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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.45 no.6 Rio de Janeiro  2018  Epub 29-Nov-2018

http://dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20181978 

Artigo Original

Estudo epidemiológico do trauma bucomaxilofacial em um hospital de referência da Paraíba.

Joab Cabral Ramos1 

Mirla Lays Dantas de Almeida1 

Yan Carlos Gomes de Alencar1 

Luís Ferreira de Sousa Filho2 

Camila Helena Machado da Costa Figueiredo1 

Manuella Santos Carneiro Almeida1 

1Universidade Federal de Campina Grande, Unidade Acadêmica de Ciências Biológicas, Patos, PB, Brasil.

2Hospital Regional Deputado Janduhy Carneiro, Serviço de Clínica Geral, Patos, PB, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

estudar os dados epidemiológicos de pacientes vítimas de traumas bucomaxilofaciais atendidos em um hospital de referência da Paraíba.

Métodos:

estudo transversal de abordagem indutiva com procedimento estatístico comparativo e técnica de pesquisa por documentação direta em campo. O universo foi constituído dos prontuários hospitalares obtidos de janeiro de 2016 a dezembro de 2017 de pacientes atendidos pelo Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial desse hospital. A amostra foi composta por 332 pacientes de acordo com os critérios de elegibilidade do estudo. A coleta de dados foi realizada por dois examinadores previamente calibrados e os dados foram analisados descritiva e inferencialmente.

Resultados:

os pacientes do sexo masculino foram mais acometidos por trauma facial (83,1%), principalmente na terceira década de vida (32,2%). Acidentes motociclísticos foram a etiologia mais comum de trauma para ambos os sexos. Em relação à estatística inferencial com margem de erro fixada em 5%, não foi observada associação significativa (p>0,05) entre os sexos e os fatores etiológicos do trauma. Os ossos do nariz (38,2%) foram os ossos mais afetados e a lesão mais frequente de partes moles foi o edema, em 50,9% dos casos. Apenas 20,8% dos pacientes com fraturas ósseas foram politraumatizados.

Conclusão:

as vítimas de traumatismo bucomaxilofacial atendidas em nosso hospital são predominantemente homens na terceira década de vida, envolvidos em acidentes motociclísticos e com lesões em ossos do nariz.

Descritores: Traumatismos Faciais/etiologia; Odontologia; Acidentes

INTRODUÇÃO

O trauma maxilofacial de causas externas representa um dos maiores problemas para os serviços de saúde pública em diferentes regiões do mundo1. É provocado por meios violentos, seja por agressões ou acidentes, como quedas e queimaduras. Esses eventos podem estar presentes na vida de qualquer indivíduo, independente da idade, condição social ou cultural e constitui um dos agravos mais comuns em saúde pública2.

Os traumas, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, estão entre as principais causas de morte e invalidez no mundo e estima-se que, a cada ano, 1,24 milhões de pessoas morrem em decorrência destes traumas. As lesões da cabeça e da face representam metade das mortes traumáticas, e centenas ou milhares sobrevivem a essas lesões, muitas vezes com sequelas limitadoras permanentes3,4.

Existem determinantes sociais ligados à epidemiologia de alguns destes traumas. A etiologia do trauma facial, no entanto, é heterogênea e o predomínio maior ou menor de um fator etiológico relaciona-se com algumas das características da população estudada5-7. O trauma da região facial frequentemente resulta em lesões aos tecidos moles, aos dentes e aos principais componentes do esqueleto da face, incluindo mandíbula, maxila, zigoma, ossos próprios do nariz (OPN), complexo naso-órbito-etmoidal (NOE) e estruturas supraorbitárias. Tais lesões, se não forem reparadas da maneira mais adequada, podem evoluir para importantes sequelas estéticas, emocionais e funcionais. Muitas dessas sequelas transformam-se em deformidades permanentes ao paciente, tornando tais lesões um dos mais significativos problemas do mundo no campo da saúde8-10.

O Hospital Regional Deputado Janduhy Carneiro, é uma unidade hospitalar do nordeste brasileiro, sendo referência em média e alta complexidade no Sertão Paraibano. Sua área de abrangência engloba mais de 90 municípios, possuindo elevada demanda de atendimento de traumas (cerca de 65.888 pacientes por ano). A epidemiologia dos traumas da face pode fornecer subsídios para o desenvolvimento de medidas preventivas, as quais auxiliarão na redução dessas lesões. O objetivo deste trabalho foi realizar um levantamento epidemiológico dos casos de fraturas maxilofaciais atendidos nesse hospital.

MÉTODOS

Este estudo transversal teve uma abordagem indutiva com procedimento estatístico comparativo e técnica de pesquisa por documentação direta em campo. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, via Plataforma Brasil (CAAE 69315317.5.0000.5181).

De 402 prontuários hospitalares avaliados de janeiro de 2016 a dezembro de 2017 de pacientes atendidos pelo Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Hospital Regional Deputado Janduhy Carneiro, na cidade de Patos, no estado da Paraíba, 332 seguiram os critérios de elegibilidade da pesquisa. Foram incluídos no estudo os prontuários devidamente preenchidos e legíveis de pacientes de qualquer sexo, etnia e faixa etária. Foram excluídos da amostra os prontuários incompletos ou de difícil leitura.

A coleta de dados foi realizada por dois examinadores previamente calibrados (Kappa=0,89), que selecionaram os prontuários e tabularam as informações de forma conjunta. Os dados foram obtidos pela análise direta dos apontamentos registrados nos prontuários pela equipe de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do hospital. Em cada prontuário foram coletadas informações sobre idade, sexo, cidade, profissão, região do trauma, osso afetado pela fratura, comorbidades, existência de lesões aos tecidos moles e tipo de lesão. Estas informações foram anotadas em fichas específicas, sendo uma ficha para cada prontuário.

Os dados foram analisados descritiva e inferencialmente. A análise descritiva foi realizada através de frequências absolutas e percentuais para as variáveis categóricas, e de média, desvio padrão (média ± DP), mediana e percentis para as variáveis numéricas. A análise inferencial foi feita através do teste exato de Fisher. A margem de erro utilizada na decisão dos testes estatísticos foi de 5%. Os dados foram digitados na planilha Excel e o programa utilizado para obtenção dos cálculos estatísticos foi o IBM SPSS, na versão 23.

RESULTADOS

Dos 332 pacientes com traumas maxilofaciais, 179 (53,9%) foram registrados no ano de 2016 e o restante 153 (46,1%) no ano de 2017. Quanto à distribuição do sexo, 276 (83,1%) eram do sexo masculino e apenas 56 (16,8%) do sexo feminino. A idade variou de um a 90 anos, com média ± DP igual a 32,90±15,11. A maioria dos casos ocorreu nas faixas etárias de 20 a 29 anos (107/32,2%), seguida de 30 a 39 anos (79/23,8%) e de 40 a 59 anos (66/19,9%) (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização da amostra, números absolutos e percentuais. 

Vítimas n (%)
2016 179 (53,9)
2017 153 (46,1)
Sexo: n (%)
Masculino 276 (83,1)
Feminino 56 (16,9)
Faixa etária: n (%)
1 a 19 57 (17,2)
20 a 29 107 (32,2)
30 a 39 79 (23,8)
40 a 59 66 (19,9)
60 a 90 23 (6,9)

Quanto à profissão, a que registrou o maior número de indivíduos acometidos por trauma facial foi a de agricultor, com 133 (40,1%) casos. Os agentes etiológicos foram divididos, de acordo com o sexo, em doze grupos: acidentes motociclísticos, agressão física, acidente desportivo, queda da própria altura, acidente automobilístico, acidente motociclístico decorrido de embriaguez, acidente com animal, acidente de trabalho, agressão por projétil de arma de fogo (PAF), atropelamento, bicicleta, acidentes domésticos e não informados. Utilizando-se estatística inferencial e margem de erro fixada (5%) não foi observada associação significativa (p>0,05) do sexo com as variáveis analisadas. Verificou-se que, o principal fator etiológico dos traumas faciais foi o acidente motociclístico no sexo masculino em 164 (50,8%) casos e também no sexo feminino com 28 (8,7%) de casos e que nove (2,8%) desses tipos de acidente estava relacionado com embriaguez. A agressão física ocupa a segunda posição dos fatores etiológicos para ambos os sexos, com um total de 38 casos (11,8%) (Tabela 2).

Tabela 2 Avaliação da etiologia do trauma segundo o sexo, números absolutos e percentuais. 

Sexo Masculino Feminino Total Valor de p
Etiologia do trauma n % n % n % p*=0,381
Acidente motociclístico 164 50,8 28 8,7 192 59,4
Agressão física 29 9,0 9 2,8 38 11,8
Acidente desportivo 20 6,2 1 0,3 21 6,5
Queda da própria altura 12 3,7 6 1,9 18 5,6
Acidente automobilístico 9 2,8 3 0,9 12 3,7
Acidente motociclístico decorrido de embriaguez 8 2,5 1 0,3 9 2,8
Acidente com animal 6 1,9 1 0,3 7 2,2
Acidente de trabalho 6 1,9 1 0,3 7 2,2
Agressão física/PAF 6 1,9 - - 6 1,9
Atropelamento 4 1,2 1 0,3 5 1,5
Bicicleta 4 1,2 - - 4 1,2
Acidente doméstico 3 0,9 1 0,3 4 1,2
Não informado - - - - 9 2,7
Total 271 83,9 52 16,1 332 100,0

*teste exato de Fisher.

As fraturas craniofaciais apresentaram-se em 96,1% (319) dos casos e foram classifi cadas em: ossos próprios do nariz (OPN), corpo do osso zigomático que não envolve a formação da órbita, face orbital do osso zigomático que compreende a parede lateral e assoalho de órbita, corpo da mandíbula, côndilo da mandíbula, ramo da mandíbula, maxila, parede anterior do seio frontal, face orbital do osso frontal que compreende parte do teto da órbita, processos alveolares superiores e inferiores, além do complexo naso-órbito-etmoidal (NOE). As fichas que não relatavam os terços faciais nem os ossos afetados, bem como as que apresentaram fraturas exclusivamente dentárias foram excluídas das estatísticas. A distribuição das fraturas pode ser observada na tabela 3.

Tabela 3 Avaliação dos dados relacionados aos ossos afetados, números absolutos e percentuais. 

Osso afetado n (%)*
OPN 122 (38,2)
Zigomático/Corpo 116 (36,4)
Mandíbula/Corpo 69 (21,6)
Maxila 40 (12,5)
Mandíbula/Côndilo 17 (5,3)
Mandíbula/Ramo 10 (3,1)
Frontal/Parede anterior do seio 9 (2,8)
Frontal/Face orbital 6 (1,9)
Zigomático/Face orbital 6 (1,9)
Alvéolo superior 4 (1,3)
Alvéolo inferior 3 (0,9)
NOE 3 (0,9)

*Os valores percentuais foram obtidos do número total de 319 pacientes que tiveram ocorrência de osso afetado.

Observou-se que algumas vítimas apresentaram quadros de politraumatismo (mais de um osso afetado por trauma), condição agravante do quadro geral de saúde do paciente. A tabela 4 demonstra a distribuição das fraturas craniofaciais quanto à ocorrência de politraumatismo e número de ossos afetados concomitantemente.

Tabela 4 Avaliação quanto à condição de politraumatismos, números absolutos e percentuais. 

Politraumatismo n (%)
Não teve 250 (75,3)
Dois ossos 46 (13,9)
Três ou mais ossos 23 (6,9)
Não informado 13 (3,9)

Os pacientes também foram avaliados quanto à presença de lesões de tecidos moles (Tabela 5). Observou-se que a maioria dos pacientes apresentava acometimento extraósseo e, dentre as lesões, a mais registrada foi o edema, em 115 (50,9%) casos.

Tabela 5 Frequência de lesão em tecidos moles, números absolutos e percentuais. 

Lesão de tecido mole n (%)
Sim 226 (68,1)
Não 71 (21,4)
Não informado 35 (10,5)
Tipo de lesão n (%)*
Edema 115 (50,9)
Laceração 68 (30,1)
Escoriações 55 (24,3)
Equimose 42 (18,6)
Hematoma 10 (4,4)
Blefaro-hematoma 7 (3,1)
Perfuração 2 (0,9)
Não informou 19 (8,4)

*Os valores percentuais foram obtidos do número total de 226 pacientes que tiveram lesão em tecidos moles.

DISCUSSÃO

Segundo a Organização Pan Americana de Saúde, o Brasil gasta de 4% a 7% do seu orçamento em saúde no âmbito de mortalidade e tratamento de doenças decorrentes de causas externas2. A importância dada às lesões faciais centra-se na alta incidência de morbidade, desfiguração estética, perda de função e custo financeiro representativo, além de acarretar repercussões emocionais e possibilidade de deformidades irreversíveis11. Bezerra et al.12, em uma revisão da literatura realizada com 17 artigos sobre o tema, constataram que a incidência de trauma facial vem aumentando significativamente nos últimos anos, o que não pôde ser observado no presente estudo.

Quanto ao sexo, verificou-se o predomínio dessas lesões no sexo masculino. Vários estudos constaram também a maior incidência de traumas no sexo masculino13-15. Por outro lado, de Moura et al.16, encontraram apenas um estudo com associação positiva para o sexo feminino e o trauma facial, relacionando este fato a uma tendência para o aumento da incidência de traumas nas mulheres. Os autores ressaltaram que as mulheres estão cada vez mais expostas aos fatores de risco do trauma maxilofacial, como um maior número de mulheres motoristas, a associação de álcool e direção, a inserção delas em trabalhos extradomésticos e à prática de esportes como atividade de lazer e saúde, inclusive esportes que envolvem contato físico, fatores tradicionalmente associados à atividade masculina17,18.

A ocorrência de traumas faciais foi mais comum em pacientes na terceira (32,2%) e quarta décadas (23,8%) de vida. Tais dados corroboram com os achados nos estudos de Cavalcanti et al.(19 )e Leite et al.20, realizados, respectivamente, em Campina Grande e João Pessoa, ambas cidades paraibanas.

Há uma escassez de estudos na literatura que destaquem a profissão das vítimas de trauma facial, dado importante a ser observado, já que muitas vezes a profissão está ligada diretamente ao maior risco de traumas. A maior parcela da profissão das vítimas de traumas nesse estudo era de agricultores (40,1%). Esse fato pode ocorrer devido à economia da Paraíba ser quase que exclusivamente baseada na agricultura. Ao revisar a literatura, observou-se um único estudo que também avaliou a profissão das vítimas de traumas faciais que destacaram que os autônomos foram os mais acometidos por esse tipo de trauma, seguidos dos estudantes com 9% 21.

Em relação à etiologia do trauma, os acidentes ocasionados por moto foram os mais prevalentes e sem relevância significativa entre os sexos através de estatística inferencial com margem de erro fixada em 5% (p=0,381), apesar da maior incidência de trauma em homens, o que está de acordo com dados encontrados na literatura14,15,22-24. A incidência destes traumas foi maior em pacientes alcoolizados. Martins et al.25 identificaram uma associação mais expressiva da relação do álcool e acidentes motociclísticos, relatada em 15,4% das vítimas de trauma em seu estudo. Já Carvalho et al.24 observaram a presença de álcool em 41,1% das vítimas, percentual bem mais expressivo do que o visto no estudo anterior e nesta pesquisa. Os dados quanto ao consumo de álcool e acidentes podem ser bem maiores do que os relatados, já que uma pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicos (CEBRID)26, mostrou que 74,6% da população brasileira consome álcool durante a vida. Martins et al.25 atentaram para a dificuldade de obter esses dados pois, muitas vezes, são negligenciados pela equipe de atendimento à vítima, tornando-se um dado subjetivo.

O segundo fator etiológico mais comum para os traumas maxilofaciais foi a agressão física, também para ambos os sexo, sendo 9% dos casos registrados no sexo masculino e 2,8% dos casos ocorridos no sexo feminino. Bezerra et al.12, que avaliaram estudos sobre traumas faciais em uma revisão da literatura, constataram que a agressão física foi o fator etiológico mais prevalente em 53% dos casos encontrados. Zamboni et al.13 avaliaram 134 pacientes em um serviço de Traumatologia Bucomaxilofacial de Porto Alegre, encontrando em 38,8% dos casos a agressão física como fator principal de traumas faciais. Nosso estudo corroborou com pesquisas realizadas por autores brasileiros, que revelaram a agressão física como o segundo fator etiológico mais comum de traumas faciais22,25,27.

Costa et al.28 ressaltaram que muitos profissionais de saúde encontram dificuldade ao investigar e registrar a etiologia desses traumas, pois, geralmente, as vítimas se encontram em estado emocional bastante abalado, levando à omissão por vergonha, pois em alguns casos a explicação para a agressão pode ter sido induzida por uso de drogas ilícitas ou bebidas alcoólicas. Dahlberg e Krug29 complementaram que, embora alguns fatores de risco sejam específicos de certos tipos de violência, a grande maioria dos traumas tem riscos em comum. Condições socioculturais predominantes, como pobreza, isolamento, abuso de álcool ou de drogas e acesso a armas de fogo são fatores de risco de mais de um tipo de violência. A agressão física por PAF aparece em sétimo lugar como causa comum de traumas faciais no sexo masculino, juntamente com acidente com animal e acidente de trabalho, sendo relatados em 1,9% dos casos para cada etiologia nesse estudo. Os acidentes com animais, inexistente em outras pesquisas avaliadas, talvez possa ser relacionado ao fato de a maioria dos indivíduos traumatizados neste estudo ser composta por agricultores.

As etiologias dos traumas faciais variam muito de acordo com a região estudada e os fatores demográficos e socioeconômicos da população avaliada. Moura et al.16, em revisão sistemática da literatura, observaram que pesquisas realizadas em municípios do interior apresentaram os acidentes por motocicletas como principal causa do trauma facial. Já aquelas realizadas em capitais das unidades federativas, a principal causa do trauma facial foi a violência interpessoal seguida pelos acidentes automobilísticos, demonstrando um limite nos estudos no que diz respeito às características locais, ambientais e sociais.

Quanto aos ossos afetados por fraturas nos traumas faciais, os OPN foram os ossos de maior prevalência nesse estudo, correspondendo a 38,2% dos casos, assim como dados encontrados na literatura20,30,31. O motivo encontra-se no fato de o nariz ocupar uma posição central e proeminente na face e de ser uma estrutura facilmente fraturável, devido à pequena espessura dos ossos nasais. Além disso, a principal causa da fratura nasal é a agressão física32,33, a segunda maior causa de trauma facial nesse estudo. Outros autores encontraram como principal osso afetado por fraturas, o osso mandibular25,34. Em nossa pesquisa, quando avaliados separadamente as faces constituintes da mandíbula, cada área apresentou prevalência distinta de relevância, porém, quando consideramos todas as faces do osso mandibular, esse se torna o terceiro osso mais afetado por fraturas, com um total de 30% dos casos, abaixo apenas do osso zigomático, com 36,4% dos casos e OPN. Estudos confirmam essa prevalência, associando-a ao fato de a mandíbula ser o único osso móvel da face, estando bastante vulnerável a receber impactos e fraturar35. Por outro lado, Zamboni et al.13 relataram em seu estudo maior incidência de fraturas no osso zigomático, que representou 44,5% do total de achados, seguidos da mandíbula (42,5%). Farias et al.27 também constataram o osso zigomático como o mais afetado por traumas em sua pesquisa (29,1%), seguido dos ossos nasais (18%).

Em relação ao politraumatismo, 13,9% das vítimas de traumas faciais apresentaram ao menos dois ossos afetados por fraturas e 6,9% tinha fraturas em três ou mais ossos da face. Ao revisar a literatura, observou-se que a maioria dos estudos não avaliou esse dado, analisando as fraturas de forma isolada. Outros autores constataram que 11,7% dos pacientes apresentou duas fraturas, 0,9% quatro fraturas e apenas 0,7% dos pacientes possuía cinco fraturas, totalizando 13,3% de pacientes politraumatizados, sendo quase metade do valor percentual total encontrado no nosso estudo (20,8%)20. Esse dado torna-se significativo para a avaliação da complexidade ao atendimento da vítima e o seu manejo para resolução das fraturas.

Os ferimentos dos tecidos moles da face as sumem um papel de destaque no atendimento a pacientes politraumatizados nas emergências gerais, já que essas lesões podem comprometer, definitivamente, a vida do ser humano. Isso porque, quando mal abordadas, deixam sequelas, margina lizando o indivíduo do convívio social e resultando, muitas vezes, em incapacidade de trabalho, que o condenam à segregação econômica36. Poucos estudos encontrados na literatura avaliaram os traumas ocorridos nos tecidos moles. Grande parte desses estudos avaliou traumas aos ossos faciais, esquecendo que os tecidos moles, ao serem comprimidos entre os ossos e as forças de agressão externa, podem gerar inúmeras lesões, como cortes, lacerações, hemorragias, hematomas, etc.18. Em nosso estudo, foram registrados traumas de partes moles em 75,3% dos casos. Silva et al.22 observaram que estas lesões se apresentavam em 28,8% dos casos, número bastante expressivo, porém, equivalente percentualmente a apenas 1/3 do encontrado na nossa amostra. Os autores relataram no estudo uma certa dificuldade de coleta desses dados devido ao mau preenchimento das fichas dos pacientes avaliados. O estudo de Marzola et al.37 que avaliou vítimas de traumas faciais, mostrou dados concordantes com o nosso, apresentando o edema como lesão mais frequente em tecido mole. Já Laski et al.38 pesquisaram traumas faciais em um hospital universitário de New Jersey, nos Estados Unidos, e observaram que o trauma mais comum aos tecidos moles foi a laceração, com 42,4% dos achados. Santos et al.39 relataram também, em seus estudos, que a laceração foi a principal lesão aos tecidos moles, acometendo 28% dos pacientes. No presente trabalho, a laceração se apresentou como o segundo trauma mais comum a esses tecidos.

Nossos achados podem servir para o aprimoramento do atendimento ao paciente traumatizado, além de melhorar ou criar novas políticas de prevenção aos acidentes de trânsito que foram os fatores etiológicos mais importantes encontrados.

Fonte de financiamento: nenhuma.

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Recebido: 08 de Agosto de 2018; Aceito: 12 de Outubro de 2018

Endereço para correspondência: Joab Cabral Ramos E-mail: joab.cabral@hotmail.com / joab.cabral.ramos@gmail.com

Conflito de interesse: nenhum.

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