SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.30 issue8Morphology of the digestive tube of the green turtle (Chelonia mydas)Morphofunctional study of Crab-eating Raccoon (Procyon cancrivorus) mammary gland author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736X

Pesq. Vet. Bras. vol.30 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2010

https://doi.org/10.1590/S0100-736X2010000800013 

MORFOFISIOLOGIA

 

Frequência da artéria caroticobasilar em equinos mestiços: estudo anatômico destinado a pesquisa experimental e ao diagnóstico por imagem

 

Frequency of the caroticobasilar artery in crossbred horses: anatomical study for experimental research and diagnostic imaging

 

 

Ana Virgilia Paiva de SouzaI; Bárbara Xavier-SilvaII; Marcelo Soares AntunesII; José Miguel Farias HernandezIII; Paulo Oldemar SchererIII; Marcelo Abidu-FigueiredoIII, *

IGraduando em Zootecnia, Departamento de Biologia Animal, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Seropédica, RJ 23890-000, Brasil
IIPós-Graduando em Patologia e Ciências Clinicas Veterinárias, Instituto de Veterinária, UFRRJ, Seropédica, RJ
IIIÁrea de Anatomia Animal, Departamento de Biologia Animal, Instituto de Biologia, UFRRJ, Seropédica RJ 23890-000. E-mail: marceloabidu@gmail.com

 

 


RESUMO

A busca pela compreensão do funcionamento do sistema nervoso resultou em um aumento de estudos morfológicos sobre a vascularização encefálica em diferentes espécies animais. As artérias encefálicas são a principal rota para transporte de sangue para o cérebro e, portanto têm um papel essencial na manutenção de atividade normal do mesmo, o que desperta, devido sua importância funcional, o interesse pela realização de vários estudos. A artéria caroticobasilar foi investigada em animais da ordem Perissodactyla, de espécies da família dos eqüídeos. Pesquisou-se a frequência da artéria caroticobasilar em 30 encéfalos de equinos adultos e mestiços, do sexo masculino. As observações realizadas mostraram que este importante vaso apresentou as seguintes frequências absolutas e percentuais: presente em 15(50 %) dos encéfalos examinados sendo 4 (13,3%) no antímero direito, 6 (20%) no antímero esquerdo e 5 (16,7%) em ambos os antímeros.

Termos de indexação: Vascularização arterial, artéria basilar, encéfalo, equino.


ABSTRACT

The search for the functional understanding of the nervous system has resulted in an increase of morphological studies about encephalic vascularization in different animal species. The encephalic arteries are the main rote for blood transport to the brain and therefore have an essential role in the maintenance of normal brain activity. The functional importance of these vessels has led to various studies. The caroticobasilar artery was investigated in animals of order Perissodactyla, in species of Equidae family. The frequency of caroticobasilar artery was studied in 30 adult male crossbreed brain horses. The observations showed that this important vessel presented the following absolute and percentual frequencies: present in 15 (50%) brains 4 (13.3%) in the right antimere, 6 (20%) in the left antimere and 5 (16.7%) on both antimeres.

Index terms: Arterial vascularization, basilar artery, brain, horse.


 

 

INTRODUÇÃO

As doenças que acometem o sistema nervoso central (SNC) de eqüídeos representam uma parcela importante das afecções nestas espécies. O estudo destas e de outras enfermidades nas diferentes regiões do país é necessária para estabelecer formas eficientes de controle e profilaxia (Pimentel 2009).

Nos últimos anos tem se observado grande avanço nas técnicas de diagnóstico por imagem, que se destinam à investigação das estruturas do sistema nervoso central facilitando dessa forma o tratamento de diferentes patologias (Quinones-Hinojosa et al. 2006, Szeifert et al. 2007).

Acompanhando o mesmo crescimento, muitas doenças do sistema nervoso também passaram a ser diagnosticadas com mais freqüência e precisão, possibilitando muitos avanços na pesquisa biomédica gerando tratamentos cada vez mais seguros e minimamente invasivos (Kano et al. 2009, Simon & Schramm 2009). Tais patologias merecem estudos mais pormenorizados, entretanto encontram-se dificuldades quanto à utilização de modelos, visto que a legislação vigente não permite pesquisas com seres humanos, sendo essencial a utilização de modelos animais.

As artérias encefálicas representam a principal fonte de suprimento sanguíneo para o cérebro sendo essencial na homeostase cerebral. Pela sua importância funcional, vários estudos morfológicos foram realizados em diferentes espécies.

No estudo da anatomia regional do sistema nervoso central, os vasos sanguíneos apresentam grande variabilidade numérica, na origem, trajeto e distribuição. No homem diferentes estudos relataram duplicidade ou agenesia das artérias da base do encéfalo (Trah-Dinh et al. 1991, De Caro et al. 1995, Goldstein et al. 1999, Shroff et al. 2003, Kim et al. 2006). Entretanto relatos dessa natureza são escassos na anatomia veterinária aplicada, dificultando muitas vezes os estudos angiográficos.

O conhecimento preciso das variações vasculares possui grande importância em um programa de sistematização da prática de diagnóstico por imagem e também da prática cirúrgica em animais domésticos e aqueles que servem de modelo experimental. Variações na anatomia vascular cerebral podem aumentar a morbidade nos procedimentos cirúrgicos e intervencionista (Tubbs et al. 2008).

A irrigação sangüínea para o encéfalo apresenta uma considerável variação entre as espécies animais. Tais modificações estão relacionadas com as fontes de suprimento sangüíneo e com a multiplicidade de arranjos das artérias que se distribuem na região do sistema nervoso central. Dados sobre estas fontes de suprimento revelaram-se contraditórios e escassos.

Nanda & Getty (1975) verificaram a ocorrência da artéria caroticobasilar em eqüinos, mencionando que sua observação geralmente é bilateral, podendo em alguns casos ser ausente de forma unilateral. Aly et al. (1981) afirmaram que no jumento a artéria caroticobasilar é ausente.

O presente trabalho tem como objetivo verificar a freqüência da artéria caroticobasilar em eqüinos mestiços fornecendo desta maneira base para posteriores estudos clínicos, morfológicos através das técnicas de imagem e neurofisiológicos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 30 cabeças congeladas de eqüinos mestiços machos provenientes do acervo da área de anatomia animal da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O material foi submetido ao descongelamento em água corrente, seguido de dissecção e canulação da artéria carótida por onde foi feita a lavagem dos vasos com solução salina a temperatura ambiente. Em seguida foram feitas repleções vasculares com solução aquosa de Petrolátex S65 (Refinaria Duque de Caxias / Petrobrás, Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Brasil) corado com pigmento Suvinil vermelho. Posteriormente as calotas cranianas foram retiradas e feitas as incisões das menin-ges mergulhando em seguida todo o material em solução de formol a 30% por cinco dias para fixação dos encéfalos. Para abertura dos crânios, remoção dos encéfalos e dissecação dos vasos da base foram utilizados instrumentais cirúrgicos de rotina e fórceps odontológico. Todas as amostras foram fotografadas e realizados desenhos esquemáticos para facilitar a visualização e compreensão dos resultados. Os resultados foram expressos em freqüência absoluta e percentual simples.

 

RESULTADOS

A artéria caroticobasilar em eqüinos corresponde a uma anastomose entre a artéria carótida interna e a artéria basilar, observada na face ventral do tronco encefálico precisamente sobre a ponte. Inicia-se na artéria basilar em nível do sulco bulbo-pontino terminando na artéria carótida interna em nível do pedúnculo cerebral. É um vaso de apresentação variável, podendo ser observado de forma uni ou bilateral. As dissecções realizadas mostraram que a artéria caroticobasilar esteve presente em 15 encéfalos estudados (50%): sendo que 4 (13,3 %) do lado direito, 6 (20%) do lado esquerdo e 5 (16,7%) em ambos os lados (Quadro 1, Fig.1-3).

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

No que se refere à artéria caroticobasilar em equinos, verifica-se que muitos livros textos simplesmente não fazem referencia ao vaso, outros apenas o citam sem caracterizar sua freqüência ou apresentação em relação ao antímero, como é o caso de Getty (1986), que cita apenas que a artéria caroticobasilar é um vaso que se origina da artéria carótida interna encontrado apenas nos eqüinos, de diâmetro fino e de observação inconstante. Da mesma forma Aly et al. (1981) afirmaram que no jumento a artéria caroticobasilar é ausente.

Outros autores mencionam apenas a existência de uma anastomose ou ramo anastomótico entre a artéria carótida interna e a artéria basilar, sem, no entanto denominá-lo (Martin 1904, Gonzalez y Garcia & Gonzalez Alvarez 1961).

De acordo com Schwarze (1984) em muitos casos observa-se a artéria caroticobasilar, unindo a artéria carótida interna e a artéria basilar, sem nenhum tipo de descrição detalhada ou, mesmo alguma quantificação.

Apesar de citarem a observação da artéria carotico-basilar no homem ao descreverem as variações da artéria basilar, Bergman et al. (1988) não fazem nenhuma referência de sua frequência e se a apresentação deste vaso é uni ou bilateral.

O mesmo aconteceu com Barone & Bortolami (2004), ao comentarem a presença da artéria carotico-basilar nos equinos, sem, contudo informar sua frequência, e se sua apresentação é uni ou bilateral.

De forma discordante de nosso trabalho, Nanda & Getty (1975) estudaram a ocorrência da artéria caroticobasilar em cérebros de eqüinos, e concluíram neste estudo que a apresentação bilateral é a mais frequente. Citam ainda que em alguns casos a artéria caroticobasilar possa ser bem desenvolvida ou totalmente ausente unilateralmente. Entretanto os autores não fazem referencia a valores absolutos nem percentuais de observação deste vaso. Em nossas observações a apresentação unilateral esquerda foi a mais frequente (20%), seguido por 16,7% de apresentação bilateral e 13,3% de apresentação unilateral direita.

Orr et al. (1983) estudaram o fluxo sanguíneo na artéria carótida interna em pôneis e comentam apenas que a artéria caroticobasilar está presente, sem fazer qualquer análise de sua frequência.

Frackowiak et al. (1997) investigaram a artéria caroticobasilar em animais da ordem Perissodactyla e de espécies da família dos eqüídeos, e na anta, membro da família Tapridae. Verificaram que a apresentação da artéria caroticobasilar pode ser homolateral ou bilateral. Especificamente no cavalo uma anastomose entre a artéria basilar e as artérias intercarótidas caudais também foi descrita. A artéria caroticobasilar foi encontrada em todas as espécies da família dos eqüídeos, em zebras e na anta. Entretanto os autores não informaram nenhum dado de quantificação.

Santos Júnior et al. (1998) estudaram a ocorrência da artéria caroticobasilar em cérebros de eqüinos Puro Sangue Inglês , encontrando o referido vaso em 53,8% dos 26 cérebros estudados. Concluíram neste estudo que a apresentação unilateral esquerda é a mais freqüente. Resultados semelhantes foram obtidos por Campos et al. (2003), que encontraram a artéria caroticobasilar em 54,2 % dos encéfalos de eqüinos Puro Sangue Inglês. Em ambos os autores os resultados se assemelham aos valores obtidos na presente investigação no que se refere à freqüência total do vaso, uma vez que Campos et al. (2003) não forneceram informações dos valores do referido vaso em relação aos antímeros.

 

CONCLUSÃO

Em nosso estudo observamos que a artéria caroticobasilar tem apresentação variável e o antímero de maior frequência foi o esquerdo.

O conhecimento preciso sobre a vascularização arterial do cérebro e suas possíveis variações subsidiam com segurança e precisão os procedimentos intervencionistas de forma experimental e radiológicos como, por exemplo, as arteriografias do sistema nervoso central, apesar de ainda não ser feita como rotina da medicina veterinária.

 

REFERÊNCIAS

Aly M.A., Anis H. & Moustafa S.M. 1981. Morphological studies on the arterial supply on the brain of donkeys in Egypt. Assiut Vet. Med. J. 7(16):3-5.         [ Links ]

Barone R. & Bortolami R. 2004. Anatomie comparée des mammifères domestiques. Tome 6: Neurologie. I. Système nerveux central. Vigot Frères Éditeurs, Paris. 652p. 264 figs.         [ Links ]

Bergman R.A., Thompson S.A., Afifi A.K. & Saadeh F.A. 1988. Compen-dium of Human Anatomic Variation: Catalog, atlas and World literature. Urban and Schwarzenberg, Baltimore. 568p.         [ Links ]

Campos A., Prada I.L.S., Santos Júnior I. & Santos D. 2003. Artérias da base do encéfalo de eqüinos: sistema occipito-basilar. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. 40(Suppl.2):107-117.         [ Links ]

De Caro R., Serafini M.T., Galli S., Parenti A., Guidolin D. & Munari P.F. 1995. Anatomy of segmental duplication in the human basilar artery: Possible site of aneurysm formation. Clin. Neuropathol. 13:303-309.         [ Links ]

Frackowiak H., Giejdasz K. & Godynicki S. 1997. The caroticobasilar artery in species of Order Perissodactyla. Folia Morphol. (Warsz) 56(4):273-276.         [ Links ]

Getty R. 1986. Anatomia dos Animais Domésticos. 5ª ed. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro. 2000p.         [ Links ]

Goldstein J.H., Woodcock R., Do H.M., Phillips C.D. & Dion J.E. 1999. Complete duplication or extreme fenestration of the basilar artery. Am. J. Neuroradiol. 20:149-150.         [ Links ]

Gonzalez y Garcia J. & Gonzalez Alvarez R. 1961. Anatomia Comparada de los Animales Domésticos. 7ª ed. Canales, Madrid. p.667-673.         [ Links ]

Kano H., Niranjan A., Khan A., Flickinger J.C., Kondziolka D., Lieberman F. & Lunsford L.D. 2009. Does radiosurgery have a role in the management of oligodendrogliomas? J. Neurosurg. 110(3):564-571.         [ Links ]

Kim M., Lee S., Lee C. & Park H. 2006. Bilateral segmental absence of the internal carotid artery with rete compensation associated with absence of basilar artery: Case report. Surgical Neurol. 65(6):615-619.         [ Links ]

Martin P. 1904. Lehrbuch der Anatomie der Haustiere. Vol.2. Schickhardt und Ebner, Stuttgart, p.238-248.         [ Links ]

Nanda B.S. & Getty R. 1975. Presence of the arteria caroticobasilaris in the horse. Anat. Anz. 137(1/2):116-119.         [ Links ]

Orr J.A., Wagerle L.C., Kiorpes A.L., Shirer H.W. & Friesen B.S. 1983. Distribution of internal carotid artery blood flow in the pony. Am. J. Physiol. 244(1):142-149.         [ Links ]

Pimentel L.A., Oliveira D.M., Galiza G.J.N., Rego R.O., Dantas A.F.M. & Riet-Correa F. 2009. Doenças do sistema nervoso central de equídeos no semi-árido. Pesq. Vet. Bras. 29(7):589-597.         [ Links ]

Quiñones-Hinojosa A., Ware M.L., Sanai N. & McDermott M.W. 2006. Assessment of image guided accuracy in a skull model: Comparison of frameless stereotaxy techniques vs. frame-based localization. J. Neurooncol. 76(1):65-70.         [ Links ]

Santos Júnior I., Campos A. & Santos D. 1998. Freqüência da artéria caroticobasilar em eqüinos da raça Puro Sangue Inglês. Vet. Notícias, Uberlândia, 4(1):21-25.         [ Links ]

Schwarze E. 1984. Compendio de Anatomia Veterinária. Vol.3. Acribia, Zaragoza. 318p.         [ Links ]

Shroff M., Blaser S., Jay V., Chitayat D. & Armstrong D. 2003. Basilar artery duplication associated with pituitary duplication: A new finding. Am. J. Neuroradiol. 24:956-961.         [ Links ]

Simon M. & Schramm J. 2009. Surgical management of intracranial gliomas: A review. Recent Results Cancer Res. 171:105-124.         [ Links ]

Szeifert G.T., Prasad D., Kamyrio T., Steiner M., Steiner L.E. 2007. The role of the Gamma Knife in the management of cerebral astrocytomas. Progr. Neurol. Surg. 20:150-163.         [ Links ]

Trah-Dinh H.D., Soo Y.S. & Jayasinghe L.S. 1991. Duplication of the vertebro-basilar system. Aust. Radiol. 35:220-224.         [ Links ]

Tubbs R.S., Shaffer W.A., Loukas M., Shoja M.M., Harrigan M.R. & Oakes W.J. 2008. Intraluminal septation of the basilar artery: Incidence and potential clinical significance. Folia Morphol. (Warsz) 67(3):193-195.         [ Links ]

 

 

Recebido em 15 de setembro de 2009
Aceito para publicação em 7 de abril de 2010

 

 

* Autor para correspondência: marceloabidu@gmail.com

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License