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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.46 no.1 Rio de Janeiro  2019  Epub 18-Fev-2019

http://dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20192077 

Artigo Original

Fatores prognósticos de resposta à quimioterapia em tumores avançados do colo uterino: o papel da neoangiogênese.

Cláudio Franco do Amaral Kfouri, AcCBC-SP1 

Welington Lombardi2  3 

Maria Clara Ferreira Nonato Romania1 

Matheus Lopes Puls1 

Rodrigo Amaral Martins-Ferreira4 

Luciana Borges Lombardi2  3 

Jurandyr Moreira de Andrade5 

1Universidade de Araraquara, Faculdade de Medicina, Araraquara, SP, Brasil.

2Santa Casa de Araraquara, Departamento de Ginecologia, Araraquara, SP, Brasil

3Universidade de Araraquara, Faculdade de Medicina, Disciplina de Ginecologia, Araraquara, SP, Brasil.

4Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Medicina, Belo Horizonte, MG, Brasil.

5Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Departamento de Ginecologia, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

analisar a expressão do Fator de Crescimento do Endotélio Vascular (VEGF), seu receptor (VEGFR-2), idade e tipo histológico de carcinomas avançados de colo uterino com relação à resposta clínica à quimioterapia neoadjuvante.

Métodos:

foram incluídas 40 pacientes com diagnóstico de carcinoma de colo uterino (IB2 e IVA), com biópsias prévias ao tratamento. Todas as pacientes foram submetidas à quimioterapia neoadjuvante e avaliadas quanto à resposta clínica e à expressão do VEGF. Considerou-se boa resposta clínica uma regressão tumoral total ou maior do que 50%.

Resultados:

em relação à resposta à quimioterapia, 18 pacientes (45%) apresentaram boa resposta e 22 (55%), má resposta. Quanto à expressão do VEGF, em 16 pacientes foi considerada positiva e em 24, negativa. Quando os casos foram analisados separadamente em relação à resposta à quimioterapia, somente a expressão positiva de VEGF foi associada à boa resposta clínica (p=0,0157).

Conclusão:

a expressão de VEGF mostrou ser isoladamente, um importante marcador de boa resposta ao tratamento quimioterápico neoadjuvante das pacientes com carcinoma avançado de colo uterino.

Descritores: Colo do Útero; Neoplasias do Colo do Útero; Neovascularização Patológica.

INTRODUÇÃO

Estima-se que o carcinoma do colo uterino seja o terceiro mais comum na população feminina, sendo superado pelo câncer de mama e intestinos. De acordo com dados absolutos sobre a incidência e mortalidade por câncer do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer do colo do útero foi responsável pela morte de 5430 mulheres no Brasil em 20151. No mundo é a segunda causa de morte por câncer em mulheres2. A abordagem mais efetiva para o controle do carcinoma do colo uterino é o rastreamento e o tratamento das lesões pré-neoplásticas. A introdução do exame de Papanicolau como teste de rastreamento reduziu significativamente a incidência de casos avançados e sua mortalidade3. No entanto, ainda é comum seu diagnóstico em estádios avançados. A taxa de sobrevida de cinco anos para pacientes com doença inicial (estádios 0-IIA) permanece em torno de 80% e para as pacientes com doença mais avançada (estádios IIIB-IVA) é somente de 20% a 42%3.

Para o tratamento do carcinoma do colo uterino nos estádios IB, IIA e alguns casos selecionados no estádio IIB, emprega-se a cirurgia ou radioterapia4. Nos Estados Unidos, as pacientes com tumores no estádio IIB eram tratadas primariamente com radioterapia, enquanto, na Europa, a histerectomia radical era a abordagem preferida5. Para os estádios III e IVA, o tratamento de escolha era a radioterapia radical, compreendendo a irradiação pélvica externa associada à braquiterapia, quando possível4. Com a radioterapia, as taxas de sobrevida permanecem em torno de 65% para pacientes com tumores no estádio IIB e 40% entre as do estádio IIIB, porém com aumento da morbidade6.

A busca por melhores resultados levou vários centros em todo o mundo a introduzir no tratamento do câncer de colo avançado a associação de tratamentos já empregados em tumores sólidos de outras localizações, ou seja, a associação de quimioterapia e radioterapia com ou sem cirurgia7. A cisplatina é relatada como a droga quimioterápica mais ativa no câncer do colo uterino e tem sido incluída como o componente básico de seu tratamento primário3. A duração do tratamento é crítica e o ideal seria poder antecipar quais pacientes apresentariam boa resposta à quimioterapia, evitando indicá-la para aquelas sem perspectivas de boa resposta, ganhando-se tempo na indicação de outra modalidade terapêutica: a radioterapia exclusiva ou a quimiossensibilização. Por outro lado, pacientes que apresentassem boa resposta poderiam ser submetidas à cirurgia, dispensando a radioterapia e evitando, portanto, complicações decorrentes da associação dos tratamentos3,4.

A angiogênese é um fator crítico na progressão de tumores sólidos, incluindo o câncer de colo. Vários estudos têm correlacionado a angiogênese com pior prognóstico em tumores sólidos, como mama, próstata e cólon8,9. Os mecanismos responsáveis pela angiogênese na neoplasia do colo, entretanto, não estão bem definidos10. A expressão aumentada do Fator de Crescimento do Endotélio Vascular (VEGF) em tumores primários correlaciona-se com um comportamento biológico mais agressivo (aumento do índice de invasão vascular, de linfonodos metastáticos e de metástases hepáticas) e a um pior prognóstico comparado aos casos em que sua expressão se encontra diminuída11. A presença do VEGF e do VEGFR-2 em tumor de colo uterino pode ser determinado por técnica de imuno-histoquímica e, seus subtipos, por exames de Western blot, ELISA e PCR12.

Existem poucos estudos que correlacionam a expressão do VEGF, ou de seu receptor VEGFR-2, à resposta à quimioterapia. O objetivo do presente estudo foi avaliar a expressão do VEGF tumoral entre as pacientes submetidas à quimioterapia neoadjuvante para câncer de colo uterino localmente avançado.

MÉTODOS

Realizou-se um estudo seriado de casos, desenvolvido de forma prospectiva, relacionando-se o grau de expressão de VEGF em amostras de tumor coletadas previamente ao início do tratamento, com a resposta clínica à quimioterapia. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), de acordo com o Processo nº 2952/00.

Foram incluídas 40 pacientes que atenderam ao protocolo estabelecido para este projeto de pesquisa, assistidas no Setor de Oncologia Ginecológica e Mastologia do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP-USP. A forma de recrutamento das pacientes foi a mesma do serviço ambulatorial do Hospital das Clínicas da FMRP-USP, sendo as pacientes encaminhadas do SUS (atendimento primário) para o Ambulatório de Oncologia Ginecológica (atendimento terciário).

Todas as pacientes incluídas tinham câncer de colo uterino localmente avançado, ou seja, estádio IB2 (tumor limitado ao colo, porém com volume maior do que 4cm) ao estádio IVA (extensão tumoral com comprometimento retal ou envolvimento da mucosa vesical). As pacientes deveriam preencher os seguintes critérios: apresentar performance status de 0 ou 1, correspondentes aos índices de Karnofsky entre 70 e 100. O número de leucócitos deveria ser superior a 4000/ml, e o de plaquetas superior a 100.000/mm3. Os exames de sedimento urinário não deviam mostrar sinais de infecção. Foram excluídas as pacientes que apresentavam sorologia positiva para o vírus da imunodeficiência adquirida humana e aquelas que não receberam ao menos dois ciclos de quimioterapia primária, após inclusão inicial.

As pacientes foram distribuídas em dois grupos prospectivos de boa e de má resposta clínica à quimioterapia neoadjuvante, segundo os critérios da OMS.

Os procedimentos assistenciais utilizados nesta pesquisa foram os mesmos utilizados no protocolo assistencial do Serviço de Oncologia Ginecológica do HC da FMRP-USP, sem nenhuma exceção, acrescidos apenas da coleta de um fragmento adicional do tumor e da coleta de 10ml de sangue. O volume do tumor primário foi avaliado clinicamente por exame especular, toque vaginal e a invasão do paramétrio, pelo toque retal, por dois observadores. Exames de imagem como ultrassonografia transretal, tomografia computadorizada ou ressonância magnética foram ocasionalmente empregados, mas as avaliações consideradas para análise foram as obtidas pelo exame clínico. O estadiamento foi completado com exames de cistoscopia, retossigmoidoscopia, urografia excretora e radiografia de tórax.

As biópsias foram efetuadas em área sem necrose com broca de Baliú. Parte do material obtido na biópsia foi submetido à fixação em formalina e inclusão em parafina e outra parte armazenado em nitrogênio líquido. Do material parafinado foram feitas as lâminas para o diagnóstico histopatológico, necessário para o início do tratamento e os cortes destinados à pesquisa da expressão do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) e de seu receptor VEGFR-2, confeccionados pelo Serviço de Patologia Cirúrgica da FMRP-USP.

O tratamento planejado encontra-se protocolado e faz parte da rotina assistencial deste Serviço e inclui a quimioterapia neoadjuvante seguida ou não de radioterapia e, dependendo da regressão da neoplasia, especialmente nos paramétrios, se encerra com histerectomia radical. Todas as pacientes são encaminhadas à linfadenectomia pélvica (videolaparoscópica ou por via convencional aberta) com avaliação intraoperatória dos linfonodos. Na presença de linfonodos pélvicos comprometidos complementa-se o estadiamento com linfadenectomia paraórtica. As condições clínicas pré-operatória de cada paciente foram avaliadas, e o procedimento cirúrgico contraindicado para aquelas que não apresentassem condições clínicas aceitáveis, aquelas que por algum motivo postergaram muito o início da quimioterapia ou aquelas que não aceitaram sua inclusão no protocolo. Portanto, nem todas as pacientes incluídas neste trabalho foram submetidas à linfadenectomia.

O protocolo da quimioterapia inclui a administração de três ciclos de quimioterapia neoadjuvante usando-se cisplatina e 5-fluoracil segundo o seguinte cronograma: Dia 1- Platiram 50mg/m2 EV + Fluoracil 500mg EV 8/8horas; Dia 2- Platiram 50mg/m2 EV + Fluoracil 500mg EV 8/8horas; e Dias 3/4/5- Fluoracil - 500mg EV 8/8horas.

Este esquema foi repetido por três vezes com 28 dias de intervalo. Após cada ciclo, a paciente era examinada para avaliação da resposta. Os casos que apresentaram boa resposta continuavam com o esquema citado. As pacientes que não responderam com diminuição importante do volume tumoral após o segundo ciclo deste esquema e aquelas que apresentaram redução do tumor, mas não o suficiente, para permitir cirurgia radical foram consideradas resistentes à quimioterapia e classificadas como casos com má resposta.

As pacientes eram examinadas três ou quatro semanas após o término de cada ciclo de quimioterapia pelos mesmos observadores. De acordo com os critérios da OMS, considerou-se como resposta completa o desaparecimento de toda a lesão; resposta parcial, quando houve uma diminuição estimada do tamanho tumoral de 50% ou mais; doença estável, quando houve uma diminuição estimada menor do que 50% ou lesão com aumento estimado menor do que 25% e; progressão da doença, quando se observou o aparecimento de uma nova lesão não identificada previamente ou um aumento estimado de 25% ou mais da lesão existente13. Considerou-se como boa resposta clínica à quimioterapia as pacientes que apresentaram resposta completa e/ou parcial, e como má resposta as pacientes que apresentaram doença estável e/ou progressão tumoral.

As amostras coletadas foram fixadas em formalina e incluídas na parafina. As preparações histológicas foram submetidas à reação imuno-histoquímica utilizando-se anticorpos primários monoclonais de camundongo, produzidos pelo clone C1, anti-VEGF (referência SC-7269, Santa Cruz, CA, USA). Contra seu receptor VEGFR-2, utilizou-se como anticorpos primários o FLK-1 monoclonal de camundongo, produzido pelo clone A3 (referência SC-6251, Santa Cruz, Ca, USA).

O estudo imuno-histoquímico para VEGF e VEGFR-2 foi desenvolvido utilizando-se o Novostain Universal Quik Kit (referência NCL-RTU-Qu, Novocastra Laboratories, Newcastle, UK), o qual inclui soro normal de cavalo para bloquear antígenos inespecíficos; anticorpo secundário biotinilado pan-específico para se ligar ao anticorpo primário e o complexo extreptavidina-peroxidase para detecção da reação. As preparações foram reveladas com 3'3' diaminobenzidina tetrahidroclorídrico, usando o Liquid DAB (3'3' Diaminobenzidine Tetrahydrocloride) Substrate Kit (referência NCL-L-DAB; Novocastra, UK) para tecidos incluídos em parafina e contracorados com hematoxilina de Mayer.

A análise estatística dos resultados foi realizada com auxílio do software GraphPad Prisma 2.01. Para a análise das tabelas de contingência (2x2) e comparação entre a expressão de VEGF e VEGFR-2 e a resposta clínica à quimioterapia, isoladamente, foi utilizado o teste exato de Fisher (análise univariada).

Com o objetivo de verificar o comportamento independente das variáveis (idade menor ou igual a 60 anos versus maior do que 60 anos, tipo histológico, expressão de VEGF e de VEGFR-2) e como isto afeta a variável dependente (resposta à quimioterapia) utilizou-se a regressão logística (análise multivariada)14.

RESULTADOS

Quanto aos aspectos epidemiológicos, as 40 pacientes incluídas neste estudo tinham idades compreendidas entre 28 e 76 anos, sendo a média das idades de 53,2 anos. Em relação ao estadiamento clínico, cinco pacientes foram estadiadas com IB2, duas como IIA, 23 como IIB, sete como IIIB e três como IVA. Observou-se que a média de idade apresentou uma tendência em aumentar com os estádios mais avançados (Tabela 1).

Tabela 1 Estádio clínico. 

Estádio n % Média das idades (anos)
IB2 5 12,5 42,6
IIA 2 5,0 35,5
IIB 23 57,5 53,4
IIIB 7 17,5 60,0
IVA 3 7,5 51,0

Trinta e seis pacientes foram submetidas à linfadenectomia pélvica e/ou para-aórtica (estadiamento cirúrgico) e em 15 casos houve alteração do estadiamento, sendo dez re-estadiadas para mais e cinco para menos. Quando se considerou o estadiamento cirúrgico verificou-se a seguinte distribuição: sete pacientes foram estadiadas como IB2, três como IIA, 18 como IIB, uma como IIIA, seis como IIIB e cinco como IVA.

Em relação ao tipo histológico, 33 casos foram classificados como carcinomas epidermoides, cinco como adenocarcinomas e dois casos como carcinoma adenoescamoso. As taxas de boa resposta foram semelhantes entre os casos de carcinoma epidermoide (45,4%) e de adenocarcinomas (42,8%) (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição das pacientes conforme tipo histológico. 

Tipo histológico n %
Carcinoma espinocelular 33 82,5
Adenocarcinoma 5 12,5
Carcinoma adenoescamoso 2 5,0
Total 40 100

Quanto à resposta clínica à quimioterapia, 18 pacientes, avaliadas após os dois primeiros ciclos, apresentaram boa resposta e 22 apresentaram má resposta (Tabela 3). Vinte e seis pacientes tornaram-se operáveis após tratamento inicial com a quimioterapia neoadjuvante, e foram submetidas à cirurgia.

Tabela 3 Correlação entre o tipo histológico e a resposta à quimioterapia. 

Tipo histológico Boa resposta Má resposta Total
n % n %
Adenocarcinoma 3 42,8 4 57,2 7
Carcinoma epidermoide 15 45,4 18 54,6 33
Total 18 22 40

Com relação ao VEGF, 16 pacientes apresentaram expressão positiva e 24 pacientes, devido à fraca expressão, foram consideradas negativas. A expressão positiva de VEGF foi mais frequente nos casos de adenocarcinomas (5 de 7; 71,4%) do que nos carcinomas epidermoides (11 de 33; 33,3%), porém os resultados não demonstraram diferenças significativas (OR=5,0; IC 95% 0,83 a 30.03; p=0,0942) (Tabela 4).

Tabela 4 Distribuição da expressão de VEGF em relação ao tipo histológico. 

VEGF Tipo histológico Total
Adenocarcinoma Carcinoma epidermoide
Positivo 5 11 16
Negativo 2 22 24
Total 7 33 40

Teste exato de Fisher: p=0,0942; OR:5,0 (IC 95% 0,83 a 30,03).

Com relação ao receptor de VEGF (VEGFR-2), 11 pacientes foram consideradas positivas e 29 negativas. A expressão positiva de VEGFR-2 foi mais frequente nos casos de adenocarcinomas (4 de 7; 57,1%) do que nos carcinomas epidermoides (7 de 33; 21,2%); no entanto, os resultados também não mostraram diferenças significativas (OR=4,952; IC 95% 0,89 a 27,50; p=0,0755).

Quando analisados separadamente em relação à resposta à quimioterapia, somente a expressão de VEGF foi associada positivamente com boa resposta clínica à quimioterapia (OR=5,34; IC 95% 1,35 a 21,15; p=0,0157) (Tabela 5).

Tabela 5 Distribuição da expressão de VEGF, positivo ou negativo, em relação à resposta clínica à quimioterapia. 

Resposta VEGF Total
+ -
Boa 11 7 18
5 17 22
Total 16 24 40

Teste exato de Fisher: p=0,0157; OR:5,343 (IC 95% 1,35 a 21,15).

A análise multivariada, que inclui as variáveis (VEGF positivo, VEGFR-2 positivo, idade menor ou igual a 60 anos e tipo histológico) mostrou que não houve associação das variáveis entre si e que apenas a expressão positiva do VEGF esteve significativamente associada à melhor resposta clínica à quimioterapia, isoladamente, aumentando em 6,3 vezes a chance de se apresentar resposta satisfatória (odds ratio=6,34; IC 95% 1,21 a 33,18; p=0,0286) (Tabela 6).

Tabela 6 Análise multivariada entre as variáveis VEGF positivo, VEGFR-2 positivo, idade menor ou igual que 60 anos e tipo histológico versus resposta clínica à quimioterapia neoadjuvante (boa ou má). 

Resposta OR IC 95% p
Boa
n % n %
VEGF + 11 27,5 5 12,5 6,34 1,21 - 33,18 0,028
VEGFR-2 + 7 17,5 4 10,0 1,62 0,30 - 8,69 0,570
Idade <60 anos 15 37,5 16 40,0 2,32 0,35 - 14,02 0,356
Tipo histológico (AC+AE)* 3 42,8 4 57,2 0,28 0,03 - 2,30 0,239

AC+AE

*= Adenocarcinoma + Carcinoma adenoescamoso.

DISCUSSÃO

A quimioterapia neoadjuvante para tumores de colo uterino foi incorporada ao tratamento convencional com o propósito de reduzir o volume e a extensão tumoral para, em seguida, poder se instituir a radioterapia com melhores condições locais ou transformar em operáveis aqueles casos clinicamente inoperáveis15. Outro efeito benéfico seria a possibilidade de tratar micrometástases seguida por cirurgia ou irradiação, dependendo da resposta primária do tumor. A quimioterapia também é usada simultaneamente com a radioterapia, sendo denominada quimiossenbilização. Na teoria, ambos teriam um efeito sinérgico, pois a quimioterapia pode aumentar a sensibilidade do tumor à radiação, sincronizando as células para uma fase radiossensível do ciclo celular16. Porém seus efeitos colaterais também se somam, aumentando a morbimortalidade entre as pacientes8. Sabe-se que o tamanho tumoral e a presença de metástases são os fatores de risco que mais interferem no resultado final e estão relacionados com pior prognóstico e maior resistência à terapêutica16,17. Desta forma, seria de grande importância a determinação dos fatores preditores de reposta à quimioterapia através de marcadores biológicos.

O papel da angiogênese no crescimento tumoral tem sido claramente estabelecido. Para progressão de tumores sólidos é necessário um suficiente suprimento de vasos sanguíneos18. O tumor induz a mecanismos angiogênicos levando, direta e indiretamente, ao crescimento de microvasos e oferecem um acesso para as células tumorais ao sistema vascular para sua propagação metastática. Entre os vários fatores angiogênicos, o VEGF e seus receptores possuem um importante papel na neoangiogênese tumoral. Sabe-se que o VEGF é amplamente distribuído em carcinomas de células escamosas de cabeça e pescoço, independente do estádio ou do grau histológico19.

Vários estudos clínicos mostraram que a expressão de VEGF e a angiogênese tem importante significado no prognóstico de pacientes com carcinoma avançado de células escamosas, estando associado, na maioria das vezes, com pior prognóstico e menor sobrevida20-24. Em neoplasias do colo uterino a correlação entre a expressão de VEGF e a progressão da displasia tem sido demonstrada. Entretanto, a associação entre a expressão de VEGF e as características clínico-patológicas da doença necessitam, ainda, de mais estudos9,25. No presente estudo a expressão aumentada de VEGF e de VEGFR-2 foi maior nos adenocarcinomas. Recentemente, observou-se que a idade da paciente, o estádio clínico, a diferenciação tumoral, a presença de metástases linfonodais ou o envolvimento do espaço linfo-vascular foram todos considerados significantes indicadores prognósticos em pacientes com câncer de colo invasivo21. Não foi observado também, no presente estudo, diferenças significantes entre estas variáveis. Entretanto, outro estudo mostrou uma associação significativa somente entre a expressão de VEGF e o tipo histológico tumoral. Este achado suporta a ideia de que o mecanismo da angiogênese possa ser induzido de modo diferente na dependência do órgão envolvido e do tipo histológico do tumor.

Com relação ao valor do VEGF em predizer a resposta à quimioterapia, pouco se conhece até o momento. Neste estudo, o VEGF mostrou ser um bom marcador para predizer a resposta à quimioterapia. Devido ao papel do VEGF na angiogênese tumoral e na permeabilidade vascular, a maior distribuição e liberação das drogas através dos vasos neoformados poderia explicar a relação entre a resposta à quimioterapia e a presença de VEGF. No entanto, Foekens et al.26, estudando o papel do VEGF como preditor da resposta à quimioterapia para câncer de mama recorrente, encontraram que níveis elevados de VEGF tumoral estavam associados com uma pobre resposta à quimioterapia utilizada. O mesmo ocorreu quando se analisou a resposta ao tamoxifeno. Uma explicação seria que o VEGF, por induzir a proliferação celular endotelial, contribuiria indiretamente para a formação de um fenótipo tumoral resistente às drogas, via expressão de proteínas associadas à resistência medicamentosa, como glutation-S-transferase26. Outro estudo, realizado por Shimada et al.8 mostrou que o VEGF foi um importante fator prognóstico, independente de resposta à quimiorradioterapia em pacientes com carcinoma de células escamosas do esôfago (p=0,0147); porém esteve associado com menor resposta à terapia e sobrevida. Os autores sugerem que a expressão de VEGF contribuiria para a proteção dos vasos sanguíneos tumorais aos efeitos da citotoxidade mediada pela quimioterapia e, desse modo, para a maior resistência ao tratamento8. Ao contrário dos autores citados, Boku et al.27 estudando o papel de marcadores biológicos como preditor para a resposta e prognóstico em 39 pacientes com câncer gástrico, irressecáveis, tratados com 5-fluoracil e cisplatina, observaram que os casos considerados VEGF positivos apresentaram uma taxa de resposta mais elevada do que aqueles considerados VEGF negativos (11 de 20 versus 2 de 19 casos; p=0,0057). Portanto, os casos VEGF positivos foram considerados como fenótipo favorável para resposta à quimioterapia. Takiuchi et al.14 estudaram a expressão imuno-histoquímica de VEGF em 30 pacientes com adenocarcinoma gástrico e sua relação com a resposta ao 5-fluoracil e cisplatina. A taxa de resposta dos casos considerados VEGF positivos e VEGF negativos foi de 75% (12/16) e 16,7% (2/14), respectivamente, e os casos VEGF positivos mostraram um significante impacto neste tratamento (p=0,0031). No presente estudo, as pacientes consideradas VEGF positivas também apresentaram uma melhor resposta ao uso da quimioterapia neoadjuvante com 5-fluoracil e cisplatina. A correlação entre a resposta à quimioterapia e a expressão de VEGF poderia ser explicada pela maior liberação das drogas no interior da neoangiogênese tumoral, maior permeabilidade vascular e, consequentemente, melhor atuação local.

As diferenças encontradas entre os trabalhos, em relação à expressão de VEGF e a resposta à quimioterapia, poderiam ser explicadas pela utilização de diferentes esquemas terapêuticos, devido aos diferentes tipos histológicos tumorais implicados, às diversas associações das drogas, aos diferentes mecanismos de ação e posologias variadas. Deste modo, maior número de trabalhos, com maior número de casos e com esquemas terapêuticos semelhantes são necessários para melhor compreensão da relação entre a resposta clínica aos agentes antineoplásicos e a expressão dos marcadores biológicos.

Não encontramos trabalhos correlacionando a expressão de VEGFR-2 com resposta à quimioterapia em tumores sólidos. Em nosso estudo, os casos considerados VEGFR-2 positivos, não mostraram associação com a resposta clínica à quimioterapia, nem quando combinado com a expressão de VEGF positivo.

A expressão de VEGF mostrou ser, isoladamente, um indicador de boa resposta ao tratamento quimioterápico noadjuvante das pacientes com câncer de colo uterino avançado e a idade e o tipo histológico tumoral não tiveram associação com a resposta à quimioterapia neoadjuvante.

Fonte de financiamento: nenhum.

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Recebido: 26 de Novembro de 2018; Aceito: 19 de Dezembro de 2018

Endereço para correspondência: Cláudio Franco do Amaral Kfouri E-mail: cfakfouri@gmail.com / claudiofakfouri@uol.com.br

Conflito de interesse: nenhum.

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