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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.45 no.6 Rio de Janeiro  2018  Epub 10-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20181967 

Artigo Original

Análise do perfil lipídico de pacientes submetidos à gastrectomia vertical e à derivação gástrica em Y de Roux.

Natália S. Lira1 

Carlos Eduardo Soares Macedo1 

Giselle Menezes Belo1 

Fernando Santa-Cruz2 

Luciana T. Siqueira3 

Álvaro Antonio Bandeira Ferraz1  3 

1Universidade Federal de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Cirurgia, Recife, PE, Brasil.

2Universidade Federal de Pernambuco, Curso de Medicina, Recife, PE, Brasil.

3Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de Cirurgia, Recife, PE, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

comparar as melhorias no perfil lipídico de pacientes submetidos à gastrectomia vertical (GV) e à derivação gástrica em Y de Roux (DGYR).

Metódos:

estudo de coorte misto, em que foram avaliados 334 pacientes submetidos à GV e 178 pacientes submetidos à DGYR no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco e no Real Hospital Português de Beneficência, Recife, PE, Brasil. Foram realizadas dosagens séricas de colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos no pré-operatório e com três, seis, 12 e 24 meses de seguimento.

Resultados:

o grupo submetido à GV foi composto por 58 homens e 276 mulheres. No grupo submetido à DGYR, foram analisados 64 homens e 114 mulheres. A média de idade foi de 37,2±20,5 anos no grupo da GV e de 41,9±11,1 anos no grupo da DGYR. O IMC médio pré-operatório foi de 39,4±2,6kg/m2 e 42,7±5,8kg/m2, para o grupo da GV e da DGYR, respectivamente. No pré-operatório, 80% dos pacientes tinha, no mínimo, uma anormalidade no perfil lipídico. Dois anos após a cirurgia houve melhora do colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos no grupo submetido à DGYR. No grupo submetido à GV, após dois anos houve melhora dos níveis de colesterol total, HDL e triglicerídeos, apenas.

Conclusão:

ambas as técnicas resultaram em melhorias no perfil lipídico, porém a DGYR foi mais efetiva.

Descritores: Obesidade; Cirurgia Bariátrica; Derivação Gástrica; Dislipidemias

INTRODUÇÃO

A aterosclerose é uma doença crônica de etiologia multifatorial, que acomete a camada íntima de artérias de médio e grande calibres, sendo mais comum em pacientes com fatores de risco, como tabagismo, hipertensão arterial e dislipidemias. A gênese da formação da placa aterosclerótica se inicia com agressão ao endotélio e consequente exposição da camada íntima ao depósito de lipoproteínas plasmáticas, especialmente ao LDL colesterol1.

Sabe-se que a dislipidemia é o maior fator de risco para doença arterial coronariana. Estima-se que, entre obesos, a prevalência de hipertrigliceridemia seja duas vezes maior do que em não obesos2. Também, a prevalência da chamada "dislipidemia aterogênica", caracterizada pela combinação de hipertrigliceridemia com LDL elevado e HDL baixo, é mais prevalente em pacientes obesos e com sobrepeso. Para evitar o risco de manifestações da doença aterosclerótica, o terceiro relatório do National Cholesterol Education Program (NCEP), orienta que pacientes sem outros fatores de risco para doença arterial coronariana devem manter níveis séricos de LDL colesterol menores do que 130mg/dl, colesterol total menor do que 200mg/dl e triglicerídeos menor do que 150mg/dl. O nível sérico desejável de HDL colesterol deve ser maior do que 50mg/dl para mulheres e maior do que 40mg/dl para homens3.

Outro fator de risco para infarto e doença vascular periférica é a resistência à insulina. Também frequente em obesos, devido aos elevados níveis séricos de ácidos graxos - liberados pelo tecido adiposo - que diminuem a sensibilidade do fígado à insulina, estimulando a glicogenólise e gliconeogênese. Como resultado, o fígado libera mais glicose para a corrente sanguínea, perpetuando a resistência insulínica não só hepática, mas também dos músculos4. A resistência à insulina está diretamente relacionada à dislipidemia aterogênica, típica dos obesos2.

Bons resultados da cirurgia bariátrica para tratamento da obesidade e de comorbidades, como diabetes, resistência insulínica, redução de ácidos graxos livres, e de interleucinas pró-inflamatórias, já foram amplamente demonstrados, especialmente para a derivação gástrica em Y de Roux (DGYR)5,6. Para a gastrectomia vertical (GV), apesar dos bons resultados para perda de peso, ainda se questiona se essa técnica teria bons resultados no controle de dislipidemias em pacientes obesos no longo prazo.

Existem algumas hipóteses que poderiam justificar a melhora do metabolismo lipídico pela GV. Acredita-se que, além da saciedade mais precoce alcançada com a redução dos níveis de grelina, a GV provoca redução do tempo de esvaziamento gástrico e da quantidade de suco gástrico7. A chegada de alimentos pouco digeridos ao intestino delgado, semelhante ao que acontece nas técnicas disabsortivas, aumentam a secreção de GLP-1 pelo íleo, que estimula a secreção pancreática de insulina8. A melhora dos índices glicêmicos e da resistência periférica à insulina contribui para a melhora do perfil lipídico9.

Diante deste cenário, o objetivo do presente estudo foi avaliar o perfil lipídico de pacientes no pós-operatório de cirurgia bariátrica, comparando a efetividade da DGYR com a GV no que concerne ao controle lipídico em longo prazo.

MÉTODOS

Foram analisados os prontuários de pacientes submetidos à DGYR ou GV no período de fevereiro de 2010 a abril de 2017, num total de 512 indivíduos. Os critérios empregados para indicação da cirurgia foram os do consenso do National Institutes of Health (NIH), que determina que pacientes com IMC maior do que 40kg/m2 ou maior do que 35kg/m2 associado à comorbidades graves relacionadas à obesidade podem ser candidatos ao tratamento cirúrgico10. Foram incluídos pacientes de ambos os sexos, com idades entre 18 e 60 anos, submetidos à DGYR ou à GV. Pacientes apresentando gravidez, obesidade decorrente de distúrbios psiquiátricos ou endocrinológicos, dependência química, antecedentes de tratamento oncológico e/ou risco cirúrgico elevado foram excluídos do estudo.

Foram analisadas as seguintes variáveis: IMC pré-operatório; tipo de cirurgia realizada; percentual de perda do excesso de peso; dosagem sérica de Colesterol total, LDL, HDL e Triglicerídeos. Foram considerados com dislipidemia os pacientes que apresentaram um ou mais lipídeos séricos acima dos níveis considerados desejáveis pelo terceiro relatório do NCEP (National Cholesterol Education Program): Colesterol total= 200mg/dl; LDL=130mg/dl; triglicerídeos= 150mg/dl; HDL<50mg/dl para mulheres ou HDL<40mg/dl para homens3.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde (CCS) do Hospital das Clínicas da UFPE e Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) do Ministério da Saúde (CAAE: 11258913.3.0000.5208).

A comparação das prevalências das dislipidemias foi feita através do teste Qui-quadrado para comparação de proporção. Ainda, essas medidas foram avaliadas através de média e desvio padrão para cada grupo em estudo. Na comparação dois a dois das médias dos lipídeos entre o pré-operatório e os demais momentos, aplicou-se o teste t-Student para amostras pareadas (no caso de indicação de normalidade da variável) e o teste de Wilcoxon (nos casos de a variável não seguir uma distribuição normal). Todas as conclusões foram tiradas considerando um nível de significância de 5%.

RESULTADOS

O grupo submetido à GV foi composto por 334 pacientes, sendo 58 homens e 276 mulheres. O grupo da DGYR foi composto por 178 pacientes sendo 64 homens e 114 mulheres. A média de idade foi de 37,2±20,5 anos no grupo da GV e de 41,9±11,1 anos no grupo da DGYR. O IMC médio pré-operatório foi de 39,4±2,6kg/m2 e 42,7±5,8kg/m2 para o grupo da GV e DGYR, respectivamente. Os percentuais de perda de excesso de peso foram de 49,1±13,0% (GV) e 43,9±13,7% (DGYR) aos três meses de pós-operatório e de 81,1±22,9% (GV) e 88,1±18,3% (DGYR) aos 24 meses de pós-operatório.

No grupo da GV, antes da intervenção cirúrgica, apenas 17% das mulheres e 19% dos homens tinham níveis séricos de lipídeos considerados desejáveis. No grupo da DGYR, esses valores foram de 5% entre as mulheres e de 17% entre os homens. Assim, em toda a amostra, no pré-operatório, 85% dos pacientes apresentava dislipidemia.

Colesterol Total

No grupo da GV, 53% dos pacientes apresentava elevados níveis de colesterol total no pré-operatório. Esse índice caiu para 32,5% após 12 meses da intervenção cirúrgica. Na avaliação com 24 meses, o percentual de pacientes com hipercolesterolemia foi de 36,4%. A média do colesterol total pré-operatório foi de 204,0±39,0mg/dl. Houve redução dos níveis dessa lipoproteína em todas as avaliações pós-operatórias. Após 24 meses, o nível médio de colesterol total encontrado foi 190,2±39,9mg/dl.

No grupo submetido à DGYR, 57,3% dos pacientes apresentava colesterol total maior do que 200mg/dl antes da cirurgia. No seguimento de 24 meses, este percentual se limitou a 10,2% dos indivíduos analisados. A média pré-operatória do colesterol total foi 205,4±40,2mg/dl. No pós-operatório houve redução de seus níveis, em relação ao basal, em todas as aferições. Após 24 meses da intervenção, a média de colesterol total encontrada foi de 155,8±32,1mg/dl - redução de 25% em relação ao pré-operatório (Tabelas 1 e 2).

Tabela 1 Análise dos níveis séricos dos lipídeos nos períodos pré e pós-operatório (3, 6, 12 e 24 meses após a cirurgia). 

Lipídeos Pré-op 3 Meses 6 Meses 12 Meses 24 meses
GV GV GV GV GV
DGYR DGYR DGYR DGYR DGYR
p p p p1 P
Colesterol total (mg/dl) 204,0±39,0
205,4±40,2
0,7061
186,2±38,2
158,8±34,6
<0,0011
187,6±29,4
154,8±35,2
<0,0011
183,2±35,2
155,6±30,4
<0,001
190,2±39,9
155,8±32,1
<0,0011
Colesterol LDL (mg/dl) 124,6±34,9
121,1±31,6
0,2641
118,7±37,0
95,9±28,9
<0,0011
118,6±33,2
88,5±22,9
<0,0011
110,8±32,7
86,9±24,4
<0,001
113,1±37,9
84,3±25,3
<0,0011
Colesterol HDL (mg/dl) Mulheres 50,6±11,7
48,6±12,9
0,0352
49,0±12,4
44,2±13,3
0,0012
51,3±13,4
50,5±14,1
0,7421
56,4±12,1
54,4±12,5
0,281
59,3±15,2
61,2±13,9
0,5611
Colesterol HDL (mg/dl) Homens 41,9±10,4
42,9±9,3
0,5941
44,3±12,6
36,5±7,5
0,0011
50,4±9,2
44,3±9,3
0,0521
57,4±9,7
47,6±9,6
0,004
50,2±10,0
52,5±8,2
0,6141
Triglicerídeos (mg/dl) 153,1±92,6
191,3±173,6
0,0012
96,9±35,1
115,1±52,8
<0,0012
94,2±37,9
95,8±32,9
0,4352
78,3±28,3
81,8±30,6
0,620
91,9±51,0
72,0±24,2
0,0752

1p-valor do teste t-Student para amostras pareadas (se p-valor <0,05 as médias dos dois tipos de tratamento diferem significativamente);

2p-valor do teste de Mann-Whitney (se p-valor <0,05 a distribuição da medida avaliada difere entre os tipos de tratamentos).

Tabela 2 Prevalência das dislipidemias nos períodos pré e pós-operatório (3, 6, 12 e 24 meses após a cirurgia). 

Lipídeos Pré-op 3 Meses 6 Meses 12 Meses 24 Meses
GV GV GV GV GV
DGYR DGYR DGYR DGYR DGYR
p1 p1 p1 p1 p1
Colesterol total 177 (53,0%)
102 (57,3%)
0,361
66 (34,4%)
14 (10,3%)
<0,001
31(32,6%)
5(6,2%)
<0,001
41 (32,5%)
11 (10,9%)
<0,001
16 (36,4%)
6 (10,2%)
<0,001
Colesterol LDL 136 (42,1%)
69 (40,8%)
0,785
65 (34,2%)
15 (11,3%)
<0,001
33 (35,1%)
2(2,6%)
<0,001
34 (27,0%)
5(5,0%)
<0,001
12 (27,3%)
4 (7,0%)
0,006
Colesterol HDL Mulheres 144 (52,2%)
72 (63,7%)
0,038
99 (60,7%)
64 (73,6%)
0,043
38 (45,8%)
24 (54,5%)
0,347
38 (33,6%)
28 (38,9%)
0,466
11 (28,9%)
10 (23,8%)
0,602
Colesterol HDL Homens 24 (51,1%)
23 (37,1%)
0,145
12 (44,4%)
33 (70,2%)
0,029
1(8,3%)
11 (30,6%)
0,248
0 (0,0%)
7 (24,1%)
-
0 (0,0%)
1 (6,3%)
-
Triglicerídeos 121 (36,4%)
89 (50,0%)
0,003
16 (8,4%)
19 (14,2%)
0,097
11 (11,7%)
8 (9,9%)
0,699
1 (0,8%)
2 (2,0%)
0,845
5 (11,6%)
0 (0,0%)
-

1p-valor do teste Qui-quadrado para comparação de proporção (se p-valor <0,05 as proporções diferem significativamente); - não foi possível aplicar o teste, pois alguma frequência é igual a zero.

A prevalência de hipercolesterolemia no pré-operatório não diferiu significativamente entre as técnicas, contudo, em todas as avaliações subsequentes, esta prevalência se mostrou significativamente maior no grupo submetido à GV.

Colesterol LDL

Cerca de 42,1% dos pacientes submetidos à GV apresentava LDL=130mg/dl no pré-operatório, com média de 124,6±34,9g/dl. Houve redução dos níveis de LDL colesterol após três e 12 meses da cirurgia - média de 110,8±32,7mg/dl aos 12 meses.

No grupo da DGYR, 40,8% dos pacientes apresentava LDL elevado antes da cirurgia, com média de 121,1±31,6mg/dl. No pós-operatório, houve redução nos níveis séricos de LDL em todas as aferições. Após 24 meses da intervenção, o LDL médio foi 84,3±25,3mg/dl, mostrando-se, portanto, menor do que os níveis do pré-operatório. Só 7% dos indivíduos permaneceu com LDL=130mg/dl após 24 meses da cirurgia (Tabelas 1 e 2).

Na avaliação pré-operatória, não houve diferença significativa entre a prevalência de níveis elevados de LDL entre as duas técnicas, contudo, nas avaliações subsequentes, a prevalência foi significativamente maior no grupo da GV.

Colesterol HDL

Das mulheres submetidas à GV, 52,2% apresentava HDL=50mg/dl no pré-operatório, com média de 50,6±11,7mg/dl. Houve melhora dos níveis séricos de HDL na análise após três, 12 e 24 meses de seguimento. Contudo, ainda persistiram com baixos níveis de HDL 28,9% das mulheres, aos 24 meses de pós-operatório. Quanto aos homens, 51,1% apresentava HDL basal= 40mg/dl, com média de 41,9±10,4mg/dl. As médias encontradas com seis, 12 e 24 meses de seguimento foram maiores do que a basal. Após 24 meses da cirurgia a média de HDL colesterol encontrada foi 50,2±10mg/dl.

No grupo da DGYR, 63,7% das mulheres tinha HDL baixo antes da cirurgia, com média de 48,6±12,9mg/dl. No pós-operatório, houve redução do HDL colesterol aos três meses de seguimento, porém com elevação de seus níveis aos 12 e 24 meses. Após 24 meses da intervenção, o HDL médio foi de 61,2±13,9mg/dl, mostrando-se, portanto, melhor do que o nível do pré-operatório, com elevação percentual de 25,9%. Persistiram com HDL baixo 23,8% das mulheres após 24 meses da cirurgia.

Dos homens submetidos à DGYR, 37,1% apresentava HDL basal menor do que 40mg/dl, com média de 42,9±9,3mg/dl. No seguimento de 24 meses, 6,3% dos homens ainda apresentava baixos níveis desta lipoproteína. Foi observado também que, após três meses da cirurgia, houve piora do nível sérico de HDL, com média de 36,5±7,5mg/dl (Tabelas 1 e 2).

Triglicerídeos

No grupo da GV, 36,4% dos indivíduos tinha hipertrigliceridemia no pré-operatório, com média de 153,1±92,6mg/dl. No pós-operatório houve redução durante todo o período de seguimento. A média aos 24 meses de pós-operatório foi 81,1±22,9mg/dl. Apenas 11,6% dos indivíduos avaliados após dois anos da cirurgia ainda persistiu com hipertrigliceridemia.

No grupo em que foi realizada DGYR, 50% dos indivíduos tinha hipertrigliceridemia antes da cirurgia, com média de 191,3±173,0mg/dl. Houve redução na média dos triglicerídeos séricos em todas as aferições de pós-operatório. Após 24 meses de seguimento todos os pacientes apresentaram níveis de triglicerídeos normais (Tabelas 1 e 2).

No pré-operatório, a prevalência de hipertrigliceridemia foi significativamente maior no grupo submetido à GV. Entretanto, nas avaliações ao longo do seguimento pós-operatório, não houve diferença significativa entre as técnicas.

DISCUSSÃO

Como dislipidemia e obesidade estão relacionadas ao desenvolvimento de aterosclerose e aumento do risco de infarto do miocárdio, a melhora dos níveis séricos de lipídeos pode reduzir a incidência de eventos coronarianos. Já foi descrito na literatura que a resistência insulínica e o aumento do tecido adiposo, encontrados em obesos, estão associados ao aumento do estresse oxidativo, devido à maior produção de radicais livres de oxigênio. Estes contribuem para a aterogênese, uma vez que induzem à oxidação do LDL. A gastroplastia, ao reduzir o excesso de peso, induz redução do estresse oxidativo e tem efeito cardioprotetor11.

Estudo realizado por Julve et al. também mostrou benefícios da gastroplastia para o tratamento das dislipidemias e redução do risco cardiovascular. Nesta pesquisa, os autores encontraram aumento da expressão hepática do gene PON-1 em obesos submetidos à DGYR. Este gene codifica a enzima paraoxonase sérica, que contribui para a atividade antioxidativa e antiaterogênica do HDL12.

No presente estudo, observou-se que, no grupo da GV, houve melhora significativa dos níveis de colesterol total, embora mais discreta do que no grupo da DGYR. Foi encontrada redução percentual do colesterol total de 8,7% após três meses e de 6,7% após 24 meses de seguimento pós-cirúrgico. Esses resultados foram melhores do que os encontrados em estudo realizado por Ruiz-Tovar et al., em que não houve significância estatística na comparação entre níveis de colesterol total e LDL no pré-operatório e após 12 meses de seguimento após GV13.

No estudo atual, em relação ao grupo submetido à DGYR, a redução dos níveis séricos de colesterol total foi de 23% aos três meses e de 24% aos 24 meses de seguimento. Houve, ainda, redução do LDL de 21% e 30% também aos três e 24 meses, respectivamente. Estes achados são semelhantes aos encontrados por Jamal et al., que avaliaram 248 pacientes submetidos à mesma técnica cirúrgica, com seguimento de seis anos e redução percentual de 27% do colesterol total e de 40% do LDL colesterol14.

Zlabek et al., avaliando pacientes submetidos à DGYR, encontraram redução percentual do colesterol total de 12,5% após um ano e de 7,5% após dois anos da cirurgia15. Esses resultados, assim como os encontrados no presente estudo, em que a GV foi menos eficaz do que a DGYR para redução dos lipídeos séricos reforçam a hipótese de que a disabsorção está associada a maior controle das dislipidemias. Outras pesquisas já apontam que há associação entre diminuição da área absortiva e redução da absorção intestinal de colesterol16.

Em investigação sobre o metabolismo do colesterol em pacientes submetidos à gastroplastia, Benetti et al. encontraram que, nas técnicas disabsortivas, houve diminuição da absorção de colesterol, implicando em redução dos níveis séricos de LDL. Essa redução é devida à menor reabsorção de colesterol e sais biliares pelo intestino. Como compensação, houve aumento do catabolismo hepático do colesterol, o que contribuiu para a manutenção de níveis séricos mais baixos do LDL. Essas alterações não foram encontradas no grupo de pacientes tratados com técnica restritiva através de banda gástrica ajustável17.

Quanto ao LDL, a redução percentual encontrada no grupo da GV do presente estudo foi de 5% aos três meses e 10% aos 24 meses. Benaiges et al., avaliando 51 pacientes submetidos à GV, encontraram diferença estatisticamente significante entre a média pré-operatória do LDL e a obtida 12 meses após a cirurgia. Entretanto, a redução percentual do LDL também foi baixa, ficando em torno de 5%18. Em relação aos níveis de HDL 12 meses após a GV, encontraram elevação percentual de 33% dessa lipoproteína. Em igual tempo de seguimento, Tovar et al. encontraram aumento de 28% do HDL13.

Na presente casuística observa-se que, na primeira aferição pós-cirúrgica, houve queda do HDL entre as mulheres submetidas à GV, e entre homens e mulheres submetidos à DGYR. Esta queda dos níveis de HDL coincidiu com o período de mais rápida perda de peso. Passada essa fase inicial, houve aumento significativo do HDL tanto no grupo das mulheres quanto no grupo dos homens submetidos à DGYR no seguimento de 24 meses, sendo este aumento de 22,3% para os homens e de 25,9% para as mulheres. No grupo da GV, houve aumento mais discreto (17,2%) do HDL após seguimento de 24 meses das mulheres. No subgrupo do sexo masculino, a elevação percentual do HDL foi de 19,8%.

Zvintzou et al. também descrevem declínio dos níveis séricos de HDL em observação de pacientes submetidos à gastroplastia através de técnica disabsortiva. Os autores verificaram que, a despeito da queda inicial do HDL, houve melhora qualitativa desta lipoproteína, com aumento da expressão do HDL rico em apoliproteína A-1(Apo A-1), que tem ação antioxidante, e redução da expressão do HDL com apolipoproteína E (Apo E), que tem ação hiperlipemiante. Para os autores, esta queda inicial do HDL representa um período de conversão do HDL rico em Apo E em HDL rico em Apo A-119.

Julve et al., embora não tenham encontrado alteração significativa nas dosagens séricas de HDL em pacientes no pré e pós-operatório de DGYR, também encontraram alterações qualitativas destas lipoproteínas. No pós-operatório, houve aumento da expressão do HDL-2, um subtipo de HDL com maior conteúdo de colesterol, que tem maior efeito cardioprotetor12.

Em relação às dosagens de triglicerídeos no presente estudo, houve redução significativa após a DGYR, durante todo o período de acompanhamento. Após 24 meses, a redução dos níveis de triglicerídeos foi de 62%. Nguyen et al., no seguimento de uma coorte de 95 pacientes submetidos à mesma técnica cirúrgica, observaram semelhante redução percentual (63%) de triglicerídeos no seguimento de 12 meses20. Valor similar (60,5%) também foi relatado em revisão sistemática com 29 estudos sobre DGYR21.

Também houve redução dos níveis séricos de triglicerídeos no grupo da GV. Esta redução percentual foi de 40% aos 24 meses de seguimento pós-cirúrgico. Strain et al. também encontraram redução da trigliceridemia numa coorte após um ano da GV: no pré-operatório a média foi de 128,7±66,7mg/dl e, após um ano, caiu para 97,1±43,5mg/dl. Contudo, após cinco anos da cirurgia, o valor médio encontrado foi de 119,8±68,2, ainda menor do que no pré-operatório, porém mostrando tendência à elevação dos triglicerídeos no longo prazo22.

É digno de nota observar que, no presente estudo, foi encontrado um percentual de perda de peso semelhante entre os dois grupos de estudo. Estes percentuais foram de 81,1±22,9% no grupo da GV e de 88,1±18,3% no grupo da DGYR. Esses resultados mostram que a GV foi eficaz para a perda de peso, alcançando níveis similares à DGYR. Entretanto, o percentual de perda de peso não pareceu ser o único fator envolvido no controle das dislipidemias, uma vez que a GV produziu resultados inferiores no tratamento desta comorbidade.

Os resultados do presente estudo mostraram que a DGYR é nitidamente mais eficaz do que a GV na melhora do perfil lipídico dos pacientes. Esta última técnica, apesar de ter diminuído de maneira significativa o percentual de pacientes com valores indesejáveis de triglicerídeos e colesterol total, exibiu uma tendência de elevação das lipoproteínas com dois anos de seguimento. Além disso, a GV restaurou o HDL colesterol no sexo feminino de maneira mais efetiva do que no sexo masculino.

Com isso, os autores concluem que a DGYR leva a um melhor controle do perfil lipídico do que a GV, devendo ser considerada ao planejar o tratamento de um paciente portador de dislipidemia de difícil controle.

Fonte de financiamento: nenhuma.

REFERÊNCIAS

1 Xavier HT, Izar MC, Faria Neto JR, Assad MH, Rocha VZ, Sposito AC, et al. V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arq Bras Cardiol. 2013;101(4 Suppl 1):1-20. [ Links ]

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Recebido: 01 de Agosto de 2018; Aceito: 31 de Outubro de 2018

Endereço para correspondência: Fernando Santa Cruz. E-mail: f.santacruzoliveira@gmail.com / alvaroabferraz@gmail.com

Conflito de interesse: nenhum.

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