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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

versão impressa ISSN 0100-6991versão On-line ISSN 1809-4546

Rev. Col. Bras. Cir. vol.46 no.2 Rio de Janeiro  2019  Epub 18-Abr-2019

http://dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20192104 

Artigo Original

Acidentes na infância: casuística de um serviço terciário em uma cidade de médio porte do Brasil.

Anderson César Gonçalves, TCBC-SP1 

Maria Paula Bortoleti de Araújo1 

Karina Veronezi de Paiva1 

Caio de Souza Araújo Menezes1 

Anna Érica Mero Cavalcanti da Silva1 

Giuliana de Oliveira Santana1 

Érika Veruska Paiva Ortolan1 

Pedro Luiz Toledo de Arruda Lourenção1 

1Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Medicina de Botucatu, Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Botucatu, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

investigar as principais causas e situações de risco mais comuns relacionadas aos acidentes na infância, em nossa realidade local.

Métodos:

estudo observacional, transversal, retrospectivo, descritivo e analítico, a partir dos prontuários médicos de pacientes atendidos nos serviços de urgências pediátricas do complexo hospitalar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, no ano de 2016. Foram incluídos os atendimentos de pacientes de zero a 15 anos de idade que haviam recebido atendimento médico relacionado a acidentes, determinando-se idade, sexo, tipo de acidente, período do dia e ambiente onde aconteceu o acidente e histórico de acidentes pregressos.

Resultados:

do total de atendimentos com registros adequados no prontuário, 936 (27,5%) estavam relacionados a acidentes: 588 (62,8%) em pacientes do sexo masculino e 348 (37,2%) em pacientes do sexo feminino. Quanto à idade, 490 (52,3%) acidentes ocorreram com crianças de zero a cinco anos, 245 (26,2%) com crianças de seis a dez anos e 201 (21,5%) com crianças com mais de dez anos de idade. Quedas e traumas locais foram os tipos de acidentes mais comuns em todas as faixas etárias analisadas. A maior parte dos acidentes ocorreu à tarde (46,1%), em casa (60,7%), e 26,6% dos pacientes apresentavam antecedentes de acidentes prévios.

Conclusão:

os acidentes foram responsáveis por grande parcela dos atendimentos de urgência. A elevada taxa de pacientes com registros de acidentes prévios indica a exposição repetida destas crianças às situações de risco.

Descritores: Prevenção de Acidentes; Saúde da Criança; Prevenção & controle; Pesquisa sobre Serviços de Saúde

INTRODUÇÃO

Os acidentes na infância representam um grave problema para o sistema de saúde em todo o mundo1-3. Lesões não intencionais são as maiores causas de morbidade e mortalidade na infância, correspondendo a cerca de 25% das causas de mortes entre crianças de cinco e nove anos de idade4. Dados da Organização Mundial de Saúde demonstram que os acidentes na infância são responsáveis por aproximadamente 830.000 mortes por ano4.

No Brasil, os acidentes de trânsito e os afogamentos são as principais causas de mortalidade, seguidos por sufocações, queimaduras, quedas e intoxicações5. Dados do Ministério da Saúde revelam que, por ano, 4,7 mil crianças morrem e 125 mil são hospitalizadas vítimas de acidentes6. O traumatismo chega a ser responsável por 19,5% da mortalidade de crianças até a adolescência e, na faixa dos cinco aos 19 anos de idade, representa a principal causa de morte7.

Aproximadamente 90% das lesões não intencionais podem ser evitadas por meio de medidas de prevenção4. Vários estudos comprovam a redução nos índices de acidentes após implantação de estratégias de prevenção educacionais, legislativas e ambientais8-11. Estas atividades de prevenção podem ser otimizadas se elaboradas com base em aspectos da realidade local, considerando os principais fatores de risco e as situações cotidianas relacionadas à ocorrência de acidentes4.

Entretanto, em nível nacional, este tipo de informação ainda é limitado, com poucas casuísticas publicadas. Nosso grupo tem desenvolvido, desde 2014, atividades de prevenção de acidentes na infância em escolas de ensino fundamental, direcionadas para pais, alunos e professores do sexto ano12. Desta forma, nós decidimos investigar quais são as principais causas e as situações de risco mais comuns relacionadas aos acidentes na infância, em nossa realidade local, em uma cidade de médio porte, da região Sudeste do Brasil.

MÉTODOS

Foi realizado um estudo observacional, transversal, retrospectivo, descritivo e analítico, a partir dos prontuários médicos de pacientes atendidos nos serviços de urgências pediátricas do complexo hospitalar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP (HC-FMB-UNESP), no ano de 2016. Estes atendimentos foram realizados em dois locais: no Pronto Socorro Infantil do Hospital do Bairro, da cidade de Botucatu - SP e no Pronto Socorro Infantil Referenciado, localizado no HC-FMB-UNESP.

Foram incluídos os atendimentos de pacientes com idade de zero a 15 anos, que haviam recebido atendimento médico relacionado a algum dos seguintes tipos de acidentes: quedas, afogamentos, queimaduras, intoxicações exógenas, acidentes com corpos estranhos, acidentes de trânsito, traumas locais, agressões físicas entre crianças e acidentes com animais. Os traumas locais incluíram ferimentos cortantes, corto-contusos e contusões locais, sem relação direta com nenhum outro tipo de acidente. Os acidentes com corpos estranhos incluíram a ingestão, a aspiração e a colocação de corpos estranhos no ouvido. Os acidentes com animais compreenderam as mordeduras por cães ou por outros animais e as picadas de insetos peçonhentos. As queimaduras incluíram lesões térmicas, químicas e elétricas. As intoxicações exógenas incluíram acidentes relacionados à exposição a agentes químicos, inclusive as substâncias cáusticas. Os acidentes de trânsito incluíram acidentes automobilísticos envolvendo crianças como passageiros de veículos e os atropelamentos. As agressões físicas foram representadas por agressões entre crianças, sem incluir casos de violência praticada por adultos. Foram excluídos os atendimentos que não apresentavam registro adequado de informações. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP (CAAE nº 55911316.7.0000.5411).

As consultas de urgência relacionadas aos acidentes foram analisadas de forma detalhada para obtenção das seguintes informações: idade, sexo, tipo de acidente, período de ocorrência do acidente (matutino, vespertino e noturno), região do corpo atingida, ambiente de ocorrência do acidente, diagnóstico médico definido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e histórico de acidentes pregressos envolvendo a própria criança.

Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística descritiva e analítica. Variáveis quantitativas foram representadas por números absolutos e respectivos valores percentuais. Foram determinados valores de média (± desvios padrão) e mediana (mínimo/máximo). Diferenças entre proporções foram analisadas por meio do teste binomial. A comparação estatística entre as idades dos pacientes de acordo com sexo, tipo de acidente e região do corpo acometida foi realizada pelo do teste de Mann-Whitney, após comprovação da distribuição não paramétrica dos dados pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. O nível de significância considerado foi de 5% e a análise foi realizada no software SPSS 22.0 for Windows.

RESULTADOS

Foram revisados 3612 atendimentos médicos de urgência envolvendo crianças, registrados no ano de 2016. Foram excluídos 213 atendimentos, por não apresentarem informações mínimas nos prontuários médicos. Novecentos e trinta e seis (27,5%) atendimentos estavam relacionados a acidentes. Destes, 588 (62,8%) ocorreram em pacientes do sexo masculino e 348 (37,2%) em pacientes do sexo feminino. A média de idade foi de 71,7 (± 51,7) meses, com mediana de 60 (1 a 180) meses. Na estratificação por sexo, não houve diferença estatisticamente significativa entre as idades dos pacientes (p=0,636). Quatrocentos e noventa (52,3%) acidentes ocorreram com crianças de zero a cinco anos, 245 (26,2%) com crianças de seis a dez anos e 201 (21,5%) com crianças de dez a 15 anos de idade.

A tabela 1 apresenta a distribuição dos acidentes, estratificados pelo tipo de acidente, e os respectivos valores de média e mediana de idade dos pacientes. A figura 1 apresenta a distribuição percentual dos tipos de acidentes, por faixas etárias. Quedas e traumas locais foram os tipos de acidentes mais comuns em todas as faixas etárias analisadas. O grupo de pacientes que sofreu quedas, traumas locais ou que foram vítimas de agressões foi composto por crianças com idade mais elevada do que o grupo de pacientes vítimas de acidentes relacionados a corpos estranhos e intoxicações exógenas (p=0,003).

Tabela 1 Distribuição dos acidentes de acordo com tipo de acidente e idade. 

Tipo de acidente n (%) Idade (meses)
Média ± Desvio padrão Mediana (min/máx)
Quedas 475 (50,7%) 63,9 ± 50,0 48 (1/189)
Traumas locais 276 (29,5%) 85,9 ± 52,8 78,5 (4/204)
Acidentes com corpos estranhos 48 (5,1%) 54,4 ± 37,6 43,5 (11/156)
Acidentes com animais 42 (4,5%) 81,9 ± 46,5 77,5 (12/173)
Queimaduras 32 (3,4%) 62,7 ± 54,2 32,58 (10/176)
Intoxicações exógenas 30 (3,2) 47,7 ± 43,0 31 (4/176)
Agressões 19 (2,1%) 105,2 ± 49,1 120 (12/168)
Acidentes de trânsito 13 (1,4%) 118 ± 48,7 120 (37/187)
Quase-afogamento 1 (0,1%) 9 meses

Figura 1 Distribuição dos tipos de acidentes de acordo com as faixas etárias: A) de 0 a 5 anos; B) de 6 a 10 anos; e C) >10 anos de idade. 

A distribuição dos tipos de acidentes, de acordo com o sexo, é apresentada na tabela 2. Nota-se proporção mais elevada, com significância estatística, de meninos vítimas de quedas, traumas locais e acidentes com animais.

Tabela 2 Distribuição dos acidentes de acordo com tipo de acidente e sexo. 

Tipo de acidente Masculino Feminino p*
n % n %
Quedas 295 62,1 180 37,8 <0,0001
Traumas locais 188 68,1 88 31,9 <0,0001
Acidentes com animais 28 66,7 14 33,3 0,002
Acidentes com corpos estranhos 27 56,2 21 43,8 0,220
Queimaduras 19 59,4 13 40,6 0,133
Intoxicações exógenas 18 60,0 12 40,0 0,121
Agressões 7 36,8 12 63,2 0,104
Acidentes de trânsito 6 46,1 7 53,9 0,694
Quase-afogamento 0 0 1 0 n/a**

p

*teste binomial para duas proporções;

n/a

**n/a: não adequado para cálculo estatístico.

A tabela 3 apresenta a distribuição dos tipos de acidentes de acordo com características específicas e com os diagnósticos médicos estabelecidos pela CID. A região de cabeça, face e pescoço, incluindo os traumatismos cranioencefálicos, foi a mais atingida pelos acidentes causados por quedas. Os traumas locais estiveram mais relacionados às lesões que acometeram os membros superiores e inferiores. Os politraumatismos, por outro lado, acometeram principalmente crianças vítimas de acidentes de trânsito. As vítimas de acidentes que atingiram a região da cabeça e do pescoço apresentaram idade significativamente menor do que as vítimas de lesões em outras regiões do corpo (p<0,001).

Tabela 3 Distribuição dos tipos de acidente de acordo com características próprias e com os diagnósticos estabelecidos pela Classificação Internacional de Doenças (CID). 

Tipo de Acidente (n) Caracterização n % Códigos CID*
Quedas (475) Cabeça, face e pescoço 264 55,5 S01/S01.0/S01.2/S01.3/S01.4/S099
Tórax 3 0,6 S29
Abdome 9 1,9 S36
Membros superiores 112 23,6 S40/S43.0/S50/S52/S60/S62
Membros inferiores 51 10,7 S70/S80/S82/S90/S92
Politraumatismo 24 5,0 T07
Períneo 5 1,1 S31
Não Informado 7 1,6 -
Traumas locais (276) Cabeça, face e pescoço 67 24,3 S00.4/S01/S01.4/S01.5/S05.4/S099
Tórax 5 1,8 S29
Membros superiores 92 33,3 S40/S50/S52/S60/S62
Membros inferiores 105 38,1 S80/S82/S90
Politraumatismo 3 1,1 T07
Períneo 4 1,4 S31
Agressões (19) Cabeça, face e pescoço 8 42,1 S01/S01.2/S01.5/Y04
Tórax 2 10,5 S29
Membros superiores 3 15,8 S60/S80/Y04
Membros inferiores 3 15,8 S80/S90/Y04
Politraumatismo 2 10,5 T07
Não Informado 1 5,3 -
Queimaduras (32) Membros superiores 16 50,0 T22, T23
Membros inferiores 5 15,6 T24, T25
Múltiplas regiões 1 3,1 T29
Cabeça, face e pescoço 9 28,2 T20
Não informado 1 3,1 -
Acidentes de trânsito (13) Politraumatismo 5 38,5 T07
Cabeça, face e pescoço 4 30,9 S01.2/S099
Membros inferiores 2 15,3 S70/S80/S82/S90/S92
Não informado 2 15,3 -
Acidentes relacionados a corpos estranhos (48) Corpo estranho no trato gastrointestinal 33 68,8 T18
Corpo estranho nas vias aéreas 12 25,0 T17
Corpo estranho no ouvido 3 6,2 T16
Intoxicações exógenas (30) Substâncias cáusticas 6 20 T54.3,T18
Outros agentes químicos ou medicamentos 24 80 T50.9,X29
Animais (42) Cães 24 57,1 W54
Outros mamíferos (porcos) 2 4,8 W54
Insetos peçonhentos 16 38,1 W57
Queimaduras (32) Térmicas 21 65,6 T20, T21, T22, T23, T24, T25
Químicas 9 28,2
Elétrica 1 3,1 W87
Não informado 1 3,1 -

*CID: Classificação Internacional de Doenças.

A tabela 4 apresenta a distribuição dos acidentes de acordo com o período do dia e ambiente de ocorrência. Quinhentos e dois (53,6%) atendimentos traziam informações sobre o período do dia em que o mesmo ocorreu e 397 (42,4%) referiam informações sobre o ambiente de sua ocorrência.

Tabela 4 Distribuição de tipos de acidentes de acordo com período do dia e local de ocorrência. 

Variável Característica n %
Período do dia (n=502) Manhã 87 17,3
Tarde 231 46,1
Noite 184 36,6
Local do acidente (n=397) Casa 241 60,7
Rua 103 25,9
Escola 31 7,8
Clube, parques, quadras esportivas 22 5,6

A figura 2 representa a distribuição percentual dos tipos de acidentes de acordo com o ambiente de ocorrência.

Figura 2 Distribuição dos tipos de acidentes de acordo com os locais de ocorrência: A) casa; B) rua; C) escola; e D) clube, parques ou quadras esportivas. 

Novecentos e quatorze (97,6%) atendimentos traziam informações sobre a ocorrência de outros acidentes ao longo da vida. Duzentos e quarenta e três (26,6%) apresentavam história positiva para acidentes prévios. Nenhum dos pacientes analisados evoluiu para óbito.

DISCUSSÃO

Nosso estudo apresenta o perfil dos acidentes na infância, atendidos nos dois serviços de urgência do complexo hospitalar do HC-FMB-UNESP. Estes serviços atendem pacientes da cidade de Botucatu, município de médio porte, do interior do Estado de São Paulo, e são referência em nível terciário, pelo Sistema Único de Saúde, para o atendimento de uma região com população estimada em até dois milhões de pessoas13. A parcela de atendimentos referentes a acidentes na infância foi bastante significativa, representando 27,5% de todos os atendimentos de urgência realizados no ano de 2016. Este índice é superior aos apresentados em outros estudos14,15, o que pode ser justificado pelas características dos serviços, que são referência para atendimento especializado de urgências em pediatria.

A maioria dos pacientes atendidos por acidentes era do sexo masculino, o que vai de encontro com outros estudos nacionais e internacionais14-18. Isso pode ser justificado pelo aspecto cultural das principais atividades e brincadeiras executadas pelos meninos, que habitualmente envolvem maior exposição à força, velocidade e impacto corporal14. Em contraponto, é interessante observar que houve predominância do sexo feminino para os atendimentos que envolviam agressões entre crianças, o que demonstra que os indivíduos de ambos os sexos estão expostos a desentendimentos e eventuais danos causados por agressões físicas. Os dados registrados nos atendimentos não foram suficientes para se analisar o sexo da criança que havia praticado a agressão.

A faixa etária mais acometida pelos acidentes envolveu crianças com até cinco anos de idade. Este achado, também demonstrado em outros estudos16,19,20, pode ser justificado pelo fato de que as crianças desta faixa etária possuem entendimento limitado sobre a exposição a potenciais riscos. Tipicamente apresentam pensamentos mágicos, com percepção egocêntrica e uma lógica própria de interpretação do ambiente, fatores que podem favorecer a ocorrência de determinados tipos de acidentes, principalmente as quedas16.

Os tipos de acidentes mais comuns, em todas as faixas etárias analisadas, foram quedas e traumas locais. Isso vai de encontro à maioria dos levantamentos publicados14-17, confirmando que as quedas representam o principal mecanismo de trauma na infância, podendo causar inúmeras lesões, algumas vezes bastante graves14. No Brasil, a proporção de quedas entre pacientes menores de 15 anos de idade foi a maior causa de hospitalizações no ano de 2017, em todas as faixas etárias5. Os traumas locais, por sua vez, incluem traumas contusos, cortantes e corto-contusos, resultados de contatos e colisões. Esse tipo de acidente também foi bastante comum em outros levantamentos15,16. Em nosso estudo, houve aumento proporcional de sua incidência com o aumento da idade, sendo mais comum em crianças com mais de dez anos de idade. Além disso, os traumas locais ocorreram mais comumente em ambientes fora do domicílio, como na rua, escola e em quadras esportivas e parques, o que pode ser justificado por estarem associados a atividades mais dinâmicas, como brincadeiras ao ar livre e esportes.

O número elevado de acidentes relacionados a corpos estranhos, representados principalmente pela sua ingestão e impactação no tubo digestório, demonstra o quanto esse tipo de acidente é comum na infância, principalmente em crianças abaixo de cinco anos, de forma semelhante ao reportado em outros estudos14,21,22. Os pacientes que foram vítimas de intoxicações ou de acidentes por corpos estranhos eram mais jovens do que aqueles que sofreram os outros tipos de acidentes. Isso pode ser justificado pelo fato de que as crianças até os cinco anos de idade comumente apresentam curiosidade aguçada, buscando conhecer novas coisas, muitas vezes levando esta nova "descoberta" à boca. Desta forma, objetos como moedas, baterias em disco, pregos ou substâncias tóxicas, como a soda cáustica, são ingeridos acidentalmente, podendo levar a lesões graves, com elevada morbimortalidade22-24. Cabe ressaltar que os indicadores relativos aos acidentes com corpos estranhos podem ter sido influenciados pelas características do nosso centro, que atua como uma das poucas referências para o tratamento de urgências endoscópicas em toda a região.

Os tipos de acidentes e os respectivos mecanismos de trauma relacionados tiveram influência direta na topografia das lesões. As quedas estiveram mais relacionadas a lesões na cabeça, face e pescoço. Os traumatismos locais levaram a um número maior de lesões em membros superiores e inferiores. Os politraumatismos, por sua vez, estiveram mais presentes em vítimas de acidentes de trânsito. É interessante notar, também, que as lesões do segmento cefálico foram mais frequentes em crianças mais jovens, quando comparados aos outros segmentos corpóreos. Isso pode ser justificado pela maior relação entre o tamanho da cabeça e o restante do corpo, típica de crianças mais jovens, tornando mais provável uma lesão deste segmento corpóreo25.

Da mesma forma que evidenciado por outros estudos, a maioria dos acidentes ocorreu no período da tarde, dentro do domicílio15,16. Provavelmente, no período da tarde, as crianças estão no ápice de suas atividades, dentro de casa, depois de retornarem do período escolar, e provavelmente sem supervisão. Não haviam informações suficientes nos prontuários analisados a respeito da supervisão das crianças, nos momentos de ocorrência dos acidentes, impedindo uma análise mais específica sobre esse aspecto.

Apesar de os acidentes representarem a principal causa de mortalidade na infância4-6, em nosso levantamento, não houve nenhum óbito registrado nos atendimentos analisados. Vale ressaltar que foram analisados apenas os atendimentos iniciais dos serviços de urgência, e não os dados relacionados a eventuais internações hospitalares em enfermarias ou unidades de terapia intensiva.

A elevada taxa de pacientes que possuíam registros de terem sido vítimas de acidentes pregressos representa, sem dúvida, a exposição repetida destes pacientes à situações de risco. Evitar este tipo de exposição é o principal objetivo das atividades de prevenção, que representam a melhor forma de tratamento para este problema de saúde pública2,4,26. Por tudo isso, acreditamos que este levantamento de dados possa contribuir positivamente, ao fornecer dados do perfil dos atendimentos por acidentes em crianças atendidas em uma cidade de médio porte brasileira, podendo direcionar futuras atividades de prevenção.

Fonte de financiamento: nenhuma.

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Recebido: 04 de Janeiro de 2019; Aceito: 27 de Janeiro de 2019

Endereço para correspondência: Pedro Luiz Toledo de Arruda Lourenção. E-mail: plourencao@gmail.com / lourencao@fmb.unesp.br

Conflito de interesse: nenhum.

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