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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203On-line version ISSN 1806-9339

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.27 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032005000800008 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Prevalência de sobrepeso e obesidade no climatério

 

Prevalence of overweight and obesity among climacteric women

 

 

Dino Roberto Soares De LorenziI; Eliane BassoII; Petrônio de Oliveira FagundesIII; Bruno SacilotoIV

IProfessor Titular da Unidade de Tocoginecologia da Universidade de Caxias do Sul. Responsável pelo Ambulatório de Climatério da Universidade de Caxias do Sul - UCS - Caxias do Sul (RS), Brasil
IIMédica Ginecologista e Obstetra do Hospital Geral de Caxias do Sul (RS), Brasil
IIIProfessor Titular da Unidade de Ensino em Pediatria e membro do Núcleo de Epidemiologia e Estatística do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade de Caxias do Sul - UCS - Caxias do Sul (RS), Brasil
IVAcadêmico do Curso de Medicina da Universidade de Caxias do Sul - UCS - Caxias do Sul (RS), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar a prevalência de sobrepeso e obesidade entre mulheres climatéricas.
MÉTODOS: estudo transversal de 611 mulheres entre 45 e 60 anos atendidas em serviço de atenção ao climatério entre janeiro e junho de 2003. O peso corporal foi avaliado com base no índice de massa corporal (IMC). Consideraram-se como sobrepeso ou obesidade valores de IMC iguais ou superiores a 25 kg/m2. Foram avaliadas variáveis sociodemográficas, reprodutivas e relacionadas ao estilo de vida. A análise estatística foi realizada por meio do teste do c2 seguido de regressão logística.
RESULTADOS: a maioria das mulheres pesquisadas era pós-menopáusica (52,9%), com média de idade de 51,4 (±4,4) anos. Cerca de 63,7% apresentavam IMC igual ou superior a 25 kg/m2, com prevalência de sobrepeso e obesidade de 33,6 e 30,1%, respectivamente. A prevalência de sobrepeso e obesidade foi maior entre as mulheres com maior idade (OR=1,2; IC 95%: 1,1-1,4) ou não usuárias de terapia hormonal (OR=1,8; IC 95%: 1,2-2,8). O oposto foi observado entre as mulheres sem companheiro fixo (OR=0,7; IC 95%: 0,4-0,9) ou sem ocupação remunerada (OR=0,6; IC 95%: 0,5-0,9).
CONCLUSÕES: neste estudo, a prevalência de sobrepeso e obesidade foi influenciada pela idade e não pelo estado menopausal. A associação entre o estado marital e a ocupação com o IMC reforça a hipótese de a saúde da mulher climatérica não ser influenciada apenas por fatores biológicos, mas também por fatores psicossociais e estilo de vida. A menor ocorrência de sobrepeso e obesidade entre as usuárias de terapia hormonal é explicável por possíveis restrições a sua prescrição entre mulheres previamente com sobrepeso ou obesidade. Porém, mais estudos são necessários para se obterem dados mais conclusivos, idealmente longitudinais.

Palavras-chave: Climatério; Menopausa; Obesidade


ABSTRACT

PURPOSE: to evaluate the prevalence of overweight and obesity among climacteric women.
METHODS: this cross-sectional study included 611 women aged between 45 and 60 years attended at a climacteric clinic from January to June 2003. The prevalence of overweight and obesity was evaluated through the body mass index (BMI). Overweight or obesity was considered when there was a BMI equal or higher than 25 kg/m2. Sociodemographic and reproductive variables as well as life style were also evaluated. The c2 test followed by logistic regression was performed for statistical analysis.
RESULTS: the average age of the studied women was 51.4 (±4.4) years, whereas 52.9% of them were postmenopausal. About 63.7% of them had a BMI equal or higher than 25 kg/m2. The prevalence of overweight and obesity was 33.6 and 30.1%, respectively. The prevalence of overweight and obesity was higher among older women (OR=1.2; 95%IC: 1.1-1.4) or non hormonal therapy users (OR=1.8; 95%IC: 1.2-2.8). The opposite was observed among the women without a professional occupation (OR=0.6; 95%IC: 0.5-0.9) or a steady partner (OR=0.7; 95%IC: 0,4-0,9).
CONCLUSIONS: in this study, the prevalence of overweight and obesity was influenced by age, but not by the menopausal status. The association between the marital status and occupation and the BMI strengthens the hypothesis that the health of the climacteric women may be influenced by biological factors as well as by psychosocial factors and life style. The lowest prevalence of overweight and obesity among the users of hormonal therapy may be explained by possible restrictions in relation to its prescription for women with previous overweight or obesity. Further studies are necessary to get more conclusive results, in particular with longitudinal studies.

Keywords: Climacterium; Menopause; Obesity


 

 

Introdução

A obesidade é reconhecida como doença multifatorial e de caráter epidêmico que, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, atinge mais de 300 milhões de adultos em todo o planeta. Somente os indivíduos portadores de sobrepeso correspondem a cerca de um bilhão de adultos1.

O excesso de peso é particularmente mais prevalente entre o sexo feminino; estima-se que aproximadamente 30% das mulheres ocidentais adultas, em especial nos anos que seguem a menopausa, são portadoras de obesidade. No Brasil, a sua prevalência entre a população feminina adulta chega a 12,5%2. Tal situação tem preocupado as autoridades sanitárias mundiais, por sua relação direta com a ocorrência de hipertensão arterial, diabete melito, doenças cardiovasculares e neoplasias, entre estas o câncer de mama, endométrio e cólon3.

A obesidade é definida como o aumento do depósito de triglicérides nas células adiposas, que por sua vez é decorrente do desequilíbrio entre o consumo e o gasto de energia. Estudos mostram que durante o seu processo de envelhecimento, as mulheres sofrem alterações no perfil metabólico que resultam em modificações na composição e distribuição do tecido adiposo, o que favorece não somente o aumento ponderal, como também a progressão de eventuais processos ateroscleróticos3,4. Essas modificações, muitas além de considerações estéticas, estão reconhecidamente implicadas na gênese e progressão da doença cardiovascular, que, por sua vez, constitui a principal causa de mortalidade, principalmente em indivíduos idosos, tanto do sexo masculino como feminino5.

Como a mulher vive, em média, 5 a 8 anos mais que o homem, o número absoluto de mortes relacionadas às doenças vasculares é significativamente maior no sexo feminino. Além disso, aproximadamente uma em cada duas mulheres vem a falecer em conseqüência de doenças cardiovasculares, sobrepujando os óbitos devidos a todas as neoplasias6.

O índice de massa corporal (IMC) feminino parece atingir os seus maiores valores entre os 50 e 59 anos, período este freqüentemente coincidente com a menopausa. No entanto, a despeito do seu impacto na saúde da mulher, os fatores determinantes da maior prevalência de obesidade entre a população feminina ainda não são totalmente conhecidos4. Permanece incerto se a maior tendência de ganho ponderal entre as mulheres climatéricas é decorrente somente do hipoestrogenismo progressivo que caracteriza essa fase ou se estaria relacionada também a fatores relacionados ao estilo de vida de cada mulher7.

Assim, diante da relevância do tema, o presente estudo tem por objetivo avaliar a prevalência de sobrepeso e obesidade, assim como fatores relacionados a sua ocorrência entre mulheres climatéricas atendidas em um serviço universitário da região sul do Brasil.

 

Pacientes e Métodos

Foram revisados os prontuários de 611 mulheres com idade entre 45 a 60 anos, atendidas no Ambulatório de Atenção ao Climatério da Universidade de Caxias do Sul entre janeiro e junho de 2003.

O ICM é avaliado aplicando a fórmula ICM=peso (kg)/altura2 (m2). Foi categorizado em normal (18,5-24,9 kg/m2), sobrepeso (25,0-29,9 kg/m2) e obesidade (>30,0 kg/m2)7,8.

As demais variáveis analisadas foram: idade, renda familiar per capita, escolaridade, cor, estado marital, ocupação, número de filhos, estado menopausal, idade da menopausa, tabagismo, uso de terapia hormonal e atividade física regular.

O estado menopausal foi definido com base na história menstrual no último ano, sendo categorizado em pré-menopausa, se os ciclos menstruais estavam naturalmente mantidos, e pós-menopausa, se havia amenorréia espontânea por um período igual ou superior a 12 meses consecutivos. Devido à impossibilidade de definição clínica do seu estado menopausal, foram excluídas as mulheres com histerectomia prévia9. Consideraram-se como usuárias de terapia hormonal as mulheres que a utilizavam há pelo menos 12 meses10.

A renda familiar per capita foi obtida pelo somatório total da renda familiar dividida pelo número de componentes da família, tendo como referência o valor do salário mínimo em reais vigente na época da coleta dos dados. A escolaridade foi avaliada com base no número total de anos completos de estudo formal. Em relação à cor, esta foi dicotomizada em branca ou não branca e o estado marital em com ou sem companheiro fixo. A ocupação foi avaliada segundo a referência no prontuário médico de uma atividade remunerada. O tabagismo foi definido como o hábito diário de fumar, independente do número de cigarros11,12.

A atividade física foi avaliada de acordo com os critérios estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (2001)13. Considerou-se sedentária toda mulher sem atividade física regular, ou seja, com freqüência mínima de três vezes por semana e duração não inferior a 30 minutos, independente da modalidade de exercício realizado.

Os dados coletados foram digitados e analisados eletronicamente pelo programa estatístico SPSS - versão 11 (Statistical Package for Social Sciences for Personal Computer). Inicialmente, foram descritas as freqüências simples, médias e desvio padrão. A análise bivariada foi possível por maio do teste não paramétrico do c2. A seguir, com o objetivo de avaliar a associação entre as variáveis estudadas e o desfecho (IMC >25 kg/m2), procedeu-se à regressão logística. Em todas as análises estatísticas realizadas, aceitou-se nível de significância de 5%.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê Ética em Pesquisa da Universidade de Caxias do Sul.

 

Resultados

A média de idade da população estudada foi de 51,4 (±4,4) anos, sendo 71,7% de cor branca (Tabela 1). A prevalência global de sobrepeso e obesidade foi de 63,7%, com IMC médio de 27,4 kg/m2 (±5,1). Sobrepeso e obesidade foram observados em 33,6 e 30,1% dos casos, respectivamente (Figura 1).

 

 

 

 

Em relação à escolaridade, as mulheres pesquisadas referiram média de 5,5 (±1,8) anos completos de estudo. A sua renda familiar média, por sua vez, atingiu valores ao redor de 1,4 (±0,6) salário mínimo per capita. A maioria não tinha ocupação remunerada, sendo esta referida por somente 37% da população estudada (Tabela 1).

Cerca de 69,4% tinha um companheiro fixo. Trinta e três mulheres (5,4%) eram nuligestas, ao passo que entre as demais verificou-se média de 3,3 (±1,4) filhos (Tabela 1).

A idade média de ocorrência da menopausa foi de 47,7 (±4,6) anos, sendo 52,9% da população pesquisada pós-menopáusica. Somente 17,2% eram usuárias de terapia hormonal, ao passo que 27,5% tinham atividade física regular (Tabela 1).

Verificou-se inicialmente associação significativa entre a ocorrência de sobrepeso e obesidade (IMC >25 kg/m2) e as variáveis ocupação, estado marital e terapia hormonal (Tabela 1). A prevalência de obesidade e sobrepeso foi maior entre as mulheres sem companheiro fixo (p=0,03) e sem ocupação remunerada (p<0,01). Em contrapartida, a terapia hormonal associou-se a menor prevalência de sobrepeso e obesidade (p<0,01).

Com o uso de análise por regressão logística (Tabela 2), as variáveis idade, estado marital, ocupação e uso de terapia hormonal associaram-se à prevalência de sobrepeso e obesidade. Quanto maior a idade (OR=1,2; IC 95%: 1,1-1,4), maior a prevalência de sobrepeso e obesidade. Esta, por sua vez, foi significativamente menor entre as mulheres sem companheiro fixo (OR=0,7; IC 95%: 0,4-0,9), sem ocupação remunerada (OR=0,6; IC 95%: 0,5-0,9) ou que confirmaram o uso de terapia hormonal (OR=1,8; IC 95%: 1,2-2,8).

 

 

Discussão

A prevalência de sobrepeso e obesidade neste estudo foi de 63,7%, valor próximo ao relatado por outros autores. Segundo a literatura, a prevalência de obesidade chega ao redor de 60% nos anos que antecedem a menopausa, tendendo a acentuar-se nos anos pós-menopausa14.

Na cidade de Cuiabá, levantamento envolvendo 354 mulheres climatéricas encontrou prevalência de sobrepeso e obesidade de 71%, valor este próximo aos 75% observados em um grupo de 154 mulheres residentes no município de São Paulo15,16. Em particular, a prevalência de obesidade (34,0%) entre as mulheres pesquisadas mostrou-se semelhante à encontrada entre 518 mulheres com idade entre 45 e 65 anos residentes no município de Campinas (33,6%)17.

O IMC médio entre a população estudada foi de 27,4 kg/m2, valor este semelhante aos 27,2 kg/m2 encontrado em estudo de base populacional também realizado no município de Campinas envolvendo 473 mulheres climatéricas18, porém inferior aos 29,3 kg/m2 observado em pesquisa no município de São Paulo16.

A possível influência do estado menopausal no peso corporal tem sido objeto de investigações por parte de diversos autores. Neste estudo não se identificou associação entre este e o IMC. Contudo, é reconhecida a dificuldade de se estabelecer uma associação definitiva entre o ganho ponderal excessivo e a menopausa. Os estudos concernentes a esta questão são freqüentemente contraditórios e até divergentes19,20.

Segundo a literatura, nos anos que antecedem a menopausa, as mulheres chegam a ganhar até 0,8 kg/ano, aumento este que, após a menopausa, pode corresponder a 20% da gordura corporal total20,21. Todavia, a maior predisposição de ganho ponderal após a menopausa parece não ser devida somente à deficiência estrogênica, mas principalmente a ingestão de alimentos superior às necessidades energéticas da mulher nessa faixa etária, pela redução do metabolismo basal e pela maior tendência ao sedentarismo decorrentes do próprio processo de envelhecimento22.

O hipoestrogenismo estaria basicamente implicado na modificação da distribuição da gordura corporal, hipótese esta reforçada pela tendência de acúmulo de gordura abdominal (padrão andróide) entre as mulheres após a menopausa4,20-22. Durante a menacne, o estrogênio estimula a atividade da lipase lipoprotéica, causando lipólise abdominal e acúmulo de gordura com padrão de distribuição ginecóide. Com a menopausa, a diminuição da lipólise abdominal permite maior acúmulo de gordura abdominal, esta reconhecidamente implicada em maior risco cardiovascular, câncer de endométrio e de mama13. O acúmulo de gordura central favorece também maior resistência insulínica, o que explica a maior prevalência de diabetes melitus não insulino-dependente após a menopausa22.

O exercício físico, por sua vez, não somente aumenta a freqüência cardíaca e a oxigenação tecidual, como favorece a redução da gordura abdominal, reduzindo assim o risco cardiovascular19. Neste estudo, a atividade física não se associou à ocorrência de sobrepeso e obesidade, porém é necessário considerar que não foi utilizado instrumento específico para a sua avaliação, ainda que tenham sido usados critérios reconhecidos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia para avaliar a sua freqüência e intensidade. É importante destacar também que o Ambulatório de Climatério da Universidade de Caxias do Sul atende pessoas de baixa renda e pouca escolaridade, o que dificulta o seu acesso à atividade física orientada, o que pode ter comprometido a qualidade do exercício praticado, bem como o seu impacto no IMC.

A associação entre a terapia hormonal e menores taxas de sobrepeso e obesidade merece atenção, devido ao fato de a literatura se mostrar controversa quanto a esta questão. A despeito do seu efeito comprovado na preservação da massa óssea, a sua ação sobre os músculos e a gordura corporal ainda não é totalmente conhecida21. A administração de estrógenos parece estimular a atividade da lipase lipoprotéica, causando maior lipólise em nível glúteo/femural e abdominal9 .

A influência da terapia hormonal no ganho ponderal é controversa23. Em 2000, Crawford et al.24, ao investigarem possíveis fatores associados ao ganho ponderal de 418 mulheres com idade entre 50 e 60 anos, não identificaram qualquer relação entre a transição menopausal ou o uso de terapia hormonal com o peso corporal. Todavia, os fatores comportamentais relacionados ao estilo de vida, à prática de exercícios e ao consumo de álcool foram os mais fortemente associados ao ganho ponderal entre as mulheres pesquisadas.

Estudo longitudinal revelou menor ganho ponderal entre usuárias de terapia hormonal em relação a um grupo controle após um período de 15 anos de seguimento25. Estudo semelhante realizado no Chile com 271 mulheres com idade entre 40 e 53 anos revelou, após cinco anos de acompanhamento, aumento médio de 4,0 kg. No entanto, o aumento de peso entre as mulheres que vivenciaram a menopausa não variou significativamente em relação às mulheres que se mantiveram menstruando, sendo o mesmo observado entre as usuárias e não usuárias de terapia hormonal26 .

A constatação neste estudo de menor prevalência de sobrepeso e obesidade entre as usuárias de terapia hormonal talvez se deva à tendência atual de não prescrevê-la para mulheres previamente obesas, portadoras de hipertensão arterial, diabete ou com doença cardiovascular estabelecida, o que pode ter interferido nos resultados obtidos3. Ademais, freqüentemente, as pacientes que optam pela terapia hormonal têm maior preocupação com as questões estéticas, manifestando maior cuidado com a alimentação, o que pode também ter interferido nas análises realizadas.

O menor risco de sobrepeso e obesidade entre mulheres sem companheiro fixo e sem ocupação remunerada reflete a influência de outros fatores, além dos estritamente biológicos ligados ao processo de envelhecimento, no ganho ponderal no climatério. Este achado é explicável por possíveis diferenças no estilo de vida e alimentação entre essas mulheres estudadas, assim como por fatores psicossociais, entre estes a maior ou menor preocupação com a imagem corporal24.

Nos Estados Unidos da América, pesquisa envolvendo mulheres com idade entre 25 e 64 anos não conseguiu demonstrar diferenças significativas entre as mulheres classificadas como donas de casa e as mulheres com uma ocupação remunerada no que tange à obesidade. O mesmo estudo revelou que as mulheres formalmente empregadas tendiam a apresentar uma dieta menos aterogênica27. Outros estudos, por sua vez, demonstraram que as mulheres donas de casa tendem a apresentar melhor perfil lipídico e menor ganho ponderal em relação às mulheres com ocupação remunerada, o que atribuíram a possível maior dificuldade por parte dessas últimas em cuidar de sua alimentação, assim como maior escassez de tempo para praticar exercícios físicos regularmente28,29.

Quanto à relação entre o estado marital e o ganho ponderal no climatério, pesquisadores têm apontado para o fato de a qualidade de vida e o nível de autocuidado tenderem a ser maiores entre as mulheres climatéricas com um companheiro fixo30. Entre a população pesquisada, as mulheres sem companheiro fixo apresentaram maior prevalência de sobrepeso e obesidade, fato este explicável por possíveis diferenças de estilo de vida ou, talvez, por eventuais estados depressivos ou menor auto-estima decorrentes da percepção de um envelhecimento solitário25,30.

Os achados do presente estudo reforçam a teoria de que a prevalência de sobrepeso e obesidade no climatério não seria somente influenciada por fatores biológicos relacionados ao hipoestrogenismo ou do uso de terapia hormonal, mas também por fatores psicossociais e relacionados ao estilo de vida13.

Ainda que a extrapolação de seus resultados para a população geral não seja possível, visto ser estudo realizado em um ambulatório especializado ligado a uma instituição universitária, espera-se que estes possam contribuir ou mesmo servir de referência para outras pesquisas relacionadas ao tema em questão, idealmente estudos longitudinais.

 

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Endereço para correspondência
Dino Roberto Soares De Lorenzi
Rua Bento Gonçalves 1759/602
95020412 - Caxias do Sul - RS
e-mail: dlorenzi@terra.com.br

Recebido em: 29/4/2005
Aceito com modificações em: 6/9/2005

 

 

Ambulatório de Atenção ao Climatério da Universidade de Caxias do Sul - UCS - Caxias do Sul (RS), Brasil.

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