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Brazilian Journal of Botany

versão impressa ISSN 0100-8404versão On-line ISSN 1806-9959

Rev. bras. Bot. v.31 n.2 São Paulo abr./jun. 2008

https://doi.org/10.1590/S0100-84042008000200018 

NOTA CIENTÍFICA SCIENTIFIC NOTE

 

O gênero Exserticlava (Fungo Anamorfo - Hyphomycetes) no Brasil

 

The genus Exserticlava (Anamorphic Fungi - Hyphomycetes) from Brazil

 

 

Alisson Cardoso Rodrigues da CruzI; Antonio Hernández GutiérrezII; Luís Fernando Pascholati GusmãoI,1

IUniversidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Ciências Biológicas, Laboratório de Micologia (LAMIC), Caixa Postal 252, 44031-460 Feira de Santana, Bahia, Brasil
IIUniversidade Federal do Pará, Centro de Ciências Biológicas, Departamento de Patologia, Av. Augusto Corrêa 01, 66071-110 Belém, Pará, Brasil

 

 


RESUMO

Exserticlava triseptata (Matsush.) S. Hughes e E. vasiformis (Matsush.) S. Hughes são descritas e ilustradas como novas ocorrências para o Brasil. Comentários e distribuição geográfica também são incluídos.

Palavras-chave: Floresta Amazônica, Hyphomycetes, Mata Atlântica, serapilheira, taxonomia


ABSTRACT

Exserticlava triseptata (Matsush.) S. Hughes and E. vasiformis (Matsush.) S. Hughes, are described and illustrated as new records for Brazil. Comments and geographical distribution are also presented.

Key words: Amazon Forest, Atlantic Forest, Hyphomycetes, leaf litter, taxonomy


 

 

Introdução

Hughes (1978) estabeleceu o gênero Exserticlava propondo a combinação de duas espécies de Cordana Preuss descritas por Matsushima (1975), C. vasiformis Matsush. e C. triseptata Matsush. O gênero Exserticlava S. Hughes é caracterizado pela produção de conídios distoseptados que emergem da parede interna da célula conidiogênica, exposta pelo rompimento da parede externa (Bhat & Sutton 1985). Esse rompimento ocorre com a produção do primeiro conídio, que expõe a zona fértil poliblástica (Tsui et al. 2001).

Atualmente são aceitas seis espécies no gênero: E. globosa Rao & de Hoog que apresenta conídios globosos, uniseptados e verrucosos (Rao & de Hoog 1986); E. keniensis K. M. Tsui, Goh & K. D. Hyde com conídios triseptados e obovóides; E. triseptata (Matsush.) S. Hughes com conídios triseptados e elipsóides; E. uniseptata Bhat & B. Sutton com conídios uniseptados e lisos (Bhat & Sutton 1985); E. vasiformis (Matsush.) S. Hughes com conídios triseptados e elipsóides, apresentando uma extensão hialina da célula conidiogênica, E. yunnanensis L. Cai & K. D. Hyde, com conídios uniseptados bicolores (Cai & Hyde 2007).

O gênero Exserticlava foi encontrado em folhas em decomposição no solo (Castañeda-Ruiz 1985, Wong & Hyde 2001) e restos vegetais submersos (Kuthubutheen & Nawawi 1994, Chang 1995, Tsui et al. 2001, Cai & Hyde 2007), sendo referido como um hifomiceto aquático facultativo (Goh 1997). É encontrado predominantemente na porção mais lignificada da serapilheira, como pecíolos e pequenos gravetos (Kirk 1985, Matsushima 1985, Heredia-Abarca et al. 1997, Mercado-Sierra et al. 1997, Cai & Hyde 2007).

A maioria das espécies do gênero possui uma distribuição restrita, como E. keniensis e E. yunnanensis são conhecidas apenas para as localidades-tipo (Tsui et al. 2001, Cai & Hyde 2007); E. uniseptata está limitada à Etiópia e Taiwan (Chang 1995); E. globosa foi isolada na China, Índia e Taiwan, permanecendo restrita ao sudeste asiático; E. triseptata e E. vasiformis, apresentam-se regularmente distribuídas pelo globo (Heredia-Abarca et al. 1997, Tsui et al. 2001, Heredia-Abarca et al. 2004). Estudos da micobiota dos trópicos, com um maior esforço amostral, poderiam ampliar o panorama atual da distribuição das espécies do gênero.

 

Material e métodos

Os materiais estudados foram coletados na Estação Científica Ferreira Penna (1º42'30" S e 51º31'45" W), localizada na Floresta Nacional de Caxiuanã, município de Melgaço, Pará e no Morro da Pioneira (12º51'13" S e 39º28'33" W), extremo norte da Serra da Jibóia, Município de Santa Terezinha, Bahia.

Dois métodos foram utilizados para obtenção dos fungos anamorfos: a) as amostras coletadas em Caxiuanã foram secas em estufa, congeladas a -20 ºC para eliminar ácaros e insetos e observadas diretamente sob microscópio estereoscópico; b) as amostras da Serra da Jibóia foram acondicionadas em câmaras-úmidas (placa de Petri + papel filtro umedecido), permanecendo à temperatura ambiente (25º-28 ºC) por 30 dias, quando foram isoladas as estruturas reprodutivas dos fungos. Lâminas permanentes foram confeccionadas com resina PVL (álcool polivinílico + lactofenol) (Trappe & Schenck 1982) ou em lactoglicerol.

Para identificação foram realizadas medições das estruturas de importância taxonômica e comparadas com a literatura especializada. As lâminas permanentes e o substrato seco foram depositados no Herbário do Museu Paraense Emílio Goeldi (MG) e no Herbário da Universidade Estadual de Feira de Santana (HUEFS).

 

Resultados e Discussão

Exserticlava triseptata (Matsush.) S. Hughes, N. Z. J. Bot. 16(3): 333. 1978. = Cordana triseptata Matsush., Icones Microfungorum a Matsushima Lectorum: 39. 1975.

Figura 1

Conidióforos macronematosos, mononematosos, solitários, simples, eretos, retos ou às vezes recurvados, especialmente na base, lisos, septados, castanho a castanho-escuros, mais claros no ápice, 133-582 ×8-13 µm, 1-7 septos. Células conidiogênicas terminais, clavadas, contendo uma dilatação apical hialina, 52,5-60 ×22,5-27,5 µm. Células conidiogênicas sustentando os conídios que emergem de seu ápice; parede externa em forma de funil, pigmentada. Conídios acrógenos, obovóides, elipsóides ou subglobosos, 1-3-distoseptados, lúmen celular reduzido, lisos, castanho-claros a castanho-oliváceos, 20-30 ×12-15 µm.

Distribuição geográfica: China, Cuba, Estados Federativos da Micronésia, Japão, Malásia e México.

Material examinado: BRASIL. BAHIA: Santa Terezinha, Serra da Jibóia, Morro da Pioneira, 25-III-2006, sobre serapilheira em decomposição, E. Santos s.n. (HUEFS105773). PARÁ: Melgaço, Caxiuanã, arredores da sede da Estação Científica Ferreira Penna, sobre folhas em decomposição de Astrocarium sp. (Arecaceae), 2-X-2003, A. Hernández 2 (MG).

As características dos espécimes estudados estão de acordo com as descrições consultadas (Matsushima 1975, Hughes 1978, Kuthubutheen & Nawawi 1994, Hernández & Mena 1995, Tsui et al. 2001). No entanto, as medidas do comprimento dos conídios atingiram as menores dimensões já registradas para a espécie (tabela 1). Os espécimes de E. triseptata não mostraram diferenças morfológicas entre si. E. vasiformis e E. keniensis diferem da espécie em questão pela presença da extensão hialina da célula conidiogênica e pelos conídios obovóides, respectivamente (Tsui et al. 2001).

Exserticlava vasiformis (Matsush.) S. Hughes, N. Z. J. Bot. 16(3): 332. 1978. = Cordana vasiformis Matsush., Icones Microfungorum a Matsushima Lectorum: 40. 1975.

Figura 2

Conidióforos solitários, macronematosos, mononematosos, eretos, retos ou levemente flexuosos, 3-8 septos, castanho-escuros, 90-264 ×5-11,5 µm. Células conidiogênicas holoblásticas, poliblásticas, terminais, integradas, em forma de funil, 7,5-17,5 ×7,5-16,5 µm. Extensão hialina 0-8 septada, 28,8-109,5 ×10-24 µm. Conídios subglobosos a elípticos, 0-3-distoseptados, castanho-claros, lisos, 16,5-25,5 ×10-18,3 µm.

Material examinado: BRASIL. BAHIA: Santa Terezinha, Serra da Jibóia, Morro da Pioneira, 27-X-2005, sobre pecíolos em decomposição, A.C.R. Cruz s.n. (HUEFS105735). PARÁ: Melgaço, Caxiuanã, arredores da sede da Estação Científica Ferreira Penna, 2-X-2003, sobre folhas em decomposição de Astrocarium sp. (Arecaceae), A. Hernández 1 (MG).

Distribuição geográfica: África do Sul, Austrália, Brunei, China, Costa Rica, Cuba, Estados Unidos da América, Etiópia, Índia, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Porto Rico, Quênia, Taiwan, antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

As dimensões dos caracteres taxonômicos estão de acordo com as registradas por Matsushima (1975), Hughes (1978), Kuthubutheen & Nawawi (1994), Heredia-Abarca et al. (2004), exceto pelos conídios que são maiores nos espécimes isolados por Chang (1995) e Tsui et al. (2001) (tabela 2). E. keniensis e E. triseptata também exibem conídios 3-distoseptados, entretanto E. vasiformis é a única espécie que apresenta célula conidiogênica com extensão hialina. Os espécimes de E. vasiformis estudados mostraram diferenças morfológicas no que diz respeito aos conídios e às extensões hialinas das células conidiogênicas. Os conídios dos espécimes da Serra da Jibóia são subglobosos à levemente elípticos, enquanto que os encontrados em Caxiuanã são exclusivamente elípticos. As extensões hialinas das células conidiogênicas mostraram diferenças no comprimento e no número de septos. Em ambos os espécimes aqui descritos observaram-se conídios imaturos (0-2 septados) e não apenas conídios 3-septados, um aspecto não destacado nos espécimes descritos por Hughes (1978), Kuthubutheen & Nawawi (1994), Chang (1995) e Tsui et al. (2001).

Agradecimentos - Ao CNPq pela bolsa de Mestrado no programa de Pós-graduação em Botânica/UEFS concedida ao primeiro autor, ao Programa PNOPG/CNPq do Museu Paraense Emílio Goeldi (Processo nº 550885/01-3), e ao auxílio concedido ao terceiro autor através do Edital Universal (Processo nº 471619/04-3).

 

Referências bibliográficas

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(recebido: 20 de dezembro de 2006; aceito: 5 de julho de 2007)

 

 

1 Autor para correspondência: lgusmao@uefs.br

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