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Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736XOn-line version ISSN 1678-5150

Pesq. Vet. Bras. vol.24 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2004

https://doi.org/10.1590/S0100-736X2004000100008 

Intoxicação experimental por Dodonea viscosa (Sapindaceae) em bovinos

 

Experimental poisoning by Dodonea viscosa (Sapindaceae) in cattle

 

 

Cristhiane Stecanella de Oliveira Cattani; Edson Moleta Colodel; Sandra Davi Traverso; André Mendes Ribeiro Correa; David Driemeier

Departamento de Patologia Clínica Veterinária, Faculdade de Veterinária, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Cx. Postal 15094, Porto Alegre, RS 91540-000. E-mail: moleta@terra.com.br

 

 


RESUMO

As folhas de Dodonea viscosa foram administradas por via oral a cinco bovinos, dos quais quatro receberam folhas verdes frescas e o quinto, folhas secas. Quatro animais apresentaram sinais clínicos e morreram, enquanto o quinto bovino não adoeceu. A planta verde fresca mostrou-se tóxica a partir de 25g/kg. Todos os animais que morreram, manifestaram sinais clínicos entre 13h30min e 45h após a ingestão das folhas. A evolução clínica foi de aproximadamente 8h30min. Os animais manifestaram apatia, anorexia, leve tenesmo, tremores musculares, dificuldade para permanecer em estação pressionando a cabeça contra obstáculos, decúbito esternal, movimentos de pedalar, coma e morte. A alteração macroscópica mais significativa foi observada no fígado, com acentuação do padrão lobular, áreas vermelho-escuras intercaladas com áreas vermelho-claras, dando um aspecto de fígado noz-moscada. Hemorragias petequiais foram encontradas em serosas de órgãos da cavidade abdominal e torácica bem como no intestino. A principal alteração microscópica observada foi necrose hepatocelular coagulativa centrolobular ou massiva, associada à congestão e hemorragias.

Termos de indexação: Dodonea viscosa, necrose hepatocelular, doenças de bovinos, plantas tóxicas.


ABSTRACT

The leaves of Dodonea viscosa were force fed to five bovines. Four received the leaves in fresh green stage and the fifth dried ones. Clinical signs were observed in four of the bovines that died; the fifth did not show signs of poisoning. The fresh green plant was proved to be toxic from a dose of 25g/kg on. Dried leaves fed at the dose of 30 g/kg were also toxic. All the animals that died showed clinical signs from 13h30min to 45h after the ingestion of the plant and and death followed within about 48h. The clinical course lasted for about 8h30min until death. The main symptoms where apathy, anorexia, slight tenesmus, muscle trembling, difficulties to keep consciousness, pressing the head against obstacles, lateral recumbency, paddling movements, coma and death. The most significant macroscopic alterations were observed in the liver, with accentuation of the lobular pattern, dark-red areas interspersed with yellowish areas. Petechiae were found in serosal membranes of the abdominal and thoracic organs as well as the intestines. The main microscopic change was hepatic centrolobular coagulative necrosis, associated with congestion and hemorrhages.

Index terms: Dodonea viscosa, diseases of cattle, plant poisoning, hepatocellular necrosis.


 

 

INTRODUÇÃO

Dodonea viscosa (L.) Jacq. (Fig. 1 e 2), vulgarmente chamada de vassoura-vermelha, vassoura-do-campo ou erva-de-veado, é uma planta nativa sucessora, sendo uma das primeiras espécies a povoar áreas desmatadas. No Brasil, Dodonea viscosa ocorre ao longo de todo o litoral da Região Sul (Reitz 1980). É usada como planta ornamental e medicinal. Isolou-se de D. viscosa saponinas e glicosídeos cianogênicos (Simões et al.1989, Mors et al. 2000, Pesman & Ervin 2002) que não foram associados com intoxicação em animais domésticos.

 

 

 

 

A intoxicação natural por D. viscosa foi associada com a mortalidade em um rebanho bovino no Estado do Rio Grande do Sul (Colodel et al. 2003).

O desconhecimento sobre a intoxicação por D. viscosa em animais domésticos tornou oportuna a realização deste estudo experimental para caracterização das doses tóxicas e do quadro clínico e patológico em bovinos intoxicados com folhas desta planta.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Classificação botânica. Amostras de Dodonea viscosa usadas no experimento, coletadas nos municípios de Osório e Porto Alegre, foram encaminhadas para a Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul para análise morfológica.

Coleta da planta para estudo experimental. Foram utilizadas no experimento folhas de D. viscosa em brotação, coletadas no município de Osório no mês de junho de 2001, e folhas em períodos de inflorescência, coletadas no Campus do Vale (UFRGS), Porto Alegre, RS, durante os meses de setembro e outubro de 2002. As folhas verdes frescas foram separadas dos galhos e imediatamente administradas em dose única, por via oral, aos quatro bovinos. Amostras de folhas coletadas durante a inflorescência foram mantidas a sombra em temperatura ambiente, para desidratar, por um período de 15 dias e administradas por via oral, em dose única, ao quinto bovino.

Animais experimentais. Utilizaram-se cinco bovinos clinicamente sadios, sendo dois machos e três fêmeas, com idade entre 24 e 50 meses (Quadro 1). Durante o experimento os animais foram mantidos na Faculdade de Veterinária, UFRGS, em baias individuais, com água a vontade e feno de alfafa.

 

 

Estudo clínico e patológico. Exames clínicos foram realizados durante todo o experimento, com intervalos regulares. Avaliaram-se apetite, sede, temperatura retal, alterações cardio-respiratórias e modificações de comportamento, postura e movimento.

No Bovino 4, foram feitas coletas de sangue 12, 24 e 48 horas após a ingestão da planta, para verificação dos níveis da aspartato amino transferase (AST), g-glutamil transferase (GGT), fosfatase alcalina (SAP) e de glicose sérica.

Os animais foram necropsiados imediatamente após a morte e fragmentos de todos os órgãos foram coletados e fixados em formalina tamponada a 10%. Foram processadas rotineiramente para estudo histopatológico e corados pela técnica de hematoxilina e eosina (HE) (Prophet et al. 1992).

 

RESULTADOS

Dose tóxica e evolução clínica. Neste experimento com folhas de Dodonea viscosa foram observados sinais clínicos com morte nos Bovinos 1, 2, 4 e 5 que receberam as respectivas doses de 30g/kg de brotação, 30g/kg e 25g/kg de planta verde na fase de inflorescência e 30g/kg de planta seca. O Bovino 3 que recebeu 15g/kg, não apresentou alterações clínicas.

A evolução do quadro clínico variou de 3 a 19 horas. O maior tempo entre a administração da planta e o início dos sinais clínicos foi de 45 horas (Bov. 1). O menor período entre a administração da planta e morte foi de 16 horas, no Bovino 5 que recebeu as folhas secas.

Sinais clínicos. O quadro clínico foi similar em todos os bovinos. Os principais sinais foram anorexia, apatia, redução dos movimentos ruminais, sudorese moderada, principalmente de cabeça e pescoço, leve tenesmo e dores abdominais. Notaram-se também tremores musculares, principalmente nos membros, que se evidenciavam após movimentação, dificuldade em permanecer em estação apoiando a cabeça na parede ou no cocho, relutância em caminhar, decúbito esternal, decúbito lateral com movimentos de pedalagem, coma e morte. O Bovino 2 apresentou agressividade 6 horas antes da morte.

Patologia clínica. Os níveis séricos das enzimas aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina (SAP) e g-glutamil transferase (GGT) e da glicose sérica foram analisados no Bovino 4 (Quadro 2). Alterações significativas ocorreram com os níveis da AST, da GGT e da glicose 48 horas após a administração da planta.

 

 

Achados macroscópicos. A lesão principal encontrava-se no fígado e consistia de acentuação do padrão lobular na superfície capsular e de corte, com áreas vermelho-escuras intercaladas com áreas vermelho-claras (Fig. 3). Notaram-se intensa repleção da vesícula biliar e leve edema de parede da vesícula, colédoco e duodeno. No rúmen havia grande quantidade de folhas de D. viscosa parcialmente digerida. O abomaso estava com mucosa intensamente avermelhada. Petéquias foram vistas no endocárdio e pericárdio, próximas ao sulco coronário e na serosa do omaso e intestino. O Bovino 4 apresentou icterícia moderada e conteúdo hemorrágico no cólon e ceco.

 

 

Achados microscópicos. Microscopicamente a principal lesão, em todos os animais necropsiados, afetava o fígado e consistia em necrose hepatocelular coagulativa, acompanhada de congestão e hemorragia (Fig. 4). A necrose era centrolobular nos Bovinos 1 e 2 e massiva nos Bovinos 4 e 5. Na região centrolobular os hepatócitos estavam dissociados, encarquilhados, com maior eosinofilia citoplasmática, com os núcleos em picnose ou cariorrexia. Por vezes, havia desaparecimento de hepatócitos próximos à veia centrolobular. Nos casos com necrose massiva, a lesão se estendia aos hepatócitos periacinares restando uma a duas fileiras de hepatócitos morfologicamente não afetados. Alterações degenerativas, como vacuolização de hepatócitos e glóbulos eosinofílicos, foram observadas principalmente próximo ao limite da área com necrose e hepatócitos morfologicamente normais. (Quadro 3)

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Neste estudo experimental foi obtido, pela administração de doses únicas de Dodonea viscosa a bovinos, o quadro clínico de insuficiência hepática aguda associada com necrose hepatocelular. As folhas foram tóxicas na fase de brotação, inflorescência e quando secadas a sombra. O quadro clínico e as lesões foram similares àquelas encontradas na intoxicação natural por D. viscosa em bovinos (Colodel et al. 2003). Dos cinco animais que ingeriram a planta, quatro morreram. A planta verde se mostrou tóxica a partir de 25g/kg. O início dos sinais clínicos após a ingestão de D. viscosa variou de 13 horas e 30 minutos a 45 horas e a evolução clínica foi de 3 a 19 horas.

Os principais achados clínicos de insuficiência hepática aguda são comuns para as plantas que causam necrose hepatocelular e foram descritos em casos de bovinos intoxicados com outras plantas tóxicas, como Sessea brasiliensis (Canella et al. 1968), Cestrum laevigatum (Döbereiner et al. 1969), Cestrum parqui (Riet-Correa et al. 1986), Vernonia mollissima (Döbereiner et al. 1976, Gava et al. 1987), Vernonia rubricaulis (Tokarnia & Döbereiner 1982), Cestrum corymbosum var. hirsutum (Gava et al. 1991), Cestrum intermedium (Gava et al. 1996) e Xanthium cavanillesii (Driemeier et al. 1999).

O princípio tóxico de D. viscosa associado com a necrose hepatocelular, não é conhecido. As alterações patológicas, encontradas no fígado dos bovinos desse experimento são as que caracterizam a lesão hepática aguda de origem tóxica, foram descritas na intoxicação natural por D. viscosa (Colodel et al. 2003) e ocorrem associadas a outras hepatotoxicoses agudas em bovinos (Martin et al. 1986, Witte et al. 1990, Méndez et al. 1994, Driemeier et al. 1999, Colodel et al. 2000, Tokarnia et al. 2000).

Agradecimentos.- À Drª Olinda Leites Bueno, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, pela classificação botânica de Dodonea viscosa. Às Srªs. Marilia Terezinha de Oliveira Belmonte e Ângela Rosaura Belmonte de Souza, do Laboratório de Patologia Veterinária, UFRGS, pelos processamentos e pelas colorações histológicas.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 20 de outubro de 2003
Aceito para publicação em 28 de novembro de 2003

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