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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.43 no.3 Rio de Janeiro mai./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912016003006 

Artigo de Revisão

Confiabilidade da avaliação nutricional em pacientes com tumores gastrointestinais

ALINE KIRJNER POZIOMYCK1 

ANA VALERIA GONÇALVES FRUCHTENICHT1 

GEORGIA BRUM KABKE1 

BERNARDO SILVEIRA VOLKWEIS1  2 

JORGE LUIZ ANTONIAZZI3 

LUIS FERNANDO MOREIRA1 

1- Programa de Pós-Graduação em Ciências Cirúrgicas, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil

2- Serviço de Cirurgia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Porto Alegre, RS, Brasil

3- Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil.

RESUMO

Pacientes com neoplasia gastrointestinal e desnutridos são menos propensos a tolerar procedimentos cirúrgicos de grande porte, radioterapia ou quimioterapia. Em geral, apresentam maior incidência de complicações, como infecção, deiscência e sepse, o que aumenta o tempo de internação e o risco de morte, e reduz a qualidade de vida. O objetivo desta revisão é abordar os prós e contras de diferentes pontos de vista que avaliam risco nutricional em pacientes com tumores do Trato Gastrointestinal (TGI) e sua viabilidade, considerando o atual entendimento e abordagens de triagem neste campo. Melhor combinação de avaliações antropométricas, laboratoriais e subjetivas se faz necessária em pacientes com câncer do TGI, uma vez que a desnutrição nestes pacientes costuma ser muito mais grave do que naqueles indivíduos com tumores em outros sítios que não o TGI.

Descritores: Avaliação Nutricional; Trato Gastrointestinal; Desnutrição; Prognóstico; Morbidade.

INTRODUÇÃO

Atualmente, o câncer tem sido considerado como importante problema de saúde pública em todo o mundo1. Além disso, desnutrição e perda ponderal subsequentes, há muito estão entre as principais causas de morbimortalidade, assim como, o aumento dos custos com outras disfunções orgânicas relacionadas aos pacientes cirúrgicos com câncer2. Desnutrição é definida como sendo o estado de deficiência de energia, proteína e outros nutrientes específicos, que modifica significativamente as funções orgânicas3.

Pacientes com neoplasia maligna gastrointestinal quando submetidos a procedimentos eletivos de grande porte, têm maior risco de complicações pós-operatórias e de alterações decorrentes do seu estado nutricional pré e pós-admissão, particularmente relacionadas ao estresse cirúrgico, supressão imunológica induzida pela neoplasia ou por transfusão sanguínea. Entre esses fatores, a desnutrição é o mais importante, devido à sua alta prevalência e impacto negativo sobre desfechos clínicos como maior tempo de internação3 e mortalidade. Esta última está muito mais relacionada com a desnutrição do que ao câncer isoladamente e pode ocorrer em até 20% dos casos4. Aproximadamente metade dos pacientes portadores de neoplasias malignas apresenta desnutrição, e no caso de tumores do TGI, a mortalidade varia de 30% a 50%, podendo alcançar 80% em casos de câncer de pâncreas avançado4,5.

Vários métodos de avaliação nutricional podem ser empregados5, e devem ser sensíveis o suficiente para identificar precocemente alterações de acordo com desequilíbrios nutricionais específicos. A escolha do método depende do propósito da avaliação, do prognóstico ou mesmo da resposta às intervenções nutricionais2,4.

No entanto, profissionais de saúde encontram dificuldades para usar a maioria das ferramentas atualmente validadas para avaliação nutricional, devido à limitação de tempo, reprodutibilidade do método, organização ou custos6-8. Desta forma, todos os parâmetros atualmente considerados mostram algum tipo de limitação para avaliar de forma precisa o estado nutricional6. Na falta de um padrão-ouro, a opção para a ferramenta de avaliação e classificação nutricional dependerá da instituição e população-alvo em questão, bem como, dos recursos disponíveis8-10. Embora o uso de índices e escores multivariados seja, muitas vezes, considerado como a solução para a falta de avaliação padronizada e fidedigna, esta é apenas uma possibilidade10.

É necessária, portanto, na prática diária em oncologia, a definição de uma ferramenta de avaliação nutricional sensível e de aplicação simples, para identificar pacientes de risco nutricional e, consequentemente, definir a melhor abordagem e o suporte nutricional mais adequado8. Portanto, o objetivo desta revisão é apresentar uma visão geral dos métodos e ferramentas utilizados para determinar risco nutricional, considerando os prós e contras, quando aplicados a pacientes com câncer do TGI.

MÉTODOS

Estudos sobre o estado nutricional em pacientes com câncer do TGI foram sistematicamente identificados através das bases de dados PUBMED e MEDLINE. Foram pesquisados artigos publicados ​nos últimos dez anos, através da combinação dos termos "nutritional assessment", "GI cancer", "gastrointestinal tract", "gastric cancer", "oesophageal cancer" e "pancreatic cancer". Consideraram-se para a avaliação apenas artigos completos, com aqueles termos em inglês ou português. Artigos adicionais foram identificados a partir das citações nos artigos avaliados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Revisão geral de avaliação nutricional

Foi na década de 1950 que se publicaram as primeiras investigações relacionadas aos procedimentos de avaliação nutricional. Entre 1960 e 1980, marcadores de desnutrição surgiram para avaliar pacientes cirúrgicos e novos conceitos e métodos de avaliação nutricional foram desenvolvidos11. Nas décadas seguintes, os pesquisadores analisaram a relevância de índices funcionais e combinações de parâmetros clínicos e laboratoriais já existentes na tentativa de melhor predizer risco nutricional. Um novo conceito de composição corporal foi definido a partir da utilização de novos e mais complexos equipamentos e métodos de avaliação, mas, considerando-se ainda conceitos subjetivos7. A partir do início deste século, tentou-se demonstrar o método de avaliação nutricional que seria mais preciso e confiável para determinados tipos de pacientes ou condição clínica específica3,8. Na tabela 1, diferentes métodos e instrumentos de avaliação objetiva e subjetiva de acordo com Barbosa-Silva et al.7 são apresentados.

Tabela 1 Objetivo principal e métodos subjetivos utilizados para avaliação nutricional. 

Objetivos
Antropometria Índice de Massa Corporal (IMC), perda ponderal, dobras e circunferências cutâneas, espessura do músculo adutor do polegar.
Testes bioquímicos Albumina, pré-albumina, transferrina, proteína carreadora de retinol, Balanço Nitrogenado, Índice creatinina-altura
Composição Corporal Bioimpedância elétrica
Testes Funcionais Força do aperto de mão, ângulo de fase
Subjetivos Avaliação Subjetiva Global (ASG) e Avaliação Subjetiva Global Produzida Pelo Paciente (ASG-PPP)

Métodos subjetivos

Em 1980, Detsky et al. descreveram a Avaliação Subjetiva Global (ASG), utilizada para avaliar pré-operatoriamente pacientes com tumores do TGI (n=202) submetidos a procedimentos cirúrgicos de grande porte; demonstraram que a ASG podia ser facilmente aplicada e consideram-na método válido e confiável para estimar estado nutricional de pacientes cirúrgicos12.

Outros autores publicaram diversos artigos corroborando a ASG na determinação do estado nutricional, que se distinguia de outros métodos, por considerar não apenas alterações da composição corporal, mas também de mudanças funcionais. Além disso, a ASG é método simples, de baixo custo, não invasivo e que pode ser realizada à beira do leito. Orientação correta quanto à aplicação da ASG é essencial, já que a precisão da ASG depende da capacidade do observador em detectar subjetivamente alterações nutricionais significantes8,13,14.

Posteriormente, a ASG sofreu modificações e adaptações desenvolvidas especificamente para atender às características do paciente oncológico. Questões sobre sintomas de repercussão nutricional e decorrentes do próprio tumor ou do tratamento imposto8 foram incluídas e respondidas pelo próprio paciente, passando a ser denominada de ASG Produzida Pelo Paciente (ASG-PPP). A principal diferença introduzida foi uma pontuação numérica que permite melhor identificar pacientes sob risco nutricional e estimar o tempo necessário para reavaliação. (Tabela 2).

Tabela 2 Vantagens e desvantagens dos métodos subjetivos e avaliação nutricional. 

Método Vantagem Desvantagem
Avaliação Subjetiva Global (ASG) Simples Barato Não invasivo Uso à beira do leito Dependente do observador Não é "doença específica"
Avaliação Subjetiva Global Produzida Pelo Paciente (ASG-PPP) Simples Barato Não invasivo Uso à beira do leito Reprodutível Prevê bom treinamento para observadores Inespecífica para diferentes tipos de câncer

Em alguns estudos multicêntricos sobre avaliação nutricional de pacientes internados usando ASG, resultados distintos foram relatados, particularmente para pacientes com câncer do TGI. Poziomyck et al. encontraram 66% de pacientes desnutridos em casos cirúrgicos de tumores do TGI superior8, enquanto Bragagnolo et al. demonstraram 77% de pacientes desnutridos em amostra similar15.

Em outro estudo envolvendo 80 pacientes com tumores do TGI, principalmente colorretais, Cid Conde et al. encontraram 50% de desnutrição pela ASG16, dados que foram superiores (70%) em outro estudo com amostra semelhante17.

Wu et al. apresentaram maior incidência de complicações e maior tempo de internação quanto pior o nível da ASG em pacientes submetidos a procedimentos de grande porte por câncer do TGI (principalmente gástricos)18. Estes resultados também foram corroborados por nossa série de pacientes com tumores do esôfago, estômago e pâncreas8. Além disso, em pacientes com câncer de esôfago ou estômago, a ASG parece estar associada ao Escore Prognóstico de Glasgow (EPG)19. Estudo comparando a ASG-PPP com a Mini-Avaliação Nutricional (MAN) revelou que as ferramentas parecem adequadas para definir pacientes idosos como desnutridos10. Conceitos de EPG e MAN estão descritos em Métodos de Escore, mais adiante no texto.

Métodos antropométricos

A precisão e a reprodutibilidade das medidas antropométricas podem ser afetadas pela calibração dos equipamentos, examinador e parâmetros utilizados para as equações preditivas20. Várias ferramentas essencialmente objetivas de avaliação nutricional, cada qual com características próprias, têm sido utilizadas na prática clínica13. Comparação das ferramentas antropométricas habitualmente utilizadas, com suas vantagens e desvantagens é apresentada na tabela 3.

Tabela 3 Vantagens e desvantagens dos métodos antropométricos 

Método Vantagem Desvantagem
Índice de Massa Corporal (IMC) Simples Barato Não invasivo Uso à beira do leito Não distingue massa gorda e massa magra Não reflete a coposição corporal
Dobras Cutâneas Simples Barato Não invasivo Uso à beira do leito Base de dados limitada Fatores de correção insuficientes (idade, estado de hidratação, atividade física, estado da doença) Sem padrão para oncologia
Bioimpedância Elétrica (BIA) Simples Não invasivo Fácil aplicação Rápido Medidas precisas Requer vários cuidados anteriores (4h de jejum, uso de diuréticos, exercício, consumo de álcool)
Espessura do Músculo Adutor do Polegar (MAP) / Dinamometria Simples Não invasivo Fácil aplicação / Rápido Medidas Precisas Não avalia os efeitos agudos de desnutrição oncológica Requer o treinamento do avaliador

O peso corporal é medida simples e comumente empregada na prática clínica. Todavia, não discrimina massa de gordura, músculo, osso ou líquidos extracelulares. Assim, tal resultado deve ser usado ​​com cautela, uma vez que alterações agudas podem refletir mudanças do estado de hidratação, e não necessariamente alteração da massa celular21.

Renehan et al. demonstraram que aumento do índice de massa corporal (IMC) na ordem de 5Kg/m2 em ambos os sexos era fortemente associado ao adenocarcinoma esofágico22. O excesso de peso, gordura visceral ou obesidade abdominal parece ser mais preocupante do que a gordura subcutânea, e qualquer incremento adicional no IMC confere aumento no risco de desenvolver câncer colorretal19, que, no entanto, não foi corroborado em outros estudos prognósticos com esta ferramenta8,15.

Os marcadores funcionais são de particular importância, uma vez que se correlacionam bem com complicações clínicas20. Podem ser indicadores mais sensíveis e relevantes de mudanças do estado ou da resposta nutricional ao suporte, mais em curto prazo do que métodos convencionais8. A perda da função muscular é indicador de desnutrição, particularmente a perda de massa corporal magra. Esta função, geralmente expressada pela força de preensão manual é importante para determinar a função e a capacidade do músculo esquelético. Os autores que consideram esta medida evidenciam o estado nutricional comprometido como responsável pela perda da função do músculo esquelético e, consequentemente, perda de força manual8,15,20. Recentemente, a medição da espessura do músculo adutor do polegar (MAP) foi padronizada como parâmetro antropométrico relacionando à idade, sexo e compleição física8. A MAP tem sido usada para, indiretamente, determinar o estado nutricional14,20,23, sendo considerada como um dos melhores preditores isolados de mortalidade em estudo recente com pacientes submetidos à ressecção por tumor do TGI superior8.

A bioimpedância (BIA) utiliza a medida do ângulo de fase, que representa o resultado da corrente elétrica armazenada por membranas celulares. Todavia, resultados mais precisos dependem de equações de regressão e valores menores indicam redução da integridade ou morte celular24.

Alguns autores usam também a perda ponderal como marcador de avaliação nutricional. Em estudo com pacientes com câncer esofágico, van der Schaaf et al. concluíram que perda de peso pré-operatória superior a 10% estava associada à diminuição da sobrevida global em cinco anos após ressecção, mas não ao aumento do risco de complicações pós-operatórias25.

Métodos laboratoriais

A albumina e outras proteínas utilizadas como marcadores nutricionais, podem ser afetadas por muitos fatores e condições clínicas, tais como inflamação, desnutrição, diabetes, doença hepática ou trauma cirúrgico. Porém, ainda tem sido usada para avaliar estado nutricional geral, gravidade, progressão e prognóstico da doença26 supondo-se que níveis plasmáticos reflitam de fato a taxa de síntese27-29. No entanto, outros fatores, tais como função hepática, marcadores inflamatórios e estresse endócrino, resultam no aumento dos níveis de cortisol, que também afeta a regulação da albumina27.

A albumina sérica também tem sido descrita como fator prognóstico independente de sobrevida em muitos tumores e de relação inversa para com complicações e tempo de internação pós-operatório ou de cuidados intensivos, mortalidade, e reinício da dieta26,27. Albumina sérica diminuída também demonstrou ser fator prognóstico independente para pacientes com câncer com sítio primário desconhecido26, mas outros ensaios clínicos são necessários para melhor definir o risco basal em pacientes com câncer26-29.

Recentemente, foi demonstrada a associação significativa de proteína C-reativa (PCR) aumentada e pior desfecho clínico em pacientes com câncer pancreático30 e como indicador prognóstico independente no carcinoma colorretal31. Comparações de dados laboratoriais estão descritas na tabela 4.

Tabela 4 Vantagens e desvantagens dos métodos laboratoriais. 

Método Vantagem Desvantagem
Albumina Simples Barato Indicador independente de sobrevida em muitos tipos de câncer Não confiável Afetado por muitos fatores e condições Precisa de uma melhor definição de risco de base em pacientes com câncer Reflete mais da gravidade da doença do que o estado nutricional per se
Proteína C Reativa (PCR) Indicador prognóstico independente para alguns tipos de carcinoma Boa correlação com outros métodos de avaliação nutricional Custos mais elevados Sozinho não é específico do câncer
Pré-albumina Sensibilidade para nível de stress Bom marcador para proteína visceral Custos mais elevados Não é "doença-específica" Pode ser afetada por fatores não nutricionais (redução da inflamação)
Proteína Carreadora de Retinol Alta sensibilidade à proteína e restrição calórica Custos mais elevados Poucos estudos em pacientes com câncer Fator de confusão em potencial na deficiência de vitamina A
Contagem Total de Linfócitos (CTL) Associado à perda de peso e perda de proteína visceral Pode ser afetada pelo tipo de tumor e uso de quimioterápico

Métodos de escores

Um número considerável de estudos têm consistentemente demonstrado que nenhum método ou ferramenta isoladamente é suficiente para predizer estado nutricional3. A mini-avaliação nutricional (MAN) classificada como normal, limítrofe ou desnutrição em idosos, envolve medidas antropométricas, avaliação geral, questionário dietético e avaliação subjetiva32. Em estudo transversal avaliando pacientes idosos (n=109), a circunferência do braço (CB) e o IMC combinadamente permitiram predizer a classificação da MAN33. Em outro estudo avaliando idosos com carcinoma hepatocelular, os resultados sugeriram que a MAN foi adequada para identificar o risco de deterioração da qualidade de vida ou estado funcional, além de determinar o risco de desnutrição23.

O Índice de Risco Nutricional (IRN) é calculado pela equação da albumina sérica e a proporção ponderal3,34; e os níveis de proteínas séricas e de albumina significativamente se relacionaram com desnutrição, mas não com subgrupos da ASG ou do Nutritional Risk Screening 2002 (NRS-2002)34.

O Escore Prognóstico de Glasgow (EPG) tem sido usado para determinar desfechos de longo prazo (sobrevida) nos casos de câncer gástrico curável34, de acordo com o grau de inflamação com base nos níveis da PCR e da albumina e com escores que variam de 0 a 235, mas que pode ser útil para determinar estado nutricional, já que inflamação é fator relevante no desenvolvimento da caquexia, mas não foi avaliado ainda em curto prazo34.

Em estudo com 74 pacientes, 54 (72%) deles com tumores do TGI, o Índice Nutricional Inflamatório (INI) foi método alternativo para avaliação nutricional bioquímica e acompanhamento de pacientes com câncer e inflamação sistêmica36,37.

O NRS-2002 é escore nutricional e de gravidade de doença, e o método preferido para avaliação de pacientes sob risco ou desnutridos e selecionar aqueles que poderiam se beneficiar do suporte nutricional3. Esta triagem nutricional foi diretamente relacionada com o estágio do tumor em 100 pacientes recentemente diagnosticados com câncer de estômago e inversamente relacionados à qualidade de vida, tornando-se ferramenta útil para identificar pacientes que necessitam de suporte nutricional ao longo do tratamento38.

Argiles et al., em 2011, apresentaram recentemente uma nova ferramenta chamada "The Caquexia Score" (CASCO), que considera peso e perda de massa corporal magra, anorexia, distúrbios inflamatórios, imunológicos e metabólicos, o desempenho físico e qualidade de vida. A escala de pontuação (até 100) parece ser adequada, embora novos estudos prospectivos sejam necessários para definir melhor a sensibilidade e especificidade com diferentes tipos de cânceres, incluindo tumores do TGI39. O resumo destes índices e escores é apresentado na tabela 5.

Tabela 5 Vantagens e desvantagens dos escores nutricionais. 

Método Vantagem Desvantagem
Glasgow Prognostic Score (GPS) Poderoso método para diagnóstico do estado nutricional Sobrevivência em longo prazo, de algumas cirurgias por câncer Não avaliado por resultados de curto prazo
Reilly Nutrition Risk Score Mistura de diferentes abordagens em métodos nutricionais Adultos e crianças no mesmo grupo Diferentes tipos de câncer juntos
Prognostic nutritional index (PNI) Bom Preciso Dificuldade da obtenção dos testes de hipersensibilidade cutânea
NUTRA* Dados antropométricos, subjetivos e laboratoriais visando pacientes com câncer gastrintestinal Estudos em andamento

*Desenvolvida pelo grupo SSORG (Southern Surgical Oncology Research Group)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vários métodos têm permitido medidas de composição corporal, de proteínas e reservas lipídicas por antropometria tradicional com a utilização de equipamentos mais sofisticados. Atualmente, as técnicas mais precisas para avaliação do estado nutricional são mais caras, menos disponíveis e inadequadas para medidas repetitivas2.

Muitos estudos têm revelado também a inadequação de qualquer ferramenta ou método usado isoladamente para prever com segurança o estado nutricional do paciente com câncer, o que demonstra claramente a falta de uma medida específica como padrão-ouro3,8, embora a real necessidade de um padrão específico seja questionável. Mesmo assim, isso levou à tentativa de combinar medidas de avaliação, como dados antropométricos e laboratoriais, com o objetivo de aumentar a sensibilidade e especificidade30, e assim avaliar de forma mais adequada os pacientes oncológicos e cirúrgicos. No geral, os instrumentos de avaliação utilizados rotineiramente não consideram o risco e as complicações do tratamento oncológico em curso, como a quimioterapia e radioterapia, efeitos colaterais destes no trato alimentar ou implicações pós-operatórias da resposta inflamatória em pacientes oncológicos em geral.

Isto é ainda mais relevante quando se considera pacientes com tumores do TGI, nos quais não há consenso sobre a melhor ferramenta ou método para avaliar o estado nutricional, especialmente aqueles com tumores do TGI superior que são mais gravemente afetados pela deficiência nutricional e imunológica, e pelo efeito de grandes procedimentos cirúrgicos e suas complicações no pós-operatório imediato, em comparação aos casos de tumores do TGI inferior. Provavelmente, o curso de depleção nutricional entre ambas as localizações tumorais seja muito diferente, bem como, sejam bastante distintas as necessidades de suporte nutricional. Deste modo, tentativas de desenvolver novos protocolos, ensaios, escores ou novas combinações de abordagens mais específicas são necessárias para melhor se avaliar o estado nutricional em pacientes com tumores do TGI, especialmente considerando aqueles pacientes com tumores do TGI superior, que são mais desnutridos, mais imunodeprimidos e com risco aumentado de morbimortalidade como recentemente demonstrado em nossa série8. Até a presente data, que seja do nosso conhecimento, não há dados suficientes para estabelecer um consenso para este grupo de doentes. Desta forma, seria interessante simular, adicionar ou combinar questões já validadas com variáveis objetivas para se testar um questionário único projetado especificamente para melhor predizer a morbimortalidade pós-operatória em pacientes com câncer gastrointestinal.

Em resumo, a pontuação EPG, ASG-PPP e alguns parâmetros antropométricos são considerados adequados para os pacientes crônicos e oncológicos em geral. No entanto, uma melhor combinação de avaliações laboratoriais, antropométricas e subjetivas é necessária, considerando-se um instrumento mais focado em pacientes com câncer do TGI, uma vez que a desnutrição nesses pacientes é muito mais grave se comparada à desnutrição em pacientes com tumores em outras localizações.

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 28 de Janeiro de 2016; Aceito: 12 de Abril de 2016

Endereço para correspondência: Luís Fernando Moreira E-mail: lufmoreira@hcpa.ufrgs.br

Conflito de interesse: nenhum.

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