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Pesquisa Veterinária Brasileira

Print version ISSN 0100-736XOn-line version ISSN 1678-5150

Pesq. Vet. Bras. vol.35 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-736X2015000100006 

Livestock Diseases

Estudo sobre a ocorrência de fungos e aflatoxina B1 na dieta de bovinos leiteiros em São Paulo

Study on the occurrence of fungi and aflatoxina B1 in the diet of dairy cattle in São Paulo, Brazil.

Thiago P. Motta 2  

Adriana Frizzarin 2  

Thamires Martins 2  

Mariana S. Miranda 2  

Juliana R.P. Arcaro 2  

Luiz A. Ambrósio 2  

Claudia R. Pozzi 2   * 

2Centro Apta Bovinos de Leite, Instituto de Zootecnia, Rua Heitor Penteado 56, Nova Odessa, SP 13460-000, Brasil.

RESUMO

A qualidade da dieta ofertada às vacas em lactação é uma preocupação dos agentes de saúde devido à possibilidade da detecção de micotoxinas prejudiciais a saúde humana e animal. Os objetivos do trabalho foram avaliar o perfil da micobiota, determinar a atividade de água (Aa) e a ocorrência natural de aflatoxina B1 (AFB1) em dietas ofertadas a vacas em lactação de fazendas leiteiras no estado de São Paulo, Brasil. As amostragens das dietas foram realizadas diretamente dos cochos de lote de 15 vacas, em dois dias consecutivos com intervalos de 24h e a cada 15 dias, perfazendo um período de 45 dias de amostragens por fazenda. A purificação e determinação de AFB1 foram realizadas em colunas de imunoafinidade e Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE). O estudo da micobiota presente nas amostras das dietas (288) revelou que as leveduras foram predominantes em todas as dietas (83,97 a 99,98%). Foram isolados 15 gêneros de fungos filamentosos, com os gêneros Aspergillus spp (20,09%), Fusarium spp (14,16%) e Penicillium spp (11,48%) os mais prevalentes. As contagens de Unidades Formadoras de Colônias por grama de alimento (UFC. g-1) variaram de 102 a 1011. A atividade de água das amostras variou entre 0,91 a 0,98. Foi detectada a presença de AFB1 em 31,44% das amostras com teores entre 1,68 a 194,51μg.kg-1. Medidas de boas práticas de produção, estocagem e utilização devem ser tomadas para diminuir a ocorrência de AFB1 nas dietas ofertadas às vacas em lactação.

Palavras-Chave: Aflatoxina B1 ; micotoxinas; alimentos; vacas em lactação; fazendas

ABSTRACT

The quality of the diet offered to lactating cows is a concern to health officials the possibility of detecting mycotoxins harmful to human and animal health. The objectives were to evaluate the profile of mycoflora, determine the water activity (Aw) and the natural occurrence of aflatoxin B1 (AFB1) in diets offered to lactating cows from dairy farms in the state of São Paulo, Brazil. Samples of the diets were taken directly from the troughs batch of 15 cows, on two consecutive days at intervals of 24 hours and every 15 days with a period of 45 sampling days per farm. Purification and determination of AFB1 were performed on immunoaffinity columns and High Performance Liquid Chromatography (HPLC). The study of mycobiota present in samples of diets (288) revealed that yeast cells were predominant in all diets (83.97 to 99.98%). 15 genera were isolated from filamentous fungi, with Aspergillus spp (20.09%), Fusarium spp. (14.16%) and Penicillium spp. (11.48%) the most prevalent. The counts of colony forming units per gram of food (UFC.g-1) ranged from 102 a1011. The water activity of the samples ranged from 0.91 to 0.98. We have detected the presence of AFB1 in 31.44% of samples with levels between 1.68 a 194.51μg.kg-1. Measures of good production, storage and use should be taken to reduce the occurrence of aflatoxin B1 in the diet offered to lactating cow.

Key words: Aflatoxina B1 ; mycotoxins; foods; lactating cows; farms.

Introdução

Garantir a segurança dos alimentos tem sido um grande foco de ação internacional nos últimos anos. Os perigos microbiológicos e químicos são motivos de preocupação e, entre os contaminantes naturais, a contaminação de alimentos e rações por micotoxinas pode ter efeitos graves na saúde humana e animal. Os fungos toxigênicos crescem e se proliferam em grãos de cereais, principalmente, milho, trigo, cevada, sorgo, algodão, ingredientes básicos da dieta de vacas leiteiras, seja na forma de concentrados ou volumosos conservados sob a forma de silagem. As aflatoxinas são metabólitos produzidos por diferentes espécies do gênero Aspergillus seção Flavi e têm grande importância econômica na contaminação de cereais em vários países, conhecidos por contaminar várias culturas tanto no pré como na pós-colheita. São conhecidas 18 diferentes moléculas do grupo das aflatoxinas, mas a aflatoxina B1 é considerada uma das substâncias carcinogênicas mais conhecidas e também uma das mais isoladas dos alimentos contaminados (Zeringue et al. 1993). Pesquisas realizadas em várias regiões no Brasil demonstraram a presença de altos teores de AFB1 em grãos de milho antes e após a colheita e em ingredientes de rações (Rodríguez-Amaya & Sabino 2002, Rocha et al. 2009), sendo frequente o envolvimento desses metabólitos em patologias de animais e, em especial, na bovinocultura leiteira. Assim, o presente trabalho teve por objetivos avaliar o perfil da micobiota, a atividade de água e a presença de AFB1 nas dietas completas fornecidas as vacas em lactação em fazendas leiteiras no estado de São Paulo.

Material e Métodos

Foram avaliadas 288 amostras de dieta completa (volumoso+ concentrado, v/v), de 135 vacas em lactação das raças Holandesa Preta e Branca e cruzadas distribuídas em fazendas produtoras de leite no estado de São Paulo, Brasil, identificadas por letras de A até E. O volumoso ofertado às vacas era constituído de silagem de milho, sorgo e cevada úmida. O concentrado ofertado era constituído de grãos de milho, farelo de soja e caroço de algodão e mistura mineral. A amostragem foi realizada diretamente do cocho de um lote de 15 vacas em lactação com produções médias de 20 kg de leite por dia, a cada 15 dias e durante período de 45 dias. Foram retiradas amostras incrementais em 25 pontos diferentes do cocho para compor uma amostra composta de 5 kg que foi homogeneizada e subdividida em quatro sub-amostras de 1,25 kg cada (Brasil 2010). Os dados climáticos (precipitação pluvial total, temperaturas máxima e mínima e umidade relativa do ar) foram obtidos nas estações metereológicas do Centro Integrado de Informações Agrometereológicas (CIIAGRO, Campinas).

O isolamento, contagem e identificação da micobiota das dietas foram realizados por meio da técnica de diluição seriada (Busta et al. 1984). Os fungos isolados foram classificados até gênero, mas aqueles pertencentes aos gêneros Aspergillus e Fusarium foram classificados até espécie, de acordo com os compêndios: Raper e Fennell (1965) e Nelson et al. (1983). A atividade de água (Aa) das amostras das dietas foi determinada por meio do aparelho Testo® 650 (Testo, Brasil).

A extração e purificação de AFB1 foram realizadas em coluna de imunoafinidade (Vicam, EUA). Vinte e cinco gramas de cada amostra (288) foram trituradas com 5g de NaCl e transferidas para um frasco de boca larga e adicionados 125mL de metanol:água (70:30 v/v). Após agitação por 30 minutos em agitador mecânico horizontal, o conteúdo do frasco foi filtrado em papel de filtro e 15 mL da solução desse extrato, obtida a partir da primeira diluição, foi diluído em 30mL de água destilada. Em seguida, 15 mL do extrato filtrado foram transferidos para uma coluna de imunoafinidade a um fluxo de cerca de 1-2 gotas/segundo. Concluída a operação, a coluna foi lavada com 10mL de água destilada a um fluxo de cerca de duas gotas/segundo e eluída com 1,0mL de metanol padrão Cromatografia Líquida de Alta Eficiência CLAE a um fluxo de cerca de uma a duas gotas por segundo. Após a eluição, o extrato foi recolhido e armazenado em temperatura de congelamento até o momento da quantificação.

A AFB1 presente no extrato metanólico foi separada e quantificada por CLAE, tendo como fase móvel metanol: acetonitrila: ácido fosfórico 0,1% (24:24:52 v/v/v), fluxo de 1,0 mL/minuto, detector de fluorescência (364nm de excitação e 440nm de emissão), coluna Shim-pack VP-ODS C18 4,6x250mm de 5 micron (Shimadzu,Japão), volume da amostra injetada de 20mL (AOAC, 2000). O método de quantificação das amostras foi padrão externo utilizando curva de calibração construída por meio do preparo de uma solução trabalho de 1,0μg. L-1 AFB1(Sigma-Aldrich, EUA) e soluções com cinco diferentes concentrações do padrão de 5, 10, 15, 20 e 25ηg.mL-1

O limite de detecção teórico calculado como três vezes o ruído da linha de base, foi de 0,08ηg.mL-1. O limite de quantificação teórico foi de 0, 125ηg.mL-1 a menor concentração da toxina possível de ser confirmada.

Os valores médios dos testes de recuperação das amostras fortificadas em triplicata nas concentrações de 0,2ηg.g-1, 0,4ηg.g-1 e 1,25ηg.g-1 foram 60,23%, 73,22% e 84,60%, respectivamente, e estão de acordo com a metodologia descrita (AOAC 2000).

Foi utilizada a análise estatística para descrever os padrões gerais da distribuição dos dados de UFC. g-1 de Aspergillus spp, atividade de água e teores de AFB1 nas amostras das dietas. Foram calculadas as médias, as medianas, desvio padrão e desvio padrão da média, por número de amostras, fazenda e período de coleta de amostras. Preferiu-se a mediana em relação à média como medida de tendência central. Nas amostras individuais e por período foi aplicado o teste de Correlação de Pearson para as variáveis UFCg-1 de Aspergillus spp., atividade de água e teores de AFB1. Para as inferências presença de AFB1 nos cochos com atividade de água e presença de Aspergillus spp foram utilizados os testes não paramétricos qui-quadrado (χ2), e analise de regressão logística binominal. (Minitab® 15 2010).

Resultados

Das 288 amostras de dietas analisadas houve predominância de leveduras em relação à população geral de fungos, onde se observou frequências de isolamentos que variaram de 83,97% a 99,98% para as leveduras e de 0,02% a 16,03% para isolamentos de fungos filamentosos. Os principais gêneros de fungos filamentosos isolados foram: Aspergillus (20,09%), Fusarium (14,16%), Penicillium (11,42%), Rhizopus (97,31%), FNE (6,85%), Cladosporium (6,39%), Absidia (5,48%), Mucor (5,48%), Emericella (4,57%), Monascus (4,57%), Alternaria (3,65%), Moniliella (3,65%), Scopulariopsis (2,74%), Eurotium (0,91%) Trichoderma (0,46%), Geotrichum (0,46%) e Acremonium (0,46%). O número UFC/g variou de 5,28x104 a 6,80x1011 para as leveduras e 3,0x102 a 1,73x1010 para os fungos filamentosos

Dentro do gênero Aspergillus as principais espécies isoladas foram: A. flavus (79,70%), A. parasiticus (12,94%), A. alutaceus (7,14%) e A.nidulans.(0,22%). A espécie A. flavus foi isolada nas amostras das dietas em todas as fazendas avaliadas com contagens entre 3,0x102 a 1,6x109 UFC/g-1 Não houve diferença significativa entre as fazendas quanto às medianas de contagens de UFC/g-1 para Aspergillus. (P=0, 000) pelo intervalo de confiança de 95%.

A atividade de água das amostras das dietas variou de 0, 88 a 0, 99. As fazendas B e A apresentaram os maiores valores de atividade de água nas amostras das dietas (0, 98 e 0, 95), respectivamente e foram diferentes das demais fazendas pelo intervalo de confiança de 95%. (Quadro 1). Quando analisada atividade de água das amostras por período de coleta dentro de cada fazenda verificou-se não haver diferença entre eles no intervalo de confiança de 95%. A precipitação pluvial total nas regiões das fazendas variou entre 9,10 a 546,70 mm, as médias da temperatura máxima variaram de 23,47 a 31, 76 °C, as médias da temperatura mínima de 10,26 a 19,99 °C e a umidade relativa do ar média ficaram entre 67,10 a 76,60%. (Quadro1)

Quadro 1: Atividade de água das amostras e clima nas regiões das fazendas no período de 45 dias, Estado de São Paulo 

Medianas na coluna, seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo IC da Mediana a 95% de confiança.

No Quadro 2 estão apresentados os dados de contaminação por AFB1 nas dietas completas ofertadas às vacas em lactação. Das 288 amostras avaliadas 89 (30,90%) apresentaram níveis detectáveis de AFB1 com teores variando de 1,68 a 194,51μg.Kg-1. A Fazenda H não apresentou níveis detectáveis da micotoxina nas 32 amostras analisadas. As maiores frequências de contaminação foram observadas nas fazendas E (75,00%), A (46,84%) e F (40,26%). Houve diferença significativa entre as medianas de AFB1 pelo intervalo de confiança a 95%, a fazenda E apresentou as maiores medianas nas concentrações de AFB1 nas dietas.

Quadro 2: AFB1 nas amostras das dietas das vacas em lactação nas fazendas, Estado de São Paulo 

N = número de amostras positivas, ND = não detectado. Medianas na coluna, seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo IC da Mediana a 95% de confiança.

* MAPA-Portaria MA/SNDA/SFA, 09/11/1988 - LMT aflatoxinas 50μg.kg-1.

Não foi observada correlação significativa (P>0,05) na análise de correlação de Pearson entre as medianas das variáveis transformadas Aspergillus (UFC. g-1), medida de atividade de água (Aa) e teores de AFB1. Para testar a independência dos teores da micotoxina em relação à ocorrência de isolados de Aspergillus foi aplicado o teste de χ2. O teste foi não significativo a 5% de probabilidade (χ2=1.823, DF=1, P =0.177),

A Fig. 1 ilustra as frequências absolutas de amostras de dietas positivas para aflatoxinas e isolamentos de Aspergillus sem cada fazenda, o que mostra a ausência de associação entre essas duas variáveis nas amostras das dietas coletadas dos cochos. Há fortes indícios de que os teores de aflatoxinas observados se devem aos efeitos de processos anteriores e não à atividade microbiana presente nessas amostras nos cochos.

Fig.1: Ocorrência de AFB1, Aspergillus e AFB1 associado a Aspergillus nas amostras das dietas das vacas em lactação em fazendas no Estado de São Paulo. 

Para analisar a dependência da AFB1 positiva em relação à atividade de água (Aa), procedeu-se a regressão logística binomial. A análise revelou que a relação de atividade de água e teor de AFB1 nas amostras por período foi significativa (P<0,05), mas com valor de R2 considerado moderado (R2=0, 565) indicando uma tendência de detecção maior de AFB1 nas amostras de atividade de água mais baixos.

Discussão

A maior frequência de isolamentos de leveduras nas dietas compostas principalmente por gramíneas conservadas sob a forma de silagem está de acordo com dados de pesquisadores que mostram grandes populações de leveduras em silagens decorrente da exposição ao oxigênio no momento do desabastecimento dos silos ou manejo inadequado durante a confecção. As leveduras são consideradas as principais responsáveis pela deterioração aeróbia de silagens (Amaral 2011). Os silos em cada propriedade estavam abertos e sendo utilizados pelos fazendeiros quando do início do trabalho experimental, o que pode ter contribuído para os maiores isolamentos de leveduras. As contagens obtidas no presente trabalho foram elevadas e estavam acima das contagens recomendadas pela International Commission Microbiological Specifications for Foods (1980) , que estabelece limites entre 102 a 104 como tolerados para UFCg-1 unidades formadoras de colônias por grama de alimentos. Apenas uma fazenda apresentou contagens de UFCg-1 dentro desse limite, as demais propriedades apresentaram contagens de UFCg-1 acima de 105. As coletas de amostras nessa fazenda foram realizadas nos períodos de menores índices de precipitação pluvial. O aumento da disponibilidade de água no alimento favorece a atividade microbiana, principalmente o crescimento de fungos filamentosos e leveduras Segundo Amaral (2011) contagens de leveduras acima de 105 em silagens indicam processos de deterioração instalados no sistema de preparo do alimento, que ocorre normalmente no período das chuvas.

Os gêneros Aspergillus, Fusarium e Penicillium são considerados como os mais importantes fungos toxigênicos isolados em grãos de cereais, oleaginosas e rações (Frisvad et al. 2006). O gênero Aspergillus foi o mais prevalente em nosso trabalho. Espécies desse fungo têm afinidade por sementes oleaginosas como o caroço de algodão fornecido nas dietas das vacas e cereais como o milho. Em estudo do perfil da micobiota em grãos de milho recém-colhidos em diferentes regiões do Brasil, Rocha et al. (2009) isolaram Aspergillus spp como o segundo gênero em frequência no estado de Mato Grosso (14,0%) e estado da Bahia (12,6%). Outros trabalhos também têm verificado a presença de Aspergillus como parte da biota de grãos de milho recém-colhidos no Brasil, sendo superado em termos de frequência de isolamentos pelos fungos Fusarium e Penicillium (Pozzi et al. 1995, Almeida et al. 2000).

Em nossa pesquisa, os fungos do gênero Fusarium apresentaram menores índices de isolamentos quando comparados ao gênero Aspergillus. Isso pode ter ocorrido devido aos maiores isolamentos de leveduras nas dietas dos animais, composta de forragem conservada como as silagens de milho (50%). Auerback et al. (1998) verificaram que populações de fungos filamentosos decresceram em silagens de milho ao longo do período de fermentação até 100 dias em condições estritas de anaerobiose. A partir desse dia apenas Penicillium roqueforti estava presente, isso porque esporos dessa espécie fúngica mostram-se menos sensíveis aos ácidos orgânicos do que espécies de outros fungos. O crescimento dos bolores em silagem geralmente está restrito às superfícies e laterais do silo e o desenvolvimento dos fungos ocorre em estágio avançado de deterioração, tendo um papel coadjuvante ao das leveduras. As espécies mais frequentemente isoladas pertencem aos gêneros Penicillium, Fusarium, Aspergillus, Mucor, Byssochlamys, Absidia, Arthrinium, Geotrichum, Monascus, Scopularipos e Trichoderma (Pelhate 1977, Nout et al. 1993).

Várias espécies de Aspergillus spp. foram isoladas de culturas de cereais no campo, entretanto as espécies do fungo Fusarium spp são as mais encontradas no Brasil quando analisados os isolamentos em grãos de cereais destinados à alimentação animal (Almeida et al. 2002). Considerados como fungos de campo, os fungos desse gênero invadem os tecidos da planta durante o desenvolvimento, quando os teores de umidade no grão são mais elevados, ao contrário do gênero Aspergillus spp., mais tolerantes a conteúdos de umidade mais baixos e considerados fungos de armazenamento. (Christensen & Kaufmann 1965).

Segundo Berjak (1984) os fungos de armazenamento geralmente em número mais baixo superam os de campo logo após o armazenamento, competindo pelos nutrientes presentes no substrato e a mais baixa disponibilidade de água. A tendência de queda na frequência de isolamentos de fungos do gênero Fusarium spp. em grãos de milho e sorgo armazenados em galpões durante período de 12 meses e aumento dos isolamentos de fungos do gênero Aspergillus spp foi observado por Pozzi et al. (1995) e Silva et al. (2000), respectivamente. Vários estudos realizados com amostras de grãos de milho e sorgo recém colhidos e armazenado no Brasil identificam a espécie A. flavus como a mais isolada (Pozzi et al. 1995 , Almeida et al. 2000 , Rocha et al. 2009 , Reis et al. 2010). Em ingredientes de ração destinados a bovinos leiteiros a espécie A. flavus foi identificada como a espécie predominante em 58% (n=90) das amostras analisadas, cepas do fungo (20%) foram capazes de produzir AFB1 in vitro .

O teor mais elevado de atividade de água nas amostras de dietas de duas fazendas ocorreu provavelmente pelas colheitas das amostras terem sido realizadas entre os meses de outubro-novembro para a fazenda A e dezembro-janeiro para a fazenda B. Nesses meses ocorreram as maiores precipitações e umidades relativas do ar, ou 165 mm e 438,7mm para precipitação pluvial total e 69,5±24,7% e 75,0±18,9% de umidade relativa do ar nas regiões das fazendas A e B, respectivamente.

A atividade de água das amostras das dietas dentro fazendas não diferiram entre si durante os diferentes períodos de amostragem (P>0,05). Os valores de atividade de água observados nas amostras, teores entre 0,91 a 0,98 permitiram a germinação, esporulação e crescimento dos fungos. Os fungos que colonizam os grãos e plantas antes da colheita necessitam de um mínimo de atividade de água para germinação de 0,85, esporulação 0,90 e crescem em temperaturas de -5°C até 30 a 34°C. Espécies de fungos comuns no armazenamento como Aspergillus flavus germinam com atividade de água de 0,72 a 0,80 e crescem dentro de limites mais amplos de temperatura entre -4°C até 30-55°C, sendo que para a produção de aflatoxinas a atividade de água varia de 0,83 a 0,87 (Lacey & Magan 1991). De acordo com Lillejoh et al. (1982) F. verticilloides é um forte competidor em relação ao A.flavus. Os fungos possuem um antagonismo passivo em que o crescimento é inibido pela competição de espaço e nutrientes essenciais ao desenvolvimento, com vantagem ao microrganismo que estiver em maior número ou maior adaptação ao substrato.

A análise de regressão logística binomial por período revelou uma tendência moderada (R2=0, 565) de detecção de AFB1 nas dietas com atividades de água mais baixos, ocorrido nas amostras colhidas nos períodos de ano com as precipitações pluviais e umidade relativas mais baixas. Rocha (2010) detectou aflatoxinas em amostras de grãos de milho recém colhidos com atividades de água menores (0,82), na região de Várzea Grande (MT), quando comparadas com grãos de milho em Santa Maria (RS) e Nova Odessa (SP), onde os grãos recém colhidos apresentaram maiores atividades de água e baixos teores de aflatoxinas.

O milho é um dos principais produtos agrícolas contaminados pelas aflatoxinas. Gloria et al. 1997 analisaram 292 amostras de grãos de milho recém colhidos e encontram 33,6% contaminadas por aflatoxinas. A análise de 1.263 amostras de grãos de milho e 1.006 amostras de rações à base de milho em vários estados no Brasil, num período de dez anos, revelou a presença das aflatoxinas em quase 50% dos alimentos analisados, com níveis máximos de 14,4μg.kg-1 (Santurio et al., 1996). Os altos níveis de contaminação por AFB1 encontrados nas dietas foram semelhantes aos encontrados por Almeida et al., (2009) que, analisando amostras de milho utilizado na formulação de ração animal, encontraram 10% das amostras contaminadas com teores entre 1 a 5μg.kg-1. Rocha et al. (2009) analisando a co-ocorrência de aflatoxinas e fumonisinas em 200 amostras de grãos de milho recém colhidos em quatro regiões do Brasil (Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Bahia e São Paulo) verificaram que 2 a 18% das amostras estavam contaminadas com as aflatoxinas, com índices entre 5.6 a 1.393,0μg/kg-1 Das 21 amostras positivas, 16 (76,2%) estavam acima do limite estabelecido pela legislação do Brasil (20μg/kg-1). A fazenda H foi a única fazenda a não apresentar níveis detectáveis de AFB1, apesar do perfil de contaminação por Aspergillus spp. ter sido semelhante ao das demais fazendas. Observou-se uma independência do teor de aflatoxinas em relação à ocorrência de isolados de Aspergillus. Não há evidências, portanto, de que os teores de aflatoxinas estejam associados à ocorrência de isolados de Aspergillus. Há fortes indícios de que os teores de aflatoxinas observados se devem aos efeitos de processos anteriores e não a atividade microbiana presente nas amostras das dietas. Uma possibilidade é a do desaparecimento do fungo e não da toxina, produzida em momentos anteriores ao da amostragem (Pitt & Hocking 1997). Segundo Taniwaki & Silva (2001) a ausência de sinais visíveis do crescimento fúngico não pode ser interpretada como ausência de toxinas, já que essas são capazes de permanecer no alimento mesmo depois que o fungo produtor tenha sido eliminado.

Trabalhos realizados no Brasil com grãos de cereais e oleaginosas indicam a presença de aflatoxinas no campo durante diferentes etapas de crescimento das plantas, e apontam fatores como a temperatura e atividade de água como os principais fatores responsáveis pela produção das micotoxinas (Zorzete et al. 2008, Rocha et al. 2009, Zorzete et al. 2011). AFB1 foi detectada em 14% das 200 amostras analisadas de grãos de milho recém-colhidos em Santa Maria (RS) com níveis variando entre 13,7 a 1.393 μg.kg-1. No Mato Grosso do Sul, 18% das amostras de grãos de milho analisadas estavam contaminadas com AFB1 com níveis médios de 27,7 μg.kg-1 (Rocha et al. 2009). A presença AFB1 em silagens de milho foi verificada por Amaral (2011) durante período de utilização do silo, na época das águas, sendo detectados até 2,25μg.kg-1 no início do período chuvoso. As micotoxinas, em geral, não são produtos voláteis e permanecem associados à estrutura dos fungos, conídios ou no substrato em que crescem (Fernandes 2004). Estudos diversos têm demonstrado que as aflatoxinas são estáveis e não são destruídas durante a maioria dos procedimentos de processamento de alimentos (Bullerman e Bianchini 2007, Scudamore et al. 2008, Copetti 2009, Alborch et al. 2012). Durante o processo de moagem úmida dos grãos de milho, por sua característica hidrossolúvel, AFB1 foi detectada principalmente na água de maceração (50%), fibra (28%), glútem (11%), germe (11%) e amido (0,2%). Os fungos produzem micotoxinas em circunstâncias específicas e é parte da estratégia do fungo para se proteger das agressões do meio em situações de estresse. As condições mais favoráveis para o desenvolvimento e proliferação fúngica não são as mais favoráveis para a produção de micotoxinas. Assim, mesmo após a morte dos fungos, as micotoxinas permanecem por longos períodos no substrato (Novinsky 2013) e são carreadas para outros ingredientes ou componentes derivados de processamento industrial (Copetti 2009, Leite 2010).

Conclusões

A presença de elevada população de leveduras e fungos filamentosos, elevada atividade de água indicam condição sanitária inadequada da dieta ofertada às vacas em lactação, principalmente nos períodos de maiores precipitações pluviais.

A maioria das fazendas apresentou contagens de UFC/g acima de 105, e a contaminação com AFB1 com elevados teores indicam falhas de manejo e logística de abastecimento e silos e de controle de qualidade dos ingredientes adquiridos e preparados nas fazendas.

Agradecimentos

À FAPESP pelo suporte financeiro (Proc. 2008/05428-0).

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Received: March 20, 2014; Accepted: December 30, 2014

*Autor para correspondência: pozzi@iz.sp.gov.br

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