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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.34 no.7 Rio de Janeiro July 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-72032012000700002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Padrão do consumo de álcool em gestantes atendidas em um hospital público universitário e fatores de risco associados

 

Alcohol use pattern in pregnant women cared for in a public university hospital and associated risk factors

 

 

Líbera Helena Ribeiro Fagundes de SouzaI; Maria Célia dos SantosII; Luiz Carlos Marques de OliveiraIII

IÁrea Materno-infantil do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Presidente Antônio Carlos - Araguari (MG), Brasil
IIDepartamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia - UFU - Uberlândia (MG), Brasil
IIIDepartamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia - UFU - Uberlândia (MG), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar em puérperas internadas em um hospital universitário da região Sudeste do Brasil o padrão de consumo alcoólico antes e durante a gravidez, e fatores de risco associados a esse uso.
MÉTODOS: Foram incluídas, consecutivamente, 493 puérperas entre junho e setembro de 2009. Foram excluídas puérperas com deficiência cognitiva. Para diagnosticar uso/abuso do álcool antes da gestação foram utilizados os questionários AUDIT e CAGE e, para o consumo durante a gravidez, também o T-ACE. Outro questionário foi aplicado para coleta de dados sociodemográficos, tais como, idade, escolaridade, situação conjugal e renda familiar. Para análise estatística foi utilizado o teste do
χ2 e calculou-se Odds Ratio (OR) e intervalo de confiança de 95% (IC95%). Valor p<0,05 foi considerado significante.
RESULTADOS: Antes da gravidez, o CAGE foi positivo para 50/405 mulheres (12,3%) e o AUDIT identificou consumo alcoólico em 331 (67,1%), sendo de baixo risco em 233 (47,3%), de risco em 73 (14,8%) e nocivo ou provável dependência em 25 (5%). Durante a gravidez, o CAGE foi positivo para 53/405 gestantes (13,1%), o T-ACE em 84 (17%) e o AUDIT identificou uso do álcool por 114, sendo de baixo risco em 73 (14,8%), de risco em 27 (5,5%) e nocivo ou provável dependência em 14 (2,8%). O consumo de álcool foi mais frequente entre gestantes com menor escolaridade (8,8 versus 3,3%) (OR=2,8; IC95% 1,2 - 6,2) e mais frequente entre as que não coabitavam com companheiro (6 versus 1,7%) (OR=3,8; IC95% 1,3 - 11,1). Entre as gestantes que beberam, 49/114 (43%) foram aconselhadas abstinência.
CONCLUSÕES: Verificou-se preocupante consumo alcoólico durante a gestação, principalmente entre as gestantes com menor escolaridade ou que não conviviam com companheiro. Houve baixa frequência de aconselhamento visando abstinência e o AUDIT foi o instrumento que mais frequentemente diagnosticou o uso do álcool.

Palavras-chave: Bebidas alcoólicas, Alcoolismo, Fatores de risco, Gravidez, Gestantes, Cuidado pré-natal, Epidemiologia


ABSTRACT

PURPOSE: To determine the pattern of alcohol use before and during pregnancy and associated risk factors in puerperal women hospitalized in a public university hospital in Southeastern Brazil.
METHODS: Between June and September 2009, 493 puerperae were consecutively evaluated. Those with cognitive impairment were excluded from the study. The AUDIT and CAGE questionnaires were used to diagnose alcohol use/abuse before pregnancy, in addition to the T-ACE during pregnancy. Another questionnaire was applied to collect sociodemographic data, such as age, educational level, marital status, and household income. The
χ2 test was used in the statistical analysis and the Odds Ratio (OR) and 95% confidence interval (95%CI) were calculated. A p-value <0.05 was considered to be significant.
RESULTS: Before pregnancy, the CAGE was positive in 50/405 (12.3%) women and the AUDIT identified alcohol use in 331 (67.1%), which was of low risk in 233 (47.3%), risky in 73 (14.8%), and harmful or indicating possible alcohol dependence in 25 (5%). During pregnancy, the CAGE was positive in 53/405 (13.1%) women and the T-ACE in 84 (17%); the AUDIT identified alcohol use in 114 women, which was of low risk in 73 (14.8%), risky in 27 (5.5%), and harmful or indicating possible alcohol dependence in 14 (2.8%). During pregnancy, alcohol use was more frequent (OR=2.8; 95%CI 1.2 - 6.2) among women with a lower educational level (8.8 versus 3.3%) and more frequent (OR=3.8; 95%CI 1.3 - 11.1) among those who did not cohabit with a partner (6 versus 1.7%). Among pregnant women who drank alcohol, 49/114 (43%) were advised to stop drinking.
CONCLUSIONS: Alarming alcohol use was observed during pregnancy, especially among pregnant women with a lower educational level and those who did not cohabit with a partner. There was a low frequency of counseling aimed at abstinence and the AUDIT was the instrument that most frequently diagnosed alcohol consumption.

Keywords: Alcoholic beverages, Alcoholism, Risk factors, Pregnancy, Pregnant women, Prenatal care, Epidemiology


 

 

Introdução

O consumo de bebidas alcoólicas constitui um importante problema de saúde pública mundial. Na gestação tal consumo ganha maior importância, pois a ingestão alcoólica pode levar ao comprometimento tanto da saúde materna quanto do feto. Na gravidez, o álcool pode levar ao abortamento, descolamento prematuro da placenta, hipertonia uterina, trabalho de parto prematuro e aumento do o risco de infecções1. Em relação ao feto, o consumo materno associa-se deficiência de crescimento pré e pós-natal, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, microcefalia, disfunção motora fina e dismorfismo facial, além de fenda palatina e anomalias cardíacas. O efeito tardio se manifesta por mudanças na capacidade intelectual, de aprendizagem, atenção e comportamento2.

Estudos recentes3-5 mostram que não existe uma quantidade de consumo alcoólico que possa ser considerada segura durante a gravidez, e que as mulheres deveriam ser aconselhadas abstinência alcoólica desde a concepção e durante todo o período de gravidez.

As estimativas de consumo de bebida alcoólica durante o período gestacional variam entre diferentes países. No Brasil, em um estudo realizado em seis capitais de estados da federação, nos quais se avaliou gestantes atendidas em hospitais públicos, verificou-se que 34,4% delas consumiam bebidas alcoólicas6. Estas frequências foram estimadas em 12% nos Estados Unidos7 e na Suécia8, 52% na França9, 59% na Austrália10 e 60% na Rússia11.

As diferenças constatadas entre países podem se dever aos programas nacionais de prevenção de etilismo na gestação e a fatores demográficos, culturais, raciais e socioeconômicos9, ou ainda, como resultado dos diferentes instrumentos utilizados para se rastrear o uso do álcool. Também se tem observado que o consumo de bebidas alcoólicas vem se tornando cada vez mais frequente entre as mulheres12. Em decorrência desses fatos, a necessidade da realização de estudos visando se conhecer os fatores de risco para o consumo alcoólico entre as mulheres, particularmente durante a gestação é evidente. Esse conhecimento possibilitaria traçar estratégias para abordagens de rotina em relação ao diagnóstico do uso do álcool, ao aconselhamento para abstinência desde o momento em que se planeja a concepção até o período de amamentação, além da capacitação dos profissionais de saúde para tais abordagens.

O objetivo do presente estudo foi estimar o padrão de consumo de bebidas alcoólicas antes e após o reconhecimento da gravidez em puérperas internadas em um hospital público universitário da região Sudeste do Brasil, e identificar fatores sociodemográficos associados ao risco de se utilizar tais bebidas.

 

Métodos

Este estudo transversal foi realizado em Uberlândia, estado de Minas Gerais, região Sudeste do Brasil, distante 556 quilômetros da capital, Belo Horizonte. Sua população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi de 634.345 habitantes no ano de 2009. O projeto foi desenvolvido na Enfermaria de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), que é um complexo hospitalar público universitário, que atende pacientes do município e região, conveniado em 100% de seus atendimentos ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Foram incluídas, consecutivamente, puérperas que estavam no período de 12 a 24 horas após o parto. Inicialmente foi realizado um estudo piloto, durante 15 dias, para treinamento das investigadoras e padronizações na abordagem e na aplicação dos questionários utilizados neste estudo. Nessa fase, os pesquisadores abordaram em grupo cada puérpera. Posteriormente, as entrevistas individuais e em ambiente reservado foram realizadas diariamente pelas investigadoras no período de 22 de junho a 30 de setembro de 2009. Utilizou-se um instrumento estruturado para coleta de dados referentes s condições sociodemográficas, tais como, idade, cor da pele autorreferida, escolaridade, conviver ou não com companheiro, renda familiar mensal em salários-mínimos e número de consultas pré-natais realizadas. Os resultados dos dados sociodemográficos foram utilizados para identificar possíveis fatores de risco para o consumo alcoólico para os períodos anterior e posterior ao reconhecimento da gravidez. Isso foi realizado associando-os aos resultados dos questionários utilizados neste estudo para diagnóstico de consumo alcoólico.

Para detecção do uso ou abuso de bebidas alcoólicas utilizaram-se os questionários Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT)13, o Tolerance, Annoyed, Cut-down and Eye-opener (T-ACE)14 e o Cut-down, Annoyed by criticism, Guilty and Eye-opener (CAGE)15.

As questões do AUDIT são pontuadas de 0 a 4 e avaliam o uso de álcool e problemas relacionados ao seu consumo nos últimos 12 meses. Esse instrumento classifica o entrevistado em uma de quatro zonas de risco, de acordo com o escore obtido: até 7 pontos, indica uso de baixo risco ou abstinência; de 8 a 15 pontos, uso de risco; de 16 a 19 pontos, sugere uso nocivo e pontuação igual ou maior que 20, provável dependência. Neste estudo, optou-se por separar o grupo de abstinentes, visto que para gestantes recomenda-se total abstinência. Inicialmente, a entrevista realizada referiu-se ao consumo alcoólico no trimestre anterior ao reconhecimento da gravidez e em seguida ao período gestacional.

O questionário T-ACE é composto por quatro questões, cuja pontuação varia de zero a dois pontos para a primeira questão e de zero a um ponto da segunda quarta, estabelecendo-se pontuação total para o questionário que pode variar de zero a cinco pontos; resultado igual ou maior que dois é considerado positivo.

O questionário CAGE é um instrumento utilizado para diagnóstico de abuso crônico do álcool ou provável dependência. Constitui-se de quatro perguntas com respostas objetivas, sim ou não, e é considerado positivo se houver duas ou mais respostas afirmativas. Primeiramente, este teste foi respondido pelas gestantes para o período anterior ao reconhecimento da gravidez e, em seguida, para o gestacional.

As puérperas também foram questionadas sobre o uso de outras drogas além do álcool durante a gravidez. Não foram incluídas no estudo, 2 puérperas com deficiência cognitiva evidente, 6 que se recusaram em responder os questionários e 3 que tinham menos de 18 anos e não foi possível obter o consentimento dos pais ou responsável.

Para os cálculos estatísticos, utilizou-se a análise univariada para se avaliar a relação entre as diferentes faixas etárias, o nível de escolaridade ( ensino fundamental ou ensino médio, completos ou incompletos), o fato de coabitar ou não com companheiro, a renda familiar (3 ou >3 salários-mínimos) e o número de consultas de pré-natal em relação aos resultados dos questionários AUDIT, CAGE ou T-ACE. Para esse fim, aplicou-se o teste do χ2, exceto quando o número de eventos era muito pequeno, e nestes casos utilizou-se o teste exato de Fischer. Quando esses testes mostravam significância estatística, foi calculado a Odds Ratio (OR) e o intervalo de confiança de 95%. Valor p<0,05 foi considerado significante.

De cada puérpera ou de seu responsável foi obtido o consentimento por escrito para sua participação. O projeto deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética Institucional, (Parecer nº 214/09), e a pesquisa foi conduzida dentro dos padrões exigidos pela Declaração de Helsinque.

 

Resultados

Entre as 493 puérperas incluídas, predominaram as que estavam na faixa etária de 18 a 29 anos (72%), as que tinham ensino médio ou superior, completo ou incompleto (60,6%), as que coabitavam com companheiro (73%) e aquelas com renda mensal de até 3 salários-mínimos (86,4%) (Tabela 1). Entre todas, 322 (65,3%) eram brancas, 117 (23,7%) pardas, 51 (10,3%) negras e 3 (0,6%) amarelas.

No trimestre anterior ao reconhecimento da gravidez, identificou-se pelo AUDIT que 331 (67,1%) mulheres consumiram bebidas alcoólicas; 233 (47,3%) faziam consumo de baixo risco, 73 (14,8%) de risco e 25 (5,1%) uso nocivo ou eram prováveis dependentes. Consumo de baixo risco foi mais frequente (OR=1,6; IC95% 1,1 - 2,2) entre aquelas com escolaridade equivalente ao ensino médio ou superior 154 (51,5%) versus 79 (40,7%). Consumo nocivo ou provável dependência foi mais frequente (OR=2,6; IC95% 1,2 - 6,0) entre as mulheres que não coabitavam com companheiro 12 (9,0%) versus 13 (3,6%). As frequências de uso de baixo risco, de risco ou nocivo/provável dependência, respectivamente, foram semelhantes entre as mulheres na faixa etária de 14 a 17 anos [19 (41,3%); 6 (13%); 1 (2,2%)], de 18 a 24 anos [117 (52,7%); 38 (17,1%); 11 (5,0%)], de 25 a 29 anos [55 (41,4%); 16 (12,0%); 10 (7,5%)], de 30 a 34 anos [25 (42,4%); 11 (18,6%); 1 (1,7%)] e 35 anos [17 (51,5%); 2 (6,1%); 2 (6,1%)]; e entre aquelas com renda familiar 3 salários-mínimos [199 (46,7%); 64 (15,0%); 22 (5,2%)] ou >3 salários-mínimos [34 (50,7%); 9 (13,4); 3 (4,5%)]. As frequências de uso de baixo risco e de risco, respectivamente, foram semelhantes entre as mulheres que coabitavam [170 (47,2%); 48 (13,3%)] ou não [63 (47,4%); 25 (18,8%)] com companheiro. O consumo de risco e o consumo nocivo/provável dependência, respectivamente, foram semelhantes entre as mulheres com escolaridades ensino fundamental [32 (16,5%); 14 (7,2%)] ou com ensino médio ou superior [41 (13,7%); 11 (3,6%)].

Para o período gestacional foram identificadas, pelo questionário AUDIT, 114 (23,1%) gestantes que consumiram bebidas alcoólicas em algum momento após a confirmação da gravidez. Uso de risco foi mais frequente (OR=2,8; IC95% 1,2 - 6,2) entre gestantes com escolaridade até o ensino fundamental (8,8 versus 3,3%). Uso nocivo ou provável dependência foi mais frequente (OR=3,8; IC95% 1,3 - 11,1) entre as gestantes que não coabitavam com companheiro (6,0 versus 1,7%). Não houve outras diferenças significantes entre os padrões de ingestão alcoólica e as outras variáveis sociodemográficas estudadas (Tabela 1).

Analisando-se cada item do questionário AUDIT, observou-se que entre as gestantes que consumiram álcool, 49 (43%) relataram beber de 2 a 4 vezes por mês, 18 (15,8%) de 2 a 3 vezes por semana e 7 (6,1%) quase diariamente durante todo o período gestacional. Sobre a quantidade do consumo de álcool em uma ocasião típica, 10 (8,8%) gestantes referiram beber de 5 a 6 doses, 5 (4,4%) de 7 a 9 e 10 (8,8%), 10 ou mais doses, totalizando 25 (22%) gestantes que relataram episódio de binge drinking ou abuso agudo de bebidas alcoólicas (5 ou mais doses em uma ocasião).

Durante a gravidez, 13 (11,4%) gestantes tiveram a percepção de não conseguir parar de beber uma vez que tivessem iniciado, sendo que para 4 (3,5%) delas isso ocorreu menos que mensalmente, para 4 (3,5%) mensalmente, 3 (2,6%) semanalmente e 2 (1,8%) quase diariamente. Observou-se ainda que 11 (9,6%) deixaram de fazer alguma atividade habitual durante a gravidez devido ao consumo de álcool, e 8 (7,1%) disseram precisar beber pela manhã para recuperar-se de uma bebedeira anterior.

Entre as puérperas que beberam durante a gestação, 43 (37,7%) sentiam remorso depois de beber, sendo que para 17 (14,9%) delas isso ocorreu menos que mensalmente, 12 (10,5%) mensalmente, 10 (8,8%) semanalmente e 4 (3,5%) quase diariamente. Três (2,7%) disseram que não conseguiram se lembrar do que aconteceu na noite anterior pelo fato de ter bebido, isto ocorreu em uma (0,9%) mensalmente e em duas (1,8%) gestantes semanalmente. Em decorrência da ingestão alcoólica, sete (6,1%) relataram ter ferido alguém ou ter sido ferida. Somente 49 (43%) foram criticadas pelo consumo de álcool durante a gravidez ou foram orientadas a interromper a ingestão alcoólica.

O questionário CAGE foi aplicado, consecutivamente, para as 405 últimas puérperas avaliadas. Para o período anterior gravidez, ele foi positivo para 50 (12,3%) delas, sendo mais frequente (OR=2,2; IC95% 1,2 - 4,0) entre aquelas com escolaridade até o ensino fundamental (17,5 versus 8,8%) e mais frequente (OR=2,1; IC95% 1,1 - 3,8) entre as que não coabitavam com companheiro (18,6 versus 9,9%). Não houve diferença significante na frequência de CAGE positivo em relação s outras variáveis sociodemográficas avaliadas. Para o período gestacional, o questionário CAGE foi positivo para 53 (13,1%) gestantes, sendo estes resultados mais frequentes (OR=2,1; IC95% 1,2 - 3,7) entre aquelas com nível de escolaridade até o ensino fundamental (18,1 versus 9,6%) e mais frequente (OR=2,0; IC95% 1,1 - 3,7) entre as que não coabitavam com companheiro (19,5 versus 10,6%). Não houve diferença significante nas frequências de CAGE positivo em relação cor da pele ou renda familiar (Tabela 2).

Entre as 50 puérperas com CAGE positivo para o período anterior ao diagnóstico de gravidez, 30 continuaram a ter CAGE positivo após esse diagnóstico; outras 23 que tinham CAGE negativo responderam positivamente a esse questionário para o período gestacional.

Resultados positivos para o questionário T-ACE foi verificado em 84 (17%) gestantes e foi mais frequente (OR=1,9; IC95% 1,2 - 3,0) entre aquelas com escolaridade até o ensino fundamental (22,7 versus 13,4%). Não houve diferenças significantes em relação s faixas etárias, cor da pele, conviver ou não com companheiro ou renda familiar (Tabela 2).

Todas as gestantes que, pelo AUDIT, foram identificadas como consumidoras de alto risco ou de serem prováveis dependentes também tiveram T-ACE e CAGE positivos; das que foram diagnosticadas com consumo de risco, 96,3% (26/27) tiveram T-ACE positivo e 86,9% (20/23) tiveram CAGE positivo, entre aquelas com consumo de baixo risco, 28,8% (15/52) tiveram CAGE positivo e 58,9% (43/73) tiveram T-ACE positivo, e entre as gestantes diagnosticadas como abstinentes pelo AUDIT, 1,9% (6/318) tiveram CAGE positivo e 0,3% (1/379), T-ACE positivo.

Após o diagnóstico da gravidez, houve diminuição nos padrões de consumo alcoólico e aumento no número de gestantes abstinentes independentemente do número de consultas pré-natais. No entanto, entre todas as gestantes, 41 (8,3%) continuaram fazendo consumo considerado de risco, nocivo ou eram prováveis dependentes (Tabela 3). CAGE positivo foi mais frequente (OR=3,8; IC95% 1,6 - 9,0) entre gestantes que fizeram três ou menos consultas de pré-natal (9/27; 33,3%) do que entre as que fizeram quatro ou mais consultas (44/378; 11,6%).

Durante a gravidez, 90 (18,6%) de 485 puérperas fizeram consumo de outras drogas que não o álcool, entre elas, o tabaco foi consumido por 89 (18,4%), o crack por 15 (3,1%), maconha por 6 (1,2%) e cocaína por 3 (0,6%).

 

Discussão

No presente estudo, a avaliação do consumo alcoólico pelo questionário AUDIT, para o trimestre anterior ao diagnóstico de gravidez, mostrou que um quinto das mulheres faziam uso de risco, nocivo ou eram prováveis dependentes. Essa frequência é maior do que aquela encontrada em mulheres não grávidas nas cidades de Juiz de Fora e Rio Pomba (MG) (12,7%)16. O consumo de baixo risco foi mais frequente entre mulheres com maior escolaridade, no entanto, resultados do AUDIT mostrando provável dependência ou CAGE positivo foram mais frequentes entre as mulheres com menor escolaridade e entre as que não coabitavam com companheiro. No estado de São Paulo também se observou, entre mulheres não grávidas, associação de consumo alcoólico abusivo com situações conjugais sem companheiro, no entanto, esse consumo associou-se com maior escolaridade17.

Para o período gestacional, verificou-se pelo AUDIT que 23% das gestantes fizeram algum consumo de álcool. Entre todas as gestantes, o CAGE e T-ACE foram positivos para 13 e 17%, respectivamente. Em outros estudos realizados no Brasil, observou-se que as frequências de uso de álcool durante a gravidez variam de 7,4 a 40%18-21. Consumo alcoólico de risco, nocivo ou provável dependência e CAGE positivo foram mais frequentes entre gestantes com menores escolaridades e entre as que não coabitavam com companheiro. Entre as pacientes com T-ACE positivo, o único fator de risco identificado para o consumo alcoólico foi a menor escolaridade. Em outros estudos realizados no Brasil, observou-se que podem ser fatores de risco para o consumo alcoólico na gravidez não coabitar com companheiro, idade mais avançada, história de aborto prévio19,20, menor escolaridade, tabagismo ou uso de drogas ilícitas durante a gravidez19.

Em um artigo de revisão22 baseado em estudos realizados em cinco continentes (nenhum realizado no Brasil), observou-se que os preditores mais consistentes de uso de álcool na gravidez foram o consumo de álcool antes da gravidez e ter sido abusada ou exposta a violência; fatores menos consistentes foram baixos níveis sociais ou salariais. Desemprego, situação conjugal e nível de educação foram infrequentemente preditivos do uso de álcool durante a gestação. No presente estudo, houve relatos de puérperas que foram feridas ou feriram alguém em decorrência da ingestão alcoólica.

Verificou-se que 22% das gestantes consumiam 5 ou mais doses em um dia típico (padrão binge de uso de álcool). Estudos recentes mostram que a ingestão alcoólica pela gestante em padrão binge, até mesmo menos de quatro vezes durante a gestação, está associada redução do crescimento pré-natal (peso e perímetro cefálico) e diminuição da acuidade visual23, além de asfixia neonatal24.

Dois terços das gestantes deixaram de beber após o reconhecimento da gravidez, frequência maior que as observadas na Espanha (54,3%)25 ou na Rússia (33%)11, mas é menor que na Suécia (77%)8. Menos da metade das gestantes que beberam durante a gravidez relataram terem sido criticadas ou orientadas a interromper a ingestão alcoólica. Isso mostra a necessidade de intensificar-se, durante as consultas de pré-natal, busca pelo diagnóstico do uso do álcool para posterior aconselhamento. A gravidez pode estar associada com aumento da motivação para reduzir ou eliminar os comportamentos não saudáveis, incluindo o consumo alcoólico22,26, devido ao desejo de ter um filho saudável.

Devido a estigmas sociais, a grávida pode relatar um consumo alcoólico menor ou negá-lo, a fim de contornar possível repreensão e desaprovação pelo profissional de saúde. Os profissionais de saúde que atendem as gestantes devem saber utilizar as ferramentas próprias para o diagnóstico de consumo alcoólico e reconhecer seus fatores de risco sem, no entanto, se prender a estereótipos.

Além disso, a atenção ao modo de beber não deve ser negligenciada em qualquer período da vida reprodutiva da mulher. Em um estudo observou-se que mulheres que estavam tentando engravidar ou com chances de engravidar consumiam álcool nos mesmos padrões de mulheres que faziam contracepção ou que não eram sexualmente ativas27. Em outro, observou-se que 16% das gestantes consumiram álcool até a confirmação da gravidez, o que ocorreu quando elas já estavam em média com 9,6 semanas de gestação18. Desta forma, muitas mulheres quando descobrem que estão grávidas, estão consumindo álcool e expondo o seu concepto substância e, por isso, o diagnóstico do seu uso e o aconselhamento visando sensibilização para os seus efeitos nocivos para a saúde da mãe e do filho devem ser feitos para todas as mulheres em fase reprodutiva.

Entre os três instrumentos utilizados neste estudo para o diagnóstico de consumo alcoólico, o T-ACE e o CAGE têm sido mais adotados na prática diária por serem de fácil e rápida aplicação. Em um estudo para avaliar a versão brasileira do T-ACE observou-se que ele preenche adequadamente os critérios de desempenho como instrumento básico para rastreamento de consumo alcoólico durante a gravidez14. No entanto, no presente estudo, dos três questionários, o AUDIT foi o que mais frequentemente diagnosticou uso/abuso do álcool, pois consegue rastrear todos os níveis de consumo.

Os questionários CAGE e T-ACE diagnosticam principalmente o uso abusivo ou provável dependência do álcool. Chamou a atenção a alta frequência com que esses dois questionários foram positivos entre as gestantes que, pelo questionário AUDIT, foram classificadas como consumidoras de baixo risco. Isso provavelmente se deve ao fato de que as gestantes sabendo que não deveriam beber respondem positivamente a algumas questões daqueles questionários, tais como, ter sido incomodada ou criticada por ter bebido ou que deveriam diminuir o consumo alcoólico, mesmo tendo ingerido pequenas quantidades e poucas vezes. Comprova esse raciocínio o fato de 23 gestantes que responderam negativamente ao CAGE para o período anterior ao diagnóstico de gravidez, terem respondido positivamente para o período gestacional. Por isso, os questionários CAGE e T-ACE deveriam ser interpretados com cautela em gestantes antes de classificá-las como usuárias abusivas ou dependentes. No entanto, isso não os invalida na triagem do uso do álcool por gestantes.

Em conclusão, verificou-se que cerca de dois terços das mulheres avaliadas consumiam álcool antes do reconhecimento da gravidez, ou seja, elas provavelmente estavam bebendo quando já estavam grávidas. Entre elas, aproximadamente dois terços deixaram de beber após o diagnóstico de gravidez. O consumo de bebida alcoólica foi mais frequente entre gestantes com menor escolaridade e entre as que não coabitavam com companheiro; não se encontrou relação de consumo alcoólico com a faixa etária, cor da pele ou renda familiar. O questionário AUDIT foi o instrumento que mais frequentemente diagnosticou uso de álcool entre gestantes; os questionários CAGE e T-ACE podem ter resultados positivos mesmo entre aquelas que não necessariamente fazem uso considerado abusivo para a população geral ou que sejam dependentes. Esses resultados mostram a necessidade de maior conscientização das mulheres a respeito dos riscos de beber durante o período reprodutivo e também da necessidade de, durante as consultas de pré-natal, se detectar consumo alcoólico na gestação. Acredita-se que por se ter avaliado mulheres da população geral, os resultados deste estudo deve representar o que ocorre a nível nacional. Assim, é necessário traçar estratégias curriculares nos cursos de graduação, de especialização e de educação continuada dos profissionais de saúde que cuidam de mulheres para a importância de se diagnosticar o uso de drogas lícitas e ilícitas.

 

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Correspondência:
Luiz Carlos Marques de Oliveira
Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia
Avenida Pará, 1.720, Bloco 2H
CEP: 38405-320 Uberlândia (MG), Brasil

Recebido: 26/04/2012
Aceito com modificações: 28/05/2012
Conflito de interesses: não há.

 

 

Trabalho realizado na pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia - UFU - Uberlândia (MG), Brasil.