SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.29 issue3Dermatofibrosarcoma protuberans in inguinal region: a case reportThe geographic distribution of male infertility in Minas Gerais State author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203On-line version ISSN 1806-9339

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.29 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032007000300008 

REVISÃO

 

A pesquisa do linfonodo sentinela para o câncer de mama na prática clínica do ginecologista brasileiro

 

The sentinel lymph node biopsy in breast cancer in the practice of the Brazilian gynecologist: a revision

 

 

Luis Gerk de Azevedo QuadrosI; Luiz Henrique GebrimII

IProfessor do Curso de Pós-Graduação em Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil
IILivre-Docente, Professor e Chefe da Disciplina de Mastologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil; Diretor do Centro de Referência da Saúde da Mulher do Estado de São Paulo (Hospital Pérola Byington) – São Paulo (SP), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

O estudo histopatológico dos linfonodos axilares continua sendo o melhor parâmetro para a avaliação do prognóstico do câncer de mama. No entanto, como em cerca de 80% das pacientes com tumores de até 2 cm os linfonodos não apresentam comprometimento neoplásico, foi proposta, há alguns anos, a dissecção do linfonodo sentinela, reduzindo a morbidade cirúrgica nas pacientes com resultado negativo. Recentemente, esta técnica cirúrgica disseminou-se no Brasil, mas existem duas questões importantes: qual a probabilidade de resultado falso-negativo, ou seja, deixar de identificar um linfonodo comprometido pelo câncer, e se o subestadiamento pelo resultado falso-negativo exporia a paciente ao risco de recidiva axilar ou mesmo metástase a distância, pela utilização de terapia cirúrgica e adjuvante menos agressiva. A revisão da literatura mostra que a taxa de falsos-negativos varia de 5 a 10%, sendo o principal fator associado à falta de experiência do cirurgião. Embora as recidivas axilares sejam raras, não é ainda possível avaliar o efeito a longo prazo de deixar de retirar linfonodos comprometidos, devido ao curto período de seguimento. Portanto, a recomendação é que o linfonodo sentinela só seja realizado por cirurgiões com experiência comprovada pela pequena taxa de resultados falso-negativos.

Palavras-chaves: Biopsia de linfonodo sentinela; Linfonodos/cirurgia; Neoplasias mamárias; Reações falso-negativas


ABSTRACT

Axillary nodal metastasis is still the most important breast cancer prognostic factor. As in approximately 80% of the patients with tumors measuring less than 2 cm the axillary lymph nodes are negative, it has been proposed sentinel lymph node biopsy, reducing surgical morbidity in the patients with negative result. Recently, this technique has been widely used in Brazil, but there are two questions that need to be answered: what is the probability of a false-negative result (not diagnosing a positive lymph node) and if the understaging by false-negative result exposes the patient to the risk of axillary recurrence or even distant metastases, due to less effective surgical and adjuvant therapy. The literature shows that the false-negative rate varies from 5 to 10%, being the surgeon's experience the major factor that contributes to improved results. Although axillary relapse is rare, it is not yet possible to evaluate the long term effect of not removing positive lymph nodes, due to short follow-up. The recommendation is that sentinel lymph node biopsy should only be performed by surgeons with experience confirmed by a low false-negative rate.

Keywords: Sentinel lymph node biopsy; Lymph nodes/surgery; Breast neoplasms; False negative reactions


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar da busca incessante por novos fatores prognósticos no carcinoma invasivo de mama, o comprometimento dos linfonodos axilares permanece como principal fator preditivo de recidivas e metástases. A linfonodectomia axilar foi considerada, durante décadas, não só como elemento prognóstico, mas também como importante recurso terapêutico, pela baixa incidência de recidivas axilares após o procedimento (1 a 3%). O rastreamento mamográfico, no entanto, possibilitou o diagnóstico de tumores de menor diâmetro e, portanto, com menor probabilidade de comprometimento axilar, o que gerou questionamento quanto à necessidade de linfonodectomia axilar, que pode ter efeitos adversos, como dor, parestesia, limitação de movimentos do braço e linfedema, com sensível comprometimento da qualidade de vida das pacientes.

Para tumores com até 1 cm de diâmetro (T1a e T1b), a avaliação histopatológica de rotina demonstra comprometimento linfonodal em 5 a 17% das pacientes1. Para tumores entre 1,1 e 2,0 cm (T1c), o comprometimento linfonodal axilar é de 30%. Nos países desenvolvidos, que implementaram programas de rastreamento mamográfico, o diâmetro médio dos tumores é 1,5 cm . Estima-se que até 2010 haverá nesses países uma redução no diâmetro tumoral médio para 1,0 cm, com comprometimento axilar em no máximo 20% das pacientes2,3. Modificações propostas à tradicional linfonodectomia axilar radical com o intuito de reduzir a morbidade, como a dissecção seletiva da base (nível I), não são isentas de complicações, além de não serem absolutamente seguras pela possibilidade de skip metástase (linfonodo do nível II ou III comprometido com nível I livre) em até 3%1,2.

Nos últimos anos, a realização da biópsia do linfonodo sentinela tem se revelado alternativa segura à dissecção axilar, com elevada acurácia para predizer o comprometimento linfonodal e baixa incidência de seqüelas. As metástases para os linfonodos não são aleatórias, sendo determinadas pelo fluxo preferencial para um primeiro linfonodo. O linfonodo sentinela é o primeiro a receber a drenagem linfática da área tumoral, decorrente da progressão ordenada de células pelo sistema linfático. Portanto, o estudo histopatológico deste linfonodo pode predizer a presença de metástases axilares. A primeira observação sobre linfonodo sentinela foi descrita em câncer de parótida em 1960 e, posteriormente, em carcinoma de pênis, sendo definido como o primeiro linfonodo que recebe a drenagem linfática da área tumoral. A técnica foi desenvolvida em melanomas cutâneos localizados na região do tronco, onde se injeta o corante azul de isossulfan ao redor da lesão ou da cicatriz, identificando-se o linfonodo corado, denominado sentinela. Os autores que estudaram as diferentes técnicas preconizaram a importância de uma curva de aprendizado antes da utilização do método1-4. A biópsia do linfonodo sentinela em câncer de mama apresentou considerável interesse a partir de 1993, quando foi demonstrada a técnica cintilográfica, utilizada também para ressecções radioguiadas. Surgiram então diversas publicações a respeito da viabilidade da técnica, conferindo caráter não mais experimental, mas aprovado para uso clínico em substituição à tradicional linfonodectomia axilar, desde que respeitados os princípios técnicos e limitações e com treinamento adequado.

Indicações e Técnica

Para a realização da biópsia do linfonodo sentinela é indispensável equipe multidisciplinar, composta por radiologista, médico nuclear, cirurgião e patologista. Todos devem ter treinamento prévio, sendo imprescindível, numa primeira fase, comparar os resultados obtidos pela biópsia do linfonodo sentinela com a dissecção axilar antes de implantar a nova técnica como rotina. A paciente deve ser informada previamente da possibilidade de linfonodectomia axilar e suas complicações, caso não seja possível identificar o linfonodo sentinela ou em caso de comprometimento do mesmo. Nos centros onde há disponibilidade para uso de radiofármacos (Tc99m) prefere-se sua utilização, isolada ou associada ao azul patente, por trazer maior possibilidade de sucesso do método. Após a injeção do radiofármaco, realiza-se a linfocintilografia com o intuito de definir a drenagem linfática, o número e a localização dos linfonodos sentinela e parassentinelas4. Quando não estiver disponível a medicina nuclear, ou nos serviços públicos, onde os escassos recursos financeiros devem ser utilizados para atender o maior número possível de pacientes, pode-se usar apenas o azul patente ou azul de isossulfan. Esta técnica apresenta menor sensibilidade, com especificidade semelhante ao do método radioguiado. As falhas são mais freqüentes nas pacientes com mamas volumosas e nas obesas. O corante pode impregnar-se na pele, mas raramente acarreta reações alérgicas4,5. Outros corantes, como azul de metileno e verde brilhante, devem ser evitados por apresentar rápida difusão após injeção e estarem associados ao aparecimento de mastite por necrose gordurosa, acarretando no seguimento da paciente difícil diferenciação clínico-radiológica de recidiva6.

Diferentes locais de injeção do corante vital e/ou radiofármaco têm sido recomendados para identificação do linfonodo sentinela, como periareolar, subareolar, intradérmica ou subcutânea na área de localização do tumor. Também pode ser realizada peri ou intratumoral. As quatro primeiras técnicas baseiam-se no conceito de que mama e pele sobrejacente têm em comum a drenagem linfática por sua origem embriológica da ectoderme. Alguns estudos propõem que o linfonodo sentinela seja representativo de toda a drenagem linfática da mama, ao invés de ser apenas da área tumoral, uma vez que a injeção de contraste em diferentes pontos da mama tem sempre drenado para o mesmo linfonodo7. A injeção periareolar ou subareolar apresenta vantagens em relação às demais, principalmente em lesões não palpáveis, e representa o ponto de convergência de todas as vias de drenagem linfática da mama, antes das cadeias axilar e mamária interna.

Para o emprego da técnica do corante, após a indução anestésica, realiza-se a injeção periareolar superior de 2,0 mL de azul patente, divididos em quatro pontos com 0,5 mL cada, visando reduzir a possibilidade de impregnação dérmica, com tatuagem. Realiza-se leve massagem no local da injeção e aguardam-se de sete a 10 minutos para iniciar o procedimento. Quando o tumor localiza-se no quadrante súpero-lateral realizamos uma incisão radiada, e por meio desta, identificamos o bordo lateral do músculo grande peitoral, com subseqüente abertura da fáscia clavipeitoral, identificando-se após delicada dissecção o vaso linfático coletor corado em azul e encontrando-se o linfonodo sentinela, que, após ligadura dos vasos aferentes, é retirado e enviado para exame histopatológico. Realiza-se então cuidadosa observação axilar à procura de outros linfonodos corados (para-sentinelas), assim como palpação para identificação de eventuais linfonodos suspeitos de comprometimento, que devem ser retirados e enviados para exame. Quando o tumor não se localiza no quadrante súpero-lateral, é realizada uma incisão axilar de 2 a 3 cm, com procedimento idêntico ao descrito.

A linfocintilografia identifica o local da lesão mamária e, algumas horas após, a projeção do linfonodo sentinela. Faz-se a marcação cutânea para que o cirurgião possa incisar a pele próximo da lesão e, dependendo da localização (quadrantes laterais), do linfonodo. O uso do "gama probe" auxilia o cirurgião, que se orienta pela emissão advinda do linfonodo impregnado por Tc99. O método pode ser associado a corantes para facilitar a identificação do linfonodo em pacientes obesas ou naquelas com mamas volumosas. Em algumas raras situações, o linfonodo corado em azul não é aquele que apresenta maior emissão radioativa, devendo, nestes casos, retirar-se ambos e enviá-los para estudo histopatológico8.

O exame imediato por congelação deve ser realizado somente quando o linfonodo tiver mais de 1 cm de diâmetro, para não haver perda de material e prejuízo do estudo após fixação5. Há consenso entre os patologistas da necessidade de se realizar cortes multisseriados, o que é inviável no exame intra-operatório5,7,9. Realiza-se inicialmente o imprint com exame citológico, seguido do estudo de algumas secções, cujo número varia de acordo com o tamanho do linfonodo. Tal estratégia é útil e permite identificar macrometástases e algumas micrometástases. Apesar de não haver recomendação para estudo imunohistoquímico de rotina no linfonodo sentinela, o método permite a identificação de micrometástases ocultas ou grupamento de células em até 30% das pacientes9. Cabe ao cirurgião alertar a paciente para uma possível reintervenção para complementar a linfonodectomia dos níveis I e II. Tal decisão vai depender dos fatores prognósticos (diâmetro da metástase linfonodal, idade da paciente, diâmetro da neoplasia, grau e tipo histopatológico e biomarcadores). Como medida prática, e na impossibilidade de avaliação intra-operatória, recomenda-se a remoção dos linfonodos parassentinelas, para excluir a possibilidade de comprometimento dos mesmos, evitando em grande parte das vezes a reintervenção, sem aumento da morbidade10.

Recomenda-se a biópsia do linfonodo sentinela em pacientes sem adenomegalia axilar clínica, com tumores menores que 3 cm, ou menores que 5 cm mas com subtipos histológicos especiais, como tubular, adenóide cístico, mucinoso, colóide e papilífero11. Se considerarmos que a probabilidade de comprometimento linfonodal aumenta na razão direta do diâmetro tumoral, as pacientes com maior benefício serão aquelas com tumores menores. Indica-se também nos carcinomas in situ extensos (maiores de 3 cm) ou multifocais, em especial após procedimentos percutâneos (mamotomia ou "core biopsy"), pela maior probabilidade de focos de invasão no estudo em parafina. Geralmente são os casos nos quais se indica mastectomia (total ou subcutânea) com reconstrução imediata. O uso indiscriminado do linfonodo sentinela em pacientes com carcinoma ductal in situ é inadequado, devendo o procedimento ser restrito a pacientes com tumor ao exame clínico ou à mamografia ou quando for realizada mastectomia12. O Quadro 1 resume as indicações e a técnica do linfonodo sentinela constantes da diretriz Diagnóstico e Tratamento do Câncer de Mama elaborada pelas Sociedades Brasileiras de Mastologia, Cancerologia e Patologia, além da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, sob coordenação da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina (Projeto Diretrizes)5.

 

Revisão da literatura

Em 2003 foram publicados os resultados de ensaio clínico do Instituto Europeu de Oncologia de Milão, iniciado em 1998, incluindo mulheres com tumores de mama de até 2 cm, submetidas aleatoriamente a biópsia de linfonodo sentinela isolada ou seguida de dissecção axilar, observando-se 8,8% de falso-negativo em 516 pacientes. Nas 167 pacientes submetidas apenas à retirada do linfonodo sentinela não se observou recidiva axilar após seguimento mediano de 46 meses3. Nova publicação do mesmo Instituto de 2005 relatou que de 953 pacientes com linfonodo sentinela negativo que não foram submetidas a dissecção axilar completa ocorreram recidivas axilares em apenas três, após seguimento mediano de 38 meses, sendo a taxa de recidiva considerada menor que o esperado13.

Pesquisadores do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova Iorque acompanharam 2340 pacientes com linfonodo sentinela negativo e sem dissecção axilar subseqüente e observaram, após seguimento mediano de 31 meses, apenas três casos de recidiva axilar (0,12%)6. Publicação italiana de 2005 não observou nenhuma recidiva axilar em 479 pacientes operadas em cinco instituições de 1998 a 2002, após seguimento mediano de cerca de três anos14. Autores holandeses relataram, em 2005, ter observado apenas duas recidivas locais em 439 pacientes com linfonodo sentinela negativo, após seguimento mediano de 26 meses. Realizaram revisão sistemática da literatura, concluindo que em todos os trabalhos publicados foram observadas apenas oito recidivas locais, correspondendo a 0,25% das pacientes com linfonodo sentinela negativo15.

Nos Estados Unidos, o estudo NSABP B32 iniciou-se em 1999, sendo realizada uma fase de treinamento antes da randomização com 226 cirurgiões, dos quais 187 foram aprovados. O linfonodo sentinela foi identificado em 96,2% dos casos, com falso negativo de 6,7%2. Foram divulgados em 2004 os resultados de 150 das 1012 pacientes do ensaio clínico randomizado fase III do Royal Australasian College of Surgeons, iniciado em 2001, comparando linfonodo sentinela com esvaziamento axilar. O linfonodo sentinela foi localizado em 98% das pacientes dos dois grupos, sendo 13% positivos. A taxa de falso-negativo foi 5%16. Três publicações de 2006 relataram resultados do ensaio clínico randomizado multicêntrico do Reino Unido ALMANAC, iniciado em 1999, que apresentou falso-negativo de 6,7% na fase de validação, sendo a falha mais freqüente em tumores indiferenciados. O linfonodo sentinela não foi localizado em 3,9% dos casos, sendo as variáveis associadas obesidade, tumor localizado fora do quadrante súpero-lateral e ausência de visualização do linfonodo na linfocintilografia pré-operatória. Analisando 1031 mulheres submetidas aleatoriamente a biópsia do linfonodo sentinela ou esvaziamento axilar, observaram-se, 18 meses após a cirurgia, redução da morbidade (linfedema e perda de sensibilidade) e melhor qualidade de vida nas pacientes submetidas à técnica do linfonodo sentinela7,11,17. Três publicações de 2005 do grupo de estudo sobre linfonodo sentinela em câncer de mama da Universidade de Louisville, incluindo 4131 pacientes com tumores com até 5,0 cm de diâmetro sem linfonodos suspeitos de comprometimento neoplásico à palpação (T1-2 N0), mostraram que o linfonodo sentinela foi localizado em 94% dos casos e ocorreram 106 resultados falso-negativos (2,7%). A falha na localização associou-se a idade da paciente maior que 60 anos, tumores não palpáveis e utilização do corante azul isoladamente, além da pouca experiência do cirurgião (menos de 10 casos). Os fatores associados ao falsos-negativo foram pouca experiência do cirurgião (11,6% quando havia feito menos de quatro casos), menor tamanho do tumor (9,3% para tamanho menor que 2,5 cm), localização no quadrante súpero-lateral (10,3%) e menor número de linfonodos retirados (13% quando apenas um linfonodo foi retirado), além da presença de um único linfonodo comprometido e do uso de imunohistoquímica na análise do linfonodo8-10.

 

 

Foram publicados em 2005 resultados do estudo Z0010 do Grupo de Oncologia do Colégio Americano de Cirurgiões, iniciado em 1999, que incluiu 5327 pacientes operadas por 198 cirurgiões. Exigiu-se que o cirurgião tivesse realizado previamente no mínimo 20 cirurgias de biópsia de linfonodo sentinela seguida de dissecção completa dos linfonodos axilares, obtendo menos de 15% de falhas. O linfonodo sentinela foi identificado em 98,7% das pacientes, sendo os fatores associados às falhas maior idade e índice de massa corpórea das pacientes, além da experiência do cirurgião menor que 50 procedimentos6.

 

 

Alguns autores preconizam a conduta cirúrgica expectante para pacientes no estádio clínico I com achado de grupamento de células metastáticas menor que 0,2 mm pela imunohistoquímica ou micrometástases (menores que 2 mm). Tal fato fundamenta-se em estudos que demonstraram, nas pacientes submetidas à linfonodectomia subseqüente, ausência de comprometimento dos demais linfonodos. Há, entretanto, controvérsia a respeito de se indicar quimioterapia para essas pacientes, embora publicações recentes tenham indicado maiores índices de recidiva e morte neste grupo14,18,19. Havendo macrometástase ou mais de um linfonodo sentinela comprometido, há consenso de que a linfonodectomia dos níveis I e II e a terapêutica adjuvante devem ser efetuadas. No carcinoma intraductal extenso ou multicêntrico, há consenso de que a pesquisa do sentinela deva ser realizada de rotina, pela maior probabilidade de serem encontradas no estudo em parafina, áreas de invasão20.

Os resultados dos principais ensaios clínicos sobre o linfonodo sentinela no câncer de mama estão resumidos no Quadro 2. Todos estes estudos comprovaram que o índice de recidiva axilar após a biópsia do linfonodo sentinela é comparável à descrita para a linfonodectomia. A falha na identificação do linfonodo sentinela ocorre em até 6% das pacientes e o falso-negativo varia de 5 a 10%, sendo o principal fator associado à falta de experiência do cirurgião. Embora as recidivas axilares sejam raras, ainda não é possível avaliar o efeito a longo prazo de deixar de retirar linfonodos comprometidos (subestadiando a paciente), devido ao curto período de seguimento.

Não há estudos randomizados que comprovem a segurança do método na presença de tumores invasivos multicêntricos, embora haja maior aceitação em estudar sua aplicação. Não há, no momento, suporte científico suficiente para se aplicar o método na gravidez, existindo risco de reação alérgica na mãe ao corante, com repercussões para o feto. A identificação do linfonodo sentinela com radioisótopos na gravidez é factível, mas o pequeno número de casos não permite conclusões21. Há, na gestação, maior agressividade tumoral, com maior freqüência de micrometástases axilares, sendo mais prudente realizar a linfonodectomia axilar dos níveis I e II. Consideramos que, para a segura aplicação da técnica nesta situação, devem-se aguardar novos estudos com maior casuística e seguimento, assim como o monitoramento de possíveis complicações fetais a longo prazo. As diretrizes norte-americanas não recomendam o procedimento na gestação.

A linfocintigrafia pode identificar adequadamente o linfonodo sentinela em 99% das pacientes após biópsia prévia12. Com a utilização da quimioterapia primária, com o intuito de avaliar a resposta do tumor às drogas e aumentar a possibilidade de cirurgia conservadora, há muita controvérsia a respeito da pesquisa do linfonodo sentinela nestas pacientes, pois teria como desvantagem a destruição das metástases, com perda da informação prognóstica. Alguns autores propõem a retirada do linfonodo sentinela antes do início da quimioterapia neoadjuvante, obtendo-se assim informação prognóstica, facilitando inclusive a escolha do esquema a ser utilizado22. Outros acham que a informação prognóstica obtida dos linfonodos axilares após a terapia primária seria mais importante como fator prognóstico. Sendo negativo, pode-se evitar a linfonodectomia. A avaliação do linfonodo sentinela nestes casos demonstrou resultados conflitantes em diversos estudos, tendo apresentado acurácia entre 77 e 100%23. Nas pacientes com tumores nos estádios clínicos IIb e III submetidas à quimioterapia primária, indica-se a linfonodectomia axilar mesmo naquelas com regressão total do tumor primário ou da adenomegalia axilar.

 

CONCLUSÕES

Um novo paradigma da cirurgia mamária vem sendo desenhado na última década. Vivenciamos o período em que o tratamento deveria ser tão radical quanto tolerado pela paciente, sem, no entanto, garantir o sucesso terapêutico. Atualmente buscam-se, pelos fatores prognósticos morfológicos, moleculares e genéticos, informações para se instituir a terapêutica loco-regional e sistêmica individualizada, com menor mutilação, maior controle loco-regional e melhor qualidade de vida para as pacientes. Sendo a linfonodectomia axilar uma das responsáveis pelas seqüelas atuais do tratamento cirúrgico do câncer inicial de mama, não se justifica sua realização rotineira na avaliação de pacientes sem linfonodos palpáveis (N0). O estudo do linfonodo sentinela é a melhor conduta para estas pacientes, desdef que realizado por equipe multidisciplinar capacitada. Faltam ainda resultados a longo prazo de grandes ensaios clínicos como NSABP B-32 e ACSOG Z0010, que possibilitarão avaliar o efeito do falso-negativo do linfonodo sentinela sobre metástases a distância e mortalidade.

Embora o linfonodo sentinela seja atualmente a técnica padrão para o tratamento cirúrgico do câncer de mama inicial sem linfonodos suspeitos à palpação axilar em centros especializados, é prudente que o procedimento seja realizado apenas por cirurgiões que já tenham adquirido experiência com a técnica. No Brasil, dificilmente o médico dedica-se exclusivamente ao tratamento das doenças das mamas, atuando freqüentemente em Ginecologia e Obstetrícia, e, em inúmeros hospitais, há dificuldades técnicas para realizar a pesquisa do linfonodo sentinela, particularmente utilizando o colóide radioativo. Torna-se, portanto, restrito o número de profissionais que poderá se capacitar adequadamente para realizar com segurança o procedimento. A disseminação indiscriminada da técnica pode levar ao tratamento inadequado das pacientes.

 

REFERÊNCIAS

1. Martin C, Cutuli B, Velten M. Predictive model of axillary lymph node involvement in women with small invasive breast carcinoma: axillary metastases in breast carcinoma. Cancer. 2002;94(2):314-22.        [ Links ]

2. Harlow SP, Krag DN, Julian TB, Ashikaga T, Weaver DL, Feldman SA, et al. Prerandomization surgical training for the National Surgical Adjuvant Breast and Bowel Project (NSABP) B-32 trial: a randomized phase III clinical trial to compare sentinel node resection to conventional axillary dissection in clinically node-negative breast cancer. Ann Surg. 2005;241(1):48-54.        [ Links ]

3. Veronesi U, Paganelli G, Viale G, Luini A, Zurrida S, Galimberti V, et al. A randomized comparison of sentinel-node biopsy with routine axillary dissection in breast cancer. N Engl J Med. 2003;349(6):546-53.        [ Links ]

4. Maza S, Valencia R, Geworski L, Zander A, Guski H, Winzer KJ, et al. Peritumoural versus subareolar administration of technetium-99m nanocolloid for sentinel lymph node detection in breast cancer: preliminary results of a prospective intra-individual comparative study. Eur J Nucl Med Mol Imaging. 2003;30(5):651-6.        [ Links ]

5. Barros ACSD, Barbosa EM, Gebrim LH, Anelli A, Figueira Filho A, Del Giglio A, et al. Diagnóstico e tratamento do câncer de mama. In: Projeto diretrizes. Brasília: Associação Médica Brasileira/Conselho Federal de Medicina; 2002. v. 2.        [ Links ]

6. Posther KE, McCall LM, Blumencranz PW, Burak WE Jr, Beitsch PD, Hansen NM, et al. Sentinel node skills verification and surgeon performance: data from a multicenter clinical trial for early-stage breast cancer. Ann Surg. 2005;242(4):593-602.        [ Links ]

7. Goyal A, Newcombe RG, Chhabra A, Mansel RE; ALMANAC Trialists Group. Factors affecting failed localisation and false-negative rates of sentinel node biopsy in breast cancer - results of the ALMANAC validation phase. Breast Cancer Res Treat. 2006;99(2):203-8.        [ Links ]

8. Chagpar AB, Martin RC, Scoggins CR, Carlson DJ, Laidley AL, El-Eid SE, et al. Factors predicting failure to identify a sentinel lymph node in breast cancer. Surgery. 2005;138(1):56-63.        [ Links ]

9. Martin RC 2nd, Chagpar AB, Scoggins CR, Edwards MJ, Hagendoorn L, Stromberg AJ, et al. Clinicopathologic factors associated with false-negative sentinel lymph-node biopsy in breast cancer. Ann Surg. 2005;241(6):1005-15.        [ Links ]

10. Hutchinson JR, Chagpar AB, Scoggins CR, Martin RC 2nd, Carlson DJ, Laidley AL, et al. Surgeon and community factors affecting breast cancer sentinel lymph node biopsy. Am J Surg. 2005;190(6):915-9.        [ Links ]

11. Mansel RE, Fallowfield L, Kissin M, Goyal A, Newcombe RG, Dixon JM, et al. Randomized multicenter trial of sentinel node biopsy versus standard axillary treatment in operable breast cancer: The ALMANAC trial. J Natl Cancer Inst. 2006;98(9):599-609.        [ Links ]

12. Luini A, Galimberti V, Gatti G, Arnone P, Vento AR, Trifiro G, et al. The sentinel node biopsy after previous breast surgery: preliminary results on 543 patients treated at the European Institute of Oncology. Breast Cancer Res Treat. 2005;89(2):159-63.        [ Links ]

13. Veronesi U, Galimberti V, Mariani L, Gatti G, Paganelli G, Viale G, et al. Sentinel node biopsy in breast cancer: early results in 953 patients with negative sentinel node biopsy and no axillary dissection. Eur J Cancer. 2005;41(2):231-7.        [ Links ]

14. Zavagno G, Carcoforo P, Franchini Z, Renier M, Barutta L, De Salvo GL, et al. Axillary recurrence after negative sentinel lymph node biopsy without axillary dissection: a study on 479 breast cancer patients. Eur J Surg Oncol. 2005;31(7):715-20.        [ Links ]

15. Smidt ML, Janssen CM, Kuster DM, Bruggink ED, Strobbe LJ. Axillary recurrence after a negative sentinel node biopsy for breast cancer: incidence and clinical significance. Ann Surg Oncol. 2005;12(1):29-33.        [ Links ]

16. Ung OA. Australasian experience and trials in sentinel lymph node biopsy: The RACS SNAC trial. Asian J Surg. 2004;27(4):284-90.        [ Links ]

17. Fleissig A, Fallowfield LJ, Langridge CI, Johnson L, Newcombe RG, Dixon JM, et al. Post-operative arm morbidity and quality of life. Results of the ALMANAC randomised trial comparing sentinel node biopsy with standard axillary treatment in the management of patients with early breast cancer. Breast Cancer Res Treat. 2006;95(3):279-93.        [ Links ]

18. Goyal A, Douglas-Jones A, Monypenny I, Sweetland H, Stevens G, Mansel RE. Is there a role of sentinel lymph node biopsy in ductal carcinoma in situ? Analysis of 587 cases. Breast Cancer Res Treat. 2006;98(3):311-4.        [ Links ]

19. Naik AM, Fey J, Gemignani M, Heerdt A, Montgomery L, Petrek J, et al. The risk of axillary relapse after sentinel lymph node biopsy for breast cancer is comparable with that of axillary lymph node dissection: a follow up of 4008 procedures. Ann Surg. 2004;240(3):462-8.        [ Links ]

20. Intra M, Veronesi P, Mazzarol G, Galimberti V, Luini A, Sacchini V, et al. Axillary sentinel lymph node biopsy in patients with pure ductal carcinoma in situ of the breast. Arch Surg. 2003;138(3):309-13.        [ Links ]

21. Gentilini O, Cremonesi M, Trifiro G, Ferrari M, Baio SM, Caracciolo M, et al. Safety of sentinel node biopsy in pregnant patients with breast cancer. Ann Oncol. 2004;15(9):1348-51.        [ Links ]

22. Trocha SD, Giuliano AE. Sentinel node in the era of neoadjuvant therapy and locally advanced breast cancer. Surg Oncol. 2003;12(4):271-6.        [ Links ]

23. Mamounas EP, Brown A, Anderson S, Smith R, Julian T, Miller B, et al. Sentinel node biopsy after neoadjuvant chemotherapy in breast cancer: results from National Surgical Adjuvant Breast and Bowel Project protocol B-27. J Clin Oncol. 2005;23(12): 2694-702.        [ Links ]

 

 

Correspondência:
Luiz Henrique Gebrim
Alameda Ministro Rocha Azened, 1217 – 10ºandar Jardim América
São Paulo/SP – CEP 014010-003

Recebido: 10/08/2006
Aceito com modificações: 26/02/2007

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License