SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.43 número3Adaptação cultural e teste da escala de complicações cirúrgicas de Clavien-Dindo traduzida para o Português do Brasil. índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.43 no.3 Rio de Janeiro mai./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912016003012 

Editorial

Cirurgia oncológica: um grande desafio

LUIZ ANTONIO SANTINI RODRIGUES DA SILVA1 

1- Departamento de Cirurgia Geral e Especializada da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, RJ, Brasil.

Em um número especial da revista The Lancet Oncology1, de setembro de 2015, foi apresentado o relatório de uma comissão especial, coordenada por Richard Sullivan, do Institute of Cancer Policy, King's Health Partners Comprehensive Cancer Centre, em Londres, Inglaterra. Intitulado "Global Cancer Surgery: delivering safe, affordable and timely cancer surgery", o relatório contou com 43 especialistas e gestores de todo o mundo e buscou construir um panorama sobre o estado da arte da cirurgia oncológica globalmente. O documento também apresenta sugestões e recomendações para os países e instituições interessados no tema. Acompanhado da médica brasileira Audrey Tsunoda, tive a oportunidade de participar desse grupo.

As previsões sobre o crescimento da incidência e da mortalidade por câncer no mundo, apresentadas em outra publicação recente, o Atlas do Câncer2, são catastróficas. A estimativa é o aumento do número de casos novos de aproximadamente 14 milhões, em 2012, para 19,3 milhões, em 2025. Quanto à mortalidade, é projetado um crescimento de aproximadamente oito milhões de mortes, ocorridas em 2012, para 11,4 milhões, em 2025. Deve-se considerar ainda a tendência de que o câncer torne-se, nas próximas décadas, a principal causa de morte em todas as regiões do mundo, independente das condições socioeconômicas.

Para enfrentar o problema dramático do aumento de incidência do câncer, muitas ações têm sido desenvolvidas no campo da prevenção, algumas com bastante eficiência e visibilidade, como a da redução do tabagismo, em que o Brasil é referência mundial. Campanhas de detecção precoce e vacinas, como a da hepatite B e, mais recentemente, do HPV, também são destaques. A Organização Mundial de Saúde estima que medidas eficientes de prevenção poderiam reduzir em até 40% a incidência de novos casos de câncer. A respeito desses dados, o relatório da comissão chama a atenção para o fato de que cerca de 15,2 milhões de novos casos de câncer ocorridos em 2015, 80% devem ter necessitado de um procedimento cirúrgico em algum momento da evolução da doença. Rob Brierley e David Collingrige3, afirmam que, apesar dos avanços ocorridos no campo da radioterapia e da quimioterapia, a cirurgia continua a ser a pedra de sustentação dos cuidados com câncer, preenchendo muitos papéis na prevenção, diagnóstico, tratamento curativo, medidas de suporte ao tratamento, tratamento paliativo e reconstruções. Neste sentido, os autores consideram a cirurgia a especialidade vital para a redução da mortalidade prematura por câncer.

O relatório concluiu que o panorama global apresenta grande disparidade e iniquidade em relação ao acesso à cirurgia e aos recursos econômicos. A maioria dos pacientes não tem acesso à cirurgia oncológica. As falhas na formação e treinamento de mais cirurgiões e o enfraquecimento dos sistemas de saúde podem resultar numa perda cumulativa de aproximadamente 6,2 trilhões de dólares do Produto Interno Bruto global até o ano de 2030. Problemas de oferta e qualidade dos apoios fundamentais aos serviços de cirurgia, como patologia, imagem e anestesia, também foram apontados no documento. A falta de investimento em acesso a serviços organizados, pesquisa, treinamento e educação está fortemente demonstrada, especialmente nos países de baixo e médio desenvolvimento. O relatório reconhece que existem algumas inovações e soluções que precisam ser conhecidas e aproveitadas como exemplos de esforços que vêm sendo realizado, entre eles o Brasil.

Dentre os aspectos positivos, destaco a existência do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Um sistema nacional, com cobertura universal, regulado por legislação específica e portarias ministeriais que estabelecem porte de serviços a serem oferecidos de acordo com capacitação técnica e recursos tecnológicos dos prestadores. Também vale destacar que a incorporação de tecnologias ou novos procedimentos é regulada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologiasno SUS (CONITEC). Há ainda um conselho permanente formado pelas entidades científicas, gestores e outras instituições representativas e sob a coordenação do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). O Conselho Consultivo do INCA (CONSINCA) elabora e apresenta estudos técnicos e pareceres ao Ministério da Saúde.

Como aspecto negativo, observa-se o desequilíbrio do financiamento entre as diferentes formas de tratamento de câncer. Apenas 9% do total de recursos destinados à Oncologia são designados para cirurgia oncológica. Em quase todos os países há um desequilíbrio crescente nas fontes de recursos para o setor público, com a maioria dos recursos fluindo através e para o setor privado, o que aumenta o grau de iniquidade. Dos recursos destinados à pesquisa no mundo, apenas 9% são destinados à cirurgia, e uma ínfima parte desta porcentagem é destinada aos estudos clínicos, que são efetivamente capazes de impulsionar os melhores resultados para os pacientes. Embora o controle do câncer não possa prescindir da cooperação entre cirurgia, radioterapia e quimioterapia, chamo a atenção para os resultados obtidos com a cirurgia, que podem ser muito mais positivos, dependendo fortemente de treinamento de alta qualidade dos cirurgiões.

Daí acreditar que uma cooperação entre o Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) poderia ter um enorme significado para enfrentar este desafio. O ponto de partida? A cooperação para o desenvolvimento de um plano de ação com base nos dados do relatório aqui referidoe que está sendo aprofundado, com dados do Brasil, pela SBCO.

REFERENCES

1. Sullivan R, Alatise OI, Anderson BO, Audisio R, Autier P, Aggarwal A, et al. Global câncer surgery: delivering safe, affordable, and timely câncer surgery. Lancet Oncol. 2015;16(11):1193-224. [ Links ]

2. American Cancer Society [homepage on Internet]. The Cancer Atlas. 2nd ed. Available from: http://canceratlas.cancer.org/Links ]

3. Brierley R, Collingridge D. Cancer surgery: a vital speciality to prevent premature death. Lancet Oncol. 2015;16(11):1187. [ Links ]

Creative Commons License This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License