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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.44 no.4 Rio de Janeiro jul./ago. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912017004010 

ARTIGOS ORIGINAIS

Avaliação do tratamento dos nódulos do hepatocarcinoma nos pacientes em lista de espera para transplante hepático

Gustavo Pilotto Domingues Sá1 

Jorge Roberto Marcante Carlotto1  , ACBC-RS

Fernando Pompeu Piza Vicentine1 

Luiz Romero1 

Dario Fernandes Perdomo Tejada1 

Alcides Augusto Salzedas Netto1  , TCBC-SP

Gaspar de Jesus Lopes Filho1  , TCBC-SP

Adriano Miziara Gonzalez1  , TCBC-SP

1Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, Gastroenterologia Cirúrgica, São Paulo, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

comparar o resultado do transplante de fígado por hepatocarcinoma em pacientes submetidos ou não ao tratamento loco-regional e downstaging, em relação à sobrevida e risco de recidiva na fila de transplante.

Métodos:

estudo retrospectivo dos pacientes portadores de hepatocarcinoma submetidos a transplante hepático na região metropolitana de São Paulo, entre janeiro de 2007 e dezembro de 2011, a partir de doador falecido. A amostra foi constituída de 414 pacientes. Destes, 29 foram incluídos na lista por downstaging. Os demais 385 foram submetidos ou não ao tratamento loco-regional.

Resultados:

as análises dos 414 prontuários demonstraram um predomínio de pacientes do sexo masculino (79,5%) e com média de idade de 56 anos. O tratamento dos nódulos foi realizado em 56,4% dos pacientes em fila de espera para o transplante. O método mais utilizado foi a quimio-embolização (79%). Os pacientes submetidos ao tratamento loco-regional tiveram redução significativa no tamanho do maior nódulo (p<0,001). Não houve diferença estatística entre grupos com e sem tratamento loco-regional (p=0,744) e em relação à mortalidade entre pacientes incluídos no Critério de Milão ou ao downstaging (p=0,494).

Conclusões:

não houve diferença na sobrevida e ocorrência de recidiva associadas ao tratamento loco-regional. Os pacientes incluídos através do processo de downstaging apresentaram resultados de sobrevida comparáveis àqueles previamente classificados como Critério de Milão/Brasil.

Descritores: Fígado; Transplante de Fígado; Neoplasias Hepáticas

INTRODUÇÃO

O hepatocarcinoma (HCC) é a neoplasia maligna mais frequente do fígado e a sexta causa de mortalidade por câncer em todo o mundo, com uma incidência de 750 mil novos casos por ano. Cerca de 90% dos HCC se desenvolvem em fígados cirróticos, principalmente associados às hepatites B ou C. O transplante de fígado (TxH) é hoje considerado o melhor tratamento para o paciente com cirrose hepática portador de HCC1. Em 1996, Mazzafero et al.2 propuseram o que viria a ser conhecido como Critério de Milão (CM). Pacientes cirróticos com nódulo único de até 5 cm, ou até três nódulos, sendo o maior de até 3cm, sem invasão macrovascular ou metástases detectáveis, apresentaram sobrevida de 75% em quatro anos2. Os conceitos identificados neste estudo foram amplamente adotados e reproduzidos nos principais centros transplantadores do mundo, incluindo o Brasil, que repetiram os bons resultados de sobrevida desta população3,4. Contudo, apenas uma pequena parcela dos pacientes com HCC se enquadra no CM5.

Os pacientes em fila de espera para TxH por HCC correm o risco de, pela evolução natural da doença, ocorrer crescimento do tamanho ou do número de nódulos para além do CM, acarretando exclusão da fila (drop out). Com o intuito de evitar o drop out, são realizados tratamentos loco-regionais, ou tratamentos-ponte, para a redução do tamanho dos nódulos, em especial quando a espera puder superar os seis meses6. Existe ainda um grupo de pacientes cirróticos com HCC que apresentam nódulos maiores do que 5 cm, ou múltiplos nódulos maiores do que 3 cm, mas que conseguem atingir o CM após tratamento loco-regional, com redução no tamanho ou número de nódulos. Este processo, chamado downstaging, é controverso e beneficia uma quantidade cada vez maior de pacientes7.

Nosso objetivo foi de comparar o resultado do TxH por HCC em pacientes submetidos ou não ao tratamento loco-regional e downstaging em relação à sobrevida e risco de recidiva.

MÉTODOS

Foram incluídas no banco de dados deste estudo informações referentes aos pacientes portadores de HCC submetidos a TxH na região metropolitana de São Paulo, entre janeiro de 2007 e dezembro de 2011, a partir de doador falecido. O estudo foi aprovado conforme parecer do CEP 81706 de 21/08/2013. A amostra foi constituída de 414 pacientes. Destes, 29 pacientes foram incluídos na lista por downstaging. Os demais 385 foram divididos em dois grupos: Grupo com tratamento (submetidos ao tratamento loco-regional) e Grupo sem tratamento (sem tratamento loco-regional). A indicação do tratamento loco-regional não foi obtida, já que esta indicação ficava a cargo de cada equipe de transplante da região metropolitana de São Paulo e a procedência do paciente foi mantida em confidencialidade no banco de dados da Central de Transplantes.

Inicialmente foram comparados os grupos com tratamento e sem tratamento em relação a resultados de sobrevida e recidiva. A seguir, foram comparados os resultados de recidiva e sobrevida entre os pacientes incluídos por downstaging com aqueles que sempre estiveram dentro dos CM. As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o software estatístico SPSS 20.0. e STATA 12. Os dados foram analisados descritivamente. Para as variáveis categóricas, foram apresentadas frequências absolutas e relativas e para as variáveis numéricas, medidas-resumo (média, quartis, mínimo, máximo e desvio padrão). As associações entre variáveis categóricas foram verificadas empregando-se o teste de Qui-Quadrado. Ao se verificarem diferenças na distribuição, foi utilizado o resíduo ajustado padronizado para identificar as diferenças locais. A comparação de médias entre dois grupos foi realizada utilizando-se o teste t de Student para amostras independentes. Para as variáveis de natureza categórica, foram utilizados modelos de análise de sobrevivência de Kaplan-Meier. Foram estimadas as funções de sobrevivência para cada nível dessas variáveis e, em seguida, elas foram comparadas utilizando-se o teste de Log Rank (Mantel-Cox). Já para as variáveis de natureza numérica, foram ajustados modelos de regressão de Cox. Para todos os testes estatísticos, foi adotado um nível de significância de 5%.

RESULTADOS

As análises dos 414 prontuários dos pacientes submetidos ao transplante hepático com situação especial por HCC demonstraram um predomínio de pacientes do sexo masculino (79,5%), com média de idade de 56 anos. Até janeiro de 2015, trezentos pacientes estavam vivos (72,5%). Ficaram em lista de espera em média por um ano, aguardando pelo TxH.

O tratamento dos nódulos foi realizado em 56,4% dos pacientes em fila de espera para o TxH. O método mais utilizado foi a quimio-embolização (79%). Os pacientes submetidos ao tratamento loco-regional tiveram redução significativa em mm no tamanho do maior nódulo antes e após o tratamento (p<0,001) (Figura 1.1). Os pacientes submetidos a tratamento loco-regional para downstaging também apresentaram redução significativa no tamanho do maior nódulo em mm antes e após o tratamento (Figura 1.2). Não houve interferência na mortalidade pela realização de tratamento dos nódulos no período pré-operatório, conforme demonstrado na tabela 1.

Figura 1. Diferença antes e depois do tratamento: 1.1 antes; 1.2 depois. 

Tabela 1 Distribuição dos pacientes por status, segundo o tratamento e tipo de tratamento. 

Status atual Total p
Morto Vivo
N % N % N %
Tratamento 106 27,5% 279 72,5% 385 100,0% 0,864
Sim 59 27,2% 158 72,8% 217* 100,0%
Não 47 28,0% 121 72,0% 168 100,0%
Tipo de Tratamento 58 27,8% 151 72,2% 209* 100,0% 0,960a
Quimioembolização 46 28,8% 114 71,3% 160 100,0%
Alcoolização 9 23,7% 29 76,3% 38 100,0%
Quimio+Radio 2 28,6% 5 71,4% 7 100,0%
Radioablação 1 25,0% 3 75,0% 4 100,0%

p - Nível descritivo do teste de Qui-Quadrado ou exato de Fisher (a);

* Em 8 pacientes não havia a informação do método de tratamento utilizado.

A figura 2 apresenta a análise de sobrevida dos grupos submetidos ou não ao tratamento loco-regional. Não houve diferença estatística entre grupos (p=0,744). Não se verificaram distribuições distintas de recidiva segundo tratamento (p=0,220).

Figura 2. Sobrevivência de Kaplan-Meier por tratamento. 

Todos os 414 pacientes do estudo preencheram o Critério de Milão/Brasil com base nos exames pré-operatórios. Destes, 29 (7%) passaram antes por downstaging. A tabela 2 mostra que não houve diferença estatisticamente significante em relação à mortalidade entre pacientes incluídos no Critério de Milão ou aqueles submetidos ao downstaging.

Tabela 2 Distribuição dos pacientes por status atual conforme os grupos Critérios de Milão ou realização de downstaging. 

Downstaging Critério de Milão Total p
N % N % N %
Status atual 29 100,0% 385 100,0% 414 100% 0,494
Morto 8 27,6% 106 27,5% 114 27,5%
Vivo 21 72,4% 279 72,5% 300 72,5%

p - Nível descritivo do teste de Qui-Quadrado.

Em janeiro de 2015, 72,5% dos pacientes permaneciam vivos após o transplante hepático, com acompanhamento variando entre três e oito anos. A análise de Sobrevida de Kaplan-Meier, apresentada na tabela 3, demonstrou não haver diferença na sobrevida em um, três e cinco anos entre os pacientes submetidos ou não ao downstaging. Durante o período do estudo, foram observadas 30 (7,2%) ocorrências de recidiva.

Tabela 3 Resultado da análise de sobrevivência de Kaplan-Meier. Estimativa da probabilidade de sobrevida ± Erro Padrão. 

% Acumulada de sobrevida p
1 ano 3 anos 5 anos
Downstaging 0,961
Não 83,1 ± 1,9 76,1 ± 2,2 71,5 ± 2,4
Sim 93,1 ± 4,7 71,9 ± 8,5 71,9 ± 8,5

p - Nível descritivo do teste de Log Rank (Mantel-Cox).

DISCUSSÃO

A realização deste estudo se deu pela análise de 593 prontuários de pacientes submetidos ao TxH por hepatocarcinoma no Estado de São Paulo. A data final de dezembro de 2011 foi estabelecida para encerrar um período de cinco anos de transplantes hepáticos após a Era MELD, em São Paulo. O processo de seleção desta amostra enfrentou dificuldades inerentes ao método de estudo de caráter retrospectivo com análise de prontuários. A ausência de dados foi a principal causa de exclusão de pacientes, justificando o considerável percentual de exclusão da amostra inicial (30,2%). A seleção final de 414 pacientes proporcionou uma casuística bastante relevante quando comparada a outros estudos relacionados ao TxH por HCC, principalmente ao se levar em consideração que estão incluídos apenas pacientes transplantados após a implantação do MELD como critério de alocação.

O perfil do paciente transplantado nesta casuística é de um homem (79,5%) branco (80%) de meia-idade (média de 56 anos), com discreto sobrepeso (IMC: 26,5) e MELD real baixo (média de 12,7). O tempo de espera para a realização do transplante hepático em pacientes portadores de HCC é determinante para um melhor prognóstico, uma vez que a progressão da doença pode excluí-los dos CM e, consequentemente, da fila para o transplante. O risco de drop out se dá pela progressão intra ou extra-hepática do tumor. Essa taxa varia de 7% a 11%, em seis meses, e se aproxima de 40%, em um ano8. Por outro lado, alguns autores sugerem que a demora na fila de espera pode proporcionar uma melhor seleção dos candidatos ao TxH9. Pacientes com tumores de comportamento mais agressivo e risco maior de recidiva apresentariam um drop out maior devido à progressão mais rápida da neoplasia e não seriam transplantados. Estudos recentes demonstraram aumento na sobrevida após TxH por HCC em pacientes que esperaram mais tempo na fila10. Aparentemente, pacientes com HCC levam vantagem no atual sistema de alocação de órgãos, quando comparados com pacientes sem tumor, levantando a questão da inclusão de fatores biológicos de mal prognóstico, como a alfafetoproteína, e taxa de crescimento do tumor11. Nesta casuística, não houve associação do tempo na fila de espera com a sobrevida. O tempo médio para a realização do transplante foi de 11,5 meses, nos pacientes vivos, e 13 meses, nos pacientes falecidos (p > 0,1). Segundo o Sistema Estadual de Transplantes - SP, o tempo de espera em lista para TxH de pacientes sem situação especial foi de 16,6 meses em média, no mesmo período deste estudo.

O objetivo principal do tratamento das lesões de HCC nos pacientes listados em fila de transplante é evitar o drop out, sendo chamado de tratamento ponte. Este método compreende as terapias loco-regionais, que atuam diretamente nos nódulos, e a ressecção cirúrgica. O tratamento do nódulo é recomendado quando a expectativa de espera na fila de transplantes supera os seis meses e tem o objetivo de diminuir o drop out e aumentar a sobrevida, além de reduzir os riscos de recidiva do tumor após o TxH6,12. Contudo, alguns serviços têm realizado tratamento em todos os pacientes da fila, em razão da imprevisibilidade do prazo de espera, e essa estratégia apresentou bons resultados13. Comparadas aos tratamentos não cirúrgicos, as ressecções hepáticas em pacientes cirróticos listados para transplante implicam altos custos, maior morbimortalidade e só devem ser indicadas em pacientes bem compensados e sem hipertensão portal severa, além de poderem tornar o transplante mais difícil pela manipulação cirúrgica prévia, com maior risco de complicações pós-operatórias4. Ainda assim, a ressecção é o tratamento mais frequentemente realizado como ponte para o TxH em alguns centros de excelência em cirurgia hepática, com morbidade de 39% e mortalidade de 3%14. Ela apresenta como maior vantagem a retirada de toda a lesão para avaliação histológica, o que pode trazer informações relevantes em relação ao prognóstico. Alguns serviços mantêm o paciente em lista após a ressecção, enquanto outros, como no Brasil, retiram a pontuação extra se houver a ressecção do nódulo e, apenas em caso de recidiva do HCC, a situação especial é restabelecida. Transplantes nesse contexto são conhecidos como Transplante Hepático de Resgate e resultam em piores taxas de sobrevida e alto risco de recidiva15.

A quimio-embolização é o tratamento padrão ouro para pacientes com HCC em estágio intermediário, de acordo com a Classificação de Barcelona, apresentando boa resposta em 15% a 55% dos pacientes e aumento na sobrevida média de 16 para 20 meses16. Ela tem sido utilizada como tratamento ponte há alguns anos, e diversos estudos já demonstraram a efetividade deste método. Uma análise feita nas maiores séries indicou que 27% a 57% dos pacientes dentro do CM apresentaram necrose completa da lesão tratada17,18. Pacientes com redução de pelo menos 30% no tamanho do tumor até desvascularização completa após quimio-embolização têm melhor prognóstico no TxH17. Alguns estudos referem bons resultados com a radioablação utilizada como tratamento ponte para HCC. A análise dos fígados explantados demonstrou 47% a 75% de necrose completa dos nódulos tratados, principalmente naqueles menores de 3 cm19. A alcoolização atinge bons resultados em nódulos menores de 3 cm. Branco et al.20 demonstraram necrose completa em 64% dos 59 pacientes analisados dentro do CM. Não tiveram bons resultados em nódulos maiores que 3 cm20. Estudos que compararam a quimio-embolização com a radioablação sugerem melhores resultados para a segunda, tanto em relação à resposta dos nódulos quanto ao risco de drop out21.

O tratamento ponte é capaz de reduzir o drop out em até 21%22. Por outro lado, uma resposta inadequada ao tratamento loco-regional demonstrou ser fator preditivo de drop out em centros italianos, bem como demonstrou relação com recidiva e morte após o transplante, principalmente se associado à elevação da AFP 21. A resposta radiológica ao tratamento loco-regional pode ajudar a identificar o comportamento biológico do tumor17 e a priorizar esses pacientes para o TxH21. Poucos estudos demonstraram impacto negativo do tratamento loco-regional na sobrevida. Em um estudo retrospectivo publicado em 2015, Li et al.23 atribuíram piora na sobrevida em cinco anos ao tratamento com quimioembolização realizado como tratamento ponte. No entanto, existem evidências suficientes na literatura para concluir que o tratamento loco-regional proporciona necrose parcial ou total das lesões com consequente redução no tamanho dos nódulos e redução na retirada do paciente da lista de espera. E parece haver uma diminuição das taxas de recidiva nos pacientes com boa resposta ao tratamento loco-regional 7.

Na presente casuística, 56,4% dos pacientes foram submetidos a algum tipo de tratamento loco-regional durante a espera para o TxH. Destes, em quase 80% a quimio-embolização foi o método de escolha. Após o tratamento loco-regional, houve significativa redução no tamanho dos nódulos. Os pacientes submetidos ao tratamento loco-regional tiveram resultados semelhantes aos pacientes sem tratamento em relação à mortalidade, tanto de forma global, como com individualização dos métodos. A análise de sobrevida em um, três e cinco anos não apresentou diferença significativa entre os grupos submetidos ou não ao tratamento loco-regional (p=0,744). Também não foi observada diferença na ocorrência de recidiva entre os grupos (p=0,220).

As terapias loco-regionais também são utilizadas para incluir pacientes no CM por meio da redução do tamanho dos nódulos (downstaging)7. A quimio-embolização transarterial é a modalidade de tratamento mais adotada nos protocolos de downstaging, especialmente em nódulos múltiplos. É recomendado um prazo, após o tratamento, de três a seis meses para a estabilização da lesão antes de o paciente ser listado para transplante. Esse período pode selecionar os pacientes com melhor resposta, com tumores menos agressivos e menor chance de recidiva após o transplante24. Aparentemente, a combinação de terapias loco-regionais diferentes, como quimio-embolização, radioablação, alcoolização, com a ressecção apresentam melhores resultados no downstaging (cerca de 70% de sucesso), quando comparada à quimio-embolização isolada (40% de sucesso) 25. Estudos prospectivos demonstraram que a sobrevida de pacientes submetidos ao downstaging que atingem o CM é similar a daqueles pacientes transplantados sem tratamento7,24. Estudos retrospectivos também chegaram a resultados similares 26,27.

Os 29 pacientes analisados neste estudo tiveram sucesso no tratamento loco-regional para downstaging, e foram submetidos ao TxH dentro do Critério de Milão/Brasil. Todos os pacientes deste grupo tiveram redução significativa do tamanho do nódulo. Não existiu diferença estatística na sobrevida, quando comparados os grupos de pacientes submetidos ou não ao downstaging, que tiveram, respectivamente, 71,9% e 71,5% de sobrevida em cinco anos. Este resultado confirma os dados amplamente divulgados na literatura 22,24,26,27.

A taxa de recorrência em nosso estudo não apresentou diferença estatisticamente significante entre os grupos, mas parece haver uma tendência à recidiva no grupo downstaging que poderia se confirmar com o aumento da casuística.

Concluímos com nosso trabalho que não existe diferença na sobrevida e na ocorrência de recidiva associadas ao tratamento loco-regional. Os pacientes incluídos através do processo de downstaging apresentaram resultados de sobrevida e recidiva comparáveis àqueles previamente classificados como Critério de Milão/Brasil.

Fonte de financiamento: nenhuma.

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Recebido: 22 de Dezembro de 2016; Aceito: 28 de Abril de 2017

Endereço para correspondência: Adriano Miziara Gonzalez E-mail: amgonzalez@uol.com.br amgonzalez@terra.com.br

Conflito de interesse: nenhum.

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