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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.43 no.2 Rio de Janeiro mar./abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912016002001 

Editorial

"I would like to be a surgeon, but ...." Serão dois anos suficientes?

Elizabeth Gomes dos Santos1  TCBC-RJ

1Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Quando Felix Harder apresentou sua Presidential Adress no European Sugical Association Meeting, em 2002, com este tema, o cenário para os cirurgiões gerais nos EUA era preocupante. Havia uma procura cada vez menor pela especialidade e previa-se que, em um futuro próximo, haveria uma grande falta de cirurgiões gerais como força de trabalho. Os motivos para o decréscimo da procura da Cirurgia Geral como especialidade eram muitos àquela época: estilo de vida, muitas horas de trabalho para a formação, baixa remuneração, entre alguns outros. Esse é um fenômeno que também atinge o Brasil, talvez com uma intensidade ainda maior. E, no momento atual, a situação é ainda mais preocupante, pelo agravamento das precárias condições em diversos locais de treinamento no nosso país, pela falta de comunicação entre as capitais e seus rincões, pela falta de preceptores com boa formação, pela precarização da saúde como um todo no país.

Quando instituída no Brasil, em 1977, a Residência Médica foi definida pelos educadores da época como "o melhor método de treinamento após a graduação". Uma das razões para sua criação foi a dificuldade que as escolas médicas tinham para oferecer a parte prática do curso de Medicina. Nesta época o treinamento seguia o modelo de Halsted, o apprenticeship. Havia sempre um grande Mestre em um Serviço de Cirurgia e os futuros cirurgiões gravitavam ao redor dele repetindo o que ele fazia.

Os tempos mudaram, a Cirurgia como ciência evoluiu, a arte passou a ser ainda mais refinada. Novas tecnologias foram desenvolvidas e demandaram ainda mais tempo para o desenvolvimento de habilidades.

O processo de formação de um cirurgião geral e sua prática parece ainda mais difícil, exige ainda mais atenção. De quanto tempo de treinamento um cirurgião precisa para ser considerado um Especialista? Quantas operações de um mesmo tipo ele precisa repetir? Como será o programa ideal? Nos EUA alguns cirurgiões envolvidos com educação médica pensam que o programa deve favorecer o treinamento prático, outros advogam que a carga horária em pesquisa deveria ser maior. O ponto comum a todos é que o programa deve ter duração suficiente para oferecer um treinamento adequado, o que, em Cirurgia, significa a chance de repetir os movimentos incansavelmente até que ele se torne automático. Com estes conceitos, as residências médicas nos EUA e no Canadá têm duração de cinco anos e na Inglaterra e na Australásia varia de seis a oito anos.

O Brasil parece seguir na contramão do mundo mantendo um programa com dois anos de duração, dos quais só 11 meses são cumpridos na Cirurgia Geral propriamente dita, devido aos inúmeros rodízios obrigatórios.

A Cirurgia é uma especialidade dependente principalmente da prática. O desenvolvimento de habilidade técnica é sedimentado com o hands on, isto é, praticando. Ao completar seu programa de treinamento, o residente deveria ser competente para se estabelecer de forma autônoma, mas, mesmo nos EUA, apenas 38% dos residentes do último ano (chief resident) se julgam competentes para operar sem supervisão.

O CBC sempre esteve comprometido na educação dos Cirurgiões. Sua participação ativa na Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), com alguns de seus membros cadastrados como avaliadores de programas de residência, já vem de longa data. Sua luta constante para a construção de um Programa com Matrizes Curriculares baseadas em competências, onde os residentes devem a cada ano preencher as lacunas de seu aprendizado segundo exigências específicas a serem atingidas a cada etapa, é antiga. Também na certificação, ou seja, na concessão do Título de Especialista, o CBC segue normas rigorosas através de um concurso de alta qualidade e que exige um tempo maior de formação prática do cirurgião.

A avaliação do ganho de habilidade técnica é um componente vital do treinamento e da certificação de especialistas. Certificar é atestar, dar como certo. No âmbito da Cirurgia significa dizer que o cirurgião especialista possui os requisitos necessários para sua prática. Certificar automaticamente sem que se saiba se o residente está devidamente preparado representa um perigo potencial para os pacientes. Em estudo recente realizado pelo CBC com alcance nacional, entre todos os seus membros Titulares e Eméritos concluiu-se que três anos de formação é o mínimo de tempo aceitável para o treinamento de um futuro cirurgião. Com base neste princípio um instrumento de avaliação foi construído, validado e aplicado em 60 residentes de programas de Cirurgia Geral e Cirurgia Geral - Programa Avançado em Serviços de Cirurgia, em duas grandes cidades brasileiras, dando origem a uma tese de Doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja conclusão foi que dois anos de treinamento não são suficientes para o desenvolvimento de habilidades técnicas para o exercício diário e autônomo da especialidade. Esta conclusão com certeza é a mesma de qualquer cirurgião experiente. A diferença é que com este trabalho, provamos estatisticamente que dois anos são insuficientes para o treinamento de um especialista.

A missão do CBC é levar esse estudo para a CNRM para uma mudança do Programa de Residência Médica em Cirurgia Geral com Matrizes Curriculares baseadas em competências e certificação baseada na avaliação de habilidades técnicas.

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