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Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Print version ISSN 0100-7203On-line version ISSN 1806-9339

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.37 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/SO100-720320150005319 

Artigos Originais

Mortalidade por câncer de mama feminino no Brasil de acordo com a cor

Female breast cancer mortality in Brazil according to color

Leonardo Ribeiro Soares 1   2  

Carolina Maciel Reis Gonzaga 2  

Ludmilla Watanabe Branquinho 3  

Ana-Luíza Lima Sousa 4  

Marta Rovery Souza 5  

Ruffo Freitas-Junior 1   2   6  

1Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

2Programa de Mastologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

3Liga da Mama, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

4Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

5Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, Universidade Federal de Goiás - UFG - Goiânia (GO), Brasil

6Hospital Araújo Jorge, Associação de Combate ao Câncer em Goiás - ACCG - Goiânia (GO), Brasil

RESUMO

OBJETIVO:

Descrever a mortalidade por câncer de mama feminino no Brasil segundo a cor, nos anos de 2000 e 2010.

MÉTODOS:

Estudo descritivo, no qual os dados populacionais foram obtidos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações de óbitos por câncer de mama foram coletadas do Ministério da Saúde, através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Foram calculadas as taxas de mortalidade bruta por câncer de mama feminino de acordo com a cor e o grupo etário, até 49 anos ou ≥ 50 anos. Os resultados foram também avaliados pelas cinco macrorregiões do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste).

RESULTADOS:

No Brasil, em mulheres com 50 anos ou mais, as maiores taxas brutas de mortalidade por câncer de mama em 2000 foram de 62,6/100.000, 46,0/100.000 e 29,7/100.000, entre amarelas, brancas e pretas, respectivamente. Nas mulheres com menos de 50 anos, em 2000, a mortalidade bruta variou de 2,0/100.000 entre as indígenas a 6,8/100.000 entre as mulheres brancas. Após dez anos, em mulheres com idade superior a 50 anos, a taxa bruta de mortalidade entre amarelas, brancas e pretas foi de 21,5, 53,2 e 40,4 por 100.000, respectivamente. Nas macrorregiões do país, as maiores taxas de mortalidade por câncer de mama foram observadas nas mulheres brancas e pretas das regiões Sul e Sudeste. No Nordeste, as taxas de mortalidade em mulheres pretas e pardas dobraram em 2010.

CONCLUSÃO:

As taxas de mortalidade por câncer de mama apresentam variações étnicas e geográficas. Entretanto, não se pode excluir a possibilidade de que grandes variações tenham ocorrido em decorrência de melhoria na qualidade da informação sobre a mortalidade no país.

Palavras-Chave: Neoplasias da mama/mortalidade; Origem étnica e saúde; Brasil

ABSTRACT

PURPOSE:

To describe the mortality of female breast cancer in Brazil according to color, in the years 2000 and 2010.

METHODS:

A descriptive study in which demographic data were obtained from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE). The breast cancer death information in Brazil was collected from the Ministry of Health through the Mortality Information System (SIM). The crude mortality rates for female breast cancer were calculated according to color and age group, up to 49 years and ≥50 years. The results obtained were distributed into five geographical regions of the country (North, Northeast, Midwest, South and Southeast).

RESULTS:

In Brazil, in women aged 50 or more, the highest crude mortality rates of breast cancer in 2000 were 62.6/100,000, 46.0/100,000 and 29.7/100,000 among yellow, white and black women, respectively. In women under 50 years in 2000, the crude mortality ranged from 2.0/100,000 among indigenous women to 6.8/100,000 among white women. After ten years, in women over 50 years, the crude mortality rate among yellow, white and black women was 21.5, 53.2 and 40.4 per 100,000, respectively. In the country's regions, the highest mortality rates of breast cancer were observed in white and black women from the South and Southeast. In the Northeast, mortality rates in black and brown women doubled in 2010.

CONCLUSION:

Breast cancer mortality rates show ethnic and geographical variations. However, it is not possible to exclude the possibility that large variations have occurred as a result of improvement in the quality of information on mortality in the country.

Key words: Breast neoplasms/mortality; Ethnicity and health; Brazil

Introdução

O câncer de mama é a neoplasia mais frequente entre as mulheres brasileiras, constituindo uma doença complexa e com diversos padrões de incidência, de comportamento e de evolução clínica1 - 3. Dessa forma, a distribuição da doença e o seu perfil epidemiológico estão associados a fatores biológicos, econômicos, culturais, entre outros4 , 5.

O Brasil é um país de proporções continentais, cuja população apresenta elevado grau de miscigenação e de ascendência étnica, como africana, indígena e europeia6. De acordo com a região geográfica do país, são observados diferentes perfis socioeconômicos, culturais, raciais e dimensões do acesso, que podem justificar as diferenças nos desfechos clínicos associados à neoplasia mamária7 , 8.

As disparidades raciais na incidência e na mortalidade têm sido observadas em diversas séries9 - 11, que refletem a importância dessa variável no estudo epidemiológico do câncer de mama. A avaliação dessas desigualdades pode colaborar para o desenvolvimento e a efetivação de estratégias específicas para o controle da doença, que devem respeitar as diferenças populacionais de cada região do país12 , 13.

Não identificamos estudos étnico-raciais relacionados à mortalidade por câncer de mama entre mulheres brasileiras. Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi descrever a mortalidade por câncer de mama feminino no Brasil de acordo com a idade e com a cor da pele.

Métodos

Trata-se de um estudo ecológico de série temporal, descritivo, realizado por meio de coleta de número de óbitos por câncer de mama entre as mulheres brasileiras, nos anos de 2000 e de 2010.

Os dados populacionais foram obtidos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), através do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA; Tabela 1). A variável cor foi classificada em cinco categorias distintas: branca, preta, parda, amarela e indígena, segundo o sistema classificatório empregado pelo IBGE.

Tabela 1. População residente e óbitos por câncer de mama feminino de acordo com a cor, no Brasil e macrorregiões, 2000 e 2010 

Cor População em 2000 População em 2010 Óbitos por câncer de mama em 2000 Óbitos por câncer de mama em 2010
Branca
Brasil 30.052.808 33.401.548 5.500 7.876
Norte 981.654 1.134.017 68 114
Nordeste 4.853.480 5.353.806 451 891
Sudeste 15.508.976 16.930.541 3.366 4.404
Sul 6.888.966 7.912.663 1.394 2.057
Centro-Oeste 1.819.732 2.070.519 221 409
Preta
Brasil 3.342.727 5.080.460 446 900
Norte 159.763 302.877 4 20
Nordeste 1.099.514 1.742.195 74 210
Sudeste 1.615.848 2.327.694 301 533
Sul 301.597 391.883 52 90
Centro-Oeste 166.007 315.812 15 47
Amarela
Brasil 284.969 838.036 94 69
Norte 8.138 62.101 1 2
Nordeste 20.551 242.712 3 12
Sudeste 201.686 377.997 89 40
Sul 38.577 73.393 1 8
Centro-Oeste 16.016 81.831 0 7
Parda
Brasil 18.354.236 26.799.299 1.373 3.131
Norte 2.019.036 3.045.679 84 235
Nordeste 7.668.494 10.281.909 450 1.323
Sudeste 6.387.647 9.755.213 650 1.227
Sul 822.924 1.455.888 53 86
Centro-Oeste 1.456.134 2.260.609 136 260
Indigena
Brasil 211.839 224.219 10 5
Norte 46.683 66.726 1 3
Nordeste 51.690 63.040 1 0
Sudeste 60.088 39.753 8 2
Sul 26.229 22.274 0 0
Centro-Oeste 27.150 32.424 0 0

As informações de óbitos por câncer de mama no Brasil foram coletadas do Ministério da Saúde (MS), através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM; Tabela 1). Mortes por câncer de mama foram coletadas de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID), utilizando a 10ª revisão (CID C50).

Foram calculadas as taxas de mortalidade bruta por câncer de mama feminino de acordo com a cor e o grupo etário, o qual foi categorizado em 20-49 anos e superior a 50 anos. A taxa bruta de mortalidade por câncer de mama por 100.000 mulheres traduz-se pelo quociente entre o total de mortes e a população sob risco. Os resultados foram também avaliados pelas cinco macrorregiões do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste).

O presente estudo faz parte de uma linha de pesquisa desenvolvida pela Rede Goiana de Pesquisa em Mastologia, com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG). Foram seguidas todas as recomendações de boas práticas clínicas segundo a resolução CNS 466/2012 e a Convenção de Helsinque.

Resultados

No Brasil, houve aumento na maioria das taxas de mortalidade em 2010 em relação às taxas observadas em 2000, tanto por grupo etário quanto por cor. Os maiores aumentos foram observados nas mulheres de cor preta e parda com 50 anos ou mais. Em mulheres com 50 anos ou mais, as maiores taxas brutas de mortalidade por câncer de mama em 2000 foram de 62,6/100.000, 46,0/100.000 e 29,7/100.000, entre amarelas, brancas e pretas, respectivamente. Nas mulheres com menos de 50 anos, em 2000, a mortalidade bruta variou de 2,0/100.000, entre as indígenas, a 6,8/100.000 entre as mulheres brancas (Tabela 2).

Tabela 2. Taxa de mortalidade bruta por câncer de mama em mulheres com menos de 50 anos e 50 anos ou mais, Brasil e macrorregiões, 2000 e 2010 

Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
Taxa bruta (2000) Taxa bruta (2010) Taxa bruta (2000) Taxa bruta (2010) Taxa bruta (2000) Taxa bruta (2010) Taxa bruta (2000) Taxa bruta (2010) Taxa bruta (2000) Taxa bruta (2010) Taxa bruta (2000) Taxa bruta (2010)
Branca <50 6,8 7,7 3,1 4,6 3,7 5,7 8 8,3 7,2 8,7 5,9 7,2
Branca ≥50 46 53,2 21 26,2 22,5 39,4 53,2 56,9 51,6 57,4 32,2 49,2
Preta <50 6,5 7,1 1,7 2,3 4,1 4,9 8,9 9,4 5,5 9,1 4,8 5,6
Preta ≥50 29,7 40,4 4,7 18,6 12,6 27,9 42 49,6 47 51,8 21,5 40
Amarela <50 13 1,9 0 0 12,7 2,2 17,5 1,3 0 2,2 0 4,7
Amarela ≥50 62,6 21,5 47,3 17,9 21 13 79,1 24,6 6,4 24,3 0 21,9
Parda <50 3,5 5,1 2,6 4 2,5 5,4 4,7 5,7 2,9 2,1 4,8 4,9
Parda ≥50 19,8 28,5 10,2 20,4 15 31,1 27,7 29,3 16,7 14,9 27,7 31,2
Indígena <50 2 1,3 0 3,9 0 0 7,4 0 0 0 0 0
Indígena ≥50 11,7 4,6 10 6,2 6,5 0 25,8 13,4 0 0 0 0

Taxa de mortalidade por 100.000 mulheres. Fontes: Sistema IBGE de Recuperação Automática - SIDRA/IBGE. Disponível em: http://www.sidra.ibge.gov.br/; Sistema de Informação sobre Mortalidade - SIM/DATASUS. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205.

Em 2010, considerando as mulheres com idade superior a 50 anos, a taxa bruta de mortalidade entre amarelas, brancas e pretas foi de 21,5, 53,2 e 40,4 por 100.000, respectivamente. Entre as mulheres com idade inferior a 50 anos, em 2010, a mortalidade bruta entre as indígenas e as brancas foi de 1,3/100.000 e 7,7/100.000, respectivamente (Tabela 2).

A taxa de mortalidade observada entre as mulheres de cor amarela, em 2000, foi de 33,0/100.000. Entre as macrorregiões, a maior taxa bruta de mortalidade foi observada na região Sudeste (41,0/100.000), ultrapassando a taxa considerada para todo o país. Após dez anos, as taxas relacionadas à cor amarela apresentaram resultados divergentes nas avaliações por subgrupo, com redução da mortalidade em mulheres com menos de 50 anos residentes na região Sudeste e aumento da mortalidade entre as residentes na região Sul com idade superior a 50 anos.

A taxa de mortalidade entre mulheres de cor branca teve um comportamento crescente no período analisado, em todas as regiões do país, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. Em 2000, a taxa de mortalidade entre mulheres de cor branca estava mais evidente nas regiões Sul e Sudeste e, em 2010, as regiões Centro Oeste e Nordeste alcançaram taxas semelhantes (Tabela 2).

Para as mulheres de cor preta, houve tendência de aumento das taxas de mortalidade por câncer de mama em todas as regiões, no período de dez anos. No Brasil, essa taxa bruta entre as mulheres pretas com mais de 50 anos era de 29,7 em 2000 e alcançou 40,4 ao final de 10 anos, com um crescimento de 36,0%. Considerando o número total de óbitos por câncer de mama nos anos de 2000 e 2010, observou-se aumento de 183,0% entre as mulheres de cor preta residentes na região Nordeste do país (Tabela 2).

A cor parda teve comportamento semelhante à cor preta, com maior crescimento nas regiões Nordeste (107,3%) e Norte (100,0%). Em relação às mulheres com mais de 50 anos que residiam na região Nordeste em 2010, as taxas de mortalidade entre as pretas e as pardas dobraram em 2010 (Tabela 2).

A raça indígena apresentou redução da taxa bruta de mortalidade em mulheres com mais de 50 anos, de 11,7/100.000 em 2000 para 4,6/100.000 em 2010. Do total de 10 óbitos em mulheres indígenas registrados em 2000, 8 ocorreram na região Sudeste. Em 2010, dos cinco óbitos registrados pelo SIM, três ocorreram na região Norte (Tabela 1).

Nas macrorregiões do país, com exceção das mulheres de cor amarela no ano 2000, as maiores taxas de mortalidade por câncer de mama foram observadas nas mulheres brancas e pretas das regiões Sul e Sudeste.

Discussão

A população brasileira, composta por várias etnias (brancas, negras e indígenas), apresenta variações geográficas significativas e constitui a quinta maior população mundial14. Segundo o IBGE, a população brasileira apresenta a seguinte distribuição por cor: 48,2% branca, 6,9% preta, 44,2% parda e 0,7% amarela e indígena15. Atualmente, a maior concentração de população da cor preta está na região Nordeste (8,1%), sendo que na Bahia a população de cor preta chega a 16,8% e a de pardos, a 59,8%. Por outro lado, na região Sul, a população de pretos é de 3,6%, enquanto os brancos somam 78,5%15.

A variável "raça/cor" foi introduzida pelo SIM em 1995 e, desde então, intensificou-se o interesse pela sua associação com as desigualdades na saúde brasileira. Porém, a coleta dessa informação ainda se mostra deficiente, pois o procedimento mais recomendado é a autoclassificação. Embora tenha ocorrido uma melhora dos serviços de informação em todo o território nacional, ainda existe elevada taxa de informações ignoradas ou não preenchidas16.

Deve-se destacar que o alto grau de miscigenação entre as raças no Brasil, bem como o perfil de subjetividade na determinação de cor da pele6 , 17, também pode gerar viés na interpretação dos dados coletados. Nos Estados Unidos, onde a miscigenação racial é menos evidente, as mulheres brancas apresentam maior incidência de câncer de mama em comparação a outras raças e etnias. No entanto, as mulheres afro-americanas são mais propensas a morrer da doença. Essas disparidades resultam da oportunidade de acesso aos serviços de saúde e ao tratamento10 , 18.

As taxas de mortalidade por câncer de mama, na população brasileira, têm apresentado variações geográficas em estudos nacionais, com tendência de estabilização na região Sudeste, de declínio na região Sul e de aumento nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste8 , 19. Foi observado que essas desigualdades estão associadas tanto ao índice de desenvolvimento humano quanto ao índice de exclusão social4. Outros fatores que podem estar relacionados incluem as taxas de cobertura mamográfica, o acesso aos serviços de saúde e a qualidade do tratamento oncológico8 , 19 - 21. Recentemente, foram observadas diferenças geográficas na distribuição dos subtipos moleculares do câncer de mama no Brasil5, sugerindo que fatores climáticos, nutricionais e étnicos também possam interferir em características específicas de biologia tumoral.

O acesso aos serviços de saúde no Brasil também apresenta variações entre as cidades no interior dos estados e as suas respectivas capitais, que traduzem disparidades nas taxas de mortalidade por câncer de mama em todo o país7. Entre as capitais, as tendências de crescimento ocorrem predominantemente nas regiões Norte e Nordeste. Na maioria do interior dos estados, a mortalidade continua aumentando, com exceção de algumas áreas no Sul. Uma das razões para essa disparidade pode ser o menor acesso ao tratamento para as pacientes que vivem no interior dos estados e na região Norte do Brasil7. Além disso, os registros de morte tendem a ser mais abrangentes nas capitais do país7 , 22 , 23.

Entre as variações geográficas observadas no presente estudo, destacam-se as taxas de mortalidade bruta por câncer de mama observadas na Região Sudeste, possivelmente em decorrência da concentração populacional e da diversidade étnica dessa região do país14 , 15. Nas demais regiões, entre os anos de 2000 e de 2010, as taxas de mortalidade em relação à cor apresentaram padrões de evolução muito divergentes, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.

Uma hipótese para explicar essa divergência nas taxas de mortalidade por câncer de mama seria a variação regional em relação à qualidade das informações coletadas no SIM. Atualmente, consideram-se de maior confiabilidade as informações obtidas das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país22 , 23, o que poderia justificar alguns padrões não esclarecidos de evolução temporal. Entre as limitações identificáveis, o preenchimento inadequado das declarações de óbito poderia gerar oscilações nas estimativas de mortalidade devido a discordâncias entre o diagnóstico primário e a causa básica do óbito22 , 23. Contudo, diante da baixa cobertura dos Registros de Câncer de Base Populacional, as informações do SIM representam uma importante base para a formulação de estratégias e políticas de saúde pública16 , 22, as quais devem considerar as particularidades de cada região do país.

Entre os achados não esperados no presente estudo, destaca-se o aumento de aproximadamente 100% na mortalidade por câncer de mama entre mulheres brancas residentes no Nordeste, de 2000 para 2010. No mesmo período, porém, o aumento da população branca foi de apenas 10%. Ainda, observou-se aumento respectivo de 58% na população preta na mesma região, com aumento de 183% na mortalidade por câncer de mama. Esses resultados díspares podem eventualmente ter sido encontrados em decorrência de viés relacionado a metodologia de coleta de informações pelo IBGE referentes à cor ou, eventualmente, por melhorias no serviço de informações do SIM. Especificamente em relação ao SIM, observou-se em recente estudo uma elevada qualidade na geração dos dados para os tumores de maior prevalência22. Entretanto, em situações de baixa prevalência, pode haver maior possibilidade de viés22, como possivelmente tenha ocorrido em algumas populações no presente trabalho, incluindo a população indígena.

Nos últimos anos, reduziu-se o impacto do fator migratório nas taxas de mortalidade em decorrência de legislações, normatizações e avanços na rede do Sistema Único de Saúde (SUS)24, o que também pode ter contribuído para o aumento da mortalidade nas regiões Norte e Nordeste. Sabe-se que as pacientes migravam dos estados com piores condições de saúde para aqueles com uma rede pública de saúde desenvolvida e consolidada25, o que pode alterar as taxas de sobrevida e de mortalidade nas avaliações por subgrupo de regiões geográficas.

As taxas de mortalidade por câncer de mama apresentam variações étnicas e geográficas, com destaque para mulheres de cor branca e amarela e idade superior a 50 anos. Entretanto, não se pode excluir a possibilidade de que grandes variações tenham ocorrido em decorrência de melhoria na qualidade da informação sobre a mortalidade no país. Os resultados observados no presente estudo podem contribuir para o desenvolvimento e a efetivação de estratégias específicas para o controle da doença, as quais devem respeitar o perfil populacional de cada região, além da consolidação da informação de óbitos no país.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa concedida a Carolina Maciel Reis Gonzaga.

Referências

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Recebido: 28 de Fevereiro de 2015; Aceito: 24 de Junho de 2015

Correspondência: Ruffo Freitas-Junior Programa de Mastologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás 1ª Avenida, s/n - Setor Universitário CEP: 74605-050 Goiânia (GO), Brasil

Conflito de interesses: não há.

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