SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 issue11Sarcocystis cruzi (Apicomplexa: Sarcocystidae) in the crab-eating fox (Cerdocyon thous) author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736XOn-line version ISSN 1678-5150

Pesq. Vet. Bras. vol.28 no.11 Rio de Janeiro Nov. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-736X2008001100005 

Doenças de aves selvagens diagnosticadas na Universidade Federal do Paraná (2003-2007)

 

Diseases of wild birds diagnosed at the Federal University of Paraná, Brazil (2003-2007)

 

 

Gizah G.C. SantosI; Guilherme A. MatuellaI,II; Angela Mara CoraiolaI; Luana C.S. SilvaI; Rogério R. LangeIII; Elizabeth SantinIII,*

ICurso de Medicina Veterinária, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Rua dos Funcionários 1540, Bairro Juvevê, Curitiba, PR 80035-050, Brasil
IIAluno Monitor da Disciplina Doença das Aves, Curso de Medicina Veterinária, UFPR
IIIDepartamento de Medicina Veterinária, Setor de Ciências Agrárias, UFPR, Curitiba, PR

 

 


RESUMO

Dentre os 253 atendimentos realizados em aves selvagens entre agosto de 2003 a agosto de 2006 no Ambulatório de Animais Selvagens do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná, 45 casos (17,8%) referiram-se a consultas à espécie Serinus canarius (canário-belga). Dentre as aves atendidas e suas respectivas ordens obteve-se uma maior ocorrência da ordem Psittaciforme. As enfermidades mais freqüentemente visualizadas foram as afecções traumáticas com 56 casos (22,13%). Destas, 17 animais (30,91%) possuíam algum tipo de fratura, sendo a fratura rádio-ulnar a mais comum, com 17,65% de ocorrência. As outras moléstias mais relatadas foram a presença de ectoparasitos (12,50%) e endoparasitos (10,68%), doenças respiratórias (10,42%), procedimentos preventivos (7,55%), afecções dermatológicas (6,51%), neoplasias (4,95%), afecções oftálmicas (4,43%), afecções gastrintestinais (3,91%), caquexia (3,39%), afecções neurológicas (2,86%), automutilação (2,86%), obesidade (2,34%), agressão por outros animais (1,56 %), doenças nutricionais (1,30%), retenção de ovo (1,04%), bouba aviária (0,78%) e gota úrica (0,52%). Tendo em vista a alta prevalência de traumatismos e presença de ecto e endo parasitas que poderiam ser evitados se estivesse ocorrendo um manejo adequado com a ave, sugere-se a necessidade que o Médico Veterinário assuma um papel mais efetivo na Medicina Veterinária Preventiva buscando informar e debater questões referentes ao modo correto de alimentação, criação e manejo das aves, assim como também o esclarecimento acerca das questões referentes às zoonoses quando da consulta veterinária.

Termos de indexação: Aves selvagens, enfermidades, casuística.


ABSTRACT

From 253 wild birds attended at the Wild Animal Ambulatory of the Veterinary Hospital, Paraná Federal University, between August 2003 and August 2006, 45 cases (17.8%) were related to the species Serinus canarius (Belgian Canary). Within these attended birds and its respective orders, most morbid conditions occurred with the Psittaciforme order and were caused by traumatism, in 45 cases (14.32%). Of these, 17 animals (30.91%) had bone fractures; the most common were on radius-ulna (17.65%). Other conditions were presence of ectoparasites (12.50%) and endoparasites (10.68%), respiratory disease (10.42%), dermatological ailments (6.51%), neoplasms (4.95%), ophthalmic illnesses (4.43%), gastrointestinal diseases (3.91%), cachexia (3.39%), neurological diseases (2.86%), self-mutilation (2.86%), obesity (2.34%), aggression by other animals (1.56%), nutritional deficiencies (1.30%), egg retention (1.04%), avian poxvirus (0.78%) and uric gout (0.52%), as well as there was clinical routine measures to be taken (7.55%). Traumas and illnesses were observed as the highest prevalence on the casuistic, which could be prevented by correct husbandry practices.

Index terms: Wild birds, diseases, casuistic.


 

 

INTRODUÇÃO

Ao longo do tempo, os animais selvagens, e principalmente as aves, estão se tornando mais populares como animais de companhia, devido a sua beleza em cantos e cores (Gondim et al. 2006). Assim, a clínica médica e cirúrgica de animais selvagens vem adquirindo crescente importância na prática veterinária moderna devido à preocupação com a saúde desses animais. A necessidade dos profissionais da área de veterinária em instruírem-se a respeito de tais animais se torna, deste modo, crucial (Schulte & Rupley 2004).

Juntamente com esse quadro tem-se um conseqüente aumento na oferta de novos tipos de gaiolas, alimentos, comedouros, bem como maior desenvolvimento de rações, medicamentos e brinquedos especializados (Rossi et al. 2004). Ainda que a indústria disponibilize no mercado rações na combinação adequada, a importância em relação ao tamanho da gaiola e do número de animais mantidos nesta, não podem ser negligenciados (Birmelin 1990), como geralmente tem-se observado.

Esse notável aumento de aves como animais de companhia é um fato que coloca o Médico Veterinário em uma posição importante quando da orientação e esclarecimento ao proprietário sobre o correto modo de criação e alimentação daquela espécie de ave adquirida. Outro ponto que o clínico veterinário deve discutir com o cliente, devido ao maior contato diário do homem com a ave, é sobre a questão das zoonoses visto que muitas das doenças presentes em aves podem ser transmitidas ao homem. Além também do requerimento de um preciso diagnóstico das enfermidades por parte dos Médicos Veterinários, principalmente daquelas doenças com potencial zoonótico.

O objetivo do presente trabalho foi realizar o levantamento das doenças diagnosticadas em aves selvagens ou exóticas atendidas pelo Serviço de Ambulatório de Animais Selvagens do Hospital Veterinário do Setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná entre o período de 2003 a 2006. Estabelecendo-se quais as prevalências de determinadas moléstias que acometem aves selvagens na rotina médica veterinária do ambulatório, bem como as espécies de aves mais freqüentemente examinadas na rotina de atendimentos do mesmo busca-se orientar o Medico Veterinário qual sua atitude quando do atendimento na clínica de animais selvagens.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Pesquisaram-se os dados dos arquivos do Ambulatório de Animais Selvagens (AAS) do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná (HV-UFPR), Setor de Ciências Agrárias, onde se fez um levantamento de todos os casos de atendimento a aves selvagens entre o período de agosto de 2003 a agosto de 2006. As aves em questão chegaram ao hospital tanto pela forma de proprietários particulares como de criadores.

Os arquivos do AAS-HV-UFPR apresentavam informações referentes à espécie atendida, idade, peso e sexo do paciente bem como principais queixas e procedimentos adotados durante a consulta. Em algumas das fichas, dados como sexo e espécie não estavam presentes, sendo estes então considerados como espécie não-identificada neste trabalho.

Os dados obtidos foram transformados em porcentagem e analisados, apresentando-se na forma de tabelas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No período de levantamento verificou-se a ocorrência de 253 consultas para aves no AAS-UFPR. Destas, a espécie Serinus canarius (canário-belga) foi a que deteve o maior número de atendimentos, estando presente em 17,8% das consultas (Quadro 1). Evento este diferente do relatado por Gondim et al. (2006) em que fora observado a maior prevalência de atendimento a papagaios com 39,31% sendo que no mesmo estudo os canários-belgas apenas obtiveram um valor de 17,24% das 145 consultas realizadas durante o período do trabalho. Segundo Lennox (2006) embora as espécies de psitacídeos representem a maioridade dos pacientes aviários vistos na maioria das práticas de animais selvagens, as espécies de não-psitacídeos, como os passeriformes e galliformes, podem ser apresentados na forma de animais de estimação, como membros de coleções zoológicas, como doentes ou ainda como aves enfermas de vida livre. É bem provável que essa variação também esteja relacionada ao local de onde os dados foram avaliados.

 

 

O recinto é fundamental na qualidade de vida e reprodução dos psitacídeos. É um erro manter os mesmos em pequenas gaiolas ou confinados em um poleiro sem poder voar. Para que a ave tenha uma vida saudável e venha a se reproduzir, necessita de espaço para exercício, melhorando a qualidade de vida e diminuindo o estresse.

Os demais 22 animais que não foram dispostos no Quadro 1 referem-se a apenas um indivíduo de cada espécie de ave, sendo estas: Amazona farinosa (Papagaio-moleiro), Cacatua galerita (Cacatua-de-crista-amarela), Cairina moschata (Pato), Columbina talpacoti (Pomba-rola), Caracara plancus (Caracará, Carancho), Ecletus roratus (Papagaio-ecletus), Gnorimopsar chopi (Pássaro-preto), Sula leucogaster (Atobá), Coturnix coturnix (Codorna), Leucochloris albicans (Beija-flor), Pintagol (híbrido de Pintassilgo com Canário), Pintangus sulphuratus (Bem-te-vi), Pionus maximiliani (Baitaca), Pionus menstruus (Baitaca-de-cabeça-azul), Pyrrhura frontalis (Tiriba), Psittacula krameri (Periquito "ring neck"), Psittacus erithacus (Papagaio-do-congo), Amazona xanthops (Papagaio-galego), Sicalis flaveola (Canário-da-terra-verdadeiro), Tyto alba (Suindara), Zenaida auriculata (Pomba-amargosa), Ramphastos dicolorus (Tucano do bico verde), Loruis garrulus (Loris), Passer domesticus (pardal), Ecletus roratus (Papagaio australiano), Tyrannus melancholicus (Suiriri), Psittacula alexandri (Moustached), Psittacula cyanocephala (Moustached), Balearica pavonina (Grou coroado), Selenidera maculirostris (Araçari-poca), Crotophaga ani (Anu preto), Vanellus chilensis (Quero-quero) e Buteo magnirostris (gavião).

Em seu trabalho Gondim et al. (2006) observaram um maior atendimento para com papagaios (39,31%) seguido pelos periquitos-australianos (20%). Resultado este semelhante ao encontrado no presente estudo, em que a ordem psittaciformes deteve uma maior presença no atendimento clínico veterinário do ambulatório, abarcando um valor de 43,48% das consultas efetuadas no período do estudo (Quadro 2).

 

 

Com relação às enfermidades foi averiguada uma maior ocorrência de afecções traumáticas com 14,32% (55/384) do total das enfermidades diagnosticadas (Quadro 3), sendo que houve um acentuado índice de fraturas 30,91% seguido pelos traumatismos (20%).Vale ressaltar que a fratura que mais freqüentemente ocorreu foi a fratura rádio-ulnar sendo 17,65% dentre todos os tipos de fraturas (Quadro 4), já com relação aos traumatismos uma grande causa para esses episódios foram as agressões por outros animais, como por exemplo cachorros, abarcando 45,45% dos traumas visualizados. As luxações obtiveram uma taxa de 9,1% em meio às afecções traumáticas assim como também as más formações ortopédicas e necroses, o estrangulamento por anilha esteve presente em 7,27% dos casos de traumas, seguido pelas lesões com 5,45%, má consolidação de fratura com 3,64%, dificuldade de apoio, emaciação e a pseudoartrose ambos apresentaram um valor de 1,82%.

 

 

 

 

Pode-se sugerir que uma das causas para o elevado número de traumas em aves tenha origem no manejo inadequado utilizado pelos proprietários de tais animais, levando a acidentes que poderiam muitas vezes ser prevenidos, visto que muitos proprietários ainda deixam soltas suas aves pela casa elevando o risco de acidentes como impactos ou colisões com conseqüentes fraturas e/ou luxações (Fowler 2001). No que rege a prática básica de manejo em gaiolas, bem como a nutrição e atenção às necessidades fisiológicas e psicológicas das aves, os proprietários de animais selvagens para companhia são muito menos íntimos do que aviculturistas. Isto por que recomendações nutricionais mudam freqüentemente, de acordo com novos estudos. Fatos que o aviculturista está atento, mas o proprietário de aves selvagens não. As falhas no manejo, porém não apenas as de cunho nutricional, são as principais origens destes tipos de fraturas. Práticas básicas, como a apropriação de um meio ambiente e alimentação adequada são pontos chave para evitar esses tipos de acidentes (Harrison & Harrison 1986).

O resultado deste trabalho corrobora com o encontrado por Gondim et al. (2006) em que os problemas mais ocorridos com as aves no período de estudo também foram as afecções traumáticas, com 23,45% dos casos. Ele ainda relata que 100% das aves nativas atendidas no período de 2 anos, foram adquiridas através do comércio ilegal, fazendo com que a maior ocorrência de afecções traumáticas tivessem relação direta com os maus tratos impostos durante a comercialização da ave ou também pelo manejo incorreto de quem os adquiriu. As fichas clínicas avaliadas no presente estudo não esclareciam a situação legal de todos os pacientes atendidos, não tornando possível uma correlação definitiva entre as afecções traumáticas e o manejo utilizado por traficantes de aves selvagens.

As 10 moléstias não citadas no Quadro 3 referem-se a somente um caso diagnosticado, sendo estes: abcesso em laringe, candidíase, clamídia, ferimento, hérnia abdominal, inflamação de membro pélvico, má-formação de ovos, prolapso do sistema reprodutor e digestório, estresse e tiflite verminótica.

Várias aves mantidas em contato umas com as outras propiciam uma maior disseminação das doenças infecciosas. A dieta e requerimentos de manejo variam entre a espécie de pássaro mantido em ambiente doméstico e pode também ter influência quanto às doenças quando aqueles estão em níveis abaixo ou acima do ideal. Fatores estressantes, que incluem nutrição, manejo (superpopulação, manutenção da ave), raça e a introdução de novas aves no ambiente, podem ser significantes para a ocorrência de enfermidades (Joseph 2003).

Na presente pesquisa as infecções por endoparasitos obtiveram a segunda maior prevalência dentre as enfermidades diagnosticadas, nas quais a ocorrência de maior número foi causada por coccidiose (45,83%), seguido por Heterakis sp. (22.92%) (Quadro 5). O termo coccidiose é bastante genérico e abrangente, pois denota a infecção causada por parasitos de diferentes gêneros como Eimeria sp. e Isospora sp. (Shimaoka 1999), apresentando especificidade pelo hospedeiro (Rossi et al. 2004). Segundo Pachaly (1992) Isospora sp. possui maior ocorrência em rapinantes, passeriformes e piciformes. Já Eimeria sp. tende a ocorrer mais comumente em galliformes, columbiformes, guiformes, anserifomes e psittaciformes; todos levando a sinais como diarréia, caquexia (Beynon et al.1996), depressão e apatia (Pachaly 1992).

 

 

De acordo com Carvalho (2004), Heterakis gallinarum pode transmitir protozoários de Histomonas meleagridis através da ingestão de ovos do ascarídeo contaminados liberando o protozoário quando aqueles se transformam em larvas no organismo da ave; podendo estas vir a apresentar morte súbita quando parasitadas.

Muitos dos endoparasitas relatados tendem a ocasionar diarréia, como descrito anteriormente, e perda de peso, como é o caso das coccidioses, Capillaria sp., Histomonas sp. veiculado através de Heterakis sp., Trichomonas sp. e Ascaris sp., o que corrobora com a elevada taxa de diarréia (60%) encontrada neste trabalho em meio às afecções gastrintestinais seguido pelas enterites com 13,33%.

Os ectoparasitos de aves, que abrangem uma variedade de insetos (percevejos, piolhos, pulgas), de carrapatos e de ácaros que infestam penas, pele, passagens respiratórias e ninhos (Philips 1990) podem acarretar anemia, atraso no crescimento, perda de peso, comprometer o sucesso reprodutivo da ave e induzir a uma predisposição a outras doenças, afetando-as deste modo diretamente, e indiretamente servindo como vetores de protozoários, bactérias e vírus (Storni et al. 2005).

Fatores ambientais, tais como pluviosidade e temperatura, têm sido mencionados para explicar diferenças regionais na intensidade, na abundância e na prevalência parasitária (Linardi et al. 1985, Davidson et al. 1994).

Dentre os ectoparasitos o que mais se mostrou freqüente nas aves deste estudo foi a sarna (39,02%), ocasionada pelo gênero Cnemidocoptes, que possui como quadro clínico nos psittaciformes e passeriformes uma hiperqueratose neguido pela presença de ovos da pele ao redor dos olhos assim como do bico e nos membros pélvicos, respectivamente (Pachaly 1992). Se ácaros (29,27%), parasito não identificado (17,07%), piolhos (12,20 %) e Dermanyssus sp. (2,44%). Acredita-se que a ocorrência da sarna knemidocóptica possa vir a estar relacionada com a imunodepressão e consangüinidade da ave.

Aves que são mantidas dentro de domicílios com o passar dos anos tendem a se tornar mais susceptíveis a doenças infecciosas por causa do decréscimo da qualidade do ar inalado, o acúmulo de patógenos em um ambiente restrito e a perda da exposição aos raios ultravioletas solares (Ritchie 2002). Estes fatores agem para que coletivamente venham a diminuir a resistência natural das aves às enfermidades (Ritchie 2002). De acordo com Phalen (2000) as doenças respiratórias são causas relativamente comuns de enfermidades e mortes em aves mantidas em gaiolas.

Quanto às doenças respiratórias, a aerossaculite obteve a maior taxa dentre esta categoria de doença, com 37,50% seguido pela dificuldade respiratória com 32.50%, rouquidão com 17,50%, sinusite com 10% e os espirros possuíram um valor de 2,50%. Segundo Pachaly (1992) a etiologia mais comum para a aerossaculite é Aspergillus sp. e bactérias decorrentes de infecções primárias ou secundárias a bacteremia. Ainda sobre Aspergillus sp. de acordo com Beynon et al. (1996) tal organismo afeta mais freqüentemente os sacos aéreos caudais, sendo estes os primeiros pares de sacos aéreos pelos quais o ar adentra e assim os esporos fúngicos são mais propensos a se precipitarem em tais locais. Este fungo é um organismo oportunista que causa doença quando a ave se encontra imunodeprimida ou quando esta foi submetida a condições de stress: como transporte, alimentação incorreta, falta de higiene ambiental (Carvalho 2004) quando do uso de antibióticos e infecções concomitantes (Ritchie 2002), sendo que em aves de vida livre colocadas em ambiente de cativeiro Aspergillus sp. é freqüente.

Os cistos plumários ou de penas possuem um quadro semelhante ao visto em cistos por retenção de pêlos em cães, sendo que naqueles a pena não consegue exteriorizar-se (Pachaly 1992) em decorrência da má formação e desenvolvimento da pena abaixo da pele (Lawrie 1997) conferindo a esta a presença de pequenas tumefações com uma ou mais penas encapsuladas (Pachaly 1992). Em alguns tipos de pássaros, a má formação da plumagem e o aparecimento de cistos plumários são decorrentes de traumas, bem como da má nutrição, processos virais, bacterianos ou infecções parasitárias (Cubas 2007). Esta anomalia se manifesta com mais freqüência em canários, periquitos-australianos e mais raramente em papagaios; existindo uma predisposição genética (Pachaly 1992, Lawrie 1997). De acordo com Beynon (1996) os cistos podem ser confundidos com uma neoplasia, particularmente com o fibrossarcoma em asa (Lawrie 1997). Aproximadamente a metade dos casos englobados como afecções dermatológicas foram relacionados a cistos de penas (48%), seguido por problemas com muda de pena (24%), prurido (12%), dermatite (8%) e a presença de calo edemaciado e fissura em dedo, ambos com 4% cada.

Constatou-se a presença de 19 casos de neoplasias dentre os 253 atendimentos realizados no período de estudo, sendo 73,68% neoplasias não identificadas e 26,32% lipomas. De acordo com Pachaly (1992) há uma maior incidência de lipomas em aves dentre as neoplasias, principalmente quando da formação de depósitos de gordura observados em aves obesas, devido à alimentação errônea e falta de exercícios vistos na maioria das aves mantidas em ambiente de cativeiro doméstico.

No que se refere à catarata esta possui um início de forma gradual, sendo comum em aves idosas para todas as espécies. Como em cães, estas, são geralmente relatadas com a idade, e a adaptação toma lugar quando se assume que grandes mudanças não serão feitas no ambiente da ave. O início agudo desta enfermidade pode ocorrer associada ao diabetes, trauma ou a outras etiologias (Lightfoot 2002), como a uma inflamação, na forma herdada e possivelmente à dieta (Millichamp 2001). Muitas das aves acometidas não conseguem se adaptar e são incapazes de ter uma vida normal (Lightfoot 2002).

Com 17,65% de presença nas afecções oftálmicas, as cataratas foram as manifestações oculares mais vistas, seguido pelo prolapso da terceira pálpebra com 11,76%, além de blefarite, exoftalmia, uveíte, inflamação do seio periorbital, depósito de lipídeo em córnea, edema palpebral, edema periorbital, conjuntivite, sinéquia, blefarofimose, panoftalmia e úlcera de córnea todos estes com 5,88% de ocorrência cada.

Stahl & Kronfeld (1998) relataram que desordens nutricionais são vistas em grandes psitacídeos, como papagaios e araras, na maioria das vezes decorrentes de suas dietas, as quais contêm primariamente sementes e nozes. Nestas há um elevado índice de gordura o que pode levar a obesidade da ave, deficiência secundária de proteínas e outros nutrientes essenciais, tais como o Cálcio, Vitamina A, e Iodo.

Pachaly (1992) descreve que a hipovitaminose A é mais comum em psitacídeos. Devido à alimentação incorreta com quantidades excessivas de sementes, falta de frutas e verduras e ração (Rossi et al. 2004). Sendo que os sinais de carência de vitamina A em aves englobam: caquexia, alteração na qualidade das penas, conjuntivite, abscessos, sinusite, aerossaculite, ou seja, há uma perda da proteção do trato digestório e respiratório levando a infecções secundárias por vírus, bactérias e fungos (Rossi et al. 2004). Neste trabalho constatou-se a ocorrência de 60% de casos referentes à hipovitaminose A dentre as doenças nutricionais relatadas, a hipovitaminose B obteve um valor de 20% assim como a doença carencial não especificada na ficha de atendimento.

A dermatologia aviária é uma importante parte da prática aviária. Automutilação ou arrancamento de penas é a mais comum e síndrome vista na prática aviária (Gill 2001). Sendo os psitacídeos as aves mais acometidas, fato este confirmado neste estudo pela ocorrência de 80% em psittaciformes seguido de somente 20% em passeriformes dos casos de automutilação diagnosticados. Este autoarrancamento de penas possui etiologia complexa (Lawrie 1997) e diversas origens, podendo estas serem classificadas em 2 causas, as físicas (endoparasitos, ectoparasitos, infecções respiratórias, doenças virais, alterações hormonais, problemas nutricionais), e as comportamentais (tédio, medo, ansiedade, solidão). No presente estudo as afecções dermatológicas foram a sexta ocorrência mais comum, resultado este diferente do encontrado por Gondim et al. (2006) em que estas foram a segunda maior ocorrência, o que segundo tais autores advém da ocorrência de situações de estresse passadas pela ave, como constatado por tais, levando assim ao agravamento das afecções dermatológicas.

 

CONCLUSÃO

As afecções mais freqüentemente visualizadas aqui foram as traumáticas (22,13%), seguidas por endoparasitoses (12,5%), ectoparasitoses (10,68%) e respiratórias (10,42%).

Tendo em vista a alta prevalência de doenças ou traumatismos os quais poderiam ser evitados se estivesse ocorrendo um manejo adequado para com a ave, é inevitável a constatação de que os Médicos Veterinários necessitam esclarecer e discutir com os proprietários de aves selvagens a forma correta da alimentação, da criação e cuidados com ave adquirida.

Mesmo tendo sido referida com pouca prevalência neste estudo, as doenças tidas como zoonóticas devem ser sempre debatidas com o cliente, para a total elucidação acerca das questões referentes às enfermidades transmissíveis do animal ao homem e vice versa, visto o fato do crescente número de aves selvagens mantidas em cativeiro doméstico.

 

REFERÊNCIAS

Beynon P.H., Forbes N.A. & Lawton P.C. 1996. Manual of Psittacine Birds. British Small Animal Veterinary Association, Quedgeley. 320p.         [ Links ]

Birmelin I. 1990. Behavior of pet animals. Dtsch. Tierärztl. Wochenschr. 97(6):243-247.         [ Links ]

Carvalho P.P. 2004. Alterações patológicas encontradas em psitacídeos mortos em cativeiro de janeiro de 1994 a dezembro de 2002 no estado do Paraná. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba. 40p.         [ Links ]

Cubas Z.S., Silva J.C.R. & Catão-Dias J.L. 2007. Tratado de Animais Selvagens. Roca, São Paulo. 1354p.         [ Links ]

Davidson W.R., Siefken D.A. & Creekmore L.H. 1994. Seasonal and annual abundance of Amblyomma americanum (Acari: Ixodidea) in Central Georgia. J. Med. Entomol., Lanham, 31(1):67-71.         [ Links ]

Fowler M.E. & Cubas Z.S. 2001. Biology Medicine and Surgery of South American Animals. Iowa State University Press, Ames, p.200-201.         [ Links ]

Gondim L.S.Q., Gomes D.M. & Maia P.C.C. 2006. Casuística de aves selvagens atendidas de 2002 a 2004 na Escola de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia. 26º Congr. Bras. Zoologia, Londrina, p.86-87.         [ Links ]

Gill J.H. 2001. Avian skin diseases. Vet. Clin. North Am. Exot. Anim. Pract. 4(2):463-492.         [ Links ]

Harrison G. & Harrison L. 1986. Clinical Avian Medicine and Surgery. W.B. Saunders, Philadelphia. 717p.         [ Links ]

Joseph V. 2003. Infections and parasitic of captive passerines. Semin. Avian Exotic Pet Med. 12(1):21-28        [ Links ]

Lawrie A.M. 1997. Avian skin and feather problems. Wildlife and Avian Symposium, Veterinary Zoological Society, University Glasgow. 15p.         [ Links ]

Lennox A.M. 2006. Common procedures in other avian species. Vet. Clin. North Am. Exot. Anim. Pract. 9(2):303-319        [ Links ]

Lightfoot T.L. 2002. Common avian medicine presentations. II. ABVP, Avian Exotic Veterinary Seminars, Western Veterinary Conference, Florida, p.34-36         [ Links ]

Linardi M.P., Botelho J.R. & Cunha H.C. 1985. Ectoparasitos de roedores da região urbana de Belo Horizonte, MG. III. Índices pulicilianos, anoplurianos e acarinos em Rattus novergicus novergicus. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, Rio de J., 80:277-284.         [ Links ]

Millichamp N.J. 2001. Exotic animal ophthalmology. 25th Annual Waltham/OSU Symposium on Small Animal Ophthalmology. College of Veterinary Medicine, Texas A&M University. 5p.         [ Links ]

Phalen D.N. 2000. Respiratory medicine of cage and aviary birds. Vet. Clin. North Am. Exot. Anim. Pract. 3(2):423-452        [ Links ]

Pachaly J.R. 1992. Doenças nutricionais das aves silvestres cativas, p.120-121. In: Medicina de Animais Selvagens, Curitiba.         [ Links ]

Philips J.R. 1990. What's bugging your birds? p.155-203. In: Ludwing D.R. (Ed.), Avian Parasitic Arthropods. Wildlife Rehabilitation. Burgess Publ., Minnesota.         [ Links ]

Ritchie B.W. 2002. Diagnosis and management of respiratory diseases. Atlantic Coast Veterinary Conference, Emerging Disease Research Group, College of Veterinary Medicine, University of Georgia, Athens.         [ Links ]

Rossi C., Matsuda C. & Garcia P. 2004. Como prevenir e detectar doenças em pássaros. Rev. Pet Food Health Care 2(8):79-80.         [ Links ]

Schulte M.S. & Rupley A.E. 2004. Avian care and husbandry. Vet. Clin. North Am. Exot. Anim. Pract. 7(2):315-350.         [ Links ]

Shimaoka L.B. 1999. Patologia em Pintassilgos Brasileiros (Carduelis magellanica e C. yarrelli) e em Outros Passeriformes Mantidos em Ambiente Doméstico. Sociedade Ornitológica Bandeirante, São Paulo, p.23-24.         [ Links ]

Stahl S. & Kronfeld D. 1998. Veterinary nutrition of large Psittacines. Semin. Avian Exotic Pet Med. 7(3):128-134.         [ Links ]

Storni A., Alves M.A.S. & Valim M.P. 2005. Ácaros de penas e carrapatos (Acari) associados a Turdus albicollis Vieilloti (Aves, Muscicapidae) em uma área de Mata Atlântica da Ilha Grande, Rio de Janeiro, Brasil. Revta Bras. Zool. 22(2):419-423.         [ Links ]

 

 

Recebido em 14 de abril de 1008.
Aceito para publicação em 5 de novembro de 2008.

 

 

* Autor para correspondência: santin@ufpr.br

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License