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Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736X

Pesq. Vet. Bras. vol.31 no.7 Rio de Janeiro July 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-736X2011000700007 

ANIMAIS DE PRODUÇÃO

 

Microbiota cérvico-vaginal de ovelhas mestiças e sua susceptibilidade aos antibióticos

 

Cervical-vaginal microbiota of crossbred sheep in Petrolina/PE, Brazil, and its susceptibility to antibiotics

 

 

Valdenice F. SilvaI; Tácito E.F. DamascenoII; Natson J.D. SouzaIII; Isabelle FrancoIV; Mateus M. CostaV, *

IMestranda do Curso de Pós-Graduação em Ciência Animal, Campus Ciências Agrárias, Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFVSF), Rod. BR 407 Km 12, Lote 543, Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho s/n, Petrolina, PE 56300-990, Brasil. E-mail: valdenice.felix@hotmail.com
IIGraduando Medicina Veterinária, Campus Ciências Agrárias, UFVSF, Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho s/n, Petrolina, PE. E-mail: te_damasceno@hotmail.com
IIIBolsista Iniciação Científica Júnior, Campus Ciências Agrárias, UFVSF, Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho s/n, Petrolina, PE. E-mail: natsonagropecuaria@hotmail.com
IVBolsista Fixação Técnica, Campus Ciências Agrárias, UFVSF, Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho s/n. Petrolina, PE. E-mail: isafelinos@hotmail.com
VColegiado Zootecnia, Campus Ciências Agrárias, UFVSF, Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho s/n, Petrolina, PE

 

 


RESUMO

A criação de ovinos tem se desenvolvido nas últimas décadas, entretanto ainda são escassas informações sobre a composição e potencial patogênico da microbiota cérvico-vaginal de ovelhas. O presente estudo teve como objetivo conhecer os microrganismos constituintes da microbiota cérvico-vaginal de ovelhas, bem como sua susceptibilidade aos antimicrobianos. Foram realizadas coletas em 60 animais sadios, pertencentes a rebanhos de Petrolina e região. Foi realizado o isolamento bacteriano em ágar sangue e ágar MacConkey, sendo os microrganismos identificados de acordo com características morfológicas, tintoriais e bioquímicas. As amostras foram submetidas ao teste de difusão em disco para determinar o perfil de sensibilidade aos antimicrobianos: sulfametazina, enrofloxacina, doxiciclina, tetraciclina, penicilina, amoxicilina, cefalotina e lincomicina. Foram obtidos 94 isolados, sendo constatada uma maior frequência de Staphylococcus spp. (32,97%), Escherichia coli e Micrococcus spp., sendo observado ainda, isolados de Acinetobacter spp., Shigella spp., Enterobacter spp., Klebsiella spp. e Streptococcus spp. Os isolados apresentaram alta sensibilidade aos antimicrobianos testados sendo observado o menor percentual de sensibilidade para lincomicina. A presença de microrganismos oportunistas de potencial patogênico, na microbiota, como Staphylococcus spp e Escherichia coli, remete a uma análise criteriosa em relação ao diagnóstico de infecções genitais. Os isolados bacterianos obtidos neste estudo são sensíveis à maioria dos grupos de drogas antimicrobianas testadas, demonstrando o potencial de utilização desses princípios ativos, além da disponibilidade de escolha, visto a ausência de multirresistência.

Termos de indexação: Microbiota cérvico-vaginal, sensibilidade antimicrobiana, ovinos.


ABSTRACT

Sheep farming has developed in recent decades; however there is still little information on the composition and pathogenic potential of cervical-vaginal flora of sheep. The purpose of the present study was to determine the main constituents of microorganisms in the cervical-vaginal flora of sheep and their antimicrobial susceptibility. Samples were taken from 60 healthy sheep belonging to herds in the region of Petrolina, Pernambuco. Bacterial isolation was performed on blood agar and MacConkey agar, and the microorganisms were identified according to morphology, Gram staining and biochemical characteristics. The samples were subjected to disk diffusion test for determination of sensitivity to the following antimicrobial drugs: sulfamethazine, enrofloxacin, doxycycline, tetracycline, penicillin, amoxicillin, cephalothin and lincomycin. We obtained 94 isolates and found a higher frequency of Staphylococcus spp., Escherichia coli and Micrococcus spp., and also observed isolates of Acinetobacter spp., Shigella spp., Enterobacter spp., Klebsiella spp. and Streptococcus spp. The isolates were highly sensitive to the antibiotics tested, with the lowest percentage of susceptibility to lincomycin. The presence of opportunistic microorganisms of a potential pathogenic microbiota, such as Staphylococcus spp. and Escherichia coli, refers to a careful analysis in the diagnosis of genital infections. The bacterial isolates obtained in this study are sensitive to most groups of antibiotics tested, demonstrating the potential use of these active ingredients, plus the availability of choice, given the lack of multidrug resistance.

Index terms: Cervical-vaginal microbiota, antimicrobial sensitivity, sheep.


 

 

INTRODUÇÃO

A ovinocultura vem crescendo nos últimos anos no Brasil, sendo em grande parte explorada na região nordeste do Brasil. O estado de Pernambuco possui cerca de 1,3 milhões de ovinos (IBGE 2009), concentrados principalmente na região do município de Petrolina. As principais causas da baixa eficiência reprodutiva em ovelhas são as infecções do trato reprodutivo causadas por bactérias, principalmente durante o período pós-parto, tendo como consequência perdas econômicas com o descarte de matrizes e redução do número de crias (Bouters & Vandesplassche 1977, Gregory & Rizzo 2009).

Sob condições normais, a microbiota vaginal apresenta composição e número variável de microrganismos, sendo estes também encontrados na pele e fezes, e devido suas propriedades invasivas, podem estar em pequeno número no útero de animais sadios (Ramaswamy et al. 1991). Os microrganismos habituais da vagina tornam-se patogênicos quando os animais apresentam o sistema imunológico comprometido, em decorrência do estresse causado por fatores variados tais como súbitas mudanças de temperatura, nutrição deficiente, final de gestação e parto, demonstrando seu caráter oportunista na origem de infecções (Verma et al. 1994, Kuntze & Aurich 1995, Lianjuan et al. 1995). Apesar das fêmeas possuírem barreiras físicas que impedem a colonização do trato genital por patógenos oportunistas, as mesmas podem se tornar susceptíveis aos microrganismos que passam pela cérvix e alcançam o útero (Rocha et al. 2004). Elliot et al. (1968) citam que durante o período pós-parto ocorre a migração dos microrganismos presentes na vulva e vagina para a cérvix e útero. Parte das bactérias isoladas de conteúdo vaginal constitui-se de bastonetes gram negativos provenientes do trato gastrintestinal (TGI), especialmente Escherichia coli e cocos Gram-positivos, como Staphylococcus spp. e Streptococcus spp. (Ramaswamy et al. 1991, Sharda et al. 1991, Balassu et al. 1992, Campero et al. 1992, Arthur et al. 1996, Kunz et al. 2002).

A comunidade científica tem manifestado, nos últimos anos, preocupação em relação à resistência às drogas antimicrobianas, devido suas graves consequências, no tratamento de doenças. Várias publicações científicas relatam a relação entre os antibióticos usados em animais e a seleção de cepas bacterianas resistentes e de importância na gênese de enfermidades nos seres humanos e nos animais (Piddock 1996, Witte 1998, Torres & Zarazaga 2002, Carneiro et al. 2007, Macedo et al. 2007).

Devido à presença de agentes com potencial oportunista no trato genital e ainda a carência de estudos científicos sobre a utilização de antimicrobianos relacionados às infecções genitais de ovelhas, é de fundamental importância o conhecimento da microbiota aeróbia parcial, bem como a determinação de sua susceptibilidade às drogas antimicrobianas, a fim de que a terapia correta e planejada seja estabelecida.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Para realização do experimento foram visitadas propriedades com rebanhos ovinos da região de Petrolina, Pernambuco. Os 60 animais utilizados se destinavam à produção de carne, sendo a amostragem constituída por fêmeas mestiças, em idade reprodutiva, de diferente faixa etária, sadias, não-prenhes e criadas em sistema extensivo e semi-extensivo. A sanidade reprodutiva dos animais foi verificada por meio de histórico e exame clínico do aparelho genital.

Amostras da mucosa cérvico-vaginal foram obtidas a partir de swabs esterilizados que após higiene da região vulvar foram introduzidos por meio de espéculo asséptico até o fundo de saco vaginal, realizando-se movimentos de rotação visando obter maior quantidade de material. Após a coleta, os swabs foram acondicionados em tubos esterilizados contendo meio de transporte Stuart modificado e encaminhados ao Laboratório de Microbiologia e Imunologia Animal do Campus de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Vale do São Francisco para processamento.

Os swabs foram semeados em ágar-sangue contendo 5% de sangue desfibrinado de carneiro e ágar MacConkey e incubados em estufa a 37ºC por 24 horas. Não se empregou metodologia para o isolamento de bactérias anaeróbias. As bactérias foram identificadas de acordo características morfológicas, tintoriais e bioquímicas conforme descrito por Quinn et al. (1994). Para identificação das espécies de Staphylococcus foram utilizados os testes bioquímicos: coagulase, ágar púrpura de bromocresol (PAB), manitol semi-sólido, glicose semi-sólido, DNAse, esculina e urease.

A metodologia utilizada para verificar a sensibilidade dos agentes isolados aos antimicrobianos foi o método de difusão em disco Kirby-Bauer modificado (CLSI 2006). Os cultivos foram repassados para tubos de ensaio contendo caldo Müller-Hinton e incubados a 37ºC até apresentar uma turbidez equivalente a 0,5 da escala padrão de Mac Farland. Com auxílio de um swab, os isolados foram semeados em placas de Petri contendo ágar Müller Hinton. A etapa seguinte consistiu na aplicação dos discos, em que uma leve pressão permitiu o contato entre os mesmos e a superfície do meio inoculado. Os agentes antimicrobianos avaliados foram: penicilina (10µg), tetraciclina (30µg), sulfametazina (300µg), doxiciclina (30µg), amoxicilina (10µg), enrofloxacina (5µg), cefalotina (30µg) e lincomicina (2µg). As placas foram incubadas em estufa durante 24h a 37ºC. Após a leitura dos halos foi determinado o perfil de sensibilidade dos isolados. Foi determinado o índice de resistência aos antimicrobianos dividindo o número de grupos de antimicrobianos aos quais os isolados foram resistentes pelo total de grupos de antimicrobianos testados (Krumperman 1983), sendo considerada multiresistência valores superiores a 0,4.

 

RESULTADOS

Das 60 amostras analisadas foram obtidos 94 isolados bacterianos. Foram observadas as seguintes frequências de microrganismos: Staphylococcus spp. (32,97%), Escherichia coli (14,90%), Micrococcus spp. (12,8%), Acinetobacter spp. (10,6%), Enterobacter spp. (10,64%), Klebsiella spp. (9,6%), Streptococcus spp. (7,5%) e Shigella spp. (1,1%). No gênero Staphylococcus foram identificadas as seguintes espécies: S. schleiferi (63,3%), S. epidermidis (20,0%), S. saprophyticus, S. arlettae e S. lentus respectivamente com 3,3% e Staphylococcus spp. (6,7%), em que não foi possível a identificação com as provas bioquímicas realizadas.

O perfil de sensibilidade dos isolados aos antimicrobianos está demonstrado no Quadro 1. O gênero Staphylococcus apresentou melhor sensibilidade à doxiciclina e enrofloxacina com percentuais de 93,8% e 90,6%, respectivamente. Micrococcus spp. demonstraram sensibilidade de 100% à doxiciclina obtendo menores percentuais à sulfametazina, penicilina e lincomicina. Streptococcus spp. mostraram-se 100% sensível à doxicilina e tetraciclina, e menores percentuais referentes à cefalotina, penicilina e lincomicina com valores de 42,9% e 0,0%, respectivamente.

Escherichia coli apresentou maior sensibilidade à sulfametazina, enrofloxacina e doxiciclina (92,9%) e resistência à cefalotina, penicilina e lincomicina. Resultados semelhantes foram encontrados para Enterobacter spp., que foram menos sensível às mesmas drogas, com melhor percentual para amoxicilina, tetraciclina (100%) e doxiciclina (90%). Acinetobacter spp. obtiveram percentual de 100% à doxiclina, sendo a sensibilidade mais baixa relacionada à lincomicina (30%). Klebsiella spp. apresentaram alta sensibilidade à maioria dos antimicrobianos, obtendo menor percentual à penicilina e lincomicina (20%). Shigella spp. apresentaram sensibilidade de 100% às drogas sulfametazina, enrofloxacina, amoxicilina e doxiciclina. Em média a maioria dos antimicrobianos testados apresentou um alto percentual de sensibilidade, tendo a penicilina e lincomicina alcançado os menores valores. O índice de resistência múltipla dos isolados variou de 0,15 a 0,5 entre os gêneros testados, sendo os índices obtidos respectivamente para isolados de Staphylococcus spp. e Shigella spp.

 

DISCUSSÃO

Os principais microrganismos isolados neste estudo foram Staphylococcus spp. e Escherichia coli, o que corrobora com estudos semelhantes sobre o levantamento da microbiota presente na mucosa cérvico-vaginal de fêmeas domésticas (Rocha et al. 2004, Andrade 2006, Gomes 2006). Concorda ainda com outros autores que afirmam que em condições normais a composição e o número de agentes da microbiota são variáveis (Ramaswamy et al. 1991, Sharda et al.1991, Balassu et al. 1992, Campero et al. 1992, Arthur et al. 1996, Kunz et al. 2002).

Microrganismos como Streptococcus spp., Staphylococcus spp. e coliformes são considerados habitantes da região vulvar, vagina, pele e trato gastrintestinal e possuem propriedades invasivas nos tecidos (Oliveira 1995). Streptococcus spp., quando associado a outros microrganismos, pode favorecer a proliferação de bactérias de maior patogenicidade, pois estes produzem penicilinase e protegem outras bactérias (Panangala et al. 1978, Kreplin 1990).

A predominância de Staphylococcus spp. deve-se possivelmente a este microrganismo ser originário da pele e mucosas, uma vez que são encontrados comumente em outros ruminantes (Rocha et al. 2004). Em um estudo da microbiota vaginal de vacas associadas a infecções uterinas, Gani et al. (2008) verificaram a predominância do gênero Staphylococcus spp., corroborando com os dados descritos na literatura. Relatos semelhantes foram descritos em ovelhas por Moorthy & Singh (1982). Martins et al. (2009) verificaram a prevalência de Staphylococcus spp. coagulase positiva na mucosa cérvico-vaginal de ovelhas. Entretanto, S. epidermidis foi isolado de seis animais, corroborando com os achados do presente estudo. O isolamento de S. schleiferi na mucosa genital já foi descrita em algumas espécies como em jabutis (Pessoa 2009), cães (Coggan et al. 2008) e em humanos (Campos et al. 2008), entretanto são escassos estudos referentes a este microrganismo no sistema genital de ovelhas. Bactérias do gênero Micrococcus são descritas como habitantes das mucosas de diversas espécies animais (Gomes 2006, Fornazari et al. 2007, Uchôa et al. 2009), sendo considerado de baixa patogenicidade (Wunder et al. 1976). O isolamento deste microrganismo nos animais do presente estudo foi esperado, contudo dada a ausência de patogenicidade do mesmo, este deve ser diferenciado de outros cocos Gram-positivos de maior potencial patogênico.

Segundo Kuntze & Aurich (1995), as enterobactérias predominantes na mucosa da vulva e vagina são oriundas do trato gastrintestinal e podem causar processos infecciosos e deslocamento de células inflamatórias para os tecidos. No presente estudo, os principais gêneros de enterobactérias foram isolados, demonstrando a importância desses microrganismos na composição da microbiota genital de ovelhas e o risco de desenvolvimento de enfermidades reprodutivas, principalmente no pós- parto, quando a cérvix está relaxada, facilitando a invasão desses agentes oportunistas. Husted et al. (2003) em um levantamento de microbiota vaginal comparando vacas sadias e com vaginite, descreveram um percentual de 33% para E. coli e 20% para Staphylococcus spp. Entretanto Acinetobacter wolffii foi o microrganismo predominante em ambos os grupos, apresentando um percentual de 95%, enquanto que no presente estudo o percentual desse gênero foi de 10,64%. A alta prevalência do microrganismo tanto em animais sadios como em enfermos o caracteriza como primário ou secundário da infecção, todavia são escassas informações sobre esse agente como constituinte da microbiota de ovelhas, sendo isolado nessa espécie principalmente em casos de mastite (Domingues et al. 2006, Drescher et al. 2010).

É de suma importância o conhecimento da microbiota dos animais sadios para que esta possa ser comparada com resultados de culturas obtidas de animais doentes. O presente estudo verificou a presença de microrganismos considerados de baixa patogenicidade, mas também agentes de caráter oportunista, que em situações de desequilíbrio podem desencadear doenças reprodutivas. O oportunismo dessas infecções é decorrente do manejo que é aplicado às fêmeas, principalmente o manejo alimentar no pós-parto, em que o animal se apresenta mais susceptível às doenças. Torres et al. (1997) observaram associação entre estresse e a ocorrência de infecções bacterianas no útero de vacas leiteiras, principalmente durante o período pós-parto. A microbiota normal residente protege o hospedeiro contra a colonização por essas bactérias potencialmente patogênicas. Esse antagonismo ocorre por meio da competição por nutrientes, produção de substâncias nocivas, alteração de pH e disponibilidade de oxigênio, reduzindo dessa forma a proliferação dos patógenos (Tabulsi 1999).

Em relação à sensibilidade aos antimicrobianos, observou-se alta sensibilidade dos isolados às drogas antimicrobianas utilizadas neste estudo. O menor percentual de sensibilidade foi encontrado para a lincomicina e penicilina. Segundo Aiello (2001), a lincomicina possui um espectro limitado contra patógenos aeróbios, sendo os microrganismos gram negativos resistentes. O autor ainda ressalta que a resistência à lincomicina surge lentamente talvez como resultado de uma mutação cromossômica, podendo exibir resistência cruzada com outros antibióticos in vitro. Streptococcus spp. isolados de vacas com mastite foram resistentes à lincomicina (Faublée et al. 2002). Segundo os autores, o fenótipo comum envolvido na resistência em cocos gram positivos é o MLSB, com resistência cruzada entre macrolídeos, lincosamidas e estreptograminas do grupo B, que ocorre devido à metilação do 23S do rRNA, resultando em diminuição da afinidade para drogas antimicrobianas destes grupos.

A baixa sensibilidade dos microrganismos frente à penicilina já foi demonstrada em artigos científicos (Riedner et al. 1987, Fthenakis 1998, Freitas et al. 2005, Machado et al. 2008). A resistência aos â-lactâmicos, principalmente pelos gram positivos, pode ser oriunda tanto pela alteração das proteínas de ligação à droga quanto pela produção de â-lactamases (Lyon et al. 1987, Livermore et al. 1995). Jacob et al. (2002) avaliando a susceptibilidade de bactérias isoladas de swab uterino e da fossa clitoriana de éguas, observaram um percentual médio de sensibilidade à penicilina de 29,16% e 16,6% respectivamente. Neste mesmo estudo, as bactérias Gram negativas foram totalmente resistentes a esta droga, sendo esses achados semelhantes aos descritos aqui. Apesar da pressão de seleção oriunda da utilização massiva da droga constantemente relatada na literatura, os gêneros gram positivos apresentaram um percentual de sensibilidade relativamente boa frente à penicilina, podendo este fármaco ser utilizado no tratamento de infecções causadas por esses agentes. Bactérias gram negativas apresentam resistência intrínseca à penicilina, principalmente as enterobactérias, que no presente estudo foram os microrganismos isolados em maior número, justificando dessa forma a baixa efetividade dessa droga.

Martins et al. (2009) avaliando a susceptibilidade de bactérias isoladas da mucosa vaginal de ovelhas observaram que os coliformes apresentaram baixa sensibilidade à amoxicilina, tetraciclina e cefalotina, não corroborando com os achados deste estudo, que verificou alta sensibilidade os isolados frente às mesmas drogas. O perfil de sensibilidade dos microrganismos frente aos antimicrobianos pode variar de acordo com a região em que o estudo foi realizado, visto que o presente experimento foi realizado no nordeste e aquele no sudeste do país onde as condições de produção de ovinos e a terapia de infecções podem ser distintas.

Perante o número de drogas antimicrobianas testadas neste estudo, e cálculo de IRMA segundo Krumperman (1983), os gêneros de microrganismos não se apresentaram multirresistentes. Porém, um isolado de Enterobacter spp. apresentou um índice de 0,83. A multirresistência dos microrganismos é oriunda do uso inadequado das drogas antimicrobianas, apresentando um risco potencial para a saúde pública que pode dificultar o tratamento de doenças animais e de humanos, agravando quadros clínicos curáveis (Sena 2000).

 

CONCLUSÕES

O conhecimento acerca da microbiota cérvico-vaginal de ovelhas é de suma importância, visto que infecções genitais são causas de baixa produção na exploração dessa espécie.

A presença de microrganismos oportunistas de potencial patogênico, como Staphylococcus spp. e Escherichia coli, remete a uma análise criteriosa em relação ao diagnóstico e terapêutica das infecções do trato reprodutivo.

Os isolados bacterianos obtidos neste estudo são sensíveis à maioria dos grupos de drogas antimicrobianas testadas, demonstrando o potencial de utilização desses princípios ativos, além da disponibilidade de escolha, visto a ausência de multirresistência.

 

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Recebido em 23 de novembro de 2010.
Aceito para publicação em 23 de março de 2011.

 

 

* Autor para correspondência: mateus.costa@univasf.edu.br

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