SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.44 número4Uma breve história da cirurgia das glândulas salivaresErrata índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.44 no.4 Rio de Janeiro jul./ago. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0100-69912017004002 

NOTA TÉCNICA

Técnica modificada para realização da gastro-jejunostomia endoscópica percutânea

Renzo Feitosa Ruiz2  3 

Matheus Cavalcante Franco1 

Carlos Kiyoshi Furuya Júnior4 

Marcos Eduardo Lera dos-Santos4 

1Instituto do Câncer de São Paulo, Departamento de Gastroenterologia, São Paulo, SP, Brasil.

2Hospital Israelita Albert Einstein, Serviço de Endoscopia, São Paulo, SP, Brasil.

3Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Serviço de Endoscopia, São Paulo, SP, Brasil.

4Universidade de São Paulo, Departamento de Gastroenterologia, São Paulo, SP, Brasil.

RESUMO

A realização da gastro-jejunostomia endoscópica percutânea (PEG-J) proporciona nutrição além do ângulo de Treitz, e está associada à diminuição das complicações relacionadas à gastroparesia, como a pneumonia por aspiração. Existem diversas técnicas para realização da PEG-J descritas na literatura, com graus variáveis de sucesso técnico. Neste artigo propomos modificações na técnica de realização da PEG-J, a fim de reduzir o tempo do procedimento e minimizar o risco de insucesso.

Descritores: Gastrostomia; Jejunostomia; Gastroparesia; Endoscopia Gastrointestinal

INTRODUÇÃO

A realização da gastrostomia endoscópica percutânea (PEG) proporciona uma nutrição enteral segura e a longo prazo em pacientes com disfagia ou ingestão oral insuficiente1. No entanto, as complicações relacionadas à nutrição gástrica, como pneumonia por aspiração e vazamento periostomal grave, podem impedir o uso da PEG. A nutrição jejunal pode superar essas complicações com o fornecimento de dieta após o piloro2. A alimentação jejunal é comumente obtida colocando-se uma extensão jejunal através de um tubo de PEG existente, este procedimento é referido como gastrojejunostomia endoscópica percutânea (PEG-J).

A PEG-J tem algumas indicações frequentes como gastroparesia grave, pacientes com gastrostomia, mas com refluxo gastro-esofágico grave, e aspirações pulmonares de repetição3. Diversas técnicas para realização da PEG-J já foram relatadas na literatura, com significativas variações técnicas entre elas e diferentes impactos na taxa de sucesso do procedimento. Neste artigo sugerimos modificações à técnica inicialmente descrita por Sibille et al.4, para minimizar o risco de uma de suas principais complicações: a migração da extensão jejunal de volta para o estômago.

RELATO TÉCNICO

A técnica modificada que estamos sugerindo deve ser realizada por um endoscopista juntamente com outro médico ou um auxiliar. Após a realização da gastrostomia endoscópica percutânea (PEG) como descrito por Gauderer, Ponsky e Izant5 com uma sonda de 24 Fr, o gastroscópio deve ser reintroduzido no estômago e posicionado logo abaixo da junção gastro-esofágica (Figura 1). O estômago deve ser mantido insuflado enquanto o auxiliar avança o anteparo interno da sonda de gastrostomia em direção ao piloro. Eventualmente pode ser necessário usar a ponta do endoscópio para guiar a direção correta do anteparo e, se esta manobra falhar, um pinça de corpo estranho pode ser usada para carregar o anteparo interno da sonda em direção ao piloro, conforme descrito por Sibille et al.4. Uma vez que o anteparo interno estiver posicionado na região pré-pilórica, a sonda de gastrostomia deve ter seu lúmen bem lubrificado com gel. Em seguida, o auxiliar avança suavemente a extensão jejunal através do lúmen da sonda de gastrostomia para passar o piloro em direção ao intestino delgado (a extensão jejunal atravessará diretamente o piloro sem o uso de um fio-guia). Neste ponto, o auxiliar puxa ligeiramente de volta a sonda de gastrostomia apenas para permitir que o endoscopista possa apreender a extensão jejunal com uma pinça de corpo estranho. Esta manobra irá assegurar a posição da extensão jejunal até o final do procedimento. Sob controle da visão endoscópica, o auxiliar novamente puxa a sonda de gastrostomia de volta em direção à parede gástrica até sentir resistência, o que indica que o anteparo interno está em contato novamente com a parede gástrica. Finalmente, a extremidade proximal da extensão jejunal deve ser conectada à sonda de gastrostomia e tanto a pinça como o gastroscópio são então removidos.

Figura 1. Técnica modificada para realização da PEG-J. 

DISCUSSÃO

Os pacientes em condições críticas e geriátricos frequentemente necessitam de nutrição enteral, que é preferível à parenteral. No entanto, o esvaziamento gástrico é comumente prejudicado por gastroparesia, particularmente em pacientes com diabetes ou com comorbidades graves4,6. Para permitir um fluxo adequado da dieta enteral para o intestino delgado e diminuir a regurgitação ou aspiração, a dieta deve ser fornecida após o ângulo de Treitz. Assim, a PEG-J ainda é a melhor opção para esses pacientes3. Além disso, a PEG-J possibilita a sucção gástrica para reduzir a regurgitação. O procedimento de colocação de uma PEG-J, entretanto, é muitas vezes um desafio técnico.

Neste artigo demonstramos uma técnica modificada para a colocação da PEG-J com objetivo de evitar a principal dificuldade do procedimento: formação de alça na extensão jejunal dentro do estômago. Fluoroscopia e fio-guia não são necessários com o uso desta técnica. Na verdade, o fio-guia em si não impede a possibilidade de formação de alça enquanto se avança a extensão jejunal. E a visão endoscópica após o posicionamento da extensão jejunal no intestino delgado torna a fluoroscopia desnecessária. Além disso, não foi adotada a técnica de passagem inicial de um fio-guia, conforme descrito por DeLegge et al.7, pois em alguns casos esta abordagem tornou a extensão jejunal mais rígida, e impediu a passagem da extensão do bulbo para o segunda porção duodenal.

CONCLUSÕES

O passo chave na nossa técnica modificada é o posicionamento da sonda de gastrostomia junto ao piloro enquanto a extensão jejunal é avançada através do duodeno. Esta simples manobra, realizada sob controle visual, evitou a formação de alça dentro do estômago na extensão jejunal, que muitas vezes pode complicar o procedimento e torná-lo mais demorado.

Fonte de financiamento: nenhuma.

REFERÊNCIAS

1 Toh Yoon EW, Yoneda K, Nakamura S, Nishihara K. Percutaneous endoscopic transgastric jejunostomy (PEG-J): a retrospective analysis on its utility in maintaining enteral nutrition after unsuccessful gastric feeding. BMJ open Gastroenterol. 2016;3(1):e000098. Erratum in: BMJ Open Gastroenterol. 2016;3(1):e000098corr1. [ Links ]

2 Zhang Z, Xu X, Ding J, Ni H. Comparison of postpyloric tube feeding and gastric tube feeding in intensive care unit patients: a meta-analysis. Nutr Clin Pract. 2013;28(3):371-80. [ Links ]

3 DiSario JA. Endoscopic approaches to enteral nutritional support. Best Pract Res Clin Gastroenterol. 2006;20(3):605-30. [ Links ]

4 Sibille A, Glorieux D, Fauville JP, Warzée P. An easier method for percutaneous endoscopic gastrojejunostomy tube placement. Gastrointest Endosc. 1998;48(5):514-7. [ Links ]

5 Gauderer MW, Ponsky JL, Izant RJ Jr. Gastrostomy without laparotomy: a percutaneous endoscopic technique. J Pediatr Surg. 1980;15(6):872-5. [ Links ]

6 Heyland D, Cook DJ, Winder B, Brylowski L, Van deMark H, Guyatt G. Enteral nutrition in the critically ill patient: a prospective survey. Crit Care Med. 1995;23(6):1055-60. [ Links ]

7 DeLegge MH, Patrick P, Gibbs R. Percutaneous endoscopic gastrojejunostomy with a tapered tip, nonweighted jejunal feeding tube: improved placement success. Am J Gastroenterol. 1996;91(6):1130-4 [ Links ]

Recebido: 03 de Dezembro de 2016; Aceito: 30 de Março de 2017

Endereço para correspondência: Renzo Feitosa Ruiz E-mail: renzofruiz10@gmail.com renzofruiz@hotmail.com

Conflito de interesse: nenhum.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.