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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203On-line version ISSN 1806-9339

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.28 no.9 Rio de Janeiro Sept. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032006000900007 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Efeitos das isoflavonas sobre o assoalho pélvico e a vascularização peri-uretral de mulheres na pós-menopausa

 

Effects of isoflavones on the pelvic floor and the periurethral vascularization of postmenopausal women

 

 

Leni Aparecida Spagna AccorsiI; Mauro Abi HaidarII; Ricardo Santos SimõesIII; Alfeu Cornélio Accorsi NetoIV; Rejane MosquetteV; José Maria Soares JuniorVI; Edmund Chada BaracatVII

IPós-graduanda do Departamento de Ginecologia – Universidade Federal de São Paulo UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil
IIProfessor Adjunto do Departamento de Ginecologia – Universidade Federal de São Paulo UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil
IIIResidente em Ginecologia e Obstetrícia – Universidade Federal de São Paulo UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil
IVProfessor Adjunto do Departamento de Ginecologia – Faculdade de Medicina de Catanduva FAMECA – Catanduva (SP), Brasil
VFisioterapeuta, Pós-graduanda do Departamento de Ginecologia – Universidade Federal de São Paulo UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil
VIProfessor Adjunto do Departamento de Ginecologia – Universidade Federal de São Paulo UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil
VIIProfessor Titular do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil; Professor Titular da Disciplina de Ginecologia da Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar a força muscular do assoalho pélvico e os vasos periuretrais de mulheres na pós-menopausa, antes e após seis meses de uso contínuo de extrato de soja.
MÉTODOS: estudo prospectivo com 30 mulheres na pós-menopausa antes e após o uso de extrato de soja (100 mg/dia) durante seis meses consecutivos. Foram investigadas a perda urinária e a força muscular do assoalho pélvico por perineômetro digital e avaliação funcional. Avaliou-se ainda o número de vasos da região peri-uretral pela dopplervelocimetria. Para comparar os resultados antes e após tratamento, utilizou-se o teste pareado t de Student.
RESULTADOS: das 30 mulheres analisadas, 20 referiram alguma forma de perda urinária no inicio do experimento. A melhora deste sintoma ocorreu em 15 (75%) mulheres após o tratamento. A medida da pressão vaginal (força muscular do assoalho pélvico) foi 12,9±1,7 e 15,8±1,8 Sauers, respectivamente, antes e após o tratamento (p<0,001). Observou-se aumento da pressão em 22 (73,3%) mulheres no final do estudo. Na avaliação funcional, verificou-se que 12 mulheres não sofreram alteração da função muscular do assoalho pélvico, ou seja, 18 (60%) tiveram aumento da força muscular. Pelo exame ultra-sonográfico (Doppler) obtivemos no início do experimento 2,20±0,15 vasos sanguíneos/campo, passando para 3,4±0,2 vasos sanguíneos/campo ao final do experimento (p<0,001). Em 21 mulheres (70%) registrou-se aumento do número dos vasos peri-uretrais após os seis meses de tratamento.
CONCLUSÃO: ressalta-se que são resultados preliminares, havendo necessidade de outras investigações com número maior de participantes em estudo duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. Contudo, o tratamento com extrato de soja, por seis meses consecutivos, determinaria aumento da força muscular do assoalho pélvico e do número de vasos peri-uretrais em mulheres na pós-menopausa.

Palavras-chave: Isoflavonas/uso terapêutico; Soalho pélvico; Pós-menopausa; Uretra/efeitos de drogras/fisiologia/ultrasonografia; Fluxometria por laser-doppler


ABSTRACT

PURPOSE: to evaluate muscular strength of the pelvic floor and the periurethral vessels of postmenopausal women before and after six months of soybean extract treatment.
METHODS: the study was conducted on 30 postmenopausal women before and after six consecutive months of soyabean extract (100 mg/day) administration. Urinary loss and muscular strength of the pelvic floor were investigated through digital perineometer and functional evaluation. Digital color Doppler in the periurethral region was used to count the number of vessels. For statistical analysis, the paired Student t test was applied to compare the results before and after the treatment.
RESULTS: twenty women reported urinary incontinence before the treatment period. The amelioration of this symptom was observed in 15 (75%) women after the treatment. Vaginal pressure (muscular strength of the pelvic floor) was 12.95±1.73 and 15.86±1.86 Sauers, before and after the treatment, respectively (p<0.001). Twenty-two women (73.3%) presented an increase in the pressure at the end of this study. In relation to the function evaluation, 18 (60%) had improvement in muscular strength and 12 women did not present any change. On ultrasonography (Doppler), the number of vessels was 2.20±0.15 blood vessels/field in the beginning of this study and 3.46±0.25 blood vessels/field at the end of the treatment (p<0.001). An increase in the number of periurethral vessels was detected in 21 women (70%).
CONCLUSION: it is important to emphasize that these are preliminary results. A double blind randomized and placebo-controlled clinical trial with a high number of participants is necessary. However, the treatment with concentrated soybean extract (100 mg per day) for six consecutive months may determine an improvement in pelvic floor muscular strength and an increase in the number of periurethral vessels in postmenopausal women.

Keywords: Isoflavone/therapeutic use; Pelvic floor; Postmenopause; Urethra/drug effects/physiology/ultrasonography; Laser-doppler flowmetry


 

 

Introdução

Na pós-menopausa, a deficiência de estrogênios propicia sintomas desagradáveis que implicam na piora da qualidade de vida. A longo prazo, as manifestações tardias do hipoestrogenismo determinam alterações da pele e dos órgãos urogenitais, bem como o aparecimento de doenças cardiovasculares e osteoporose1.

Em relação às alterações dos órgãos urogenitais, além do efeito do hipoestrogenismo, há processos de envelhecimento na região pélvica que determinam enfraquecimento do assoalho pélvico, que levam a diminuição da força e da massa muscular2,3. A força muscular depende do tipo de fibra muscular, da vascularização e do trofismo do tecido3,4. Assim, a menor vascularização pélvica determina menor irrigação tecidual, contribuindo para a atrofia muscular, ocorrendo diminuição da pressão uretral por perda do coxim vascular sobre a uretra, diminuição da força muscular, havendo a incontinência urinária de esforço4,5.

A avaliação do assoalho pélvico é fundamental para identificar problemas no sistema urogenital que possam afetar a qualidade de vida da mulher. Ortiz et al.6 estabeleceram uma escala para avaliação da força da musculatura do assoalho da pelve com o uso de perineômetro. Com este método, Moreira7 relatou que mulheres com incontinência urinária apresentavam redução significante da função muscular do assoalho pélvico em comparação com mulheres continentes.

Apesar dos benefícios já conhecidos com a terapia hormonal, a adesão é pequena, cerca de 10 a 20%8. Várias alternativas à terapia estroprogestativa estão sendo avaliadas, entre elas as isoflavonas, que apresentam afinidade pelos receptores de estrogênio, que seriam responsáveis pelos seus efeitos agonistas9. O interesse no estudo das isoflavonas como alternativa terapêutica advém de vários estudos publicados realçando os efeitos das isoflavonas nos sintomas menopáusicos9,10, vagina e endométrio10,11 e na mama10.

Há vários trabalhos na literatura mostrando o benefício da terapia hormonal clássica sobre a força muscular do assoalho pélvico12. Deve-se salientar que a reposição estrogênica em mulheres na pós-menopausa leva a nítido aumento no número de vasos peri-uretrais, os quais foram submetidos à dopplervelocimetria13,14. Contudo, não há dados na literatura sobre os efeitos das isoflavonas sobre o assoalho pélvico e a vascularização periuretral. Assim, este estudo piloto tem como objetivo analisar a perda urinária, a força muscular do assoalho pélvico e o número de vasos periuretrais em mulheres na pós-menopausa antes e após seis meses de tratamento com extrato concentrado de soja.

 

Métodos

Foram incluídas 30 mulheres na pós-menopausa, atendidas no ambulatório do Setor de Climatério da Disciplina da Ginecologia da Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA), no período de novembro de 2003 a maio de 2004. O projeto foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FAMECA. Foram submetidas aos exames do protocolo de pesquisa. esclarecimentos pormenorizados sobre o estudo, concordarem com todos os procedimentos previstos e assinarem o Termo de Consentimento Informado, as pacientes submeteram-se a anamnese e aos exames físico geral e ginecológico minuciosos na fase de pré-seleção. Além disto, as pacientes receberam informações básicas sobre noções anatômicas da função do assoalho da pelve e do equilíbrio vésico-esfincteriano.

Foram incluídas para participar do estudo apenas as que preencherem os seguintes critérios: idade entre 45-55 anos; amenorréia por pelo menos 12 meses, com concentração de hormônio folículo-estimulante (FSH) superior a 40 mU/mL; não estar fazendo uso de qualquer medicamento hormonal especifico para a síndrome do climatério nos últimos 12 meses; não estar usando soja e seus derivados. Todas deviam apresentar exame físico normal e índice de massa corporal (IMC) até 30 kg/m² (Tabela 1).

 

 

Foram excluídas do estudo as pacientes que apresentavam: neoplasia conhecida ou suspeita de ser estrogênio - dependente; evidência de alterações malignas na mamografia pré-estudo; esfregaço citológico cervical diagnosticado como classe III ou mais; doença renal, tiroidiana ou hepática crônica; acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio; distúrbios tromboembólicos (trombose, tromboflebite); diabetes; hipertensão arterial sistêmica não controlada (>160 mmHg para sistólica ou >100 mmHg para a diastólica); e aquelas que não conseguiam contrair o assoalho pélvico.

Todas as medicações e procedimentos concomitantes foram levados ao conhecimento do investigador médico. Já o exame dopplervelocimétrico dos vasos periuretrais foi feito pelo ultra-sonografista, que não tinha acesso às informações sobre a medicação ou outros conhecimentos que pudessem interferir no estudo (cegamento do avaliador). Após a fase de seleção, cada paciente recebeu cápsulas contendo extrato concentrado de soja com 70% de proteína de soja e 30% de isoflavonas (100 mg com 66, 32 e 2%, respectivamente das isoformas de genisteína, daidzeína e gliceteína -NUTRAMED, São Paulo/SP), sendo que cada paciente recebia 30 cápsulas, devendo tomar uma ao dia por via oral. Além disso, as pacientes anotavam o número de comprimidos ingeridos, bem como eventos adversos que pudessem ter e medicamentos concomitantes no cartão diário. Após 30 dias essas pacientes retornavam para exames periódicos e recebiam mais 30 cápsulas e o cartão era analisado, sendo este procedimento realizado por seis meses. Todas as pacientes, no início e no final do estudo, foram submetidas a exame físico geral e ginecológico. Dentre os dados do exame físico geral, avaliaram-se os níveis pressóricos, bem como o peso e altura para determinação do IMC; avaliação subjetiva da perda de urina; avaliação objetiva do assoalho pélvico por perineômetro; avaliação funcional do assoalho pélvico, por palpação digital vaginal (AFA) e avaliação do número de vasos periuretrais por dopplervelocimetria.

Avaliação subjetiva da perda de urina: a perda de urina foi avaliada por meio do relato da paciente quanto à perda de urina antes e após os seis meses da medicação. A avaliação objetiva do grau de função da musculatura do assoalho pélvico foi determinada pela medida da pressão vaginal com o auxílio de perineômetro digital KG 40, da marca Kroman, com graduação de 0 a 100 Sauers. Para a obtenção das medidas, utilizou-se sensor vaginal, revestido com preservativo lubrificado introduzido na vagina da paciente, deixando-se aproximadamente 1 cm no meio exterior. Esta localização permitiu que a porção localizada a aproximadamente 3,5 cm do intróito vaginal estivesse em contato com o sensor. No inicio, o aparelho era calibrado e a medida era tomada após a paciente realizar uma contração do assoalho pélvico, visualizando-se no visor a graduação da avaliação da pressão de contração. O uso deste aparelho exige supervisão técnica rigorosa, para garantir que a pressão intra-abdominal não esteja sendo medida, ao invés da contração real do assoalho da pelve. Portanto, as avaliações antes e após os seis meses de tratamento foram realizadas pelo mesmo investigador.

A avaliação funcional consistiu em analisar a função da musculatura do assoalho pélvico, pela visualização da contração desta musculatura e da percepção táctil à palpação digital vaginal (AFA) durante esta contração. A paciente, em posição ginecológica, foi orientada a contrair os músculos perineais e depois, repetia a contração muscular com os dedos indicador e médio do examinador introduzidos na vagina. Baseados neste procedimento as pacientes foram avaliadas da seguinte maneira: Grau 0 - sem contração perineal visível, nem à palpação (ausência de contração); Grau 1 - sem contração perineal visível, contração reconhecível somente à palpação; Grau 2 - contração perineal fraca, contração fraca à palpação; Grau 3 - contração perineal presente e resistência não opositora à palpação; Grau 4 – contração perineal presente e resistência opositora não mantida mais do que cinco segundos à palpação, e Grau 5 - contração perineal presente e resistência opositora mantida mais do que cinco segundos à palpação15.

A dopplervelocimetria para avaliação dos vasos periuretrais foi realizada em equipamento ATL- 9/HDI 2000, com transdutor transvaginal setorial de freqüência variável entre 5 e 9 MHz. A posição adotada para o exame foi o decúbito dorsal horizontal, em posição subclitoridiana, sem adentrar a vagina. As pacientes encontravam-se com a bexiga cheia, o que permitia sua fácil identificação, assim como do colo vesical, da uretra e da borda inferior da sínfise púbica. Estabeleceu-se, como região de estudo, uma área em forma de trapézio, sempre do mesmo tamanho, englobando o colo vesical, a uretra proximal e média, toda a região periuretral e a sínfise púbica. Foram contados os vasos sanguíneos dessa região, caracterizados por pontos brancos sob um fundo azul. Optou-se pelo menor cursor possível para diminuir a probabilidade de sobreposição de achados de dois vasos próximos.

 

Análise estatística

O critério usado para a determinação do tamanho amostral (n = número de participantes) foi baseado na lei dos grandes números e no teorema central do limite, que mostra o comportamento da média amostral como muito próximo da distribuição de Gauss para "n" ser considerado grande. Neste estudo, com distribuição das variáveis homogêneas o número de 30 pacientes foi considerado adequado.

Para análise dos dados obtidos foi utilizada análise estatística inferencial, teste t de Student pareado e o coeficiente de correlação de Pearson para as variáveis analisadas antes e após o tratamento (p<0,05).

 

Resultados

Na avaliação subjetiva das 30 participantes, detectou-se que 20 mulheres (66,7%) referiram alguma forma de perda de urina antes do tratamento. Após seis meses de tratamento, 5 pacientes (16,7%) referiram perda de urina (p<0,001).

A avaliação objetiva da pressão vaginal (força muscular do assoalho pélvico) pelo perineômetro registrada no início foi de 12,9±1,7 Sauers e após a terapia com extrato de soja foi 15,8±1,8 Sauers (p<0,001). Este aumento ocorreu em 22 mulheres (73,3%), sendo que em 5 (16,6%) ocorreu redução da força e 3 (10%) não mostraram alteração após tratamento com extrato de soja (Tabela 2).

Na avaliação funcional da força muscular do assoalho pélvico, os resultados mostram que houve aumento significante em 18 (60%) mulheres após o tratamento, entretanto, em 7 (40%) não se observou nenhuma mudança (Tabela 3).

Em relação à contagem do número de vasos periuretrais pela dopplervelocimetria durante o exame ultra-sonográfico, foi obtido média de 2,2±0,1 e 3,4±0,2 vasos/região, respectivamente antes e no final do período de tratamento (p<0,001). Com relação ao número de mulheres, verificou-se que 21 (70%) mulheres apresentaram aumento no número de vasos, em 3 (10%) ocorreu diminuição e em 6 (20%) não ocorreu alteração (Tabela 2).

 

Discussão

Representa o climatério o período da vida em que a mulher sofre modificações regressivas decorrentes da redução dos hormônios sexuais, principalmente os estrogênios produzidos pelos ovários16. Entre elas destacam-se as alterações do assoalho pélvico13,14. O hipoestrogenismo acarreta, em geral, atrofia das estruturas responsáveis pela estática pélvica. Os aparelhos de suspensão e de sustentação, pela insuficiência circulatória, tornam-se frouxos e com menor elasticidade. Notam-se, nos diafragmas pélvico e urogenital, redução da massa muscular e aumento do colágeno, justificando o aparecimento de prolapso genital e a incontinência urinária17-19.

Os fitoestrogênios têm atividades biológicas semelhantes às dos estrogênios20. A ação deles no trato urinário baixo é ainda pouco conhecida. Não existem trabalhos que tenham mostrado possível relação entre o uso de isoflavonas e alterações nesta região.

Ao efetuarmos a avaliação objetiva da musculatura do assoalho pélvico, pelo perineômetro digital antes e após o uso de 100 mg/dia de extrato de soja durante seis meses, verificamos que houve aumento da força muscular em 73,3% das mulheres, sugerindo efeito da isoflavona similar aos estrogênios21, o que sugere susceptibilidade urogenital a esses hormônios, reforçada pelo achado de receptores hormonais na musculatura pélvica e no trato urinário baixo12.

A avaliação funcional do assoalho pélvico foi realizada por ser fundamental pela alta sensibilidade e especificidade deste método, permitindo análise funcional desta musculatura6. Em nossa casuística, verificamos que 18 (60%) mulheres apresentaram melhora significativa após os seis meses de tratamento.

No que tange à avaliação subjetiva sobre a perda de urina, os nossos dados revelaram melhora em 15 (75%) mulheres. Deve-se associar esta melhora com a maior intensidade de contração deste grupo muscular22. Na dopplervelocimetria dos vasos periuretrais, observa-se aumento significante destes vasos, concomitantemente com a melhora dos sintomas urinários. Estudos com terapia estrogênica mostram modificação nos achados da doplervelocimetria dos vasos periuretrais associada com redução de queixas urinárias em mulheres na pós-menopausa19. Tais dados sugerem que a isoflavona poderia agir nos vasos periuretrais, de forma semelhante à que foi atribuída por outros autores aos estrogênios9,19,23. Uma explicação para este fato seria aumento dos fatores de crescimento vásculo-endotelial que estaria relacionado com o receptor de estrogênio. Contudo, estudos experimentais mostram que as isoflavonas atuariam inibindo a expressão deste fator in vitro24. É possível que o mecanismo de aumento dos vasos da pele esteja relacionado com outros fatores celulares que possam envolver o óxido nítrico e a calmodulina25,26. Alguns autores atribuem este efeito ao metabólito da daidzeína, o desidroequol25. Possivelmente, o aumento dos vasos periuretrais estaria relacionado com melhor nutrição tissular, e possivelmente, com aumento da força muscular do assoalho pélvico e melhora da sintomatologia urinária.

Nosso estudo evidenciou que a terapia com extrato concentrado de soja aumentou a força muscular do assoalho pélvico e o número de vasos da região periuretral, diminuindo episódios de perda urinária em mulheres na pós-menopausa. Contudo, ressalta-se que este experimento é piloto, tendo algumas limitações devido ao desenho do estudo. Apesar de o número de pacientes ser adequado, há necessidade ainda de outras investigações clínicas com estudo duplo cego, randomizado e controlado por placebo, incluindo número maior de mulheres.

 

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Correspondência:
José Maria Soares Júnior
Rua Sena Madureira 1245 apto. 11
04151-021– São Paulo-SP
Tel: (011) 5081-3685
Fax: (011) 5572-4268
e-mail: jsoares415@hotmail.com

Recebido em: 17/01/2006
Aceito com modificações em: 07/07/2006

 

 

Trabalho realizado no Setor de Climatério da Disciplina da Ginecologia da Faculdade de Medicina de Catanduva –FAMECA – Catanduva (SP), Brasil.

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