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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.43 no.4 Rio de Janeiro jul./ago. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912016004010 

Artigo Original

Alterações na estrutura óssea relacionadas à idade

VINCENZO GIORDANO1 

JOSÉ SÉRGIO FRANCO2 

HILTON AUGUSTO KOCH3 

PEDRO JOSÉ LABRONICI4 

ROBINSON ESTEVES S. PIRES5 

NEY PECEGUEIRO DO AMARAL1 

1- Serviço de Ortopedia e Traumatologia Professor Nova Monteiro do Hospital Municipal Miguel Couto, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

2- Departamento de Traumato-Ortopedia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

3- Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

4- Departamento de Ortopedia e Traumatologia Professor Donato D'Angelo do Hospital Santa Teresa, Petrópolis, RJ, Brasil.

5- Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

avaliar as características histológicas e morfométricas de biópsias ósseas da região anterior da crista ilíaca de pacientes de diferentes faixas etárias.

Métodos:

foram estudadas 30 amostras de osso da crista ilíaca, utilizando-se microscopia óptica de campo claro. As amostras foram divididas pela faixa etária dos doadores em três grupos: Grupo 1 (n = 10), indivíduos com idade entre 25 e 39 anos; Grupo 2 (n = 10), indivíduos com idade entre 40 e 64 anos; Grupo 3 (n = 10), indivíduos com idade igual ou superior a 65 anos. As amostras foram separadas aleatoriamente em dois conjuntos com 15 peças. No primeiro segmento do estudo (n = 15), foi avaliada histologicamente a propriedade osteogênica do enxerto, através da análise da reserva celular no periósteo, do número de osteócitos nas lacunas e da quantidade de canais de Havers e de Volkmann. No segundo segmento do estudo (n = 15), investigou-se morfologicamente a propriedade osteocondutora do enxerto, através da quantificação da rede trabecular (Vv) e da área trabecular (Sv).

Resultados:

histologicamente, observou-se que ocorre degeneração do tecido ósseo com a idade, caracterizada pelo adelgaçamento do periósteo, com substituição gradual da camada osteogênica por tecido fibroso, pequena quantidade de canais de Havers e de Volkmann, osteoplastos vazios e trabéculas finas de osso esponjoso, permitindo amplo espaço medular, em geral ocupado por células lipídicas e adipócitos. Morfologicamente, com relação à quantificação da rede trabecular (Vv), foi observada diferença estatisticamente significante entre os Grupos 1 e 3 e entre os Grupos 2 e 3, com redução da rede trabecular de cerca de 45% no idoso acima de 65 anos de idade; não foi observada diferença estatisticamente significante entre os Grupos 1 e 2. Não foi observada diferença estatística entre os grupos quanto à Sv.

Conclusão:

os achados do presente experimento sugerem que nos indivíduos idosos (acima de 65 anos de idade), a propriedade osteogênica do enxerto ósseo autólogo diminui e a propriedade osteocondutora está comprometida.

Descritores: Desenvolvimento Ósseo; Osso/biópsia; Osso/anatomia & histologia; Propriedades do osso; Ílio; Transplante ósseo

INTRODUÇÃO

O uso de enxerto ósseo é procedimento comum na prática ortopédica atual. Embora em nossa literatura não existam dados com relação ao número de enxertos realizados a cada ano, Heppenstallestimava que cerca de 200.000 enxertias ósseas eram realizadas por ano nos Estados Unidos no início da década de 801. Situações clínicas como retardo de consolidação, não-união, grandes defeitos ósseos pós-ressecções tumorais ou infecções são frequentemente manejadas com a aplicação de enxerto ósseo2-4. Historicamente, a utilização de autoenxertia é a primeira opção nestes casos. Suas propriedades osteogênicas (celularidade), osteoindutora (fatores de crescimento e diferenciação ósseos) e osteocondutora (matriz extracelular) são de extrema importância nesta escolha, uma vez que até o momento nenhum substituto ósseo existente conseguiu reproduzir todas estas características5,6. Apesar disto, diversos autores têm apontado desvantagens e complicações relacionadas ao uso do autoenxerto7,8. As fontes e a quantidade de enxerto são limitadas e a morbidade no sítio doador é frequente, em última análise exercendo profundo efeito no resultado final do tratamento. Além disto, estudos recentes vêm demonstrando potencial osteogênico reduzido em algumas situações clínicas, como por exemplo, Diabetes Mellitus, em pacientes com idade avançada e após uso crônico de corticosteroides, nicotina e álcool9-11.

O objetivo dos autores foi avaliar as características histológicas e morfométricas de biópsias ósseas da crista ilíaca anterior de pacientes de diferentes faixas etárias, utilizando microscopia óptica de campo claro.

MÉTODOS

Em um período de seis meses, foram colhidos 57 fragmentos ósseos da região anterior da crista ilíaca de pacientes submetidos a cirurgias ortopédicas no serviço de ortopedia do autor principal. Todos os pacientes assinaram consentimento livre e esclarecido, e o estudo foi aprovado pela Comissão de Revisão da Instituição do autor principal.

Das 57 biópsias realizadas, as 30 melhores peças para análise microscópica foram selecionadas; dessas, 15 foram selecionadas aleatoriamente para análise histológica e 15 para análise morfométrica. O material foi dividido pela faixa etária dos doadores em três grupos: Grupo 1 (n = 10), indivíduos com idade inferior a 39 anos; Grupo 2 (n = 10), indivíduos com idade entre 40 e 64 anos; Grupo 3 (n = 10), indivíduos com idade igual ou superior a 65 anos. Os dados demográficos dos pacientes encontram-se nas tabelas 1 e 2.

Tabela 1 Dados demográficos dos pacientes utilizados para análise histológica. 

SEXO IDADE (em anos) DIAGNÓSTICO CIRURGIA REALIZADA COMORBIDADES
M 35 Artrose do tornozelo E Artrodese tíbio-társica E ALC, TAB
M 21 PA do fêmur D RAFI -
M 22 PA do fêmur D RAFI -
M 26 Fratura do 2o metacarpo D RAFI ALC
M 30 PA dos úmeros D e E RAFI -
M 57 PA do úmero E RAFI -
F 48 PA do úmero D RAFI -
F 56 Fratura do terço proximal do úmero D RAFI -
M 48 Fratura do colo do úmero D RAFI -
F 57 PA da tíbia D RAFI DM, TAB, Hipotireoidismo
F 77 Fratura do platô tibial D RAFI ALC
F 72 Fratura supracondileana do fêmur D RAFI ALC
M 84 Fratura do terço proximal do úmero D RAFI HAS
F 73 Fratura do terço distal da tíbia E RAFI -
F 72 Fratura diafisária de fêmur E RAFI -

Fonte: SOT, 2015

Legendas: M - masculino; F - feminino; E - esquerdo/a; D - direito/a; PA - pseudoartrose; RAFI - redução aberta e fixação interna; ALC - alcoolismo; TAB - tabagismo; DM - diabetes mellitus; HAS - hipertensão arterial sistêmica

Tabela 2 Dados demográficos dos pacientes utilizados para análise morfométrica. 

SEXO IDADE (em anos) DIAGNÓSTICO CIRURGIA REALIZADA COMORBIDADES
F 25 PA do fêmur E RAFI -
F 35 PA do fêmur E RAFI HAS
M 21 PA do tíbia D RAFI ALC
M 19 PA do úmero D RAFI -
M 30 Fratura subtrocanteriana D RAFI -
M 57 PA do úmero E RAFI -
F 56 Fratura do platô tibial E RAFI -
M 44 Fratura do platô tibial D RAFI -
M 47 PA da ulna E RAFI -
M 40 Fratura do platô tibial E RAFI -
F 74 Fratura de rádio E RAFI -
F 65 PA da tíbia D FE HAS, TAB
F 72 Fratura do úmero D RAFI -
F 72 PA da tíbia D FE -
F 73 Fratura do terço distal da tíbia E RAFI -

Fonte: SOT, 2015

Legendas: M - masculino; F - feminino; E - esquerdo/a; D - direito/a; PA - pseudoartrose; RAFI - redução aberta e fixação interna; FE - fixação externa; ALC - alcoolismo; TAB - tabagismo; HAS - hipertensão arterial sistêmica

Todos os pacientes foram operados em decúbito dorsal horizontal. Para a retirada do enxerto ósseo, foi realizado acesso curvilíneo sobre a região anterior da crista ilíaca de cerca de 5cm, com dissecção por planos até o periósteo. Retirou-se bloco corticoesponjoso de 1cm³, preservando-se o periósteo. Não foi utilizado bisturi elétrico durante a biópsia óssea. O material foi colocado em frasco contendo 3ml de paraformaldeído a 10%, tamponado por cinco dias e encaminhado para estudos histológico e morfométrico.

Análise histológica: após a fixação, os fragmentos foram descalcificados em ácido nítrico a 5% por cinco dias, desidratados em álcool, clarificados e incluídos em parafina. Foram realizados cortes de 5µm de espessura, sagitalmente ao plano longitudinal do bloco ósseo, com micrótomo Spencer (r) (American Optical, EUA). Os cortes foram corados com hematoxilina-eosina (H&E), segundo metodologia descrita por Bancroft e Cook12. Utilizou-se neste estudo microscopia óptica de campo claro (Olympus (r) BHs-RFCA, Japão).

A leitura histológica foi realizada sempre pelo mesmo pesquisador, de forma cega, sistematicamente de acordo com roteiro previamente definido (Tabela 3).

Tabela 3 Análise histológica. 

Periósteo Osso cortical Osso esponjoso
Celularidade (camada osteogênica) Celularidade (osteócitos em osteoplastos) Medula óssea
Linha cimentante externa (presença de proteoglicanas ácidas) Espessura óssea Espessura das trabéculas ósseas
Canais de Havers e de Volkmann

Análise morfométrica: após a fixação, os fragmentos foram descalcificados em ácido nítrico a 5% por cinco dias, desidratados em álcool, clarificados e incluídos em parafina. Foram realizados cortes de 10µm de espessura no osso esponjoso, transversalmente ao plano longitudinal do bloco ósseo, com micrótomo Spencer (r) (American Optical, EUA). Os cortes foram corados com H&E e estudados por microscopia óptica de campo claro(Olympus (r) BHs-RFCA, Japão)12. A análise morfométrica foi realizada sempre pelo mesmo pesquisador, de forma cega. A quantidade da rede trabecular (Vv) e a área da rede trabecular (Sv) do osso esponjoso foram calculadas, segundo o método utilizado por Tabor, e os resultados tratados estatisticamente, com nível de significância α = 0,0513. Utilizou-se o teste ANOVA para comparação entre os grupos e o teste de comparação múltipla de Newman-Keuls para comparações pareadas14-17.

RESULTADOS

ANÁLISE HISTOLÓGICA

Periósteo

Nos indivíduos jovens (Grupo 1), o periósteo apresentava-se bastante espessado e aderido, com sua camada osteogênica bem visível, demonstrando grande quantidade de células osteogênicas (pré-osteoblastos e osteoblastos). Em sua superfície óssea, justa-cortical, foi observada linha cimentante basofílica, com inúmeros osteoblastos de superfície em repouso (line cells) e em algumas áreas a presença de lacunas de remodelação, com agregados de osteoblastos altamente secretores, depositando nova matriz osteóide (Figuras 1A e 1B). Nos indivíduos do Grupo 2 (entre 40 e 64 anos de idade), o periósteo apresentava-se parcialmente destacado, irregular e fino. A camada osteogênica estava visível. A linha cimentante externa encontrava-se irregular e basofílica, com diversos osteoblastos de superfície em repouso (Figuras 1C e 1D). Quase não foram observadas lacunas de remodelação. No Grupo 3 (idosos), o periósteo encontrava-se parcialmente destacado e fino. A camada osteogênica era extremamente reduzida, pobre em células osteogênicas, em algumas áreas com aspecto celular misto (pré-osteoblastos, fibroblastos e osteoblastos). A linha cimentante externa estava francamente basofílica, muito irregular, com alguns agregados de osteoblastos sem aspecto de estarem secretando nova matriz (Figuras 1E e 1F).

Figura 1 Fotomicrografia de cortes histológicos de biópsias da região anterior da crista ilíaca anterior de adultos - PERIÓSTEO. A e B (Grupo 1) - Periósteo espesso, aderido ao osso cortical, com camada osteogênica bem definida, rica em células osteogênicas (è). Linha cimentante basofílica e cortical com numerosas lacunas preenchidas por osteócitos (†). Notar canal de Volkmann (ð) no menor aumento e lacuna de remodelação com osteoblastos secretores (è), osteoblastos de superfície em repouso (Æ) e osteócitos nas lacunas (†) em maior aumento (H&E, x100 / H&E, x400); C e D (Grupo 2) - Periósteo afinado, parcialmente destacado do osso cortical, com camada osteogênica rica em células osteogênicas (è). Linha cimentante pouco basofílica e cortical com um misto de lacunas preenchidas por osteócitos (†) e lacunas vazias (Æ). Notar canal de Havers em formação (ð) no menor aumento e osteoblastos de superfície em repouso (Æ) e osteócitos nas lacunas (†) em maior aumento (H&E, x100 / H&E, x400); E e F (Grupo 3) - Periósteo fino, completamente destacado do osso cortical, com camada osteogênica delgada e celularidade mista. Linha cimentante francamente basofílica (ð) e cortical com a maioria das lacunas de osteócitos vazias (†) (H&E, x100 / H&E, x400) 

Osso cortical

No Grupo 1 (indivíduos com menos de 39 anos de idade), a cortical óssea estava espessa, com inúmeros canais de Havers de grande diâmetro e lamelas concêntricas. Era grande a quantidade de osteócitos nas lacunas (média de seis por campo, H&E, x400), sem contar as lacunas vazias. Havia uma média de 1,6 canais de Volkmann por campo (H&E, x100) (Figura 2A). Nos indivíduos entre 40 e 64 anos de idade (Grupo 2), a cortical óssea apresentava-se mais fina do que nos jovens (Grupo 1), ocupando menor área e demonstrando menor diâmetro e quantidade de canais de Havers e de Volkmann (média de 0,6 por campo, H&E, x100). Havia uma média de quatro osteócitos por campo (H&E, x400) (Figura 2B). Nos indivíduos acima de 65 anos de idade (Grupo 3), a cortical óssea estava extremamente delgada, com pequena quantidade de canais de Havers. Em determinadas áreas era evidente a diminuição da matriz colágena. Quase todas as lacunas encontravam-se vazias, com média de dois osteócitos por campo (H&E, x400) (Figura 2C). Havia uma média de 0,4 canais de Volkmann por campo (H&E, x100).

Figura 2 Fotomicrografia de cortes histológicos de biópsias da crista ilíaca anterior de adultos - OSSO CORTICAL. A (Grupo 1) - Osteoplastos preenchidos em sua maioria (†). Notar a presença de canais de Havers (_) e de Volkmann (Æ) (H&E, x100); B (Grupo 2) - Osteoplastos preenchidos (†) e osteoplastos vazios (è). Notar canal de Havers ao centro (_) (H&E, x100); C (Grupo 3) - Osteoplastos vazios em sua maioria (†) (H&E, x100). 

Osso esponjoso

Nos jovens (Grupo 1), a medula óssea encontrava-se íntegra, em geral apresentando pequenas áreas de necrose na periferia e, menos frequentemente, áreas de hemorragia. As trabéculas ósseas eram bem visíveis, bastante espessas, fazendo redes, com aspecto de continuidade (Figura 3A). Não foram observados osteoclastos. Nos indivíduos do Grupo 2 (entre 40 e 64 anos de idade), a medula óssea estava íntegra, com áreas de necrose periférica e de hemorragia. As trabéculas ósseas eram mais delgadas do que nos jovens (Grupo 1), em geral paralelas, mas ainda com aspecto de rede (Figura 3B). Em uma biópsia foi observada a presença de osteoclastos (MLCC, 57 anos de idade). Nos idosos (Grupo 3), as trabéculas ósseas eram bem delgadas, em rede, permitindo amplos espaços medulares, ocupados por células lipídicas e adipócitos (Figura 3C). A medula óssea era escassa e havia grande quantidade de áreas de necrose na periferia. Não foram observados osteoclastos.

Figura 3 Fotomicrografia de cortes histológicos de biópsias da crista ilíaca anterior de adultos - OSSO ESPONJOSO. A (Grupo 1) - Trabéculas ósseas espessas, formando redes, com pequeno espaço medular (H&E, x100); B (Grupo 2) Trabéculas ósseas mais finas, mas ainda formando redes, com espaço medular aumentado em relação ao Grupo 1 (H&E, x100); C (Grupo 3) - Trabéculas ósseas finas e interrompidas, com amplo espaço medular preenchido por células lipídicas e adipócitos (H&E, x100) 

ANÁLISE MORFOMÉTRICA

A quantidade da rede trabecular (Vv) foi de 52,2 ± 5,0 (média ± DP) no Grupo 1, 52,1 ± 13,3 (média ± DP) no Grupo 2 e 28,9 ± 2.9 (média ± DP) no Grupo 3. Houve perda significativa da Vv entre os grupos estudados (p < 0,05, ANOVA), com a população idosa (Grupo 3) apresentando redução de 45% da rede trabecular no osso esponjoso (p < 0,01, Newman-Keuls). Entre os Grupos 1 e 2 não foi observada diferença estatisticamente significativa com relação a Vv (p > 5%, Newman-Keuls) (Figura 4).

Figura 4 Quantidade da rede trabecular (Vv) - Houve perda significativa da Vv entre os grupos estudados (p < 0,05, ANOVA), com a população idosa (Grupo 3) apresentando redução de 45% da rede trabecular no osso esponjoso (p < 0,01, Newman-Keuls). Entre os Grupos 1 e 2 não foi observada diferença estatisticamente significativa com relação a Vv (p > 5%, Newman-Keuls). 

A área da rede trabecular (Sv) foi de 6,35 ± 0,82 (média ± DP) no Grupo 1, 5,96 ± 0,62 (média ± DP) no Grupo 2 e 6,6,9 ± 0,98 (média ± DP) no Grupo 3. Não foi observada diferença estatística entre os grupos (p > 0,05, ANOVA e Newman-Keuls) (Figura 5).

Figura 5 Área da rede trabecular (Sv) - Não foi observada diferença estatística entre os grupos (p > 0,05, ANOVA e Newman-Keuls). 

DISCUSSÃO

O desenvolvimento de novos biomateriais com o objetivo de mimetizar as características do enxerto ósseo autólogo tem avançado nos últimos anos. Estudos in vitro e investigações clínicas vêm sugerindo que alguns destes substitutos ósseos podem de fato estimular a consolidação18,19. No entanto, a grande diversidade entre os biomateriais disponíveis e a má compreensão acerca dos mecanismos pelos quais estas substâncias participam no processo de reparo ósseo tornam sua aplicação limitada2,18. Ainda hoje, o uso de enxerto autógeno é a melhor solução para reconstrução de grandes defeitos ósseos e estímulo osteogênico à consolidação de fratura2-5. Sua estrutura única fornece excelente mecanismo de autorregulação e capacidade de adaptação funcional. Sua matriz sólida facilita a troca de sinais mecanobiológicos, bioquímicos e eletromecânicos endógenos e exógenos do sistema ao qual é exposta para as células responsáveis pela modelação do tecido ósseo6,20. A soma destas interações determina o sucesso ou a falha do procedimento de enxertia. Em geral, quanto menos ativo biologicamente, mais dependente do sítio receptor se torna o enxerto ósseo2,6. Tal aspecto da fisiologia óssea ganha mais importância a partir do momento que estudos recentes têm mostrado que ocorrem alterações complexas na micro-arquitetura do esqueleto ao longo da vida, com redução principalmente do volume e da densidade do osso trabecular e do tecido hematopoiético21-24.

Birkenhäger-Frenkel et al. investigaram com microscopia eletrônica biópsias de ilíaco de 94 espécimes humanos entre 20 e 80 anos de idade21. Notaram que tanto a área de osso trabecular quanto o número de trabéculas reduzem com a idade em áreas comumente utilizadas como sítios doadores de enxerto ósseo. Burkhardt et al. analisaram retrospectivamente por microscopia óptica 81 biópsias da crista ilíaca e 400 amostras de crista ilíaca, esterno, vértebra lombar, calcâneo e terço distal do rádio retiradas entre duas e 12 horas postmortem de 79 indivíduos normais de diferentes grupos etários (um a 96 anos de idade)22. Observaram que os volumes do osso trabecular, da matriz osteoide e do tecido hematopoiético e o número de células estão condicionados à idade, com diminuição gradual nos indivíduos mais idosos. Seus resultados indicam possível papel da microcirculação na gênese destas alterações, uma vez que a redução no número de sinusóides é comum na população geriátrica, sempre acompanhada de aplasia da medula hematopoiética e aumento no número de células de gordura. Rehman et al.estudaram através de análise semi-automatizada de imagens biópsias de ilíaco de 234 indivíduos entre 16 e 100 anos de idade. Encontraram que o volume de osso trabecular diminui com a idade em ambos os sexos, atingindo valores estatisticamente significativos entre 61 e 70 anos nas mulheres (56% de redução) e entre 81 e 90 anos nos homens (34% de redução)24.

Baseando-se nos achados destes autores21-24, no presente experimento foram estudadas as características histológicas e morfométricas de biópsias ósseas da crista ilíaca anterior. Os pacientes foram divididos em três grupos de diferentes faixas etárias. Com relação aos Grupos 1 e 2, a divisão baseou-se no declínio hormonal e consequente deterioração da micro-estrutura do tecido ósseo que ocorrem por volta dos 40 anos de idade, principalmente nas mulheres. Sabe-se que existe relação direta entre densidade óssea reduzida e fratura patológica25. A inclusão do Grupo 3 seguiu a orientação da Organização Mundial de Saúde, que denomina de "idoso" o indivíduo com idade igual ou superior a 65 anos26.

Histologicamente, observou-se que ocorre degeneração do tecido ósseo com a idade. Nos indivíduos dos Grupos 1 (idade inferior a 40 anos) e 2 (entre 40 e 64 anos de idade), o periósteo osteogênico encontrava-se bastante espessado, rico em células de linhagem óssea (pré-osteoblastos e osteoblastos). Na cortical, havia grande quantidade de canais nutrícios (Havers) e comunicantes (Volkmann) e a maioria dos osteoplastos encontrava-se preenchida. As trabéculas do osso esponjoso eram bem visíveis, espessas (o que ficou mais evidente no Grupo 1) e dispostas em rede. No Grupo 3 (idade superior a 65 anos), o periósteo estava fino, pobre em células osteogênicas, embora apresentasse intensa basofilia na linha cimentante, denotando aumento da síntese dos proteoglicanos ácidos. Substituição gradual da camada osteogênica por tecido fibroso, desequilíbrio do turnover ósseo e redução da atividade osteoblástica podem estar associados à presença da celularidade mista e à diminuição da matriz colágena observada nestes indivíduos27. No osso cortical, havia pequena quantidade de canais de Havers e de Volkmann e quase todos os osteoplastos encontravam-se vazios. Diversos autores têm observado que o número de osteoplastos ocupados cai de 95% aos dez anos de idade para cerca de 70% aos 40 anos28-30. Parfitt demonstrou que o número de osteócitos reduz significativamente com a idade, havendo declínio na densidade total e na proporção das lacunas ocupadas, principalmente nas camadas mais profundas do osso cortical30. Em última análise, a deficiência de osteócitos pode contribuir para a fragilidade óssea observada nos idosos31. Por fim, no osso esponjoso, as trabéculas eram delgadas, permitindo amplo espaço medular, em geral ocupado por células lipídicas e adipócitos.

Uma vez que a estrutura do osso esponjoso é fator determinante da resistência óssea, classicamente vêm sendo proposta a adoção de procedimentos para quantificação do osso trabecular32-39. Croucher et al. mostraram forte correlação entre diferentes índices de avaliação da estrutura óssea, como análise da ultraestrutura, volume estrelado e padrão de fator do osso trabecular32. Kubik et al. confirmaram o valor destes métodos, principalmente na descrição das alterações do osso trabecular relacionadas à idade nos indivíduos com mais de 50 anos34. Vesterby mostrou aumento do volume estrelado no espaço medular da crista ilíaca e da primeira vértebra lombar em dez cadáveres humanos com idades entre 27 e 87 anos, sugerindo que a redução do osso trabecular ocorre em todas as estruturas ósseas dos idosos39. No presente experimento, utilizamos a quantidade da rede trabecular (Vv) e a área da rede trabecular (Sv). Foi observada diferença estatisticamente significativa dos Grupos 1 e 2 com relação ao Grupo 3 quanto à Vv, com redução de 45% no idoso, mas não entre os Grupos 1 e 2. Não foi observada diferença estatística entre os grupos quanto à Sv. A interpretação destes resultados denota claramente que a reabsorção do osso trabecular ocorre com a idade, manifestando-se clinicamente pelo aumento do risco de fratura nos indivíduos mais idosos40.

Essas observações podem ser extrapoladas com relação à qualidade do tecido ósseo retirado da crista ilíaca anterior e seu uso como enxerto em situações em que exista a necessidade de sustentação estrutural (por exemplo, em fraturas do platô tibial ou do corpo vertebral) ou de estímulo osteogênico (como em retardes de consolidação ou pseudoartroses avasculares) na população idosa. Ao menos duas de suas propriedades fundamentais, entenda-se a osteogenicidade e a osteocondução, estão definitivamente comprometidas nessa população etária. A redução da espessura das trabéculas, o aumento da distância intertrabecular e a diminuição numérica dos osteócitos potencialmente tornam o osso do ilíaco do paciente idoso menos resistente e de baixa qualidade. Assim, acreditamos que a retirada de enxerto ósseo da crista ilíaca deva ser evitada na população idosa, devendo-se pensar em outras fontes doadoras. Papavero e Santin demonstraram que a retirada de enxerto ósseo autólogo do terço distal do fêmur e do terço proximal da tíbia é uma boa opção nestes indivíduos5. Outra boa alternativa é o uso do sistema de fresagem aspirativa com irrigação (reamer irrigator aspirator - RIA) nos ossos longos dos membros inferiores41-43. Henrich et al. demonstraram que, comparativamente ao enxerto retirado da crista ilíaca, o aspirado obtido do fêmur com o uso do RIA apresenta maior concentração de células osteoprogenitoras da linhagem CD34+ e de células mesenquimais indiferenciadas43.

Em conclusão, os achados do presente experimento sugerem que a propriedade osteogênica do enxerto ósseo autólogo diminui com a idade, caracterizando-se pela redução da população e função celulares e dos canalículos nutrícios e comunicantes do osso; a propriedade osteocondutora está alterada na população idosa, uma vez que a capacidade do enxerto em prover suporte estrutural encontra-se reduzida; a atividade osteoformadora, embora diminuída, persiste nos idosos; e que a retirada de enxerto ósseo da crista ilíaca anterior deve ser evitada nos indivíduos idosos, devendo-se pensar em outra fonte doadora.

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Fonte de financiamento: nenhum.

Recebido: 05 de Abril de 2016; Aceito: 13 de Julho de 2016

Endereço para correspondência: Vincenzo Giordano E-mail: v_giordano@me.com

Conflito de interesse: nenhum.

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