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Planta Daninha

Print version ISSN 0100-8358On-line version ISSN 1806-9681

Planta daninha vol.20 no.2 Viçosa Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-83582002000200006 

ARTIGOS

 

Interferência da palha de cana-de-açúcar (Saccharum spp.) na emergência de espécies de plantas daninhas da família convolvulaceae

 

Sugar cane (Saccharum spp.) straw interference in emergence of weed species of the convolvulaceae family

 

 

Azania, A.A.P.M.I; Azania, C.A.M.I; Gravena, R.I; Pavani, M.C.M.D.II; Pitelli, R.A.II

IPós-graduandos em Produção Vegetal, FCAV-UNESP, Via de Acesso Paulo D. Castelane, s/n, 14884-900 Jaboticabal-SP
IIProfs. Drs. do Dep. de Biologia Aplicada à Agropecuária da FCAV-UNESP

 

 


RESUMO

Este trabalho foi conduzido na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal-UNESP, com o objetivo de estudar o efeito de diferentes quantidades de palha de cana-de-açúcar deixadas na superfície do solo sobre a emergência de algumas espécies de plantas daninhas pertencentes à família Convolvulaceae. Os tratamentos foram distribuídos no esquema de parcelas subsubdivididas, com a quantidade de palha nas parcelas de 0, 5, 10, 15 e 20 t ha-1, as variedades SP 79 2233 e RB 83 5486 nas subparcelas e as espécies de plantas daninhas nas subsubparcelas. Aos 45 dias após semeadura (DAS), a presença de 15 t ha-1 de palha reduziu em 46 e 62% o número de plantas de I. quamoclit e M. cissoides, respectivamente. Entretanto, a presença de 20 t ha-1 reduziu em 82, 65, 62, 70, 60 e 88% o número de plantas de I. quamoclit, I. purpurea, I. grandifolia, I. hederifolia, I. nil e M. cissoides, respectivamente, quando comparadas à ausência de palha.

Palavras-chave: cobertura morta, Ipomoea spp., Merremia cissoides.


ABSTRACT

This research was conducted at FCAV of Jaboticabal-UNESP-Brazil, aiming to study the effect of different amounts of sugarcane straw placed on the soil surface on emergence of some weed species of the Convolvulaceae family. The experimental design was a split-split-plot with the straw amounts in the plots (0, 5, 10 ,15 and 20 t ha-1), sugarcane cultivars (SP 79 2233 e RB 83 5486) in the split-plots and weeds in the split-split-plots. The presence of 15 t ha-1 of straw reduced in 46 and 62% the number of I. quamoclit and M. cissoides plants, 45 days after sowing (DAS), respectively. However, 20 t ha-1 of straw reduced in 82, 65, 62, 70, 60 and 88% the number of I. quamoclit, I. purpurea, I. grandifolia, I. hederifolia, I. nil, M. cissoides, respectively, when compared to the absence of straw.

Key words: mulching, Ipomoea spp., Merremia cissoides.


 

 

INTRODUÇÃO

A colheita de cana-crua foi implantada no Brasil há menos de duas décadas, para minimizar os problemas que a colheita tradicional com queima causa ao homem e ao meio ambiente. Por se tratar de uma técnica relativamente nova, os produtores ainda não estão totalmente adaptados à nova realidade. Diante dos diversos problemas enfrentados nas áreas colhidas com cana-crua, foram destacados aqueles relacionados às plantas daninhas, que, em algumas áreas, apresentaram mudanças na composição das espécies infestantes, devido à presença da palha da cana-crua.

A composição da flora infestante e a eficiência do controle de plantas daninhas pela cobertura morta devem ser determinadas pela quantidade, composição, periodicidade da produção e tempo de permanência da cobertura morta na área, que são características que dependem do cultivar, clima e manejo da área (Almeida & Rodrigues, 1985).

Teasdale et al. (1991) observaram redução de 78% de algumas espécies de plantas daninhas quando a densidade da cobertura morta foi superior a 300 g m-2 e a porcentagem de recobrimento do solo foi superior a 90%. Os autores afirmaram que a cobertura morta pode ter interferido na qualidade da luz e reduzido a germinação das sementes, além de ter impedido fisicamente a emergência das plântulas.

De acordo com Taylorson & Borthwick (1969) e Fener (1980), a cobertura morta afetou a comunidade infestante não só alterando a quantidade de radiação solar incidente, mas também a qualidade do comprimento das ondas luminosas e a manutenção da temperatura com menores oscilações.

Egley & Duke (1985) mencionaram que a redução da amplitude térmica da superfície do solo pode interferir de modo decisivo na germinação de muitas espécies. A exigência de maior ou menor amplitude térmica do solo constituiu-se no modo mais eficiente de controlar a germinação no solo.

Segundo Pitelli (1995), o efeito físico da cobertura morta também pode reduzir as chances de sobrevivência das plantas daninhas com pouca quantidade de reserva nas sementes, as quais podem não ser suficientes para garantir a sobrevivência da planta no espaço percorrido dentro da cobertura morta, até que tenha acesso à luz e inicie o processo de fotossíntese.

Medina Melendez (1990) observou que a palha de cana-de-açúcar inibiu parcialmente a germinação de sementes de Amaranthus viridis, Galinsoga parviflora, Portulaca oleracea e Lepidium virginicum e totalmente a germinação de sementes de Brachiaria decumbens, Cenchrus echinatus, Ipomoea spp. e Bidens pilosa.

Martins et al. (1999) estudaram os efeitos da cobertura do solo, com quantidades crescentes de palha de cana-de-açúcar até 15 t ha1, sobre a germinação de algumas das principais plantas daninhas da cultura da cana-de-açúcar no Brasil. Dentre as espécies estudadas, constataram que Ipomoea grandifolia somente sofreu redução na germinação na presença de 15 t ha1 de palha, havendo estímulos à germinação nas quantidades de 2 a 10 t ha-1 de palha.

As convolvuláceas, principalmente as pertencentes aos gêneros Ipomoea e Merremia, destacam-se dentre as plantas daninhas que podem causar sérios danos à cultura da cana-de-açúcar, especialmente em áreas de cana-crua. Além de competirem com a planta cultivada, podem interferir nas práticas culturais, especialmente na colheita mecanizada, reduzindo sua eficiência. Dessa forma, devido ao crescente aumento das áreas destinadas à colheita mecanizada da cana-crua, foi conduzido o presente trabalho com o objetivo de estudar o efeito de quantidades crescentes de palha de cana-de-açúcar sobre a emergência de Ipomoea spp. e Merremia cissoides.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal-UNESP, em área experimental pertencente ao Departamento de Biologia Aplicada à Agropecuária, em molduras de alvenaria construídas sobre o solo, com área de 1,44 m2/parcela. O substrato utilizado no preenchimento das molduras foi preparado na proporção 2:1, sendo terra de textura argilosa e torta de filtro, respectivamente.

A partir dos dados obtidos nos testes de germinação (Tabela 1), semeou-se quantidade de sementes necessária para obter no mínimo 25 plantas de Merremia cissoides, Ipomoea quamoclit, Ipomoea purpurea, Ipomoea grandifolia, Ipomoea hederifolia e Ipomoea nil, aproximadamente a 3 cm de profundidade e cobertas com palha dos cultivares SP 792233 e RB 835486, nas densidades de 0, 5, 10, 15 e 20 t ha-1. A partir do lote de sementes de cada espécie, foi conduzido teste de germinação, e as sementes não-germinadas foram cortadas ao meio e submetidas, durante 24 horas, ao teste topográfico de tetrazólio a 0,1%, para determinação do percentual de viabilidade do lote.

A temperatura do solo e a quantidade de água foram monitoradas do início ao final da instalação do experimento, sendo o monitoramento da temperatura em 5 e 10 cm de profundidade e a quantidade de água, através do controle de chuvas e irrigação.

O delineamento experimental utilizado foi em blocos, com cinco tratamentos casualizados e cinco repetições, sendo os tratamentos distribuídos no esquema de parcelas subsubdivididas, com as densidades de palha nas parcelas, a palha dos cultivares nas subparcelas e as espécies de plantas daninhas nas subsubparcelas. As parcelas foram constituídas por 1,44 m2, as subparcelas por 0,72 m2 e as subsubparcelas por 0,12 m2. A análise de variância pelo teste F foi utilizada para avaliar o efeito dos tratamentos sobre as variáveis analisadas; posteriormente, para comparação das médias dos tratamentos, utilizou-se o teste de Tukey a 5% de probabilidade.

Avaliaram-se a emergência das plantas de cada espécie, aos 15, 30 e 45 dias após semeadura (DAS), e a massa seca das plantas, coletadas aos 45 DAS.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO >

Em laboratório, no teste de germinação realizado nos lotes de sementes, constatou-se que as Ipomoea spp. e Merremia cissoides estavam dormentes. Ocorreu que nenhuma espécie apresentou germinação maior que 30% e que a viabilidade das sementes não-germinadas foi de 93% para I. nil, 97% para I. quamoclit e I. purpurea, 98% para M. cissoides e 99% para I. grandifolia e I. hederifolia.

No campo, conforme se pode observar pela Tabela 2, os cultivares RB 835486 e SP 792233 não diferiram estatisticamente; portanto, as diferenças estatísticas observadas para as variáveis avaliadas devem-se principalmente ao aumento das densidades de palha ou a fatores da própria espécie daninha.

Considerando apenas o fator densidade de palha, observa-se que a média do número de plantas daninhas de todas as espécies, para as três épocas avaliadas, diminuiu à medida que se aumentou a densidade de palha. Entretanto, as densidades de 15 e 20 t ha-1 de palha proporcionaram as maiores reduções no número médio de plantas daninhas de todas as espécies, especialmente a densidade de 20 t ha1 de palha, que, unicamente, diferiu estatisticamente de todas as outras densidades quanto ao número médio de plantas daninhas nas três avaliações, e à massa seca aos 45 DAS (Tabela 2).

Portanto, de acordo com a Tabela 2, quando se considera o número médio de plantas daninhas para cada espécie, independentemente da densidade, observa-se que I. hederifolia foi a espécie que mais se desenvolveu, por apresentar o maior número de indivíduos e acúmulo de massa seca, enquanto M. cissoides foi a que menos se desenvolveu, devido ao menor número de indivíduos e acúmulo de massa seca. As plantas daninhas que mais emergiram a camada de palha foram I. hederifolia, I. grandifolia, I. quamoclit, I. nil, M. cissoides e I. purpurea, das quais I. quamoclit, I. nil, M. cissoides e I. purpurea não apresentaram diferenças estatísticas.

As espécies de Ipomoea spp. e M. cissoides nas subsubparcelas diferiram estatisticamente em razão das densidades de palha nas parcelas e não dos diferentes cultivares de cana-de-açúcar utilizados nas subparcelas.

Observa-se pela Tabela 3 que, aos 45 DAS, a presença de 15 t ha-1 de palha reduziu em 46 e 62% o número de plantas de I. quamoclit e M. cissoides, respectivamente. No entanto, a presença de 20 t ha-1 reduziu em 82, 65, 62, 70, 60 e 88% o número de plantas de I. quamoclit, I. purpurea, I. grandifolia, I. hederifolia, I. nil e M. cissoides, respectivamente, quando comparadas à ausência de palha.

Observou-se também, pela Tabela 3, que a densidade de 10 t ha-1 de palha reduziu o número de plantas de I. grandifolia e M. cissoides somente até os 15 DAS, pois ambas as espécies recuperaram-se nas demais avaliações, apresentando somente redução no número de plantas na presença de 20 t ha-1 de palha.

A tendência da camada de palha em reduzir o número de plantas daninhas também foi observada por Teasdale et al. (1991), que conseguiram reduzir em até 78% o número de plantas daninhas com cobertura de palha superior a 3 t ha-1. Martins et al. (1999) também constataram reduções significativas do número de plantas daninhas de Ipomoea grandifolia, D. horizontalis, B. plantaginea e B. decumbens ao utilizarem como densidade máxima 15 t ha1 de palha de cana-de-açúcar.

Os baixos números de plantas daninhas encontrados em áreas cobertas por palha podem estar relacionados com a qualidade do comprimento de luz e a temperatura (Taylorson & Borthwick, 1969; Fener, 1980) ou com o impedimento físico formado pela camada de palha sobre o desenvolvimento dos cotilédones, que não conseguem ultrapassar a barreira da palha e morrem antes de iniciar o processo fotossintético (Pitelli, 1995).

Quanto às oscilações térmicas no solo (Tabela 4), observou-se que a temperatura diminuiu com o aumento das densidades de palha, sendo a máxima redução observada de 13,2 e 6,2%, comparando a ausência e presença de 20 t ha-1 de palha nas profundidades de 5 e 10 cm, respectivamente. Nessa densidade, pode-se deduzir que os baixos números de plantas daninhas sejam também devido à temperatura, pois, segundo Egley & Duke (1985) e Velini & Negrissoli (2000), a amplitude térmica na superfície do solo pode interferir na germinação de muitas espécies.

Portanto, seja por motivo de temperatura ou simplesmente impedimento físico, a densidade de 20 t ha-1 de palha de cana-de-açúcar, em relação à ausência de palha, reduziu em mais de 60% o número de plantas de M. cissoides, Ipomoea quamoclit, I. purpurea, I. grandifolia, I. hederifolia e I. nil.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. José Carlos Barbosa, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal, pela colaboração na análise estatística.

 

LITERATURA CITADA

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Recebido para publicação em 5/3/2002 e na forma revisada em 7/8/2002.

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