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Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736X

Pesq. Vet. Bras. vol.30 no.11 Rio de Janeiro Nov. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-736X2010001100010 

ANIMAIS DE PRODUÇÃO
TÓPICO DE INTERESSE GERAL

 

Abordagem diagnóstica das principais doenças do sistema nervoso de ruminantes e equinos no Brasil

 

Diagnostic approaches for the main neurological diseases of ruminants and horses in Brazil

 

 

Daniel R. RissiI; Felipe PierezanI; José C. Oliveira-FilhoI; Ricardo B. LucenaI; Priscila M.S. CarmoI; Claudio S.L. BarrosII,*

IPrograma de Pós-Graduação em Medicina Veterinária, área de concentração em Patologia Veterinária, Centro de Ciências Rurais (CCR), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Camobi, Santa Maria, RS 97105-900, Brasil
IIDepartamento de Patologia, CCR, UFSM, Santa Maria, RS

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho é descrever os principais aspectos epidemiológicos e clínico-patológicos das principais doenças do sistema nervoso de ruminantes e equinos diagnosticadas no Laboratório de Patologia Veterinária (LPV) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para servir como base para veterinários de campo ou que trabalham em laboratórios de diagnóstico. Esses dados foram buscados em trabalhos publicados pela equipe do LPV-UFSM ou retirados dos arquivos do laboratório. As principais doenças do sistema nervoso diagnosticadas em bovinos foram a raiva, a encefalopatia hepática decorrente de insuficiência hepática por ingestão de Senecio spp., a meningoencefalite por herpesvírus bovino, a babesiose cerebral, a intoxicação por Solanum fastigiatum, a febre catarral maligna e a polioencefalomalacia. Em ovinos foram diagnosticadas a cenurose, a meningoencefalite por Listeria monocytogenes, o tétano, os abscessos encefálicos ou vertebrais e a raiva. Meningoencefalite por L. monocytogenes foi a única doença do sistema nervoso descrita em caprinos. Equinos foram afetados pela leucoencefalomalacia, tripanossomíase e tétano.

Termos de indexação: Doenças de ruminantes, doenças de equinos, doenças do sistema nervoso, neuropatologia.


ABSTRACT

The epidemiological, clinical, and pathological hallmarks of neurological diseases of ruminants and horses diagnosed in the Laboratory of Veterinary Pathology (LVP) of the Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) are herein described. This paper is intended to work as a compiled database for practitioners or veterinarians working in diagnostic laboratories. Data was gathered from papers published by the LVP-UFSM faculty and staff or retrieved from the laboratory archives. The most important neurological diseases of cattle included rabies, hepatic encephalopathy due to ingestion of Senecio spp., meningoencephalitis by bovine herpesvirus, cerebral babesiosis, poisoning by Solanum fastigiatum, malignant catarrhal fever, and polioencephalomalacia. Sheep were affected mostly by coenurosis, meningoencephalitis by Listeria monocytogenes, tetanus, encephalic or vertebral abscesses, and rabies. Goats were affected by meningoencephalitis by L. monocytogenes. Leukoencephalomalacia, trypanosomiasis by Trypanosoma evansi, and tetanus were important neurological diseases of horses.

Index terms: Diseases of ruminants, diseases of horses, diseases of the nervous system, neuropathology.


 

 

INTRODUÇÃO

O Laboratório de Patologia Veterinária (LPV) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) foi o laboratório de referência do Programa Nacional de Vigilância das Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante sete anos (2000-2007). Nesse período, muito esforço foi realizado com o objetivo de gerar informações relevantes sobre as doenças do sistema nervoso (SN) de ruminantes que pudessem contribuir no diagnóstico dessas doenças. Durante a vigilância da encefalopatia espongiforme bovina (BSE) e da scrapie, o exame dos encéfalos de ruminantes tornou possível que várias outras doenças fossem estudadas (já que nenhum diagnóstico dessas encefalopatias espongiformes transmissíveis foi realizado). Além disso, esses estudos abriram portas para que os métodos de avaliação do encéfalo fossem aplicados sistematicamente a outras espécies (como por exemplo, equinos). Toda essa organização na avaliação do material remetido ao LPV-UFSM gerou um grande número de trabalhos científicos relacionados às doenças do SN dessas espécies.

O objetivo deste trabalho foi compilar e organizar as informações geradas a partir do serviço de diagnóstico das doenças do SN de ruminantes e equinos no LPV-UFSM. Para isso serão discutidos os métodos de avaliação e de remessa das amostras ao laboratório e os aspectos epidemiológicos e clínico-patológicos das principais doenças do SN diagnosticadas em bovinos, ovinos, caprinos e equinos. Os dados aqui gerados destinam-se a servir como orientação aos veterinários de campo que trabalham com diagnóstico de doenças de animais de produção e também como uma contribuição aos veterinários ou técnicos de laboratórios de diagnóstico. Não serão apresentados os dados detalhados de cada doença e essas informações devem ser consultadas nas publicações referenciadas durante a discussão.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram compilados os dados de todos os trabalhos científicos publicados pela equipe do LPV-UFSM referentes às doenças do SN de ruminantes e equinos diagnosticadas pelo laboratório. As informações geradas por esses trabalhos foram analisadas e agrupadas de maneira sistemática para avaliação das principais características concernentes à epidemiologia, aos sinais clínicos, à patologia e ao diagnóstico de cada doença. Todas as informações julgadas importantes e necessárias para o diagnóstico de cada doença em cada espécie foram resumidamente agrupadas nos Quadros 1-5.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A lista das principais doenças do sistema nervoso de ruminantes e equinos diagnosticadas no LPV-UFSM entre 1964 e 2008 está no Quadro 1. Os principais dados epidemiológicos e clínico-patológicos dessas doenças estão nos Quadros 1-4 e nas Figuras 1-18. Para uma descrição detalhada de cada doença o leitor pode acessar as publicações correspondentes às doenças de bovinos (Sanches et al. 2000, Langohr et al. 2003, Garmatz et al. 2004, Rech et al. 2004, 2006a,b,c, Rodrigues et al. 2005a, Rissi et al. 2006a, 2007, 2008b, Sant'Ana et al. 2009a,b, Lucena et al. 2010), ovinos (Rissi et al. 2008a,c, 2010a,b), caprinos (Rissi et al. 2006b) e equinos (Barros et al. 1984, Rodrigues et al. 2005b, 2009, Pierezan et al. 2007, 2009).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como ocorre em qualquer sistema, para o diagnóstico das doenças do SN é necessário um histórico epidemiológico e clínico completo e, quando for o caso, uma completa descrição dos achados macroscópicos. Além disso, o material enviado deve ser adequadamente preservado e acondicionado (em formol a 10% e/ou gelo). Com base nessas informações o patologista poderá manter parte do material para possíveis exames adicionais (microbiológico ou molecular) e realizar os testes necessários de acordo com a suspeita clínica. Não é incomum que materiais remetidos aos laboratórios de diagnóstico sejam recebidos com dados vagos e/ou equivocados ou até mesmo sem nenhuma dessas informações. Nesses casos, a correta avaliação do caso e consequentemente o diagnóstico serão prejudicados. Os dados conseguidos a partir de uma boa observação dos achados epidemiológicos e clínicopatológicos podem ser comparados aos descritos nos Quadros 1-4.

A avaliação macroscópica do encéfalo (e, quando for o caso, da medula espinhal ou dos nervos periféricos) pode fornecer pistas substanciais para o diagnóstico de uma doença neurológica. É importante que uma avaliação minuciosa seja realizada tanto pelo veterinário de campo, que vai enviar o material ao laboratório, como pelo patologista, ao receber o material. A correta avaliação e descrição das alterações pelo veterinário são importantes, pois algumas lesões podem desaparecer após a fixação no formol e assim passarão despercebidas pelo patologista. Parâmetros que sempre devem ser incluídos na avaliação macroscópica do encéfalo incluem (1) a distribuição das lesões; (2) a cor; (3) a textura; e (4) a simetria (Barros et al. 2006). Esses parâmetros obviamente podem ser extrapolados para qualquer descrição macroscópica de qualquer outro órgão. A distribuição pode ser bilateral e simétrica (por ex., encefalomalacia focal simétrica em ovinos com enterotoxemia), focal (abscessos ou neoplasmas), multifocal (abscessos), afetando a substância branca (leucoencefalomalacia) ou cinzenta (meningoencefalite por herpesvírus bovino ou polioencefalomalacia). A cor pode indicar aspectos como maior quantidade de sangue nos vasos leptomeníngeos (hiperemia em casos de encefalite viral ou bacteriana), em vasos da substância cinzenta (babesiose cerebral) ou em casos de hemorragias (desde petéquias em casos de septicemia até grandes hematomas por traumatismo). Adicionalmente, focos amarelos ou marrom-amarelados no encéfalo são sugestivos de necrose (malacia). A textura do encéfalo também fornece evidências importantes, como em focos amolecidos de malacia e em coleções de pus contidas em abscessos, ou em áreas sólidas, como no caso de inflamação granulomatosa ou neoplasmas. Assimetria revela que algo foi adicionado (edema, neoplasmas e hemorragia) ou retirado (atrofia ou hipoplasia) de alguma porção do órgão. Esse ítem pode ser facilmente avaliado no encéfalo quando se toma por base os dois hemisférios (isto é, quando há simetria, o que há em um hemisfério deve ser repetido do outro lado, em igual volume).

Após uma completa descrição do caso, a avaliação histológica será mais facilmente interpretada e os exames adicionais serão direcionados de uma forma mais precisa, principalmente em casos onde não se observam achados típicos que poderiam ser utilizados como ferramenta no diagnóstico final de uma determinada doença (inclusões virais, o próprio agente etiológico, etc). Os métodos mais eficientes de diagnóstico de cada uma das principais doenças do SN de ruminantes e equinos no LPV-UFSM podem ser consultados no Quadro 5.

Neste trabalho foram apresentadas as principais doenças do SN de ruminantes e equinos diagnosticadas pelo LPV-UFSM. Apesar de representar a experiência de um único laboratório de diagnóstico, não há uma grande variação nas doenças aqui mostradas e das doenças diagnosticadas no restante do Brasil. Todos os aspectos de cada doença apresentada foram descritos em publicações prévias e podem ser consultados para visualização de dados mais detalhados.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 27de abril de 2010.
Aceito para publicação em 18 de maio de 2010.
Trabalho inteiramente financiado com verba de projeto Universal do CNPq (Proc.478779/2007-0).

 

 

Departamento de Patologia, Universidade Federal de Santa Maria, Camobi, Santa Maria, RS 97105-900, Brazil. E-mail: claudioslbarros@uol.com.br
* Autor para correspondência: claudioslbarros@uol.com.br

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