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Planta Daninha

Print version ISSN 0100-8358

Planta daninha vol.31 no.1 Viçosa Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-83582013000100015 

ARTIGOS

 

Manejo convencional do solo e semeadura direta com diferentes intervalos de dessecação do milheto sobre o desenvolvimento inicial da soja

 

Effect of conventional tillage and no-tillage with different millet desiccation times on initial soybean development

 

 

Bergamin, A.C.I; Venturoso, L.R.II; Souza, F.R.III; Vitorino, A.C.T.IV

IProfessor do Instituto de Educação, Agricultura e Ambiente, Universidade Federal do Amazonas, UFAM. Rua 29 de Agosto 786, Centro, 69800-000 Humaitá-AM, <andersonbergamin@hotmail.com>
IIProfessor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia,  IFRO, <luckrv@hotmail.com>
IIIProfessor do Centro Universitário da Grande Dourados, UNIGRAN, <fabioagronomo@yahoo.com.br>
IVProfessor Associado, Faculdade de Ciências Agrárias, UFGD. Bolsista do CNPq, <antoniovitorino@ufgd.edu.br>

 

 


RESUMO

O cultivo da soja em semeadura direta tem alavancado o uso do herbicida glyphosate na dessecação de espécies antecessoras. Assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar o preparo convencional do solo e o sistema de semeadura direta com diferentes intervalos de dessecação do milheto no desenvolvimento inicial de soja convencional e transgênica. O estudo foi realizado em campo, em um Latossolo Vermelho Distroférrico muito argiloso. O delineamento experimental utilizado foi de blocos ao acaso, em arranjo fatorial 2 x 3, com quatro repetições. Os fatores foram constituídos por dois cultivares de soja: BRS 240 (convencional) e CD 214 RR (transgênica); e três sistemas de manejo: preparo convencional do solo (CONV), semeadura direta com dessecação imediatamente antes da semeadura (sistema Aplique-Plante – AP) e com dessecação 21 dias antes da semeadura da soja (D21). A cultura do milheto foi dessecada com glyphosate na dose de 960 g i.a. ha 1. O cultivar convencional BRS 240 foi mais vigoroso que o cultivar transgênico CD 214 RR quanto à massa verde de plantas. O sistema de semeadura direta AP influenciou de forma negativa o cultivar BRS 240. Nos dois cultivares avaliados, o sistema de semeadura direta AP proporcionou os menores valores de emergência em campo e estande final de plantas. Os sistemas de manejo com semeadura direta (AP e D21) proporcionam melhor desenvolvimento de raízes e maior quantidade de nódulos, além de não influenciarem os teores de N e Mn das plantas de soja.

Palavras-chave:  glyphosate, comprimento de raiz, nodulação e nutrição mineral.


ABSTRACT

Increase of soybean cultivation under no-tillage has leveraged the use of glyphosate for soil cover crop desiccation. The objective of this work was to evaluate the effect of conventional tillage and no-tillage with different times of millet desiccation on the initial development of two soybean cultivars. The experiment was carried out in field conditions, in very clayed Red Latosol (Rhodic Acrustox). A randomized complete block design was used, in a factorial 2 x 3, with four replicates, consisting of two cultivars, BRS 240 (conventional) and CD 214 RR (GM); and three management systems: conventional tillage (CONV); no-tillage with desiccation immediately before sowing (AP) and desiccation 21 days prior to soybean sowing (D21). The growing millet was desiccated with glyphosate at a dose of 960 g i.a. ha-1. The conventional cultivar BRS 240 showed greater mass of green plants than the cultivar CD 214 RR. No-tillage (AP) negatively influenced BRS 240. In both cultivars, the management system (AP) showed the lowest values   of field emergence and final stand of plants. No tillage (AP and D21) provided better root development and greater number of nodules, not influencing the nitrogen and manganese levels of the soybean plants.

Keywords:  glyphosate, root length, nodulation and mineral nutrition.


 

 

INTRODUÇÃO

A soja é a cultura de maior relevância para a agricultura brasileira e, possivelmente, a que se apresenta de forma mais consolidada nas áreas de cultivo. Essa consolidação no cultivo da soja veio acompanhada pela utilização de diversos sistemas de manejo do solo, como o cultivo mínimo, a semeadura direta e o sistema plantio direto, por serem alternativas ao sistema convencional de preparo do solo.

No sistema convencional, muitos agricultores efetuam o preparo primário do solo com uma gradagem, com o objetivo de incorporar os restos culturais e manter a área com baixa infestação de plantas daninhas. Assim, o solo permanece sem cobertura e, na maioria das vezes, fica completamente exposto, sem vegetação, durante o período da entressafra, o que favorece a ocorrência da erosão e acelera o processo de degradação (Lemos et al., 2003).

Contrapondo ao sistema convencional, que causa mobilização total da camada superficial do solo, desenvolveu-se o sistema de semeadura direta, com mobilização apenas na linha de semeadura, mantendo a superfície coberta pelos restos da cultura anterior, reduzindo a erosão, bem como aumentando o teor de matéria orgânica no solo (De Maria et al., 1999). Para Fidelis et al. (2003), as espécies semeadas para cobertura vegetal e as plantas daninhas são controladas por métodos químicos combinados. A escolha da espécie vegetal de cobertura e a época de dessecação alteram tanto a fertilidade do solo (Calonego et al., 2005) como o desenvolvimento da cultura comercial (Monquero et al., 2010). Para regiões de cerrado, tem-se destacado o milheto como cultura de cobertura do solo, por apresentar, entre outras vantagens, facilidade de semeadura, alta resistência à seca e elevada persistência de seus resíduos sobre o solo (Sodré Filho et al., 2004).

Quanto ao tempo entre a dessecação e a semeadura das culturas, esse intervalo deve ser adequado para reduzir a competição entre elas e evitar efeitos alelopáticos. No entanto, Constantin et al. (2009) afirmam que a principal diferença entre os manejos está na velocidade de dessecação da biomassa. Em sistemas onde as culturas estão sendo instaladas em períodos muito curtos após a operação de dessecação, verificam-se plantas com clorose nas folhas, estiolamento no período inicial e redução do desenvolvimento vegetativo posterior (Constantin et al., 2007, 2009). Oliveira Júnior et al. (2006) e Constantin et al. (2009) verificaram ainda que, em áreas com grande cobertura vegetal do solo, a soja semeada em períodos curtos após a dessecação apresenta redução na produtividade. Por outro lado, Monquero et al. (2010) afirmam que períodos longos podem favorecer o surgimento de rebrotes da cobertura vegetal ou de um novo fluxo de plantas daninhas que irão emergir ao mesmo tempo em que a cultura, o que deve resultar em um controle complementar.

Para Timossi et al. (2005), o manejo da cobertura vegetal realizado sete dias antes da semeadura e com aplicação imediatamente antes da semeadura (sistema Aplique-Plante) interfere na emergência de plântulas e retarda o estabelecimento uniforme da cultura, quando comparado ao sistema convencional e manejo da cobertura 14 dias antes da semeadura. De acordo com Santos et al. (2007a), o intervalo entre o manejo químico da cobertura vegetal e a semeadura da soja deve ser de pelo menos sete dias, pois o manejo químico e a semeadura no mesmo dia, além de afetarem o desenvolvimento da cultura, promovem efeito negativo na atividade de microrganismos do solo e desbalanço no estado nutricional das plantas.

Tem sido observado que o sistema de semeadura direta com menor movimentação do solo e manutenção da cobertura vegetal melhora a dinâmica do solo, favorecendo o sistema produtivo como um todo. Entretanto, a expansão desse sistema, aliada aos avanços biotecnológicos que permitiram a comercialização de cultivares geneticamente modificados, causou o aumento do uso do herbicida glyphosate. Seu uso generalizado pode interferir nos componentes bióticos do ecossistema, como as bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico, que exercem grande influência na nutrição da soja (Malty et al., 2006). King et al. (2001) verificaram, em cultivares de soja RR sob condições de déficit hídrico no solo, que a aplicação de glyphosate em doses elevadas (5,04 a 8,4 kg ha-1) diminuiu o crescimento radicular e a nodulação.

A época adequada de dessecação da espécie de cobertura, com utilização de herbicidas, vem sendo questionada por alguns autores (Constantin et al., 2009; Monquero et al., 2010); além disso, são incipientes os estudos comparando cultivares de soja convencional e transgênica em área com aplicação de glyphosate em pré-semeadura.

Assim, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o preparo convencional do solo e o sistema de semeadura direta com diferentes intervalos de dessecação do milheto no desenvolvimento inicial de soja convencional e transgênica.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em campo, em solo classificado como Latossolo Vermelho Distroférrico muito argiloso. O clima é do tipo Cwa, segundo a classificação de Köppen, caracterizado por verão chuvoso e inverno seco, com precipitação média anual de 1.500 mm e temperatura média anual de 22 oC.

O delineamento experimental utilizado foi de blocos casualizados, em arranjo fatorial 2 x 3, com quatro repetições, totalizando 24 parcelas. Os fatores foram dois cultivares de soja, BRS 240 (convencional) e CD 214 RR (transgênica), e três sistemas de manejo de solo: manejo convencional (CONV), semeadura direta com Aplique-Plante (AP) e semeadura direta com dessecação da cobertura 21 dias antes da semeadura da soja (D21). O manejo convencional do solo consistiu de uma passada de grade pesada e duas de grade niveladora antecedendo a semeadura da soja. As parcelas mediram 4 x 1 m. No sistema de semeadura direta, a cultura antecessora à semeadura da soja foi o milheto (Pennisetum americanum), cultivar BRS 1501, que foi semeado escalonadamente, de forma que apresentasse o mesmo estádio de desenvolvimento na ocasião da dessecação. O manejo da cobertura foi realizado com aplicação de glyphosate na dose de 960 g i.a. ha-1, aos 25 dias após a emergência. Para isso, utilizou-se um pulverizador costal pressurizado por CO2 em pressão constante de 2,0 kgf cm-2, munido de uma barra com quatro bicos tipo leque XR 110-02, espaçados de 0,5 m, com consumo de calda de 200 L ha-1.

Para o tratamento das sementes de soja, utilizou-se o fungicida carboxina + tiram (200 SC) na dose de 250 mL para cada 100 kg de sementes. Também foi aplicado o inoculante turfoso, com população bacteriana do gênero Bradyrhizobium de no mínimo 3,0 x 109 células viáveis por grama. A soja foi semeada em 8 de maio de 2007 em sulcos, com 3 cm de profundidade, feitos manualmente e espaçados de 0,25 m entre eles, com uma densidade de semeadura de 25 sementes por metro linear, totalizando 400 sementes por parcela. As plantas de soja foram coletadas no dia 13 de junho de 2007, quando estavam com 36 dias após a semeadura.

Foram analisadas na cultura da soja: a emergência em campo, por meio da contagem do estande de plântulas normais aos dez dias após a semeadura, conforme prescrições das Regras Brasileiras para Análise de Sementes (Brasil, 1992); o índice de velocidade de emergência, sendo efetuadas contagens diárias a partir da primeira semente germinada até a estabilização, calculada pela fórmula proposta por Maguire (1962); o estande final de plantas, determinado com a contagem direta do total de plantas vivas por parcela; a altura de plantas, medindo a distância do colo ao ápice das plantas; o diâmetro do caule, que foi obtido por meio de medida direta, com auxílio de um paquímetro; e a altura do primeiro par de folhas e a altura de planta, obtidas por medições do colo ao primeiro par de folhas e do colo à primeira folha completamente desenvolvida, respectivamente.

Também foi determinada a massa verde das plantas, por meio do corte rente ao solo das plantas de cada parcela, as quais foram colocadas em sacos plásticos para evitar a perda de umidade e, logo após, pesadas, sendo o peso dividido pelo número de plantas obtidas na parcela, obtendo-se assim o peso médio por planta. O material colhido foi lavado com água destilada, seco em estufa com circulação forçada de ar a 65 oC, até atingir massa constante, sendo em seguida pesado, a fim de determinar a massa seca, e triturado em moinho tipo Willey. A seguir, as amostras do material vegetal seco foram digeridas em solução nítrico-perclórica (HNO3:HClO4) na proporção de 3:1, sendo o teor de Mn determinado em espectrofotômetro de absorção atômica. As amostras do material vegetal seco também foram submetidas à digestão sulfúrica, com posterior determinação do N pelo método Kjeldahl.

Para obtenção dos dados do sistema radicular, foi retirado um bloco de solo com estrutura preservada na linha de cultivo, com 0,25 m de largura, 0,40 m de comprimento e 0,40 m profundidade. Os blocos de solo foram desestruturados com água corrente sobre um jogo de peneiras, a fim de evitar a perda de raízes. Estas foram separadas e, em seguida, realizou-se a contagem do número total de nódulos por sistema radicular. Também foi determinado o comprimento de raiz, que foi obtido por medida direta do ápice da raiz até o colo da planta; posteriormente, as raízes foram levadas à estufa a 65 oC até obtenção de massa constante, para determinação da massa seca de raízes.

Os resultados foram submetidos à análise de variância; quando significativa, foi aplicado o teste de SNK a 5%, para comparação de médias. Para isso, foi utilizado o aplicativo computacional SAEG (Ribeiro Júnior, 2001).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Observou-se interação significativa para o estande final de plantas (Tabela 1), a massa verde da parte aérea (Tabela 2) e a altura do primeiro par de folhas (Tabela 3). Para emergência em campo (Tabela 1), diâmetro do caule (Tabela 3), número de nódulos por planta e massa seca de raiz (Tabela 4), foi observado efeito significativo apenas para o sistema de manejo, enquanto a massa seca da parte aérea foi influenciada apenas pelos cultivares (Tabela 2). O índice de velocidade de emergência (Tabela 1), a altura de planta (Tabela 3), o comprimento de raiz (Tabela 4) e o teor de nitrogênio (N) e manganês (Mn) (Tabela 5) não foram influenciados pelos fatores estudados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quanto à emergência em campo, foi observado que os sistemas de manejo CONV e D21 proporcionaram as maiores porcentagens de emergência de plântulas, em relação ao sistema AP (Tabela 1). Analisando os dados, é possível constatar redução na emergência da soja de 13,5% e 9,62%, comparando os sistemas CONV e D21 com o AP, respectivamente. De acordo com Constantin et al. (2008), no sistema AP, se o produto utilizado não possuir rápida velocidade de dessecação, a presença das plantas ou da palha destas pode dificultar a emergência da cultura. Para Melhorança Filho et al. (2011), a aplicação de glyphosate nas sementes diminuiu a porcentagem de germinação, mesmo em cultivar transgênico.

Pode-se observar que a emergência da soja no sistema AP ocorreu sob biomassa verde do milheto, ao passo que no sistema D21 as plantas de milheto estavam praticamente secas e tombadas na superfície do solo e, no sistema CONV, não havia cobertura vegetal, o que facilitou a emergência da soja, como também relatado por Monquero et al. (2010). Constantin et al. (2009) observaram um período inicial durante a emergência e o crescimento inicial da soja em que os diferentes intervalos de dessecação do milheto antes da semeadura da cultura afetaram de forma distinta a soja: no manejo aos dois e sete dias antes da semeadura da cultura, a emergência da soja foi desuniforme, enquanto no manejo aos 14, 21 e 28 dias antes da semeadura houve melhor emergência da cultura. Para Monquero et al. (2010), no manejo aos 21 e 28 dias antes da semeadura da cultura, toda a biomassa estava completamente tombada sobre a superfície do solo no momento da semeadura, não exercendo nenhum tipo de sombreamento durante a emergência da soja.

Também devem ser levados em consideração fatores como alelopatia e influência do herbicida utilizado. Para Mairesse et al. (2007), muitas substâncias químicas presentes em plantas podem interferir na germinação de sementes e no desenvolvimento de outras plantas, por meio de substâncias alelopáticas que liberam quase sempre no solo. Timossi et al. (2006), trabalhando com dessecação de braquiárias, verificaram que a semeadura de culturas enquanto se está processando a ação do herbicida pode levar à ocorrência de possíveis efeitos alelopáticos e, consequentemente, interferir no crescimento inicial das culturas. O glyphosate apresenta rápida e alta taxa de adsorção aos óxidos de Fe e Al e à matéria orgânica do solo (Prata et al., 2000), sendo a fração disponível no solo rapidamente degradada, apresentando baixa persistência e potencial de lixiviação em ambientes tropicais (Araújo et al., 2003). Caso essas moléculas sejam remobilizadas, podem tornar-se ativas no solo e causar fitointoxicação (Prata et al., 2000). Para Monquero et al. (2004), deve-se levar em consideração que a rizosfera é um importante local onde ocorre a transferência do glyphosate da planta dessecada para a cultura, induzindo desordens, como observado por Constantin et al. (2008), que explicaram o menor desenvolvimento de plantas de milho pela exsudação do herbicida glyphosate de B. decumbens quando partilhavam a mesma zona radicular.

Para o índice de velocidade de emergência, não foi observado efeito significativo em nenhum fator analisado (Tabela 1), mostrando que o sistema AP, mesmo com menor emergência em campo, não alterou a velocidade de emergência dessas plantas. Os resultados de Timossi et al. (2005) apresentaram emergência da soja  mais rápida no sistema convencional e quando se realizou o manejo da cobertura vegetal 14 dias antes da semeadura da cultura, em comparação aos sistemas 0 e 7 dias antes da semeadura.

O estande final de plantas apresentou valores superiores e inferiores aos da emergência em campo (Tabela 1). Os valores superiores devem-se às sementes que emergiram posteriormente aos 10 dias predeterminados, conforme prescrições da RAS (Brasil, 1992); já os valores inferiores foram plântulas que morreram no decorrer da condução do experimento, devido às condições impostas pelo próprio tratamento.  

Observa-se interação significativa entre os fatores, proporcionada pelo estande final do cultivar BRS 240 no sistema AP. Este cultivar foi inferior ao CD 214 RR para o mesmo tipo de sistema de manejo, e, dentro do cultivar, o sistema AP proporcionou o valor mais baixo de estande, quando comparado aos demais manejos. Para Grego & Benez (2003), a dessecação em época inadequada pode causar desuniformidade no estande; para Constantin et al. (2009), o primeiro efeito negativo do manejo AP está na redução do estande da cultura. Monquero et al. (2010), avaliando o efeito de diferentes intervalos de dessecação de espécies de cobertura do solo (Brachiaria ruziziensis, Pennisetum americanum e Brachiaria brizantha) no desenvolvimento inicial da soja, verificaram que o estande da cultura foi maior nas dessecações feitas com glyphosate aos 14, 21 e 28 dias antes da semeadura da cultura, demonstrando que as coberturas ainda não totalmente controladas podem exercer efeito negativo sobre as plantas de soja.

Analisando a acentuada morte de plantas do cultivar convencional BRS 240 no sistema AP em relação aos demais sistemas e ao cultivar transgênico CD 214 RR, fica evidente o efeito deletério causado pelo herbicida no cultivar convencional (Tabela 1). Esse efeito do glyphosate é mais acentuado quanto mais próximo for da aplicação, visto que a degradação do produto no ambiente não é imediata. Para Giesy et al. (2000), a meia-vida do glyphosate (tempo médio necessário para que metade da quantidade aplicada do produto seja degradada) é de 32 dias. Pode-se observar que o cultivar BRS 240, mesmo com emergência em campo de 75,75%, não manteve todas essas plantas até os 36 dias após a semeadura, visto que, subsequentemente, o desenvolvimento de algumas plantas tornou-se insignificante, até parar completamente. Melhorança Filho et al. (2011), avaliando a germinação de cultivares convencional (CD 216) e transgênico (CD 212 RR), quando as sementes foram submetidas à aplicação de glyphosate, verificaram que, mesmo havendo 61% de germinação no cultivar CD 216 pela aplicação do glyphosate, ocorreu também a inibição do desenvolvimento de plântulas normais, o que levou à morte delas.

Na Tabela 2 são apresentados os dados de massa seca e verde da parte aérea de plantas de soja. Para a massa seca da parte aérea, foi encontrado apenas efeito significativo nos cultivares (Tabela 2). Santos et al. (2007a) também não encontraram alterações na massa seca da parte aérea do cultivar CD 219 RR aos 20 dias após a semeadura quando submetido à aplicação de glyphosate (2.880 g ha-1) aos 21, 14 e 7 dias antes da semeadura e no momento desta.

O cultivar BRS 240 foi superior ao CD 214 RR. Foi observada interação significativa para massa verde da parte aérea, indicando superioridade do cultivar BRS 240 quando semeado nos sistemas CONV e D21. Para Monquero et al. (2010), a dessecação de P. americanum aos 14 dias antes da semeadura da soja proporciona maior biomassa da cultura. Entretanto, não foram observados sistemas de manejo que proporcionassem valores de massa verde ou seca da parte aérea diferentes significativamente.

Analisando a altura de plantas, não foi constatado efeito significativo dos tratamentos (Tabela 3). Pode-se observar no sistema AP que o crescimento das plântulas de soja logo após a emergência foi acelerado; as plântulas buscavam uma posição mais elevada no dossel, visto que, nesse sistema, a emergência e o crescimento inicial da cultura foram sob dossel em fase de dessecação e, com isso, sob sombreamento. Constantin et al. (2009) verificaram que aos 14 dias após a semeadura, no manejo AP, ainda há elevado nível de sombreamento, em razão da velocidade de dessecação do glyphosate, com reflexos posteriores no desenvolvimento da cultura. No experimento, aos 36 dias após a semeadura, quando foi realizada a medida da altura, pôde-se observar que as plantas equalizaram sua altura após rápido crescimento inicial, fato citado também por Oliveira Júnior et al. (2006).

Quanto ao diâmetro do caule, pode ser observado efeito significativo dos sistemas de manejo, sendo os menores valores de diâmetro registrados no sistema AP, que foi semelhante ao D21, porém inferior estatisticamente quando comparado ao sistema CONV (Tabela 3). Os menores diâmetros verificados quando os cultivares foram semeados no sistema AP confirmam o efeito de sombreamento proporcionado pelas plantas de milheto na fase inicial da cultura, provocando seu estiolamento. Para Constantin et al. (2008), o estiolamento inicial ocasionado pela emergência da cultura sob a palhada causa gasto energético à planta; com isso, ocorrem menores diâmetros. Oliveira Júnior et al. (2006) relatam que na primeira avaliação de altura de plantas foram observados maiores valores nas parcelas onde foi realizado o sistema AP. Esses autores explicam que esse tipo de manejo só atingiu níveis aceitáveis de dessecação a partir de 11 dias após a semeadura. Esse intervalo propiciou emergência e desenvolvimento inicial da cultura sob dossel em fase de dessecação; assim, a cultura tende a estiolar, tanto pelo sombreamento imposto quanto pela busca de luz.

O cultivar CD 214 no sistema AP apresentou crescimento acelerado das plantas nas primeiras semanas após a semeadura, formando plantas "caneludas", ou seja, caules finos e compridos e maior altura para o aparecimento do primeiro par de folhas (Tabela 3). Esse estiolamento das plantas no sistema AP devido ao sombreamento também foi relatado por Constantin et al. (2009), citando ainda que há redução no desenvolvimento vegetativo posterior, afetando a produtividade final da cultura. No caso das braquiárias, a realização da semeadura da cultura enquanto se está processando a ação herbicida pode levar à ocorrência de possíveis efeitos alelopáticos e, consequentemente, interferir no crescimento inicial das culturas (Timossi et al., 2006).

O comprimento radicular dos cultivares, nos diferentes sistemas de manejo, apresentou valores muito próximos entre si, não proporcionando efeito significativo (Tabela 4). Resultados semelhantes foram encontrados por King et al. (2001) em trabalho com cultivares de soja transgênica, nas dosagens recomendadas em campo. Esses autores verificaram que a aplicação de glyphosate somente em doses elevadas (5,04 a 8,4 kg ha-1) reduziu o crescimento radicular apenas em condições de déficit hídrico no solo.

O comprimento das raízes foi semelhante nos sistemas de manejo estudados, porém verificou-se que a distribuição do sistema radicular nos sistemas AP e D21 foi melhor que no CONV, proporcionando assim maior massa seca de raízes quando semeadas no sistema de semeadura direta (Tabela 4). Corroborando esses resultados, De Maria et al. (1999) constataram maior densidade de raízes no sistema de semeadura direta, comparado ao sistema convencional de preparo do solo com grade pesada na camada de 0,0-0,40 m de profundidade. Constantin et al. (2008), avaliando a interferência de B. decumbens dessecada com doses do herbicida sobre o desenvolvimento inicial do milho (28 dias após a semeadura) semeado após a dessecação, observaram que a massa seca de raízes aumentou até a aplicação de 3,0 kg ha-1 de glyphosate.

Tanto para o comprimento radicular como para a massa seca de raízes, não foram observados efeitos negativos do glyphosate. Malty et al. (2006), mesmo com aplicações crescentes de glyphosate, não verificaram efeito deletério do herbicida sobre a massa seca de plantas. Santos et al. (2007a), avaliando o efeito da dessecação de Brachiaria brizantha com glyphosate aplicado aos 21, 14 e 7 dias antes da semeadura e no momento desta, não observaram reduções na massa seca de raízes de soja quando avaliadas aos 20 dias após a emergência das plantas.

Quanto ao número de nódulos por planta, foi verificado efeito para os sistemas de manejo (Tabela 4), demonstrando que, independentemente da época de dessecação do milheto, os sistemas de manejo AP e D21 foram mais propícios ao desenvolvimento dos nódulos na cultura da soja. É importante salientar que o processo de nodulação é bastante dependente das condições ambientais e, especialmente, das práticas culturais adotadas. Torres et al. (2006) verificaram, na camada de 0-5 cm, amplitudes térmicas bem inferiores na semeadura direta em comparação ao preparo convencional: 4,5 oC e 11 oC, respectivamente. A diferença básica da semeadura direta para a convencional está no não revolvimento do solo e na manutenção da cobertura morta, fatores responsáveis pela redução da oscilação térmica e da evaporação, mantendo maior umidade do solo e disponibilidade de carbono, o que consequentemente aumenta a atividade biológica no solo e, de forma específica, as bactérias fixadoras de nitrogênio. Santos et al. (2007b), avaliando a aplicação de glyphosate (Roundup Ready) sobre a soja transgênica, não verificaram redução no número de nódulos radiculares em comparação com a testemunha sem aplicação. Já King et al. (2001), com soja transgênica, verificaram aumento do número de nódulos, porém redução do peso destes.

No sistema de manejo CONV, mesmo com número de nódulos inferior, o teor de nitrogênio (N) nas plantas não diferiu daquele dos demais tratamentos (Tabela 5). Isso pode estar relacionado à eficiência desses nódulos: mesmo com quantidade menor, o sistema de manejo CONV obteve os mesmos resultados. Como só foi realizada a contagem dos nódulos, os sistemas de manejo em semeadura direta podem ter apresentado eficiência mais baixa quanto à fixação biológica do N, ou alguns nódulos poderiam estar inativos, não havendo por isso efeito significativo. Santos et al. (2007b), avaliando a aplicação de glyphosate (R. Transorb) sobre a soja transgênica, não constataram redução no teor de N presente em folhas de soja coletadas no florescimento, comparado com a testemunha sem aplicação. Monquero et al. (2010), avaliando o efeito de diferentes intervalos de dessecação no teor nutricional da soja, praticamente não encontraram mudanças nos teores de N da soja quando implantada sobre  Brachiaria brizantha dessecada aos 2, 7, 14, 21 e 28 dias antes da semeadura da cultura.

O teor de manganês (Mn) nas plantas de soja não apresentou diferenças significativas nos tratamentos (Tabela 5). Estudando a concentração de micronutrientes nas folhas jovens em soja transgênica, Bott et al. (2008) não encontraram diferenças significativas com a aplicação de glyphosate. Santos et al. (2007b) também não constataram alterações no teor de Mn em folhas de soja transgênica coletadas no florescimento, quando submetida à aplicação de glyphosate. Serra et al. (2011), analisando a nutrição mineral de soja transgênica em função das dosagens de glyphosate, não encontraram alterações na eficiência de absorção, de translocação e de uso de Mn pelas plantas e, ainda, relataram que o teor de Mn não sofre influência direta do glyphosate. Já Cakmak et al. (2009), em soja convencional, observaram que o glifosato interfere na absorção e translocação de Mn.

A avaliação da massa verde de plantas permitiu concluir que o cultivar convencional BRS 240 é mais vigoroso que o cultivar transgênico CD 214 RR, mas apresenta maior sensibilidade ao uso do glyphosate no sistema de manejo AP. Os sistemas de manejo com semeadura direta (AP e D21) proporcionam melhor desenvolvimento de raízes e maior quantidade de nódulos e não influenciam nos teores de N e Mn das plantas de soja. Também se pode observar que, independentemente do cultivar, o sistema de manejo AP proporciona as piores porcentagens de emergência em campo e estande final de plantas, além de causar estiolamento no desenvolvimento inicial da cultura.

 

LITERATURA CITADA

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Recebido para publicação em 30.3.2012 e aprovado em 25.8.2012.

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