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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.44 no.1 Rio de Janeiro jan./fev. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912017001011 

Artigo Original

Eficácia da membrana de celulose bacteriana no tratamento de úlceras venosas de membros inferiores: estudo randomizado e controlado

LUCIANA MARINS CAVALCANTI1 

FLÁVIA CRISTINA MORONE PINTO2 

GLÍCIA MARIA DE OLIVEIRA3 

SALVADOR VILAR CORREIA LIMA2 

JOSÉ LAMARTINE DE ANDRADE AGUIAR2 

ESDRAS MARQUES LINS1 

1 - Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.

2 - Programa de Pós-Graduação em Cirurgia, Departamento de Cirurgia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.

3 - Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

avaliar a eficácia de curativos com membrana de Celulose Bacteriana (CB) no tratamento de úlceras venosas de membros inferiores.

Métodos:

estudo prospectivo, randomizado e controlado de 25 pacientes com úlceras decorrentes de doença venosa crônica nos membros inferiores provenientes do Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco e da Policlínica do Salgado da Secretaria Municipal de Saúde, Caruaru, Pernambuco. Os pacientes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: grupo controle, que recebeu curativos com óleo de triglicerídeos (11 pacientes) e grupo experimental, tratado com membrana de CB (14 pacientes). Os pacientes foram acompanhados por um período de 120 dias.

Resultados:

houve uma redução na área de ferida em ambos os grupos. Não houve infecção ou reações ao produto em nenhum dos grupos. Pacientes do grupo CB mostraram diminuição da dor e interrupção mais precoce do uso de analgésicos.

Conclusão:

a membrana de CB pode ser usada como curativo para o tratamento de úlceras varicosas dos membros inferiores.

Descritores: Úlcera Varicosa; Celulose; Saccharum; Cicatrização

INTRODUÇÃO

A doença venosa crônica (DVC) dos membros inferiores (MI) é comum e ocorre devido à função anormal do sistema venoso causada por insuficiência valvular, que pode estar associada à obstrução do fluxo sanguíneo1,2. Sua incidência é maior em mulheres e apenas 30% dos homens são afetados, o que representa 3% a 5% da população com idade superior a 65 anos1,3-6. Causam significativo impacto social, podendo evoluir com complicações, como infecção e hemorragia, e limitar qualidade de vida e provocar alterações psicológicas.

A gravidade da DVC dos MI pode ser caracterizada com base em uma classificação internacional que considera manifestação clínica, fatores etiológicos, distribuição anatômica da doença e achados fisiopatológicos (CEAP). Por meio de uma pontuação, as lesões podem ser divididas em sete classes (0 a 6), sendo a manifestação clínica mais grave a úlcera aberta (CEAP 6)7.

Atualmente, inúmeros materiais são utilizados como curativos para o tratamento das úlceras venosas crônicas (UVC), a maioria deles caro e, por isso, não disponíveis no Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS)8,9. A membrana de celulose bacteriana (CB), um biopolímero fabricado a partir de melaço de cana, foi desenvolvida na Estação Experimental de Cana de Açúcar em Carpina (EECC), da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil (UFRPE)10. Vários estudos, incluindo análises experimentais e testes clínicos mostraram que a CB não é tóxica, é biocompatível e é eficaz para o remodelamento tecidual11-14.

O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia do curativo com membrana de CB no tratamento de úlceras varicosas crônicas nos membros inferiores.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de intervenção, prospectivo, randomizado e controlado em que foram avaliados 25 pacientes com úlceras decorrentes de DVC (CEAP 6)7, localizadas nos membros inferiores. Estes pacientes foram tratados no Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC/UFPE) e na Policlínica do Salgado ligada à Secretaria Municipal de Saúde, em Caruaru, Pernambuco (PS/Caruaru/PE).

Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um grupo experimental, que utilizou curativos com membrana CB (14 pacientes) e um grupo controle, que recebeu o tratamento convencional com óleo de triglicerídeos (11 pacientes), referência para o tratamento de úlceras varicosas no HC/UFPE e no PS-Caruaru/PE. A seleção aleatória foi realizada com o programa Randomizer (Urbaniak, G. C., & Plous, S. 2013, Versão 4.0).

A amostra foi calculada com base na fre­quência esperada de úlceras ativas ou curadas (3,6%) na população com DVC5, considerando a margem de erro aceitável (5%), o nível de confiança (95%) e o nível de heterogeneidade (50%). O cálculo baseou-se em uma distribuição normal.

Os participantes da pesquisa foram submetidos à anamnese, incluindo perguntas sobre os tratamentos anteriores e exames clínicos. O estudo incluiu adultos, independentemente da idade e do sexo, com diagnóstico de úlceras varicosas dos membros inferiores, CEAP 6, infectadas ou não. A presença de pulsos periféricos foi o critério decisivo para inclusão.

Foram excluídas crianças e adolescentes, bem como, pacientes com as seguintes condições: úlceras neuropáticas, arteriais, linfáticas ou malignas, e pacientes com anemia.

A membrana CB

A membrana de CB é um exopolissarídeo obtido a partir de melaço de cana de açúcar, composto de açúcares polimerizados estáveis. Seu tamanho variou de 2x2 cm até 6x60 cm e de 0,01 a 0,02 mm de espessura, era perfurada e embalada separadamente em envelopes do tipo grau cirúrgico13. Os curativos de CB foram previamente esterilizados com irradiação gama de 25kGy e foram doados pela POLISA(c) Biopolímeros para Saúde, e incubados na EECC/UFRPE.

Técnica de aplicação do curativo

A avaliação clínica da lesão foi realizada com base na metodologia MEASURE15 e o curativo foi aplicado de acordo com os procedimentos operacionais padrão (POP) no HC/UFPE e no PS-Caruaru/PE. Os seguintes passos foram seguidos: desbridamento; limpeza com solução salina fisiológica (0,9%); swab da ferida para avaliação de bactérias contaminantes da ferida; aplicação da membrana CB ou de óleos à base de ácidos graxos essenciais (AGE) ou ainda contendo triglicerídeos de cadeia média (TCM).

Após a aplicação da cobertura, um curativo secundário (gaze) e uma atadura de algodão elástica foram colocados sobre as feridas de todos os pacientes. As consultas de acompanhamento foram realizadas semanalmente e os pacientes foram orientados a permanecer por 48 horas sem trocar o curativo. Eles também foram instruídos a retirar o curativo secundário (gaze e ataduras) antes de iniciar a higiene pessoal e, durante o banho, umedecer o curativo de CB, lavando a área normalmente, sem retirá-lo. A mudança da membrana de CB era feita semanalmente sob supervisão médica.

Desfechos avaliados

O processo de cicatrização no prazo de 120 dias foi considerado como o resultado primário. Informações sócio-demográficas, história médica, diagnóstico primário e comorbidades, assim como o uso de medicamentos foram coletados na primeira visita clínica. A avaliação clínica das lesões foi baseada no acrônimo MEASURE15, tendo sido avaliados os seguintes parâmetros: M (medida), E (exsudato), A (aparência), S (dor), U (descolamento), R (reavaliação) e E (borda).

A avaliação do processo de cicatrização da ferida foi realizada utilizando a medição direta da lesão com uma régua milimetrada e através da análise das imagens captadas com uma câmera digital, em todas as trocas de curativos, durante a consulta clínica. A partir das fotografias, as áreas de lesão foram capturadas pelo Imagem-Pro(r), versão 6.0 para WindowsTM.

A eficácia do tratamento foi classificada de acordo com o grau de cicatrização e tamanho da área da ferida; com as características do tecido durante o processo de cicatrização; e com o número de feridas cicatrizadas completamente.

As variáveis de confundimento (presença de comorbidades e de lesões crônicas e recorrentes) foram monitoradas para limitar as variações na interpretação do objetivo/desfecho primário. As comorbidades, representadas por doenças em grau avançado, podem interferir diretamente no processo de cicatrização; e a presença de lesões crônicas e recorrentes podem indicar lesões em fase crônica e recidivante, ou seja, resistentes a outros protocolos de tratamento.

Aos dados sócio-demográficos atribuíram-se uma análise descritiva e inferência estatística para os dados clínicos (MEASURE). Todos os dados foram avaliados pelo programa GraphPad Prism(r) versão 3.0. As frequências foram representadas em porcentagem, utilizando o teste exato de Fisher ou o teste Qui-quadrado. Os dados contínuos foram apresentados como média e desvio padrão, estudados pelo teste de diferença entre as médias. O nível nominal de 0,05 foi escolhido para rejeitar a hipótese nula.

O estudo seguiu as recomendações éticas do Conselho Nacional de Saúde, a Declaração de Helsinque e Código de Nuremberg para estudos com seres humanos e foi aprovado pelo Comitê de Ética Institucional em Pesquisa (No 1.117.265, CEP/CCS/UFPE). Os participantes foram formalmente informados sobre o estudo e convidados a participar. Todos os pacientes incluídos no estudo assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

Participantes do sexo masculino constituíram 54,5% do grupo controle e 50% do grupo experimental, a maioria com baixo nível de escolaridade e aposentados. A média de idade dos participantes foi 60±17 anos no grupo controle, em comparação com 61±14 anos no experimental. Sobre o grau de independência funcional, ou seja, a capacidade de deambular/caminhar sem ajuda, no grupo controle, isto correspondeu a 72,7% e no experimental a 78,6%.

No que diz respeito à história prévia de doença, no grupo controle 18,2% era portador de diabetes mellitus (DM), 18,2% tinha hipertensão arterial sistêmica (HAS) e 9,1% tinha neoplasia maligna. No grupo CB houve 35,7% com HAS, 28,6% com DM e 7,14% com neoplasia maligna. O índice médio de massa corporal (IMC) foi 29,0±8,0 Kg/m2 no grupo controle e de 32,0±8,0 Kg/m2 no grupo experimental.

A cultura por swab foi positiva em 90,1% dos casos no grupo controle e 100% no grupo experimental (Tabela 1). A contagem média de hemoglobina foi 13,0g/100ml em ambos os grupos.

Tabela 1 Bactérias encontradas em culturas de secreção (avaliação inicial). 

Perfil Bacteriano (%) Controle CB
Pseudomonasaeruginosa 30 42,9
Providencia rettgeri 20 0,0
Acinetobacter 10 0,0
Proteus 10 7,1
Escherichia coli 10 7,1
Citrobacter 10 7,1
Providencia stuartii 10 0,0
Staphylococcusequorum 0 7,1
Bacilos gram negativo 0 14,4
Staphylococcus aureus 0 7,1
Enterobacter 0 7,1

A maior parte das úlceras se situava no membro inferior direito, sendo sete (63,6%) no grupo de controle e oito (57,1%) no grupo CB. O local mais frequentemente acometido foi o maléolo medial, sendo cinco (45,4%) no controle e sete (50%) no CB. A área da ferida, medida durante a avaliação clínica inicial, foi 50,0±59,0 cm2 no grupo controle e 54,0±57,0 cm2 no CB. Após 30 dias (primeira reavaliação), a área foi 31,0±26,0 cm2 no grupo controle e 55,0±54,0 cm2 no grupo CB. Depois de 120 dias (segunda reavaliação), a área da ferida no grupo controle foi 36,0±27,0 cm2 e 54,0±49,0 cm2 no CB. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p=0,5748). Também não houve diferença significativa entre os grupos (p=0,7120) quando as feridas foram agrupadas pelo tamanho médio da área em qualquer um dos tempos de avaliação (inicial, primeira ou segunda reavaliações).

O número de feridas clinicamente cicatrizadas foi semelhante em ambos os grupos, sendo três (27,27%) no controle e duas (14,28%) com a membrana de CB. A análise do processo de cicatrização, pelo programa Imagem-Pro Plus, revelou uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos na avaliação inicial (p=0,0096), na primeira reavaliação (p=0,0096) e segunda reavaliação (p=0,0156). A quantidade (p=0,9928) e a qualidade (p=0,9921) de exsudados não foram significativas entre os grupos, embora no grupo CB, a ausência de exsudados tenha sido mais evidente.

A intensidade da dor, usando a escala analógica para a dor, foi menor no grupo CB em comparação com o controle (p=0,0357) na segunda reavaliação, com interrupção mais precoce do uso de analgésicos por estes pacientes. Não houve diferença nos outros tempos de seguimento (avaliação inicial e primeira reavaliação).

No grupo controle, 63,6% dos pacientes tiveram perda de tecido subcutâneo (mais profunda) na avaliação inicial. Após 120 dias, a perda de epiderme (ferida superficial) foi mais frequente (62,5%). No grupo CB no início do estudo, os participantes com perda de subcutâneo também foram mais comuns (57,14%) e, depois de 120 dias, a perda de epiderme estava presente em 83,33% dos casos. Houve diferença significativa entre os grupos (p<0,0001). Após 120 dias de avaliação, os pacientes com tecido de granulação eram de 25% no grupo de controle e 41,7% no grupo CB. O tecido epitelial estava presente em 37,5% do grupo controle e 25% no grupo CB. Feridas com os dois tipos de tecido (granulação+epitelial) também foram observadas na segunda reavaliação, no grupo de controle em 12,5% e no grupo CB em 25%, sem diferenças estatisticamente significativas (p=0,6946).

Todos os parâmetros de medida da avaliação inicial e de reavaliações (30 ou 120 dias após a avaliação inicial) podem ser observados na tabela 2 e estão ilustrados nas Figuras 1 e 2.

Tabela 2 Avaliação de úlceras pelo MEASURE, avaliação inicial, após 30 e 120 dias. 

Parâmetros Controle CB
Avaliação Inicial 1a Reavaliação 2a Reavaliação Avaliação Inicial 1a Reavaliação 2a Reavaliação
Área1 da lesão (média±DP, cm2) 50±59 31±26 36±27 54±57 55±54 54±49
Classificação da área (média±DP)
até 30cm2 7,1±5,7 12,8±9,3 14,4±8,7 8,6±7,5 12,5±7,5 12±4,3
31 a 60 cm2 43,7±4,7 43,8±7,4 39,8±3,2 44,1±15,5 36±0 37,3±1,8
61 a 90 cm2 78±0 71±1,4 74±5,7 96±0 80,3±0,4 77±15,6
acima de 100cm2 150±70,7 0 0 145,3±30,8 134,3±36,3 119,7±34,9
No de lesões clinicamente cicatrizadas 0 01 02 0 01 01
Processo de Cicatrização2 (área%, pixel)
em processo cicatrização3 36,4 34,5 27,1 51,1* 42,6* 50,1*
não cicatrizado 63,6 56,4 61,7 48,9* 40,9* 38,6*
completamente cicatrizado 0 9,1 11,2 0 16,5* 11,3
Quantidade do exsudado (%)
nenhum 0 0 0 21,4 15,4 25,0
pouco 54,5 70 75 42,9 53,8 66,7
moderado 18,2 30 25 28,6 30,8 8,3
grande 27,3 0 0 7,1 0 0
Qualidade do exsudato (%)
nenhum 0 0 0 0 15,4 25,0
seroso 81,8 80,0 75,0 100 76,9 58,3
seropurulento 18,2 20,0 25,0 0 7,7 16,7
A intensidade da dor (escala analógica) (%)
0 0 0 0 0 0 41,7*
2 36,4 20,00 50,00 35,7 46,2 50,00*
4 54,5 80,00 50,00 57,1 53,8 8,3*
6 9,1 0 0 7,1 0 0
Aparência da lesão (%)
perda de epiderme 36,4 70,00 62,5 42,9 76,9 83,3*
perda de subcutâneo 63,6 30,00 37,5 57,1 23,1 16,7*
Tipo de borda
epitelializada 9,1 60,0 50,0 14,3 15,4 16,7
delimitada 45,5 10,0 37,5 57,1 30,8 33,3
irregular 45,5 30,0 12,5 28,6 53,8 50,0
Tipo de tecido
íntegro 0 0 0 0 7,7 0
destruído 18,2 0 12,5 14,3 15,4 0
de granulação 18,2 30,0 25,0 28,6 30,8 41,7
epitelial 18,2 30,0 37,5 21,4 7,7 25,0
destruído+de granulação 27,3 20,0 0 0 0 0
epitelial+de granulação 9,1 10,0 12,5 7,1 7,7 25,0
destruído+epitelial 9,1 0 0 28,6 23,1 8,3
destruído+de granulação+necrótico 0 10,0 12,5 0 7,7 0
Cor do tecido
vermelho 36,4 40,0 75,0 50,0 46,2 50,0
amarelo 0 0 0 0 0 0
misto 63,6 60,0 25,0 50,0 53,8 50,0

Os valores são porcentagens (%) ou média seguida do desvio padrão (média±DP)*Estatisticamente significativo se p<0,05. 1 Avaliação manual da área da lesão, conduzida por avaliação clínica. 2 Avaliação do processo de cicatrização pelo programa Imagem-ProPlus. 3 Avaliação realizada sobre a quantidade de tecido de granulação presente na lesão.

Figura 1 Úlcera varicosa, avaliação inicial: A) Grupo Celulose Bacteriana; B) Grupo Controle. Tecido fibrinoso, brilhante amarelado (estrela vermelha), tecido de granulação escasso (ou seja, vermelho brilhante e granular) (seta verde), bordas maceradas (seta preta) e sinais de infecção (vermelhidão e inchaço) (seta roxa). 

Figura 2 Úlcera varicosa, após 120 dias: A) Grupo Celulose Bacteriana; B) Grupo Controle. Tecido de granulação presente, mais em A do que em B (seta verde), tecido epitelial mais leve do que tecido circundante (ou seja, cor rosa) (círculo preto) e bordas epitelilizadas (seta preta). 

DISCUSSÃO

A avaliação do perfil sócio-demográfico mostrou que a maioria dos pacientes com úlceras varicosas dos membros inferiores tinha, em média, 60 anos de idade. Eles tinham um baixo nível de escolaridade, evidenciado por uma alta taxa de analfabetismo, observada tanto no controle e quanto no grupo experimental, que recebeu a membrana de CB (36% e 50%, respectivamente). Estes resultados são semelhantes aos descritos na literatura16,17. A DVC dos membros inferiores é insidiosa e progressiva, e costuma ser agravada pela dificuldade apresentada pelos pacientes em tomar os cuidados adequados com sua saúde, o que determina a evolução para as formas mais graves da doença16,18,19. A baixa escolaridade também está relacionada à falta de acesso a cuidados médicos, já que a maioria destes pacientes depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e, portanto, são frequentemente avaliados somente quando apresentam os estágios avançados de úlceras cutâneas (CEAP 6).

Neste trabalho, a maior parte dos pacientes foi do sexo masculino, ao contrário do que está representado na literatura16,20. A maioria era casada e isto pode ter contribuído para adesão ao tratamento em ambos os grupos16,19. Uma alta porcentagem de pacientes, mais de 60% em ambos os grupos, estava desempregada e este dado também tem sido amplamente descrito na literatura2,5,16,19.

Sobre o nível funcional, a maioria dos participantes foi classificada como independente, mas quase todos apresentavam algum grau de dificuldade na deambulação, semelhante ao que foi encontrado na literatura16,21,22. A DVC avançada (CEAP 6), costuma evoluir com claudicação venosa (dor na deambulação) que, embora não impeça a deambulação, a torna difícil e lenta.

Quanto às comorbidades, as principais doenças presentes foram diabetes mellitus e hipertensão arterial, comuns na faixa etária predominante dos pacientes estudados20. Embora estas doenças não sejam a causa da UVC, quando presentes, podem agravar a condição do paciente e, portanto, interferir com o processo de cicatrização da úlcera. Doenças que podem interferir com a cicatrização da ferida também foram observadas, tais como artrite reumatoide e cancro uterino, em que a terapia requer a utilização de anti-inflamatórios esteroidais e drogas antineoplásicas23,24.

Outro fator que interfere com o processo de cicatrização é a obesidade. No grupo controle, a maioria dos participantes apresentava pré-obesidade, enquanto que no grupo CB, a maioria foi classificada com IMC de grau 125. Vários estudos têm mostrado que o IMC alto contribui com o prolongamento do tempo de cicatrização da ferida26. Em estudo que avaliou 50 pacientes com úlceras venosas dos membros inferiores, os autores identificaram a presença de obesidade em 46% dos pacientes27.

A maioria dos participantes, em ambos os grupos (controle: 90%; CB: 100%), foi cultura-positiva para a secreção de feridas por swab. O micro-organismo mais frequentemente encontrado nas culturas de ambos os grupos foi Pseudomonas aeruginosa. Este achado é esperado e confirma a elevada taxa de contaminação da UVC dos membros inferiores27,28. Quanto mais tempo a úlcera está ativa ou mais frequentes são as recaídas, maiores as chances de contaminação, que aumentam os riscos de infecção, e esta por sua vez, retarda o processo de cicatrização. O conhecimento do perfil bacteriológico da UVC pode guiar antibioticoterapia precoce empírica nos casos em que há um diagnóstico clínico de infecção da ferida29.

No grupo controle, as feridas foram tratadas com substâncias à base de ácidos graxos essenciais (AGE) ou contendo triglicerídeos de cadeia média (TCM) e, em seguida, cobertas com gaze e ataduras (pé e perna). Embora este tipo de curativo possa não ser o padrão ouro para o tratamento de UVC, ele tem sido utilizado rotineiramente em outras clínicas no SUS, por causa do seu baixo custo. Sua utilização e vantagens têm sido descritas na literatura5,8,18,22.

O uso de CB para o tratamento de UV/MMII é promissor, uma vez que este material não é toxico11, é biocompatível12 e promove remodelamento tecidual14. Além disso, a membrana CB é feita a partir de uma fonte renovável, que tem a matéria-prima proveniente da cana de açúcar, de baixo custo10, permitindo sua utilização no SUS. Não houve casos de reações de hipersensibilidade cutânea e dermatite induzida pela CB. Há relato na literatura de dermatite e dor devido ao uso de TCM30. Não houve evidência de dermatite por TCM neste estudo.

O acompanhamento dos resultados pela metodologia MEASURE15 ocorreu por 120 dias. O processo de cicatrização deste tipo de lesão ocorre lentamente e, em muitos casos, a cura completa do ferimento só é obtida depois de um longo período de tempo, por vezes mais de 12 meses5,27, especialmente nos casos de grandes úlceras6, semelhantes às apresentadas pela maioria dos participantes deste estudo.

O período de 120 dias foi escolhido como suficiente para avaliar a resposta da UV aos curativos de CB. No final do período de observação, houve uma redução na área da ferida em ambos os grupos. Esta diferença não foi estatisticamente significativa, porque vários pacientes tiveram, na primeira avaliação, extensos ferimentos e de diferentes tamanhos, que podem justificar o elevado desvio padrão em relação à área média, o que, portanto, compromete os resultados da avaliação. Para corrigir esse erro potencial, as feridas foram classificadas, em cada grupo, de acordo com a sua área média ou porcentagem (30cm2, de 31 a 60 cm2, 61 a 90 cm2 e acima de 100cm2) e, em seguida, a comparação foi feita pelo grupo de classificação.

No grupo CB, em mais de 80% dos pacientes (versus 60% no grupo de controle) as úlceras eram mais superficiais no final do período de observação. Este resultado pode indicar que os curativos de CB agiram como um indutor do remodelamento tecidual, estimulando o processo de granulação14. Isto é importante, porque a cura de uma úlcera depende não só da proliferação epidérmica nas margens da lesão, mas também do crescimento do tecido de granulação a partir da área central. Outros estudos têm avaliado a aplicação da membrana de CB em animais e seres humanos. Os autores também observaram um aumento de tecido de granulação, o controle de infecção e redução do tempo de cicatrização12,13,31-35.

Todos os participantes dos dois grupos relataram diminuição da dor e interrupção da utilização de analgésicos. Aqueles participantes que utilizam o curativo de CB relataram sentirem-se mais confortáveis e com menos dor do que aqueles do grupo controle. A membrana CB promoveu o autocuidado, incluindo a possibilidade de tomar banho, sem ter que se preocupar com o curativo. Não houve restrição quanto a molhar o curativo, mas alguns relatos de perda de curativo foram registrados. A membrana CB é um curativo úmido, que favorece a higiene, adere bem ao leito da ferida e se solta espontaneamente uma vez que a ferida esteja cicatrizada13. Os estudos com CB demonstram que este é um material inovador, eficaz, seguro e de baixo custo13,31.

Este estudo é pioneiro no uso da membrana CB no tratamento de feridas resultantes de doenças vasculares periféricas em seres humanos. Estabelece a base científica para orientar outras pesquisas na área de Cirurgia Vascular, incluindo o uso de CB para o tratamento de outros tipos de feridas causadas por doenças vasculares, como úlceras ou mesmo como curativos para outras feridas da pele, como úlceras neuropáticas e aquelas provocadas por queimaduras.

Além disto, diversas modificações estruturais podem ser feitas na membrana CB para otimizar suas propriedades como curativo, aumentando sua capacidade de absorção de água e sua atividade antimicrobiana ou associando-a a um sistema de liberação controlada de antibióticos ou outros princípios ativos.

Nosso estudo permitiu observar que a membrana de Celulose Bacteriana tem as propriedades ideais como curativo, por manter a umidade no leito da ferida, absorvendo exsudatos em excesso, limitando processos infecciosos e protegendo a lesão contra o trauma mecânico. É uma alternativa eficaz aos curativos usados para o tratamento de úlceras varicosas crônicas dos membros inferiores.

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Fonte de financiamento: Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI); Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Recebido: 18 de Outubro de 2016; Aceito: 18 de Dezembro de 2016

Endereço para correspondência: Flávia Cristina Morone Pinto E-mail: fcmorone@gmail.com / esdraslins@uol.com.br

Conflito de interesse: nenhum

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