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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.23 no.4 Rio de Janeiro May 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032001000400008 

Trabalhos Originais

Identificação Ultra-Sonográfica do Sexo Fetal entre a 11a e a 14a Semana de Gestação

 

Identification of Fetal Gender by Ultrasound at 11th to 14th Weeks of Gestation

 

Tânia Regina Schupp, Maria de Lourdes Brizot, Júlio Toyama, Lúcio Sato, Luiz Watanabe, Seizo Miyadahira, Marcelo Zugaib

 

 

RESUMO

Objetivo: determinar a viabilidade da identificação ultra-sonográfica precoce do sexo fetal.
Métodos: foram estudados prospectivamente 592 fetos por meio de exame ultra-sonográfico entre 11 e 14 semanas na Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O tubérculo genital foi determinado como horizontal ou vertical através do plano sagital e correlacionado com o sexo ao nascimento ou ao resultado do cariótipo quando este foi realizado.
Resultados: o sexo fetal determinado pela avaliação ultra-sonográfica coincidiu com o sexo real em 84% dos casos. O sucesso da identificação aumenta com o progredir da gestação, sendo de 72%, 85% e 89% com 11, 12 e 13 semanas, respectivamente. A taxa de acerto também aumenta com o treinamento dos operadores, sendo de 83,5% no início e de 93,6% no final do estudo.
Conclusão: por meio da determinação ultra-sonográfica do tubérculo genital podemos predizer o sexo fetal na maior parte dos casos com potencial aplicabilidade na redução das indicações de procedimentos invasivos para detecção de doenças ligadas ao sexo.

PALAVRAS-CHAVE: Ultra-sonografia fetal. Tubérculo genital. Diagnóstico pré-natal. Feto: crescimento e desenvolvimento. Sexo fetal.

 

 

Introdução

A determinação do sexo fetal por meio da ultra-sonografia no segundo e terceiro trimestre de gestação é um método já consagrado1-3. O aperfeiçoamento tecnológico dos aparelhos de ultra-som e o advento da ultra-sonografia transvaginal impulsionaram a tentativa de identificação do sexo fetal no primeiro trimestre4. A determinação precoce do sexo fetal tem grande importância clínica nos casos de história familiar de doenças ligadas ao cromossomo X, como hemofilia e distrofia muscular tipo Duchenne5,6. Além das implicações clínicas, o conhecimento do sexo fetal é um dos maiores objetos de curiosidade dos futuros pais1,7.

Atualmente, o modo mais efetivo na determinação do sexo fetal no primeiro trimestre é por meio da realização de procedimento invasivo pela biópsia de vilo corial ou amniocentese precoce8. Entretanto, estes métodos têm uma chance de perda fetal, daí a necessidade de se estudar outro método que não apresente este risco8,9.

Estudos recentes demonstraram a possibilidade de predizer o sexo fetal, por meio da ultra-sonografia no período entre 11 e 14 semanas de gestação, pela avaliação da direção do tubérculo genital, com acurácia que varia de 46%, com 11 semanas, até 100% com 13 semanas8-11.

O objetivo deste estudo é analisar a acurácia e os fatores determinantes de erro e acerto do método ultra-sonográfico de identificação precoce do sexo fetal e avaliar a curva de aprendizado do método no nosso meio.

 

Pacientes e Métodos

Entre 17 de novembro de 1998 e 31 de março de 2000, 666 fetos foram avaliados prospectivamente por meio do exame ultra-sonográfico entre 11 e 14 semanas de gestação. Estas pacientes faziam parte da rotina de pré-natal da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na qual todas são submetidas a avaliação ultra-sonográfica da translucência nucal para cálculo de riscos para anomalias cromossômicas e estruturais. A idade das gestantes variou entre 13 e 44 anos com média de 28,8 ± 6,9 anos.

Todas as avaliações foram realizadas pela via transabdominal utilizando sonda de 5.0-MHz do aparelho Toshiba, Coriovision, Tokyo, Japão. A região genital foi avaliada no plano médio-sagital com o feto na posição horizontal com dorso posterior sem extensão da coluna ou membros. Seguindo o contorno da região caudal, neste mesmo plano, observa-se uma proeminência hiperecogênica que representa o tubérculo genital. Foi considerado sexo masculino quando o tubérculo genital estava orientado cranialmente, em relação à região lombo-sacra (Figura 1), e sexo feminino quando orientado horizontalmente (Figura 2).

 

 

 

Foram incluídos neste estudo somente os casos nos quais foi possível obter a visualização do tubérculo genital durante a avaliação da morfologia e da translucência nucal fetal, sem despender tempo extra para este fim.

Os exames foram realizados por cinco médicos ultra-sonografistas experientes na avaliação da anatomia fetal e translucência nucal no primeiro trimestre porém sem treinamento prévio para a avaliação do tubérculo genital. Para avaliar a curva de aprendizado, os exames foram analisados em quatro períodos distintos, com cerca de quatro meses cada um deles. O primeiro período analisado foi entre 17 de novembro de 1998 e 31 de março de 1999, o segundo entre primeiro de abril e 31 de julho de 1999, o terceiro entre primeiro de agosto e 30 de novembro de 1999 e finalmente o quarto período foi entre primeiro de dezembro de 1999 e 31 de março de 2000.

A idade gestacional foi calculada pela data da última menstruação ou pelo comprimento crânio-nádegas, sendo empregada esta última quando a diferença entre elas fosse maior do que sete dias.

A genitália fetal, definida pela ultra-sonografia no primeiro trimestre, foi comparada com o sexo após o nascimento ou com o resultado do cariótipo fetal, quando realizado procedimento invasivo. Foram excluídas da análise setenta e quatro gestantes porque houve abortamento, perda de seguimento ou a gestação ainda estava em curso no momento da conclusão deste estudo. Sendo assim, 592 casos foram analisados.

A análise estatística foi realizada por meio de programa estatístico previamente elaborado para computador (Statistics for Windows ¾ Statsoft, Inc.). Os números foram expressos como média ± desvio padrão. Foram utilizados o teste do c2 e teste t de Student. p < 0,05 foi considerado estatisticamente significante. Este projeto foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

Resultados

Do total de 592 gestantes estudadas, o sexo fetal determinado pela avaliação ultra-sonográfica coincidiu com o sexo real em 497 casos, ou 84% do total.

O acerto do método foi diferente em cada período estudado, segundo a curva de aprendizado mostrada na Figura 3. Houve uma melhora significativa no acerto do sexo do concepto quando comparamos o primeiro (83,5%) e o último (93,6%) período do estudo (p<0,02).

 

 

Em 304 gestantes o sexo fetal determinado pelo exame ultra-sonográfico foi feminino, ao passo que em 288 o sexo ultra-sonográfico foi masculino. Em 301 gestantes o sexo fetal definitivo, determinado após o nascimento ou resultado de cariótipo, foi feminino e nas demais 291 gestantes, foi masculino. Entre as 304 gestantes que tiveram o sexo fetal determinado pela ultra-sonografia como feminino, efetivamente 255 deles era realmente feminino, com acerto global de 84%. Dentre as 288 gestantes com sexo fetal ultra-sonográfico masculino, 242 eram efetivamente do sexo masculino, com acerto global de 84%. Não houve, portanto, diferença gênero-específica na determinação precoce do sexo fetal pelo método ultra-sonográfico (p>0,05).

Em relação à idade gestacional, o sucesso na identificação correta do sexo fetal pelo método ultra-sonográfico foi de 72%, 85% e 89% com 11, 12 e 13 semanas de gestação, respectivamente. Houve uma melhora significativa da determinação do sexo com o aumento do tempo de gestação. No entanto, esta melhora foi às custas de uma melhor determinação do sexo masculino, pois a proporção de acerto do sexo feminino permaneceu estável (Tabela 1, Figura 4). Houve um aumento significativo (p<0,001) no acerto do sexo masculino na 12a semana e 13a semana (p<0,0001) quando comparado ao acerto na 11a semana. Não houve melhora significativa entre o acerto do sexo masculino entre a 12a e 13a semana de gestação (p=0,067). O acerto do sexo feminino foi estatisticamente maior na 11a semana (p<0,02) e igual na 12a e na 13a semana (p=0,94 e p=0,09), quando comparado ao acerto do sexo masculino.

 

 

 

Discussão

O objetivo deste estudo foi demonstrar a determinação do sexo fetal por meio da avaliação da angulação do tubérculo genital durante o exame ultra-sonográfico do primeiro trimestre. Na genitália externa feminina, o ângulo do clitóris varia de ¾20o a +20o da horizontal, e na masculina, este ângulo é maior que 30o e aumenta com o avançar da idade gestacional10. Estes achados são compatíveis com o desenvolvimento embriológico da genitália externa.

Neste trabalho, o sucesso global em correlacionar o tubérculo genital com o sexo real foi de 84%, semelhante ao encontrado em outros estudos10. O acerto aumentou com a idade gestacional, variando entre 72% (11 semanas) e 89% (13 semanas), valores semelhantes aos observados na literatura8. Em gestantes com a mesma idade gestacional, Efrat et al.10, utilizando um ângulo a partir do tubérculo genital com uma linha horizontal passando pela superfície lombo-sacral, classificaram como genitália externa masculina o ângulo maior que 30o e feminina o ângulo menor que 30o. Estes autores observaram acerto de 70,3% com 11 semanas, 98,7% com 12 semanas e 100% com 13 semanas10. Portanto, é possível que a determinação do sexo pela medida do ângulo do tubérculo genital seja mais eficaz que a simples observação da sua posição (horizontal ou vertical).

No presente estudo o acerto do sexo feminino permaneceu constante entre 11 e 14 semanas, enquanto houve um aumento significativo do acerto do sexo masculino, variando de 60% (11 semanas) a 93% (13 semanas). Efrat et al.10 também encontraram aumento do acerto do sexo masculino com o progredir da idade gestacional. Já Whitlow et al.8 não observaram diferença significativa no acerto em relação ao sexo fetal ou à idade gestacional. O erro maior na determinação do sexo masculino com 11 semanas pode ser explicado pelo aumento da angulação do tubérculo genital com o progredir da gestação10.

A análise da curva de aprendizado no presente trabalho demonstra que a determinação precoce do sexo fetal necessita de um treinamento específico. A prática adquirida na realização de exames do primeiro trimestre não foi suficiente para identificação do tubérculo genital. No início do estudo, quando a equipe de ultra-sonografistas ainda não tinha adquirido experiência, o acerto foi de 83,5%, e no final o acerto foi de 93,6%, diferença esta estatisticamente significante. A falta de treinamento prévio para a identificação do tubérculo genital pode ter influenciado o índice de acerto no presente estudo, assim como no estudo de Whitlow et al.8, no qual também participaram seis operadores sem treinamento prévio específico.

Não foi objeto do presente estudo a avaliação do sucesso na visualização do tubérculo genital, entretanto, estudos demonstram sucesso entre 85% e 91%, neste período da gestação8-10. Whitlow et al.8 referem maior sucesso na visualização da genitália com o aumento da idade gestacional, e citam a motivação e habilidade dos operadores como fatores que facilitam a identificação correta do tubérculo genital. A hiperatividade fetal, posição fetal desfavorável, pernas cruzadas ou cordão entre as pernas e obesidade materna foram referidos como fatores que dificultam a visualização da genitália fetal8.

O valor clínico da determinação precoce do sexo fetal por ultra-sonografia é a decisão da necessidade ou não de se indicar procedimento invasivo em gravidez de alto risco para malformações ligadas ao sexo. Os autores concluem que a determinação precoce do sexo fetal é dependente do operador, apresenta uma curva de aprendizado, melhora com a progressão da idade gestacional e apresenta alta correlação com o sexo fetal real (acima de 80%). Entretanto, o sucesso na identificação correta do sexo fetal ainda necessita melhorar para poder substituir com vantagem os procedimentos invasivos.

 

 

SUMMARY

Purpose: to determine the feasibility of early ultrasonographic identification of fetal gender.
Methods: a prospective study in a University Department of Obstetrics and Gynecology. A total of 592 women underwent ultrasonography at 11-14 weeks of gestation. Fetal gender was identified according to genital tubercle position (vertical or horizontal) at sagittal plane and confirmed at birth or by karyotype analysis.
Results: the overall accuracy of correctly assigning fetal gender was 84%. The success of identification increased with gestational age, being 72%, 85% and 89% at 11, 12 and 13 weeks, respectively. The accuracy of correctly identifying fetal sex significantly changed with operator training, being 83.5% at the beginning and 93.6% at the end of the study.
Conclusion: ultrasound determination of fetal gender is feasible, with good accuracy and may be of potential use to avoid invasive testing in family histories of X-linked disorders.

KEY WORDS: Fetal ultrasonography. Prenatal diagnosis. Fetal growth. Fetal gender.

 

 

Referências

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Setor de Medicina Fetal da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Correspondência:
Maria de Lourdes Brizot
Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Rua Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255
Instituto Central, 10o andar - Sala 10.083 ¾ Cerqueira César.
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