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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203On-line version ISSN 1806-9339

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.27 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032005000800006 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Prevalência do hipotiroidismo subclínico e repercussões sobre o perfil lipídico e massa óssea em mulheres na pós-menopausa

 

Prevalence of subclinical hypothyroidism and its effects on lipidic profile and bone mineral density in postmenopausal women

 

 

Eliana Aguiar Petri NahasI; Jorge Nahas-NetoII; Paulo Eduardo Mattos Ferreira SantosIII; Gláucia Maria Ferreira da Silva MazetoIV; Ivete DalbenV; Anaglória PontesVI; Paulo TraimanVII

IProfessora Doutora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
IIProfessor Doutor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
IIIBolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica da Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
IVProfessora Doutora do Departamento de Clínica Médica - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
VProfessora Doutora do Departamento de Saúde Pública - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
VIProfessora Doutora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
VIIProfessor Livre Docente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar a prevalência do hipotiroidismo subclínico e suas repercussões sobre o perfil lipídico e a densidade mineral óssea (DMO) em mulheres na pós-menopausa. Métodos: trata-se de estudo transversal com recuperação de dados de prontuários de pacientes acompanhadas em ambulatório de climatério. Critérios de inclusão: mulheres na pós-menopausa com dosagem do hormônio estimulador da tiróide (TSH) e de tiroxina livre (T4-L). Critérios de exclusão: hipertiroidismo e carcinoma de tiróide. Considerou-se hipotiroidismo subclínico valores de TSH superiores a 5,0 mUI/mL e T4-L normal. Foram selecionadas 320 pacientes (idade 55,2±6,4 anos) divididas em 3 grupos: função tiroideana normal (n=208), hipotiroidismo subclínico (n=53) e hipotiroidismo clínico sob tratamento (n=59). Foram analisados dados clínicos, uso de terapia hormonal, índice de massa corpórea (IMC=kg/m2), perfil lipídico (colesterol total, HDL, LDL, triglicerídeos) e DMO da coluna lombar e fêmur. Na análise estatística, as diferenças entre as médias dos grupos foram comparadas utilizando-se a análise de variância (ANOVA). Para múltipla comparação, assumindo que a variância era diferente entre os grupos, utilizou-se o método de Tukey.
RESULTADOS: o hipotiroidismo subclínico foi diagnosticado em 16,1% dos casos. Os grupos foram homogêneos quanto às características clínicas, IMC e perfil lipídico e uso de terapêutica hormonal. Nas pacientes com hipotiroidismo subclínico ou clínico encontrou-se menor freqüência de osteopenia na coluna lombar e fêmur quando comparadas às eutiroidianas (p<0,001). Houve correlação negativa entre os valores de TSH e DMO da coluna lombar e fêmur (p<0,001). Não se constatou correlação entre os valores de TSH e idade, tempo de menopausa, IMC e perfil lipídico. O total de usuárias de terapia hormonal foi de 65,1%, duração média de 3,43±2,42 anos, não diferindo entre os grupos.
CONCLUSÃO: o hipotiroidismo subclínico com prevalência de 16,1% na pós-menopausa associou-se à baixa DMO, mas sem repercussões sobre o perfil lipídico.

Palavras-chave: Hipotiroidismo; Pós-menopausa; Densidade óssea; Lipides


ABSTRACT

PURPOSE: to evaluate the prevalence of subclinical hypothyroidism and its effects on lipidic profile and bone mineral density (BMD) in postmenopausal women.
METHODS: a cross-sectional study with survey of data from medical records of patients attended at a climacteric outpatient clinic. Inclusion criteria: postmenopausal women with measured thyroid-stimulating hormone (TSH) and free thyroxin (T4-L). Exclusion criteria: hyperthyroidism and thyroid cancer. Values of TSH >5.0 mIU/ml and normal T4-L were considered to be subclinical hypothyroidism. The 329 selected women (55.2±6.4 years) were divided into three groups: normal thyroid function (control) (n=208), subclinical hypothyroidism (n=53) and clinical hypothyroidism under treatment (n=59). Clinical data, hormonal therapy use, body mass index (BMI=kg/m2), lipid profile (total cholesterol, HDL, LDL, triglycerides) and BMD of lumbar column and femur were obtained.
RESULTS: subclinical hypothyroidism was diagnosed in 16.1% of the cases. The groups were homogeneous regarding clinical features, BMI or lipidic profile. BMD in lumbar column and femur was lower in subclinical and clinical hypothyroidism than in euthyroidism (p<0.001). There was a negative correlation between values of TSH and BMD of lumbar column and femur (p<0.001). There was no correlation between TSH values and age, menopause time, BMI, and lipid profile. The total of hormonal therapy users was 65.1%, mean duration of 3.43±2.42 years, not differing between the groups.
CONCLUSION: subclinical hypothyroidism with prevalence of 16.1% in postmenopausal women was associated with lower BMD, with no effects on lipid profile.

Keywords: Hypothyroidism; Postmenopause; Bone density; Lipids


 

 

Introdução

O hipotiroidismo subclínico é definido como elevação dos níveis séricos do hormônio estimulador da tiróide (TSH), tendo a tiroxina livre (T4-L) e a triiodotironina, dentro da taxa de normalidade. Sinais clínicos ou história de doença tiroidiana estão ausentes1,2. A prevalência desta condição na população adulta americana é de 4 a 10%3. Entretanto, em mulheres com mais de 60 anos está presente em até 20%3. O diagnóstico é laboratorial, pela dosagem de TSH, que demonstra alta sensibilidade (98%) e especificidade (92%)2. As manifestações clínicas do hipotiroidismo, a princípio, são inaparentes, graduais e freqüentemente atribuídas ao envelhecimento e ao climatério4. Se nenhuma rotina laboratorial é realizada, muitas mulheres afetadas permanecem sem diagnóstico. Em recente estudo, no qual se realizaram dosagens de TSH e T4-L em 300 pacientes internadas em hospital geral, constatou-se que 12,6% apresentavam disfunções tiroidianas não suspeitadas na internação, entre estas, o hipotiroidismo subclínico em 28,9% dos casos5.

A alta incidência de doenças tiroidianas não reconhecidas clinicamente justifica avaliações laboratoriais rotineiras4,5. Recomenda-se que sejam realizadas dosagens de TSH a cada cinco anos, iniciando aos 35 anos de idade1. O rastreamento está indicado principalmente em mulheres na pós-menopausa, de acordo com sinais e sintomas potencialmente atribuídos às disfunções tiroidianas3. O hipotiroidismo subclínico é freqüente na pós-menopausa, associando-se a efeitos adversos à saúde da mulher que podem ser evitados pela simples dosagem do TSH2,4.

A integridade do aparelho ósseo da mulher na pós-menopausa depende não só de sua condição estrogênica, mas também de outros fatores hormonais. A tiróide, pela ação direta de seus hormônios sobre o metabolismo ósseo, tem papel importante no processo de remodelação óssea6. A elevação dos hormônios tiroidianos estimula a reabsorção óssea, com perda de massa óssea6. Mulheres na pós-menopausa com hipotiroidismo subclínico, usuárias de hormônio tiroidiano (levotiroxina), apresentam menores valores de densidade mineral óssea (DMO) quando comparadas a mulheres eutiroidianas7. A reposição de hormônios tiroidianos em pacientes com hipotiroidismo subclínico poderia interferir negativamente sobre a remodelação óssea e a DMO8.

A relação entre o hipotiroidismo subclínico e o risco cardiovascular é complexa9. Observa-se maior prevalência de aterosclerose aórtica e infarto do miocárdio em mulheres na pós-menopausa com hipotiroidismo subclínico quando comparadas às eutiroidianas, de mesma faixa etária10. Situações de risco para doença coronariana como alterações no perfil lipídico, com hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia, são freqüentemente observadas no hipotiroidismo subclínico9,11. Em recente meta-análise de 195 estudos sobre hipotiroidismo subclínico, encontraram-se evidências relacionando elevados valores de TSH com aumento do colesterol total3.

Baseados nestes dados, o objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência do hipotiroidismo subclínico e suas repercussões sobre o perfil lipídico e a DMO em mulheres na pós-menopausa, atendidas em um ambulatório de climatério.

 

Pacientes e Métodos

Foi conduzido estudo de corte transversal, por meio do levantamento de dados de prontuários. O grupo populacional foi constituído de 320 pacientes, com idade entre 44 a 75 anos, acompanhadas em ambulatório de climatério, de fevereiro a dezembro de 2003. Os critérios de inclusão foram: menopausadas (data da última menstruação há pelo menos 12 meses), avaliação laboratorial incluindo dosagem do TSH, T4-L e perfil lipídico, e com mensuração da DMO prévia. Os critérios de exclusão foram diagnósticos de hipertiroidismo e carcinoma de tiróide. O projeto de pesquisa recebeu parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP (Of. 117/2003).

Todas as pacientes atendidas no ambulatório submeteram-se rotineiramente a anamnese detalhada, exame físico geral e ginecológico. Baseado nas informações dos prontuários, foi preenchido o protocolo para obtenção dos seguintes dados: idade, idade da menarca, paridade, idade e tempo de menopausa, histórico de disfunções tiroidianas, uso ou não de terapia hormonal (TH), peso e estatura. O índice de massa corpórea (IMC) foi calculado dividindo-se o peso pelo quadrado da altura. Seguindo os critérios da Organização Mundial da Saúde12, foi considerado IMC menor que 18,5 como baixo peso, de 18,5 a 24,9 normal, de 25 a 29,9 pré-obesidade, de 30 a 34,9 obesidade classe I, de 35 a 39,9 obesidade classe II e maior ou igual a 40 obesidade classe III.

Classificou-se como portadora de hipotiroidismo subclínico a paciente que apresentasse valores de TSH superiores a 5 mIU/mL, com níveis normais de tiroxina livre T4-L, baseado nos critérios de normalidade segundo os métodos empregados. O TSH e o T4-L foram quantificados pelo Sistema Immulite® (DPC®, USA), que emprega imunoensaio por quimioluminescência, em fase sólida, para uso em analisador automático, designado para leitura quantitativa hormonal. A sensibilidade analítica para TSH foi de 0,002 mIU/mL e para T4-L, de 0,15 ng/dl. Os coeficientes de variação intra-ensaio e interensaio foram, respectivamente, para TSH de 7,0 e 11% e para T4-L, de 7,2%. As taxas de normalidade para os exames são: TSH de 0,49 a 4,67 mIU/mL e T4 -L de 0,71 a 1,85 ng/dL.

Para a análise do perfil lipídico foram obtidos os valores do colesterol total (CT), HDL, LDL e triglicerídeos (TG). O CT, o HDL e o TG foram quantificados por método colorimétrico, utilizando-se reagentes comerciais específicos (Sera-Pak®, Bayer, USA), para uso em analisador bioquímico automático. Calculou-se o LDL pela fórmula de Friedewald, subtraindo-se o valor do CT, da soma do HDL e do TG dividido por cinco. As taxas de normalidade são: CT inferior a 200 mg/dL, HDL superior a 35 mg/dL, LDL inferior a 130 mg/dL e TG inferior a 150 mg/dL.

Foram utilizados os resultados da avaliação da DMO obtidos pela absorciometria de dupla emissão (Dexa) (Sophos®, L-XRA, França), na coluna lombar (L1 a L4) e colo femural. O Dexa usa como fonte o raios-X e mede a DMO em g/cm2, que é expressa em unidades de desvio-padrão (DP). Na classificação dos resultados empregaram-se os critérios da Organização Mundial da Saúde13, que utiliza como faixa de referência a DMO do adulto jovem. Classificou-se DMO como normal quando T-score fosse superior a -1,0 DP da faixa de referência, osteopenia entre -1,0 a -2,5 DP e osteoporose inferior a -2,5 DP. O coeficiente de precisão desse método, em mulheres na pós-menopausa, é de 2%.

Na análise estatística, as diferenças entre as médias dos grupos foram comparadas utilizando-se a análise de variância (ANOVA). Para múltipla comparação, assumindo que a variância era diferente entre os grupos, utilizou-se o método de Tukey. Para verificar a diferença de freqüência entre os grupos, quanto ao uso de terapia hormonal, empregou-se o teste do c2. Na comparação entre os grupos, as diferenças entre as medianas da DMO da coluna e fêmur foram estabelecidas pelo teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, para amostras independentes. A correlação entre pares de variáveis quantitativas foi obtida pelo coeficiente de correlação de Pearson. Os testes estatísticos foram bicaudais, com o nível de significância escolhido de 5%. Os dados foram calculados com o auxílio do software SPSS, versão 10.0.5.

 

Resultados

As pacientes selecionadas foram divididas em três grupos: com função tiroidiana normal (eutiroidianas) (n=208), com hipotiroidismo subclínico (n=53) e com hipotiroidismo clínico, sob tratamento com levotiroxina (n=59). A prevalência do hipotiroidismo subclínico foi de 16,1%. As características clínicas das pacientes dos três grupos foram submetidas à comparação estatística e estão representadas na Tabela 1. Verificou-se que os grupos foram homogêneos paras as seguintes variáveis: idade, idade da menarca, idade da menopausa, paridade e IMC. Os valores médios do IMC foram compatíveis com pré-obesidade ou sobrepeso (de 25 a 29,9 kg/m2), nos três grupos (Tabela 1).

 

 

Confrontando-se os valores de CT, HDL, LDL e TG não se observou diferença entre os grupos (Tabela 2). Baseado nos critérios para a divisão dos grupos, as pacientes com hipotiroidismo subclínico apresentaram maiores valores médios de TSH (7,9±3,2 mUI/mL) e menores de T4-L (1,0±0,3 ng/dL) quando comparadas as eutiroidianas (2,0±1,3 mUI/mL e 1,3±0,3 ng/dL) e com hipotiroidismo clínico em tratamento (3,1±2,0 mUI/mL e 1,3±0,3 ng/dL, respectivamente) (Tabela 2).

 

 

Nas pacientes com hipotiroidismo subclínico e naquelas com hipotiroidismo prévio sob terapêutica, observaram-se valores medianos de DMO compatíveis com osteopenia (T-score de -1,0 a -2,5 DP), na coluna lombar e fêmur. Nas pacientes com função tiroidiana normal, os valores medianos da DMO encontravam-se dentro da normalidade (T-score > -1,0 DP) (p<0,05) (Tabela 3). Houve correlação negativa entre os valores de TSH e a DMO da coluna lombar e do fêmur (p<0,001). Não se observou correlação entre os valores de TSH e a idade, o tempo de menopausa, o IMC e o perfil lipídico.

 

 

Com relação o uso de TH, constatou-se que 65,6% (210/320) eram usuárias, com duração média de 3,4±2,4 anos, e 34,4% (110/320) não usuárias, não havendo diferenças entre os grupos. Entre os esquemas de TH, 51,9% (109/210) utilizavam a associação de estrogênio e progestagênio em esquema combinado-contínuo, 22,4% (47/210) estrogenioterapia isolada, 16,2% (34/210) em seqüencial-cíclico e 9,5% (20/210) fitoestrogênios.

 

Discussão

A freqüência de hipotiroidismo subclínico caracteristicamente aumenta com a idade, particularmente na mulher após a quinta década de vida, com prevalência de aproximadamente 20%3,4. Aproximadamente 2 a 5% dos casos progridem para hipotiroidismo clínico dentro do primeiro ano3,9. Decorre freqüentemente da falência primária da tiróide, em virtude de processo auto-imune de destruição do órgão3. O rastreamento da disfunção tiroidiana, com dosagens séricas de TSH, é recomendado para mulheres na pós-menopausa1,4. Nesta casuística, a avaliação da função tiroidiana, introduzida na rotina do atendimento de mulheres na pós-menopausa em ambulatório de climatério, constatou a presença de hipotiroidismo subclínico em 16,1%.

Na presente pesquisa, as pacientes com hipotiroidismo subclínico, assim como aquelas com hipotiroidismo clínico sob tratamento, apresentaram menores valores médios de DMO na coluna lombar e fêmur, classificada pela densitometria como osteopenia. Houve correlação negativa entre os valores de TSH e a DMO. Por outro lado, nas pacientes com função tiroidiana normal, a DMO encontrava-se dentro da normalidade. Pacientes com hipotiroidismo, sob terapêutica com levotiroxina, têm elevado risco de osteoporose, pois cursam com algum grau de tirotoxicose subclínica medicamentosa14,15. O aumento da tiroxina estimula os osteoclastos, elevando a reabsorção óssea, com perda de osso cortical e trabecular15. Nas pacientes com hipotiroidismo subclínico, o tratamento é controverso pela possibilidade de que a reposição de hormônios tiroidianos interfira negativamente sobre o metabolismo ósseo, elevando o risco de osteoporose4,9,14. Em estudo no qual se avaliou a massa óssea de mulheres com hipotiroidismo subclínico na pós-menopausa, as pacientes foram submetidas a TH isolada ou associada a levotiroxina ou ficaram sem tratamento. Após três anos de seguimento, constatou-se que as pacientes sob TH associada a levotiroxina e aquelas sem tratamento apresentaram redução na DMO quando comparadas ao grupo sob TH isolado. Os autores concluem que a levotiroxina pode afetar os efeitos benéficos da estrogenioterapia sob o ganho de massa óssea em mulheres na pós-menopausa7. Na presente pesquisa, as pacientes com hipotiroidismo prévio e DMO diminuída estavam em tratamento com levotiroxina. Não foram encontrados estudos correlacionando o hipotiroidismo subclínico não tratado com redução da massa óssea.

Neste levantamento não foram constatadas diferenças nos valores de CT, LDL, HDL e TG entre as pacientes eutiroidianas, com hipotiroidismo sob terapêutica e subclínico. Do mesmo modo, Vierhapper et al.16, estudando 4.886 pacientes eutiroideanas e 1.055 com hipotiroidismo subclínico, não demonstraram correlação entre os valores de TSH e de LDL. As pacientes com hipotiroidismo subclínico acompanhado de hipercolesterolemia são consideradas de maior risco cardiovascular9,10. Estudos demonstraram que pacientes com TSH acima de 5,0 mUI/mL têm significativamente maiores valores de colesterol total e LDL quando comparadas a eutiroidianas11,17,18. Em revisão de literatura, se observou redução média de 5% nos valores de CT e LDL em mulheres com hipotiroidismo subclínico, tratadas com levotiroxina, principalmente naquelas com elevados valores pré-tratamento19. Essas observações sugerem que pacientes com hipotiroidismo subclíncio, com hipercolesterolemia, teriam benefícios com a reposição de hormônios tiroidianos. Todavia, questiona-se a efetividade da terapêutica com levotiroxina no hipotiroidismo subclínico, para modificar os riscos cardiovasculares3.

Existem controvérsias com relação ao significado clínico do hipotiroidismo subclínico e suas repercussões sobre a saúde da mulher na pós-menopausa. Os benefícios em detectar e tratar não estão bem estabelecidos quando TSH está entre 5 e 10 mUI/mL, entretanto pode ser benéfico se os valores de TSH encontram-se acima de 10 mUI/mL20. Em estudo de revisão, Tamilia e Silva21 concluem que no hipotiroidismo subclínico a terapêutica seria aconselhável para pacientes com TSH maior que 10 mUI/mL e naquelas com TSH entre 5 e 9 mUI/mL se houver perfil lipídico aterogênico ou doença coronariana. O tratamento com levotiroxina é simples e relativamente barato. Entretanto, a administração difere substancialmente do T4 endógeno, pois é menos ativo, não tem a atividade intrínseca hormonal e tem efeito lipogênico sobre o fígado. Assim, a terapia é justificável quando se evidenciam benefícios para a paciente21.

Desde que as pacientes com disfunções tiroidianas estejam controladas, não há contra-indicações para a TH20. Estima-se que aproximadamente 5% das mulheres na pós-menopausa sejam tratadas com estrogenioterapia e hormônios tiroidianos22. Pelo efeito da primeira passagem hepática, o estrogênio por via oral eleva as concentrações da globulina carreadora da tiroxina (TBG), diminuindo a fração bioativa da tiroxina circulante23. Em 2001, Arafah24, avaliando 250 mulheres na pós-menopausa, com hipotiroidismo em uso de levotiroxina, constatou que necessitam de ajustes na posologia após início da TH. Recomenda avaliação da função da tiróide após 12 semanas de TH em mulheres sob tratamento com hormônio tiroidiano.

As doenças da tiróide, particularmente o hipotiroidismo, são freqüentes na pós-menopausa. Os ginecologistas preocupados com a saúde da mulher devem estar familiarizados com a multiplicidade de sinais e sintomas das disfunções tiroidianas. A disponibilidade da dosagem de TSH na rotina do atendimento torna o diagnóstico direto e barato. O tratamento segue princípios bem estabelecidos. Alguns ginecologistas com formação nessa área poderão executar o tratamento inicial, outros encaminharão as pacientes ao endocrinologista25. Na presente casuística, o hipotiroidismo subclínico, com prevalência de 16,1% em mulheres na pós-menopausa, associou-se a menor DMO, sem repercussões sobre o perfil lipídico.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Eliana Aguiar Petri Nahas
Departamento de Ginecologia e Obstetrícia
Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP – Rubião Júnior
18618-000 – Botucatu – SP
Fone: 14- 3811-6227 – Fax: 14 3882-1933
e-mail: epetri@fmb.unesp.br

Recebido em: 13/5/2005
Aceito com modificações em: 5/8/2005

 

 

Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu (SP), Brasil.

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