feitas usando-se o teste não paramétrico de Mann-Whitney. Valores de p<0,05 indicam significância estatística.

RESULTADOS

Aderências

Foram encontradas aderências em todos os animais de todos os subgrupos, evidenciando uma similaridade entre as telas empregadas no estudo para induzir aderências teciduais.

Quantificação do colágeno

Na comparação entre os subgrupos U podemos observar que no sétimo dia o colágeno tipo I apresentou a média de 14.003 pixels, enquanto que o colágeno tipo III teve média de 34.985 pixels. No 28º dia notou-se redução não significativa de colágeno tipo I (p=0,16) e incremento significativo de colágeno tipo III com p=0,01. As comparações entre os subgrupos P mostram média de 20.355 pixels no sétimo dia para o colágeno tipo I, e 46.470 pixels para o colágeno tipo III. No 28º dia houve incremento não significativo (p=0,20) de colágeno tipo I, e redução com diferença estatística para o colágeno tipo III com p=0,047 (Tabela 1).

Tabela 1 - Comparação da quantificação de colágeno tipo i e iii (pixels) entre os subgrupos do estudo. 

ULTRAPRO(r) (n=17) PROCEED(r) (n=16)
COLÁGENO U7 U28 P7 P28
TIPO I 14.003 ± 13.406 8.264 ± 9.775o 20.355 ± 17.048 30.431 ± 20.281
TIPO III 34.985 ± 24,201 62.669 ± 12.507*• 46.470 ± 11.031 38.873 ± 7.180+

* p=0,01 comparado com U7; + p=0,047 comparado c/ P7;op=0,03 comparado com P28; • p=0,0003 comparado c/P28 (Teste Mann-Whitney).

Não houve diferença estatisticamente significativa nas comparações intergrupos, quando analisadas no período de sete dias, tanto para o colágeno do tipo I quanto para o tipo III. Entretanto, após 28 dias de inserção das telas, havia quantidades de colágeno do tipo I significativamente (p=0,03) maiores ao redor das telas Proceed(r) do que ao redor das telas Ultrapro(r). Já a quantidade de colágeno do tipo III, ao redor das telas Ultrapro(r) avaliado no mesmo período, era significativamente muito superior (p=0,0003) à quantidade do mesmo tipo de colágeno ao redor das telas Proceed(r) (Tabela 1).

Tensiometria

Observamos que os dois parâmetros monitorados na avaliação tensiométrica dos corpos de prova (deformidade máxima do tecido e tensão de ruptura) tiveram comportamento similar, tanto nas comparações intragrupos como nos intergrupos.

Ficou comprovado um acréscimo significativo de resistência à linha de sutura (interface tela-parede abdominal) dos corpos de prova ao longo do tempo (de sete para 28 dias) caracterizado pela elevação, estatisticamente significativa, nos níveis aferidos tanto de deformidade máxima quanto de tensão de ruptura entre o sétimo e o 28º dia e para ambos os tipos de telas empregadas neste experimento (Tabela 2).

Tabela 2 - Comparação de deformidade máxima do tecido (DMT) e da tensão de ruptura (TR) entre os subgrupos de estudo. 

ULTRAPRO(r) (n=17) PROCEED(r) (n=16)
PARÂMETRO U7 (n=9) U28 (n=8) P7 (n=8) P28 (n=7)
DMT (N/cm2) 16,72 ± 7,71*o 24,08 ± 8,37 9,93 ± 4,33+ 21,27 ± 4,43
TR (N/cm2) 9,05 ± 3,85 *o 14,82 ± 3,00 3,31 ± 1,86 + 12,35 ± 5,59

* p<0,05 comparado com U28; + p<0,05 comparado com P28;o p<0,05 comparado com P7.

Apesar disso, a tensiometria mostra diferenças interessantes entre as telas utilizadas no estudo. Nota-se nítida diferença entre a tela Ultrapro(r) e Proceed(r), estatisticamente significativa, nos dois parâmetros tensiométricos mensurados no sétimo dia. Tanto a deformidade máxima quanto tensão de ruptura tiveram índices significativamente inferiores no sétimo dia, nos corpos de prova onde empregou-se a tela de Proceed(r) (Tabela 2). Esta mesma comparação ao 28º dia não mostra diferença estatisticamente significante. Portanto, os dados de tensiometria testemunham um incremento de resistência da interface tela e parede abdominal ao longo do tempo de estudo, que se acumula mais rapidamente no início com as telas de Ultrapro(r), mas que ao final de quatro semanas, as telas de Proceed(r) atingem desempenho semelhante à tensiometria.

DISCUSSÃO

A escolha das malhas utilizadas neste estudo é facilmente justificada pela atual procura de telas de dupla composição, quando dispostas no interior da cavidade peritoneal, para evitar a formação de aderências intra-abdominais e, ao mesmo tempo, fornecer adequada força tênsil à parede abdominal na superfície que fica em contato com a musculatura12,18,19.

As malhas não absorvíveis são preferidas no reparo de defeitos não contaminados da parede abdominal, enquanto as malhas absorvíveis são preferidas no reparo de defeitos infectados de parede abdominal até que haja resolução do processo, quando, então, poderá ser substituída por um malha não absorvível. Entretanto, a malha é um corpo estranho, sendo causa importante de formação de aderência peritoneal, particularmente se for de uso intraperitoneal. A malha não absorvível apresenta ainda risco maior de infecção como fator de risco adicional20-22. A malha ideal mantém oclusão adequada e permanente do defeito da parede abdominal, com baixas taxas de infecção e de aderência, além de não induzir a formação de fístulas19,21-23.

Utilizou-se então a malha de polipropileno com polidioxanona e celulose oxidada regenerada (Proceed(r)), elaborada para situações onde não se possa prevenir ou evitar contato com os órgãos da cavidade abdominal. Ela possui duas camadas absorvíveis que a separam dos tecidos reduzindo a intensidade e a extensão de formação de aderências, impedindo a colonização de bactérias, que eleva o risco de infecção, através da neoperitonização que ocorre na malha. A outra malha utilizada, (Ultrapro(r)), foi desenvolvida para dar suporte e reforço à parede abdominal com partes iguais de polipropileno e poliglecaprone, o que estimula uma cicatriz flexível e promove uma elasticidade multidirecional, oferecendo à parede abdominal dinâmica e fisiologia normal, porém não oferece barreira física entre a malha e as vísceras, devendo ser aplicada sobre o peritônio íntegro. Ambas as malhas têm em sua composição polipropileno, o material do componente inabsorvível mais frequentemente empregado3,24-26.

Apesar das características das malhas empregadas neste estudo, os nossos resultados com parâmetros macroscópicos foram diferentes dos anteriormente encontrados. Apesar de a tela Proceed(r) ser, das utilizadas, a única indicada para contato direto com conteúdo intraperitoneal, ambos os tipos de tela foram empregados da mesma maneira na correção de defeito total da parede abdominal produzido em ratos. Ou seja, uma das superfícies dos dois tipos de tela ficou, após correção do defeito, em contato com as vísceras, uma vez que, na confecção do defeito, todas as camadas da parede abdominal foram retiradas com exceção apenas da pele, que ficou em contato com a outra superfície das telas. Observamos que o fenômeno aderência foi universal nos dois tipos de tela nos dois momentos de avaliação, fato também ocorrido com outros autores27-29. Isto ocorreu apesar de se implantar a superfície de celulose da tela Proceed(r) voltada para o interior da cavidade peritoneal durante a correção do defeito, o que nos fez concluir que não houve efeito protetor contra aderências produzidos por esta tela, como seria o mais esperado.

Microscopia

Comparando os diversos métodos de coloração para análise do colágeno, evidencia-se que a coloração com picrosírius é de fácil execução e interpretação, e específico para o estudo do colágeno tecidual27. A quantidade de corante aderido é proporcional à quantidade da proteína presente, possibilitando o seu uso para a quantificação de colágeno28.

Verificou-se neste trabalho que no grupo U (Ultrapro(r)) houve um aumento do colágeno tipo III e diminuição do colágeno tipo I quando comparados os períodos de sete e 28 dias. No grupo P (Proceed(r)) verificou-se um aumento na média do colágeno tipo I e diminuição do colágeno tipo III quando comparados no sétimo e 28º dias de avaliações, não encontramos resultados semelhantes na literatura. Estudando tipos de fixação das telas, encontrou-se um aumento progressivo do índice colágeno tipo I/III, no sétimo, 14º e 56º dias28,29. Outro autor, comparando a tela de polipropileno com a tela de Ultrapro(r), não encontrou diferença no colágeno tipo I e III30, assim como, as telas de polipropileno com poros de tamanho diferentes apresentam diferença no colágeno I, com maior quantidade para a tela com poros maiores que 4mm, porém não apresentam diferença no colágeno tipo III29.

Acreditamos que a quantificação do colágeno tipo I e tipo III, quando avaliada e mensurada pela unidade empregada neste estudo, deixou de ter confiabilidade mínima para que pudéssemos assumir como reais as diferenças evidenciadas pelo tratamento estatístico empregado. Valores elevados de desvio-padrão, às vezes de mesma grandeza que a própria média, testemunham uma heterogeneidade impeditiva de conclusões válidas nas leituras dos resultados obtidos.

Tensiometria

Quando se avaliou a tensiometria com as duas malhas, verificou-se que o grupo U apresentou força tênsil maior do que o grupo P no sétimo dia, mas se igualou no 28º dia. Resultado semelhante ao nosso, quando foram comparados três tipos de malha, a força tênsil foi similar entre as três malhas no 90º dia pós-operatório1-3, entretanto, outro autor18, avaliando a resistência tênsil entre malhas diferentes, verificou que a malha de poliglactina não é adequada para ser utilizada como substituto fascial por períodos prolongados, visto que sua força tênsil diminui após 12 semanas em relação às demais malhas estudadas (polipropileno e politetrafluoretileno). Em outro estudo, ao comparar a malha de polipropileno com duas novas formas de malha de politetrafluoretileno expandida, concluiu-se que estas promovem mais força tênsil que a malha de polipropileno, com incorporação tecidual precoce e baixo potencial de aderências, sendo mais indicadas para uso em operações abdominais20.

Pesquisas com malhas de polipropileno, politetrafluoretileno, polipropileno com hialuronato de sódio e carboximetilcelulose, poliéster recoberto com polietileno-glicol-glicerol, polipropileno com poliglecaprone (Ultrapro(r)), polipropileno com polidioxanona e celulose oxidada (Proceed(r)), polipropileno com titânio e pericárdio bovino, evidenciaram que no sétimo dia pós-operatório não houve diferença significativa entre as malhas em relação à força tênsil, mas no 30º dia pós-operatório, ela foi maior na malha de poliéster com polietileno-glicol-glicerol4,12.

No presente estudo, nota-se nítida diferença entre as telas na velocidade de aquisição de força tênsil quando avaliada pelos parâmetros deformidade máxima do tecido e tensão de ruptura ao longo de 28 dias. Como esperado durante o processo de cicatrização, ao longo do tempo, ambos os grupos mostraram incrementos de força tênsil do sétimo para o 28º dia pós-operatório. Porém, na comparação intergrupos do sétimo dia, os níveis de força tênsil atingidos pelos corpos de prova do grupo U superam significativamente os valores atingidos pelos corpos de prova do grupo P. Tal diferença, ao longo das outras três semanas de observação, perde qualquer valor estatístico na comparação entre os grupos ao término da quarta semana. Acreditamos que o comportamento do parâmetro tensiometria no grupo P seja explicado pelos fenômenos ocorridos e já descritos em outros parâmetros do estudo atual. Ou seja, o prolongamento da fase inflamatória da cicatrização, induzida pela presença de infecção local de maior monta ao término da primeira semana, leva a consequente retardo na maturação da ferida a ponto de apresentar menor força tênsil em relação ao outro grupo no mesmo momento. Entretanto, com a evolução do tempo e a infecção debelada pelo organismo, ocorre evolução mais favorável do processo cicatricial, com recuperação do atraso de maturação, a ponto de igualar a performance tensiométrica obtida pelo outro grupo ao término do período de observação mais extenso.

Os achados comprovados nesta pesquisa ilustram, de maneira exemplar, e contribuem para o efetivo entendimento da imensa e variada gama de resultados disponíveis na literatura pertinente ao assunto. O acúmulo de novas e variadas evidências ainda se mantém de elevado valor contributivo neste campo profícuo em variáveis que insistem em desafiar a busca de novos conhecimentos na área.

Concluindo, as telas conservam semelhanças no resultado final e mais estudos com número maior de animais devem ser realizados para melhor avaliação.

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 15 de Dezembro de 2014; Aceito: 25 de Fevereiro de 2015

Endereço para correspondência:Ana Cristina Isa E-mail:icrisana@yahoo.com.br

Conflito de interesse: nenhum.

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