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Planta Daninha

Print version ISSN 0100-8358On-line version ISSN 1806-9681

Planta daninha vol.23 no.2 Viçosa Apr./June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-83582005000200024 

NOTAS CIENTÍFICAS

 

Estudo da movimentação de plantas aquáticas imersas presentes no reservatório da UHE Eng. Souza Dias - Jupiá

 

Movement of submerged aquatic weeds in UHE Eng. Souza Dias reservoir - Jupiá, Brazil

 

 

Martins, D.I; Marchi, S.R.II; Costa, N.V.II

IProf. Adjunto do Dep. de Produção Vegetal/Agricultura, FCA/UNESP, Caixa Postal 237, 18603-970 Botucatu-SP
IIEng.-Agr. M.S., Doutorando em Agricultura, Dep. de Produção Vegetal/Agricultura, FCA/UNESP

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi desenvolver um método para determinação de pontos de reprodução e de suas respectivas importâncias na disseminação das espécies E. densa, E. najas e C. demersum no reservatório de Jupiá. Foram monitorados dez locais nos quais se encontrou registro de altas infestações dessas espécies. Dois desses locais situam-se no rio Paraná, nas lagoas denominadas de "Ferradura" e "Pernilongo"; os outros oito sítios estão localizados no rio Tietê, nas lagoas marginais "Testemunha", "Barrenta", "Vírgula" e "Flórida", e no leito do rio nos pontos "Acima da Ponte dos Barrageiros", "Abaixo da Ponte", "Baía ao Lado da Ponte" e em frente da "Praia de Itapura". Em cada um desses sítios de reprodução foram liberados e monitorados dez blocos de plantas aquáticas imersas por mês. Os blocos possuíam volume de 0,14 cm3 e receberam uma etiqueta plástica de identificação externa e uma bóia de cor laranja, com o objetivo de serem facilmente localizadas ou visualizadas à distância. Após a soltura, cada bloco foi georreferenciado por meio de um aparelho GPS, sendo o seu deslocamento avaliado a cada 15 dias. Os sítios "Lagoa Vírgula", "Lagoa Testemunha" e "Lagoa Barrenta" destacaram-se quanto ao número de blocos (30, 20 e 19 blocos, respectivamente), que percorreram distâncias superiores a 500 m e, conseqüentemente, saíram de seus respectivos locais de reprodução. A grande maioria dos blocos permaneceu dentro da "Lagoa Flórida"; somente 12 blocos saíram e alcançaram o leito do rio Tietê. O sítio denominado "Leito Acima da Ponte" foi o que mais se destacou dentre os três localizados no leito do rio Tietê, pois forneceu 18 blocos de plantas, enquanto os sítios "Abaixo da Ponte" e "Baía ao Lado da Ponte" forneceram 15 e 14 blocos, respectivamente. O sítio "Praia de Itapura" foi o que apresentou menor importância em relação ao fornecimento de plantas imersas no rio Tietê, sendo localizadas apenas 11 bóias com deslocamento superior a 500 m. Os sítios de reprodução localizados no rio Paraná também contribuíram para o fornecimento de plantas imersas ao reservatório de Jupiá; nove blocos saíram da "Lagoa Pernilongo" e apresentaram deslocamentos superiores a 500 m. Entretanto, os sítios "Lagoa Barrenta" e "Lagoa Ferradura" foram aqueles que mais contribuíram com a chegada de plantas na tomada de água da UHE Eng. Souza Dias, uma vez que foram recolhidos, respectivamente, seis e quatro blocos de plantas provenientes desses locais de dispersão. A metodologia utilizada mostrou-se eficaz quanto à avaliação da movimentação de plantas aquáticas imersas dentro do reservatório de Jupiá.

Palavras-chave: Egeria densa, Egeria najas, Ceratophyllum demersum, dispersão, planta daninha.


ABSTRACT

The purpose of this research was to develop a methodology to determine reproduction sites and respective importance on dissemination of E. densa, E. najas and C. demersum in the Jupiá Reservoir in Brazil. Ten sites with high incidence of these aquatic plant were monitored. Two sites were located at the Paraná River on "Ferradura"and "Pernilongo" Lakes, called "Testemunha", "Barrenta", "Vírgula" and "Florida", and on bed river points " Leito Acima da ponte", Abaixo da Ponte", " Baia ao lado da Ponte " and Praia de Itapura". Ten blocs of aquatic plants were released per month and monitored in each reproduction site. The blocs had a volume of 0.14 cm3 and had an external plastic label and an orange identification buoy to be easily located and inspected at long distances. After being released, the blocs were geo-referenced and their movements evaluated every fifteen days using a GPS equipment. The places "Vírgula Lake", "Testemunha Lake"and "Barrenta Lake" showed an outstanding number of blocs (30, 20 and 19 blocs, respectively) that moved for distances farther than 500 m and, consequently, left their respective sites of reproduction. Most blocs remained inside the "Flórida Lake" and only 12 blocs reached the bed of the Tietê river. The site "Acima da Ponte" supplied 18 blocs, while "Abaixo da Ponte" and "Baia ao lado da ponte" supplied 15 and 14 blocs on Tietê River, respectively. "Praia de Itapura " was the least important site in terms of supplying immersed plants, with only 11 blocs of plants being observed with movements higher than 500 m. The reproduction sites located at Paraná River also supplied immersed plants to the Jupiá reservoir, with nine blocs of plants from "Pernilongo Lake" showing a movement higher than 500 m. However,"Barrenta Lake" and "Ferradura Lake" were the reproduction sites that contributed the most for the supply of immersed plants at UHE Eng. Souza Dias barrage, since six and four blocs of plants were collected from these dispersing sites, respectively. The methodology used was efficient in evaluating the movement of immersed aquatic plants in the Jupiá Reservoir.

Key words: Egeria densa, Egeria najas, Ceratophyllum demersum, dispersion, weed.


 

 

INTRODUÇÃO

As plantas aquáticas são componentes importantes em corpos hídricos, pois desempenham papel fundamental no estoque de energia e carbono nas bases das pirâmides alimentares, promovem habitats adequados para muitos organismos e servem de suporte à ovoposição e como refúgio de peixes e outros animais (Neves et al., 2002). Contudo, o desenvolvimento excessivo dessas plantas aquáticas tem prejudicado de forma expressiva a utilização desses corpos hídricos quanto à navegação, à geração de energia em usinas hidrelétricas e à captação de água para irrigação e consumo humano e animal (Pitelli, 1998).

O fato de ambientes hídricos tornarem-se infestados por plantas aquáticas é uma indicação de que a água apresenta um problema de difícil solução: a eutrofização (Patton & Starnes, 1970). Por sua vez, a eutrofização tem como origem a intensificação de atividades antrópicas nas bacias hidrográficas, normalmente sem planejamento ou controle, associada ao carregamento de nutrientes para o leito dos rios através do aporte de despejos domésticos, industriais e fertilizantes químicos empregados nos cultivos ao longo de toda a bacia hidrográfica (Valente et al., 1997; Velini, 2000).

Os reservatórios das usinas da CESP vêm apresentando infestações crescentes de plantas aquáticas, com prejuízos à geração de energia elétrica. A situação mais grave ocorre na Usina Hidrelétrica Eng. Souza Dias, que controla o reservatório de Jupiá. Este reservatório foi formado pelo represamento do rio Paraná e situa-se entre os Estados de São Paulo e do Mato Grosso do Sul, possuindo superfície total de 330 km2. Seus principais afluentes são os rios Sucuriú e Tietê. O maior de todos os problemas que ocorrem neste reservatório talvez sejam as infestações pelas espécies submersas Egeria densa, Egeria najas e Ceratophyllum demersum.

Nos períodos chuvosos, notadamente entre janeiro e abril, o aumento da vazão no reservatório provoca a fragmentação e o deslocamento das plantas aquáticas submersas, as quais podem acumular-se nas grades de proteção da tomada d'água das unidades geradoras, provocando o seu entupimento (Marcondes & Tanaka, 1997). A diminuição da captação de água provoca oscilação de potência da turbina, e a maior pressão sobre as grades freqüentemente as deforma ou rompe, tornando inevitável a interrupção do funcionamento da unidade geradora. Nesse momento são acionados os pórticos limpa-grades, com o objetivo de retirar o material acumulado, gerando grande volume de plantas e outros materiais que necessitam ser carregados em caminhões e transportados para áreas de descarte.

Os impactos provocados por plantas aquáticas no reservatório de Jupiá não se restringem apenas àqueles ligados à geração de energia elétrica. Existem também diversos impactos ligados aos múltiplos usos da água, como obstrução de tubulações de recalque de água para irrigação; impossibilidade da prática de pesca e esportes náuticos, com prejuízos à economia dos municípios localizados às margens do reservatório; deslocamento de bóias de sinalização da hidrovia, com conseqüente aumento do risco de acidentes para a navegação; inviabilização de embarcadouros; e impedimento do acesso de animais à água.

No Brasil, o controle de plantas aquáticas submersas tornou-se alvo de estudos intensos nos últimos anos, justamente devido aos prejuízos provocados por esse tipo de vegetação. Dentre os métodos de controle estudados, destacam-se os físicos, através da remoção mecânica; químicos, pela utilização de herbicidas; e biológicos, por meio da ação de agentes fitopatogênicos específicos. Todos esses métodos, independentemente de suas vantagens ou desvantagens, poderiam proporcionar melhores resultados se aplicados isoladamente ou de forma conjugada naqueles locais de maior proliferação e disseminação de plantas.

No entanto, ainda são muito escassos ou inexistentes na literatura trabalhos e metodologias que possam determinar com precisão os locais de origem e disseminação dessas plantas, bem como a importância que cada ponto de origem possui no montante total de plantas imersas que chegam até as grades de proteção das usinas hidrelétricas.

O objetivo deste trabalho foi desenvolver um método de determinação de pontos de origem e de sua importância na disseminação das espécies Egeria densa, Egeria najas e Ceratophyllum demersum no reservatório de Jupiá, assim como avaliar o tempo de deslocamento de massas de plantas submersas desde sua origem até as proximidades da barragem da hidrelétrica.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi conduzido no reservatório da Usina Hidrelétrica Eng. Souza Dias (Jupiá), onde foram monitorados dez sítios com registro de altas infestações de Egeria densa (EGRDE), Egeria najas (EGRNJ) e Ceratophyllum demersum (CERDE). Dois desses sítios localizavam-se no rio Paraná, nas formações fluviais denominadas "Ferradura" e "Pernilongo"; os outros oito pontos foram determinados no rio Tietê, nas lagoas marginais denominadas "Testemunha", "Barrenta", "Vírgula" e "Flórida", e no leito do rio nos pontos "Acima da Ponte dos Barrageiros", "Abaixo da Ponte dos Barrageiros", "Baía ao Lado da Ponte dos Barrageiros" e em frente da "Praia de Itapura".

Em cada um desses sítios de dispersão foram monitorados dez blocos de plantas por mês, sendo sete blocos livres e confeccionados com plantas coletadas e outros três constituídos de um conjunto de plantas pertencentes à própria população no sítio de dispersão e, por isso, considerados como fixos.

Os blocos livres foram confeccionados manualmente, por meio da coleta de plantas diretamente de seus locais de origem, utilizando-se um gadanho de uso agrícola. Os blocos possuíam o volume de 0,14 cm3, representado por uma caixa plástica de 0,69 x 0,52 cm de área basal e 0,39 cm de altura. A caixa plástica recebeu um entrelaçado de cordas de náilon com o objetivo de amarrar as plantas coletadas, sendo posteriormente preenchida com a espécie imersa predominante naquele local de coleta. Os blocos de plantas fixas foram obtidos amarrando-se um aglomerado de plantas imersas diretamente dentro da água, sem que estas sofressem algum tipo de distúrbio quanto à sua estrutura original.

Essa metodologia teve o objetivo de fornecer informações muito próximas ao processo natural do desprendimento de blocos de plantas em seus locais de reprodução, assim como verificar seus deslocamentos dentro do reservatório. Para melhor compreensão dos eventos, três blocos de plantas livres foram soltos exatamente ao lado ou na mesma posição onde foram marcados os três blocos de plantas fixas. Os outros quatro blocos livres, do total de sete, foram liberados em pontos considerados importantes e que poderiam proporcionar deslocamentos consideráveis.

Cada bloco de plantas recebeu uma etiqueta plástica de identificação externa e uma bóia cor laranja, com o objetivo de serem facilmente localizadas ou visualizadas à distância. A bóia, uma garrafa plástica com capacidade de 2,0 litros, também recebeu uma etiqueta plástica de identificação interna, onde estavam inscritos o ponto de origem e a data de soltura do bloco. Esse conjunto de identificação foi amarrado ao bloco de plantas por uma corda de náilon com aproximadamente quatro metros de comprimento.

Devidamente etiquetado, o bloco de plantas era novamente devolvido ao corpo hídrico e o local de soltura demarcado através de aparelho GPS da marca Garmin, modelo eTrex Venture. Esses pontos foram escolhidos aleatoriamente dentro de cada sítio de soltura, e suas localizações também variaram nas diversas datas de soltura previstas no projeto. Os sistemas de identificação e soltura dos blocos livres e fixos podem ser visualizados na Figura 1.

 

 

O monitoramento dos blocos foi realizado a cada quinze dias a partir de suas respectivas datas de soltura, durante os períodos chuvosos do ano. Durante a época seca, referente aos meses de maio, junho, julho, agosto e setembro, esse monitoramento passou a ser realizado mensalmente, em razão do menor fluxo de águas no interior do reservatório.

A importância de cada sítio de dispersão foi determinada avaliando-se a movimentação dos blocos quanto ao sentido de deslocamento (a favor ou contra o sentido de escoamento da água na calha do reservatório) e a distância percorrida a partir de seus respectivos locais de soltura. Como critério de comparação, foram considerados como móveis aqueles blocos que se deslocaram por uma distância superior a 500 metros. Uma outra forma de verificar a importância de cada sítio de dispersão foi por meio da análise dos blocos de plantas que saíram de seus respectivos locais de soltura e chegaram até as grades de proteção da tomada de água da UHE Eng. Souza Dias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No total, foram confeccionados e liberados 1.080 blocos em todo o reservatório de Jupiá, dos quais 621 puderam ser localizados e avaliados quanto aos seus respectivos deslocamentos pelo menos uma vez. Com isso, obtevese uma média geral de recuperação das bóias da ordem de 57,5%, índice este considerado satisfatório, devido à complexidade e originalidade do método utilizado.

Os sítios de reprodução apresentaram resultados diferenciados quanto ao fornecimento de plantas imersas no reservatório de Jupiá, representado pelo deslocamento dos blocos de plantas imersas a partir de seus respectivos locais de soltura. Os sítios "Lagoa Vírgula", "Lagoa Testemunha" e "Lagoa Barrenta" destacaram-se quanto ao número de blocos que percorreram distâncias superiores a 500 m e, conseqüentemente, saíram de seus respectivos sítios de reprodução. A "Lagoa Vírgula" forneceu 30 blocos de plantas, enquanto as lagoas "Testemunha" e "Barrenta" forneceram valores semelhantes: 20 e 19 blocos, respectivamente.

Os deslocamentos verificados nos blocos da "Lagoa Testemunha" sempre foram a favor do sentido de escoamento das águas na calha do rio Tietê, ao passo que nas lagoas "Vírgula" e "Barrenta" foi possível constatar que alguns blocos apresentaram movimentação no sentido contrário ao mencionado. Isso significa dizer que todos os pontos avaliados na "Lagoa Testemunha" podem ser considerados como fornecedores potenciais de plantas imersas no reservatório de Jupiá e que merecem especial atenção quanto ao manejo de controle destas. Já as lagoas "Vírgula" e "Barrenta" apresentaram pontos considerados não importantes para o fornecimento de plantas imersas, os quais poderiam ser desconsiderados quando da aplicação de métodos de manejo. Cabe salientar que, mesmo não sendo pontos importantes para a dispersão de plantas imersas, estes possuem papel importante no fornecimento de plantas para a reinfestação daquelas áreas de risco dentro das lagoas "Vírgula" e "Barrenta" que eventualmente tenham sido manejadas com algum tipo de controle.

Outro fato que merece destaque é o intercâmbio de blocos que ocorreu a partir desses três sítios de reprodução. Encontraram-se vários blocos dentro de outros sítios, especialmente dentro da "Lagoa Flórida" e no leito do rio Tietê. Essa pode ser uma informação de especial importância para os estudos de caracterização das espécies através da anatomia que estão sendo conduzidos pela FCA/UNESP, campus de Botucatu-SP (Costa et al., 2004), e também quanto ao fornecimento de plantas para a reinfestação de áreas manejadas em outros sítios de reprodução, conforme mencionado anteriormente.

Em termos numéricos, pode-se observar que o sítio "Lagoa Flórida" apresentou maior número de bóias que se deslocaram a partir de seus respectivos locais de soltura. No total, foram avaliados 37 blocos, que apresentaram deslocamento superior a 500 m. Entretanto, a grande maioria dos blocos permaneceu dentro do canal localizado abaixo deste sítio de reprodução; somente 12 blocos saíram da "Lagoa Flórida" e alcançaram o leito do rio Tietê.

A saída das bóias do interior do sítio "Lagoa Flórida" esteve condicionada à presença de bancos de areia presentes a jusante dessa formação fluvial. Esses bancos de areia impediam a transposição e passagem dos blocos de plantas nos períodos em que a UHE Eng. Souza Dias operou com níveis inferiores de quotas no reservatório. De forma contrária ao observado em outros sítios de reprodução de plantas, a "Lagoa Flórida" forneceu maior quantidade de plantas no período seco do ano, ou seja, de maio a setembro, devido ao fato de a UHE Eng. Souza Dias ter operado com níveis maiores de quotas de água no reservatório, facilitando assim a saída dos blocos do interior deste sítio.

Desse modo, o manejo de plantas imersas no interior do sítio "Lagoa Flórida" poderá ser adotado com maior intensidade nos períodos em que houver a necessidade de manter quotas mais elevadas de água no reservatório de Jupiá, podendo esta ser uma importante informação quanto à otimização ou logística das atividades a serem realizadas no referido manejo.

Os sítios de reprodução denominados "Acima da Ponte" "Abaixo da Ponte" e "Baía ao Lado da Ponte" apresentaram resultados semelhantes entre si. O sítio de reprodução localizado no "Leito Acima da Ponte" foi o que mais se destacou entre os três, pois forneceu um total de 18 blocos de plantas, enquanto os sítios "Leito abaixo da Ponte" e "Baía ao Lado da Ponte" forneceram 15 e 14 blocos, respectivamente. Estes dois últimos sítios de reprodução, além de forneceram baixa quantidade de blocos, também serviram como ponto de recebimento de plantas de outros sítios de reprodução localizados a montante no rio Tietê, conforme já mencionado.

O sítio de reprodução denominado "Praia de Itapura" apresentou menor importância em relação ao fornecimento de plantas imersas no rio Tietê, sendo localizadas apenas 11 bóias com deslocamento superior a 500 m.

Destacadamente, a maioria dos blocos com deslocamentos consideráveis não ultrapassou a foz do rio Tietê e, conseqüentemente, não alcançou o leito do rio Paraná. Em todas as avaliações sempre foi verificado grande número de blocos localizados na margem oposta à praia de Itapura, entre as coordenadas 22 K 442175 UTM 7718297 e 22 K 446113 UTM 7715206, correspondente a uma faixa de 5,3 km de extensão na margem do rio Tietê (Figura 2). Análises mais detalhadas dessa faixa de ancoramento denotam que neste ponto ocorre aparente diminuição na velocidade de deslocamento das correntes superficiais e maior amplitude na largura do leito do rio Tietê, sendo isso possivelmente uma influência direta do represamento das águas proporcionado pela UHE Eng. Souza Dias. Após percorrerem distâncias consideráveis a partir de seus locais originais, os blocos tenderiam a permanecer estacionados próximos à foz do rio Tietê, e o seu ancoramento nas margens estaria sendo condicionado pelos ventos e pelas ondas formadas nessa região. Este processo relacionado com a dispersão de plantas denomina-se de estocástico, e algumas possibilidades decorrentes dos efeitos de diversos fatores sobre a vegetação aquática são apresentadas por Thomas & Bini (1999) e Thomas (2002).

 

 

Já o trecho do rio localizado "Acima da Ponte dos Barrageiros" apresenta-se mais estreito e com maior velocidade aparente das correntes superficiais, o que facilita a saída dos blocos a partir de seus sítios de reprodução e seu conseqüente deslocamento a longas distâncias, uma vez que não foram localizados blocos ancorados nessa parte do rio Tietê.

Os sítios de reprodução localizados no rio Paraná também contribuíram para o fornecimento de plantas imersas ao reservatório de Jupiá. Nove blocos saíram da "Lagoa Pernilongo" e apresentaram deslocamentos superiores a 500 m. Já a "Lagoa Ferradura" apresentou apenas dois blocos com deslocamentos superiores a 500 m, embora a confecção e soltura dos blocos de plantas não tenham sido executadas durante os meses de junho, julho, agosto, setembro e outubro, devido à ausência total de plantas, o que representou um total de 50 blocos a menos em relação aos outros sítios de origem.

Durante as avaliações também foi possível verificar que a metodologia empregada na soltura de blocos marcados simulou com exatidão o processo natural de desprendimento e movimentação das plantas dentro do reservatório de Jupiá. Vários blocos de plantas fixas foram localizados a distâncias consideráveis a partir de seus respectivos locais de soltura. Alguns blocos marcados lado a lado saíram de seus respectivos locais de origem e foram novamente encontrados lado a lado após percorrerem distâncias consideráveis dentro do reservatório de Jupiá. Além disso, foram encontrados blocos de todas as épocas de solturas, sendo estes localizados após vários dias ainda em perfeito estado de conservação.

Uma outra forma de verificar a importância de cada sítio de reprodução foi através da análise dos blocos de plantas que saíram de seus respectivos locais de soltura e chegaram até as grades de proteção da tomada de água da UHE Eng. Souza Dias. Na Tabela 1 estão relacionados os blocos de plantas, as respectivas coordenadas de soltura, variação de posição, dias após a soltura e unidade geradora (UG) na qual foram recolhidos. Pode-se notar que o sítio de reprodução "Lagoa Barrenta" foi aquele que mais contribuiu com a chegada de blocos de plantas imersas na UHE Eng. Souza Dias, num total de seis blocos. O segundo maior fornecimento de blocos de plantas ficou por conta do sítio "Lagoa Ferradura", com um total de quatro blocos. Novamente, esses números poderiam ser ainda maiores caso a soltura de blocos tivesse sido realizada em todas as datas de soltura.

 

 

Os sítios de reprodução "Lagoa Testemunha", "Lagoa Vírgula" e "Leito Acima da Ponte" apresentaram fornecimentos exatamente iguais: três blocos de plantas cada sítio. Vêm em seguida com menor número de blocos, os sítios "Baía ao Lado da Ponte", "Praia de Itapura" (dois blocos de plantas imersas), "Leito Abaixo da Ponte" e "Lagoa Flórida", com estes dois últimos fornecendo apenas um bloco cada.

Não foi observada a chegada de blocos de plantas imersas provenientes do sítio "Lagoa Pernilongo" nas grades de proteção da UHE Eng. Souza Dias durante todo o período de condução desse projeto, o que significa dizer que este sítio pode apresentar baixa importância quanto ao fornecimento de plantas no reservatório de Jupiá.

Todos esses blocos percorreram distâncias superiores a 25 km em curto espaço de tempo (4 a 20 dias). Os blocos BA004 e PI001 apresentaram o maior período entre a soltura e a chegada até tomada de água, perfazendo todo o percurso em 108 dias. Ambos os blocos são provenientes da primeira época de soltura, realizada em dezembro de 2002.

Juntos, os sítios de reprodução "Lagoa Barrenta", "Lagoa Testemunha" e "Lagoa Vírgula" foram responsáveis por quase 50% da chegada dos blocos de plantas imersas na UHE Eng. Souza Dias, o que confere novamente a esses três sítios grande importância em termos de reprodução e dispersão das espécies E. densa, E. najas e C. demersum no interior do reservatório de Jupiá.

 

LITERATURA CITADA

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Recebido para publicação em 8.1.2005 e na forma revisada em 29.3.2005.

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