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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.20 no.7 Rio de Janeiro Aug. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72031998000700002 

Trabalhos Originais

Condiloma Acuminado em Crianças e Adolescentes

 

Condyloma Acuminatum in Children and Adolescents

 

Marta Francis Benevides Rehme, Newton Sérgio de Carvalho, Mauro Fernando Kürten Ihlenfeld, Ana Carolina Silva Chuery

 

 

RESUMO

Objetivo: analisar os fatores epidemiológicos, manifestações clínicas e forma de tratamento da infecção pelo papilomavírus.
Métodos:
todos os casos de condiloma acuminado em crianças e adolescentes atendidas no período de 1990 a 1995 no Ambulatório de Ginecologia Infanto-Puberal foram revisados, tendo sido coletados dados referentes a idade, manifestações clínicas, local das lesões, formas de transmissão e tratamento.
Resultados: entre os 18 casos estudados, a média de idade foi de 6 anos e 11 meses (variando de 2 a 15 anos). A manifestação clínica mais comum foi a presença de verrugas (61,1%). As lesões eram localizadas na região vulvoperineal em 44,4% das pacientes, sendo que lesões perianais e vulvares foram observadas em 27,8% e 22,2% dos casos, respectivamente. Não foi possível confirmar a ocorrência de abuso sexual nem de lesões condilomatosas nos pais em 66,7% dos casos. Provável abuso sexual (não-confirmado) foi relatado em 2 casos. A terapêutica básica foi a cauterização química.
Conclusões: o abuso sexual em crianças e adolescentes com condiloma acuminado deve ser investigado, apesar da existência de outras formas de transmissão, incluindo auto ou heteroinoculação. As formas de apresentação na idade jovem diferem das do adulto, sendo necessária uma terapêutica adequada a essa população.

PALAVRAS-CHAVE: HPV. Condiloma acuminado. Abuso sexual. Doenças sexualmente transmissíveis. Infância e adolescência.

 

 

Introdução

A freqüência de crianças infectadas pelos papilomavírus humano (HPV) tem aumentado e parece ser relacionado ao aumento da incidência de condiloma em adultos1. A avaliação médica e o manejo da infecção pelo HPV em crianças é complicada pelo longo período de latência do vírus, diferentes modos de transmissão e ausência de um regime terapêutico único e eficaz2,3,14. As crianças infectadas são potencialmente de risco para o desenvolvimento de neoplasia intra-epitelial cervical (NIC), neoplasia intra-epitelial vulvar (NIV) e neoplasia intra-epitelial vaginal (NIVA).

O abuso sexual tem sido considerado o principal modo de transmissão e alguns autores consideram que a simples presença de condiloma em crianças pode ser um indicativo de que esteja havendo abuso sexual16. A incidência de abuso sexual em crianças portadoras de HPV tem sido observada em 10 a 90% dos casos, e esta discrepância se deve à maneira como a investigação do abuso sexual foi realizada13.

O objetivo deste trabalho foi de analisar os fatores epidemiológicos, manifestações clínicas e forma de tratamento da infecção pelo papilomavírus e verificação da ocorrência de infecção no país.

 

Pacientes e Métodos

Procedemos à avaliação dos prontuários de 18 crianças e adolescentes portadoras de condiloma acuminado, atendidas no Ambulatório de Ginecologia Infanto-Puberal do Serviço de Ginecologia do Departamento de Tocoginecologia da UFPR no período de 1990 a 1995. Foram tabulados dados referentes a: idade, manifestação clínica, sítio da lesão, possível modo de transmissão e tratamento.

 

Resultados

A idade das pacientes variou de 2 a 15 anos, com média de 6 anos e 11 meses. Metade tinha entre 2 e 5 anos e 33,3% entre 6 e 10 anos (Tabela 1).

 

 

A manifestação clínica predominante foi a presença de verrugas, encontradas em 61,1% das pacientes, estando associadas com corrimento e/ou prurido vulvar em 11% (Tabela 2). Em 44,4% dos casos as lesões ocorreram na região vulvo-perineal. Localizações isoladas em ânus e vulva foram observadas em 27,8% e 22,2% dos casos respectivamente (Tabela 3).

 

 

 

 

A terapêutica básica instituída foi a destruição química em 13 pacientes. Utilizou-se o ácido tricloroacético a 50% (ATA 50%) em 8 casos (em 1 caso associou-se o tratamento com alça diatérmica), e podofilina a 25% em 5 pacientes. Três pacientes foram submetidas a criocauterização e houve 2 casos de cura espontânea (Tabela 4).

 

 

Para determinar a fonte de infecção utilizamos anamnese dirigida para pesquisa de abuso sexual. Foram detectados antecedentes familiares de infecção pelo HPV em 4 pacientes. Em 3 casos os pais eram portadores de verrugas genitais, e um irmão em 1 caso. História de abuso sexual foi relatada em apenas 2 casos e nenhuma delas foi confirmada. Os 12 casos restantes (66,7%) negavam antecedentes familiares e história de abuso sexual (Tabela 5).

 

 

Discussão

Os serviços de atendimento a crianças e adolescentes têm relatado um grande número de lesões condilomatosas em meninas de 3 a 6 anos. Observamos entre nossos casos uma média de idade de 6 anos e 11 meses o que coincide com outros relatos de literatura6,14,15.

Embora na população adulta a infecção pelo HPV seja considerada quase exclusivamente uma doença sexualmente transmissível, outros modos de transmissão podem ocorrer nas crianças como transmissão vertical, inoculação digital ou por meio de outras lesões, fomites1,4. A transmissão vertical é a que ocorre durante o trabalho de parto com transmissão direta da mãe para o recém-nascido, podendo se estender até o período perinatal. A presença de lesões em crianças com menos de 3 anos de idade sugere este modo de transmissão, vista que o período de latência estimado por alguns autores pode variar de 1 a 3 anos. Na maioria das crianças com mais de 3 anos de idade portadoras de verrugas ano-genitais têm sido encontradas evidências de abuso sexual. A confirmação depende de métodos de avaliação com acurácia variável o que leva a uma grande discrepância na prevalência do abuso, que pode variar de 10 e 90%2,3,5,9. Esta dificuldade, também encontramos entre nossas pacientes, visto que não se conseguiu determinar o modo de transmissão na maior parte dos casos. Observamos em nossos resultados que a incidência de abuso sexual no entanto, foi baixa, contrastando com a literatura. Mas, ocorrência de abuso sexual deve sempre ser levado em consideração e investigado.

Outro aspecto importante é que os tipos de vírus que causam papiloma no trato genital são o mesmo para crianças e adultos8. No trabalho de Obalek et al13, no qual se avaliaram crianças com idade entre 7 meses e 12 anos portadoras de verrugas anogenitais, foi constatado uma prevalência de 17,4% de HPV 2 (causadores da verruga comum) e 74% de HPV 6. Este trabalho enfatiza que a auto-inoculação por parte de crianças portadoras de verrugas em mãos, ou heteroinoculação pode ser um modo de transmissão não-sexual13,17.A aquisição do HPV durante a infância e a adolescência não é uma causa imediata de morbidade grave, porém, há fortes evidências que a exposição precoce não somente precipite o desenvolvimento de cânceres anogenitais mas também aumente o risco para o câncer11 .

A manifestação clínica mais freqüente é a presença de verrugas em sua maioria assintomáticas, sendo um achado casual durante troca de fraldas, banhos ou evidenciado pelo pediatra durante o exame físico. Outras queixas incluem dor, prurido e sangramento2,3. Estes dados coincidem com nossos achados, um vez que a presença de verrugas assintomáticas foi observada em 61% das pacientes.

O local mais comum do aparecimento do condiloma acuminado em crianças é a região perianal, podendo se estender até o canal anal. Particularmente nas meninas, pode-se encontrar lesões periuretrais, himenais e em fúrcula vaginal se apresentando de forma irregular ou como múltiplas pequenas pápulas, estendendo-se até grandes e pequenos lábios3,12 .Observamos que em nossa casuística, o local predominante foi vulva e/ou períneo, totalizando 95% dos achados. Em razão das limitações do exame ginecológico em meninas pré-puberes, o condiloma vaginal e cervical é raramente descrito em literatura3. No entanto, nos trabalhos em que se examinaram crianças que sofreram abuso sexual e foram submetidas a coleta de material de lavado vaginal, tem sido descrito achado de DNA de HPV7,12. O diagnóstico diferencial inclui condiloma plano da sífilis secundária, molusco contagioso, pênfigo benigno crônico, histiocitose X, neurofibromatose, rabdomiossarcoma (sarcoma botrióide).

O tratamento ideal do condiloma em crianças deveria ser de baixo custo, efetivo, atraumático e amplamente acessível e infelizmente ainda não é disponível. Os métodos utilizados são a destruição química ou mecânica das lesões por meio de criocauterização, eletrocauterização ou alça diatérmica. Estes métodos apresentam o inconveniente de serem dolorosos e deixarem seqüelas. Para a destruição química tem sido descrito o uso de podofilina a 25%, ATA com concentração entre 50 e 80%, 5-fluorouracil creme (5-FU) 9.

Temos utilizado para o tratamento de infecções pelo HPV o ácido tricloroacético a 50% (ATA 50%), sendo a excisão cirúrgica pelo criocautério ou alça reservada a leões extensas. Embora a podofilina 25% tenha sido utilizada como tratamento, temos reduzido seu uso por causa da absorção desproporcionalmente aumentada em crianças. Calcula-se que 1 cm2 de superfície de pele em uma criança de aproximadamente 3 anos de idade corresponde a uma superfície corporal de 3 cm2 de um adulto. Outro fator que restringe seu uso é a necessidade de remoção com banhos de assento após 4 horas da aplicação. Uma alternativa seria o uso de soluções diluídas de 5 a 15%9.

A resolução espontânea foi observada em 2 casos após medidas locais de higiene prévias ao tratamento que seria instituído, confirmando dados de literatura, embora seja uma forma de evolução ocasional10.

 

 

SUMMARY

Parpose: to analyze the epidemiologic factors, clinical manifestations and forms of treatment of infection with papiloma virus.
Method: all cases of condyloma acuminatum in children and adolescents assisted in the period from 1990 to 1995 in the Service of Children and Adolescent Gynecology were revised. We present the following data: age, diagnosis, clinical manifestations, sites of the lesions, transmission modes and treatment.
Results: the average age of the 18 studied cases, was 6 years and 11 months (ranging from 2 to 15 years). The most common clinical manifestation was the presence of warts (61.1%). The lesions were located in the vulvoperineal area in 44.4% of the patients, and perianal and vulvar lesions were observed respectively in 27.8% and 22,2% of the cases. It was not possible to confirm the occurrence of sexual abuse or of condyloma lesions in the parents in 66.7% of the cases. Probable sexual abuse (not confirmed) was reported in 2 cases. The basic therapy was chemical cauterization.
Conclusions:
sexual abuse in children and adolescents with condyloma acuminatum should be investigated in spite of the existence of other transmission ways including auto- or heteroinoculation. The presentation forms at young age differ from those in adults, and thus an appropriate therapy for this is necessary for this population.

KEY WORD: HPV. Condyloma acuminatum. Sexual abuse. Sexually transmitted disease. Childhood and adolescence.

 

 

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Ambulatório de Ginecologia Infanto-Puberal - Serviço de
Ginecologia do Departamento de Tocoginecologia da
Universidade Federal do Paraná - UFPR
Correspondência:
Marta F Benevides Rehme
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