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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203On-line version ISSN 1806-9339

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.31 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2009

https://doi.org/10.1590/S0100-72032009000400008 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Indicadores de risco para o parto prematuro

 

Risk predictors for preterm birth

 

 

Roberto Eduardo BittarI; Marcelo ZugaibII

IProfessor-associado da Disciplina de Obstetrícia do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil
IIProfessor titular da Disciplina de Obstetrícia do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Entre os vários fatores clínicos para o parto prematuro, alguns apresentam riscos substanciais, tais como história de parto prematuro, gemelidade e sangramento vaginal do segundo trimestre. No entanto, tais fatores estão presentes na minoria das mulheres que evoluem para o parto prematuro e, portanto, possuem baixa sensibilidade. A dilatação, o esvaecimento e a posição do colo uterino diagnosticados pelo toque vaginal têm sido relacionados ao aumento do risco para o parto prematuro, mas possuem baixas sensibilidades e baixos valores preditivos positivos. A diminuição do comprimento do colo uterino detectada pela ultrassonografia transvaginal também constitui risco para parto prematuro. Sua sensibilidade é melhor quando são considerados outros testes, mas o valor preditivo positivo é baixo. A principal utilidade do teste da fibronectina fetal reside em seu valor preditivo negativo em mulheres sintomáticas. Observa-se aumento da sensibilidade para a detecção do parto prematuro quando a medida do colo do útero é utilizada juntamente com o teste da fibronectina fetal.

Palavras-chave: Fatores de risco; Colo do útero/ultra-sonografia; Fibronectinas/análise; Trabalho de parto prematuro/prevenção & controle; Valor preditivo dos testes; Medição de risco; Sensibilidade e especificidade


ABSTRACT

Among the clinical factors for preterm birth, some confer substantial increased risk, including a history of preterm birth, multiple gestation and vaginal bleeding in the second trimester. However, these factors are present only in a minority of women who ultimately deliver preterm and thus have low sensitivity. Cervical dilatation, effacement and position as determined by manual examination have been related to an increased risk of preterm birth but also suffer from low sensitivity and positive predictive values. Cervical length measured with transvaginal ultrasound has also been related to an increased risk of preterm birth as cervical length decreases. The reported sensitivity is better than other tests, but positive predictive value is low. The principal utility of the fetal fibronectin assay lies in its negative predictive value in symptomatic women. Increased sensitivity has been reported when cervical length is used in combination with fetal fibronectin.

Keywords: Risk factors; Cervix uteri/ultrassonography; Fibronectins/analysis; Obstetric labor, premature/prevention & control; Predictive value of tests; Risk assessment; Sensitivity and specificity


 

 

Introdução

O parto prematuro, definido como a ocorrência do nascimento antes de 37 semanas completas de gestação, apresenta incidência variável de acordo com as características populacionais. Na Europa, sua incidência varia de 6 a 10%. Nos Estados Unidos, tem sido observado aumento de sua frequência, sendo que, em 2006, atingiu 12,8% dos nascidos vivos1. Outros países desenvolvidos, tais como o Canadá, a Austrália e a Dinamarca, também têm revelado aumento das taxas de prematuridade2. As informações publicadas pelo Ministério da Saúde mostram que os nascimentos prematuros na população brasileira têm se mantido constante nos últimos anos, com média de 6,6%, sendo variáveis de Estado para Estado, podendo atingir taxas de até 9% e com tendência à elevação em algumas metrópoles3,4.

Embora a sobrevida dos recém-nascidos prematuros tenha melhorado nos últimos anos, a prematuridade ainda é a principal causa de morbidade e mortalidade neonatal. Além disso, as implicações econômicas desfavoráveis que se estendem além do período neonatal têm sido cada vez mais preocupantes5.

A prematuridade pode ser classificada, segundo a sua evolução clínica, em eletiva ou espontânea. Na prematuridade eletiva, a gestação é interrompida em virtude de complicações maternas (por exemplo, doença hipertensiva, descolamento prematuro de placenta, placenta prévia etc.) e/ou fetais (por exemplo, restrição do crescimento fetal ou sofrimento fetal), em que o fator de risco é geralmente conhecido e corresponde a 25% dos nascimentos prematuros.

A prematuridade espontânea corresponde a 75% dos casos e decorre do trabalho de parto prematuro. Nesse grupo, a etiologia é complexa e multifatorial ou desconhecida. Dessa maneira, na maioria das vezes, a prevenção primária é difícil de ser implementada, tendo em vista que muitos dos fatores de risco não podem ser modificados antes ou durante a gestação, restando, assim, a prevenção secundária ou terciária. A prevenção secundária depende de indicadores preditivos e, entre estes, os de maior valor são os clínicos, as modificações do colo uterino detectadas pela ultrassonografia transvaginal e os métodos bioquímicos. Com a melhora na detecção desses casos, torna-se possível a adoção de medidas preventivas secundárias e também terciárias, tais como repouso, cerclagem do colo uterino, uso da progesterona, tocólise, corticoterapia antenatal e transferência da gestante para uma maternidade de atendimento terciário. No entanto, ainda existem dúvidas sobre a real eficácia da maioria dessas intervenções6-11.

Nesta revisão, discutimos os principais indicadores de risco para o parto prematuro espontâneo.

 

Fatores de risco clínicos

A realização de anamnese detalhada é o primeiro passo para se identificar a mulher com risco para o parto prematuro. A busca por indicadores clínicos deve ser instituída, de preferência, antes da concepção, para permitir o controle dos riscos e contribuir para uma evolução favorável da gestação.

Apesar de, em cerca de metade dos casos, o parto prematuro ser considerado de etiologia desconhecida, ocorre com frequência a associação de fatores de risco maternos e fetais, que podem ser classificados em epidemiológicos, obstétricos, ginecológicos, clínico-cirúrgicos, genéticos, iatrogênicos e desconhecidos (Quadro 1)12.

 

 

Entre os possíveis fatores que conferem maiores riscos, destacam-se a história de parto prematuro espontâneo, a gemelidade e os sangramentos persistentes de segundo trimestre.

Após um parto prematuro espontâneo, o risco de repetição varia de 14 a 22%; é de 28 a 42% após dois partos prematuros; e de 67% após três partos prematuros. A ocorrência de partos a termo diminui o risco de partos prematuros em gestações subsequentes13.

A gemelidade corresponde a 2 a 3% de todos os nascimentos, mas está presente em 17% dos nascimentos antes da 37ª semana e em 23% dos nascimentos antes da 32ª semana14. A maior disponibilidade de técnicas de reprodução assistida tem sido responsável pela maior incidência de gestações múltiplas e, consequentemente, maior risco de nascimentos prematuros15.

O sangramento decidual persistente manifestado pelo sangramento vaginal do segundo trimestre é fator de risco para rotura prematura de membranas ovulares e parto prematuro (risco relativo de 3)16.

Há vários estudos que associam as infecções genitourinárias ao parto prematuro espontâneo. No entanto, o diagnóstico e o tratamento das infecções vaginais constituem intervenções ainda não comprovadas para reduzir a prematuridade17,18. Por outro lado, o mesmo não pode ser dito em relação à bacteriúria assintomática. O seu diagnóstico e tratamento diminuem o risco de parto prematuro19.

A relação direta entre os possíveis fatores de risco e o parto prematuro espontâneo é muitas vezes difícil de ser estabelecida. Geralmente, ocorre apenas a suspeita entre a exposição e a ocorrência do nascimento prematuro. A diversidade de etiologias, o fato de que muitos desses nascimentos ocorrem em mulheres sem fatores de risco e a não existência de modelo animal adequado para testar o parto prematuro e suas causas não permitem que esses indicadores sejam utilizados com sucesso para a predição do parto prematuro. Dessa maneira, outros indicadores de risco para a prematuridade vêm ganhando importância nos últimos anos.

 

Indicadores ultrassonográficos

A avaliação do colo uterino, durante a gestação, pode ser útil na identificação do risco para o parto prematuro espontâneo. Quanto menor o comprimento do colo, maior a probabilidade de prematuridade, uma vez que o esvaecimento cervical constitui uma das primeiras etapas do processo de parturição e precede o trabalho de parto em quatro a oito semanas.

O exame do colo uterino pode ser feito pelo toque vaginal e pela ultrassonografia abdominal ou vaginal. O toque vaginal, com objetivo de verificar as características do colo (dilatação, esvaecimento e posição), revela baixa sensibilidade e baixo valor preditivo positivo para a detecção do parto prematuro. Obtém-se melhor desempenho para o rastreamento do parto prematuro com ultrassonografia transvaginal20. Em comparação com a técnica abdominal, a via vaginal é mais vantajosa, pois permite a avaliação da porção supravaginal do colo uterino com menor interferência das partes fetais no segmento inferior do útero, além de não necessitar do enchimento da bexiga materna e evitar erros na medição pelo falso alongamento do colo uterino.

O comprimento do colo é o indicador ultrassonográfico mais importante, e a sua medida é feita linearmente, entre o orifício externo e o interno, delimitados pelo início e pelo fim da mucosa endocervical ecogênica (Figura 1). Outros achados secundários também podem ser obtidos com o exame, tais como a presença de afunilamento, detectado pela abertura do orifício interno do colo uterino superior a 5 mm, e a ausência do eco glandular endocervical.

 

 

Algumas limitações estão presentes nos estudos de predição do parto prematuro pela ultrassonografia transvaginal e, entre elas, a ausência de padronização em relação à idade gestacional da avaliação inicial e a indefinição do ponto de corte abaixo do qual o risco de parto prematuro torna-se significante. A medida do comprimento do colo uterino antes de 15 semanas não apresenta bons resultados para a predição, e a maioria dos estudos a utilizam durante o segundo trimestre da gestação, principalmente entre a 22ª e a 24ª semanas21,22, quando os resultados preditivos são melhores.

A definição de colo curto varia entre os diferentes autores, na dependência dos melhores valores de sensibilidade e especificidade para gestantes sintomáticas ou assintomáticas e de acordo com a idade gestacional da ocorrência do parto.

Em recente revisão sistemática, na qual foram avaliadas 2.258 gestantes assintomáticas da população geral submetidas à ultrassonografia transvaginal entre a 20ª e a 24ª semana, verificou-se que o melhor ponto de corte foi a medida do colo inferior a 25 mm para a ocorrência de parto antes da 35ª semana23. A razão de probabilidade ou likeliwood ratio (LR) foi de 2,7 (IC95%=2,2-3,4), ou seja, é 2,7 vezes mais provável encontrar colo curto nas que evoluem para o parto prematuro (<35 semanas) comparadas àquelas que evoluem para o parto a termo. No mesmo estudo, também foram avaliadas 663 gestantes assintomáticas com história de parto prematuro espontâneo, e os resultados foram semelhantes para o mesmo ponto de corte: LR=2,8 (IC95%=3,5-35,5).

Na Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é feita a avaliação ultrassonográfica transvaginal para medir o comprimento do colo uterino em todas as gestantes assintomáticas, com ou sem risco para o parto prematuro, entre a 22ª e a 24ª semana, por ocasião da ultrassonografia morfológica fetal.

Com base nos resultados de nosso estudo, no qual foram avaliadas 1.958 gestantes, aquelas com comprimento do colo igual ou superior a 20 mm têm baixo risco para o parto prematuro espontâneo. Por outro lado, aquelas com comprimento menor do que 20 mm devem ser consideradas de maior risco e necessitam de maiores cuidados24 (Figura 2). O comprimento do colo inferior a 20 mm revelou-se o melhor valor para a predição do parto prematuro em idade gestacional anterior à 37ª semana e também para idade gestacional igual ou menor que 34 semanas. Para os dois grupos de partos prematuros, o valor preditivo negativo do comprimento do colo uterino foi superior a 90%, enquanto que os valores preditivos positivos foram baixos (58% para parto <37 semanas e 42% para parto < 34 semanas). Para as gestantes com história de parto prematuro, o ponto de corte encontrado também foi de 20 mm20,25. Na gestação gemelar, consideramos o colo curto quando inferior a 25 mm26.

 

 

Na presença de colo curto, são recomendados repouso, investigação de infecções genitourinárias, acompanhamento seriado das contrações uterinas, do comprimento do colo e realização de testes bioquímicos. Da mesma maneira, orienta-se o uso da progesterona natural micronizada, 200 mg/dia, pela via vaginal, até a 36ª semana.

Na gestante sintomática, ou seja, quando o diagnóstico de trabalho de parto prematuro é duvidoso, consideramos de risco para o parto prematuro a medida do comprimento do colo uterino inferior a 15 mm27,28. Nesta situação, deve ser realizada a prevenção terciária - internação para tocólise e corticoterapia antenatal.

 

Indicadores bioquímicos

Dos possíveis marcadores bioquímicos conhecidos, podem ser citados: as interleucinas (6 e 8), o hormônio liberador da corticotropina (CRH), o estriol salivar, a fibronectina fetal e, mais recentemente, a proteína-1 fosforilada ligada ao fator de crescimento insulina-símile (phIGFBP-1). As interleucinas, o CRH e o estriol demonstraram baixas sensibilidades e baixos valores preditivos, além de não trazerem benefícios para a predição do parto prematuro29.

Entre todos os indicadores bioquímicos, a fibronectina (fFN) é a que apresenta os melhores resultados para a predição do parto prematuro30-33.

A fFN é uma glicoproteína produzida pelo trofoblasto, cuja função fisiológica é assegurar a aderência do blastocisto à decídua. Normalmente, a fFN está presente no conteúdo vaginal na primeira metade da gestação. Após a 22ª semana, ocorre a fusão do âmnio com o cório, e a fFN desaparece da vagina até a 35ª semana, a menos que haja rotura de membranas ou presença de fator mecânico, infeccioso, inflamatório ou isquêmico na interface materno-fetal. Portanto, o teste só tem utilidade quando realizado entre a 22ª e a 34ª semana e seis dias.

Para a detecção da fFN, podem ser utilizados dois tipos de teste: o quantitativo e o qualitativo. Em nosso meio, dispomos apenas do teste rápido (qualitativo), em que o resultado é obtido em dez minutos. A gestante é colocada em posição ginecológica e introduz-se um espéculo estéril na vagina para a coleta do conteúdo vaginal da porção posterior do colo, por meio de swab de Dacron, por aproximadamente dez segundos. Posteriormente, o swab com o material coletado é introduzido em frasco com solução tampão, onde é vigorosamente agitado por dez segundos. Em seguida, o swab é descartado e insere-se a fita de leitura na solução tampão; a partir de então, aguardam-se dez minutos para a realização da leitura. O teste é considerado positivo quando são formadas duas linhas róseas na fita de leitura, o que significa a presença da fFN em concentrações superiores a 50 ng/mL. É importante destacar que, antes da obtenção da amostra, não pode haver manipulação do colo pelo toque vaginal ou ultrassonografia de colo, coito, uso de lubrificantes ou medicamentos, por um período de 24 horas, devido à possibilidade de resultados falsos-positivos ou negativos.

O teste da fFN pode ser utilizado em gestantes sintomáticas, em que há dúvidas em relação ao diagnóstico do trabalho de parto prematuro, ou em gestantes assintomáticas com risco para o parto prematuro espontâneo.

A utilidade do teste em gestantes sintomáticas pode ser confirmada pela revisão sistemática em que foram incluídos 40 estudos prospectivos33. Cerca de 80% das mulheres que tiveram parto prematuro tiveram o teste positivo para a fFN uma semana antes do nascimento, ou seja, trata-se de um teste sensível que geralmente é positivo quando ocorre o parto prematuro. Apenas 13% das pacientes em que não ocorreu o parto em uma semana tiveram resultado positivo do teste da fFN, ou seja, raramente é positivo quando a gestação evolui para o termo.

Outra revisão sistemática em que também foram incluídos 40 estudos com gestantes sintomáticas confirmou os achados anteriores e concluiu que o teste da fFN prediz o parto prematuro dentro de sete a dez dias (razão de probabilidade do resultado positivo de 5,4, IC95%=4,3-6,7; razão de probabilidade do resultado negativo de 0,25, IC95%=0,2-0,3).

Considerando-se os estudos relacionados a gestantes sintomáticas, observa-se que o principal benefício do teste da fFN reside no seu elevado valor preditivo negativo (superior a 90%), ou seja, a probabilidade de parto a termo em mulheres com teste negativo é alta34. Diante de um teste negativo, pode-se evitar internações e intervenções desnecessárias (Figura 3). Por outro lado, o valor preditivo positivo é mais baixo (inferior a 50%), mas superior a outros marcadores bioquímicos, tais como o estriol, interleucinas e CRF. Diante do teste positivo, recomenda-se internação, corticoterapia antenatal e tocólise.

 

 

Em gestantes sintomáticas, há um sinergismo evidente entre a medida do comprimento do colo uterino pela ultrassonografia transvaginal e o teste da fFN. Em estudo com 215 gestantes sintomáticas, entre 22 e 35 semanas, verificou-se que quando o comprimento do colo era inferior a 15 mm e a fFN positiva, todos os partos ocorriam dentro de 20 dias. Por outro lado, diante do comprimento do colo > 15 mm e fFN negativa, a ocorrência do parto era postergada35.

Em gestantes assintomáticas com antecedente de parto prematuro, o teste da fFN revela melhores valores de sensibilidade quando em combinação com a medida do comprimento do colo uterino pela ultrassonografia transvaginal.

Em estudo multicêntrico com 1.282 gestantes assintomáticas e com partos prematuros anteriores, demonstrou-se que, diante do comprimento do colo <25 mm e fFN positiva na 24ª semana, o risco de repetição do parto prematuro foi de 64%, e de 25% quando a fFN era negativa. No entanto, observou-se que mesmo com colo longo (>35 mm) houve repetição do parto prematuro em 28% dos casos quando a fFN era positiva e de 7% quando a fFN era negativa. Sem dúvida, a medida do comprimento do colo uterino é útil, mas a fFN consegue identificar aquelas gestantes de risco que já possuem alterações bioquímicas, mas que ainda têm um colo longo36.

Quando a ultrassonografia transvaginal e o teste da fFN revelam resultados negativos, menos de 1% têm chance de parto prematuro nas duas semanas seguintes. Nesses casos, recomenda-se que ambos os exames sejam repetidos a cada duas semanas. No manejo dos casos com positividade, apenas do teste da fFN ainda é discutível, pois a sensibilidade é menor e os falsos-positivos, maiores (Figura 4). Embora exista maior risco de parto prematuro quando os dois exames são positivos em gestantes assintomáticas, o parto geralmente não ocorre nos próximos sete dias. No entanto, em tal situação, a partir de 26 semanas, deve ser considerada a administração do corticoide e possível internação para a tocólise. Até o momento, não se sabe se o uso da progesterona nesses casos pode trazer benefícios.

 

 

Recentemente, surgiram evidências de que o parto prematuro seria precedido pela presença phIGFBP-1 no conteúdo cervical. A phIGFBP-1 é uma proteína produzida pela decídua humana, cuja função ainda não está totalmente esclarecida. Supõe-se que o seu aparecimento na segunda metade da gestação seja semelhante ao que acontece com a liberação da fFN, ou seja, secundário a um processo mecânico, inflamatório/infeccioso ou isquêmico na interface materno-fetal. A maioria dos estudos disponíveis utilizou gestantes sintomáticas cujos testes revelaram valor preditivo negativo elevado (90%). No entanto, ainda não há estudos com casuística suficiente que comprovem sua utilidade prática31,37.

 

Conclusões

A identificação de alguns fatores de risco modificáveis antes da concepção ou no início da gestação pode evitar o parto prematuro. No entanto, a maioria dos partos prematuros espontâneos ocorre em mulheres sem fatores de risco.

Embora até o momento não exista nenhum teste preditivo ideal em termos de sensibilidade e valores preditivos, a predição do parto prematuro tornou-se mais precisa com o advento da medida do comprimento do colo uterino pela ultrassonografia transvaginal e com o teste da fibronectina fetal. Os melhores valores de predição são obtidos quando ambos os exames são utilizados simultaneamente, tanto em gestantes sintomáticas quanto assintomáticas de risco. A principal utilidade dos exames reside nos elevados valores preditivos negativos (acima de 90%) e não nos valores preditivos positivos, que são mais baixos.

 

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Correspondência:
Roberto Eduardo Bittar
Clinica Obstétrica do Instituto Central do Hospital das Clínicas
Avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255 - 10º andar
CEP 05403-000 - São Paulo (SP), Brasil
E-mail: roberto.bittar@hcnet.usp.br

Recebido 13/4/09
Aceito com modificações 27/4/09

 

 

Disciplina de Obstetrícia do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP - São Paulo(SP), Brasil.

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